Agressividade na infância: causas, prevenção e intervenção

Com alguma frequência ouvimos relatos de crianças que se tornam agressivas, e cada vez mais desde tenra idade, situações que certamente causam preocupação, sobretudo por parte das famílias. Os comportamentos agressivos das crianças podem-se manifestar de várias razões, podem ir desde birras, passando por comportamentos de oposição até à delinquência e violência.

Muitas vezes desenvolvemos teorias relativamente a estes comportamentos: falta de educação, problemas em casa, temperamento, etc. No entanto, as causas da agressividade na infância tende a ser mais complexas do que isso. Neste artigo exploraremos a agressividade na infância, as suas causas e formas de prevenção e intervenção. Boa leitura!

O que se entende por agressividade?

A agressividade pode ser definida como uma sequência de comportamentos que têm como objetivo ou intenção causar dano a alguém.

Podem existir diferentes formas de agressividade. Esta pode ser física, psicológica, social, moral. A agressividade verbal consiste sobretudo no uso de palavras ou expressões verbais insultuosas o que magoam o outro de alguma forma. Já a agressividade física consiste num ataque físico que pode resultar em danos físicos (ex: estalo, murro, pontapé, mordida…). Por outro lado, a agressividade social caracteriza-se por humilhação, exclusão do grupo de pares, espalhar rumores ou boatos…

Além disso, devemos distinguir agressividade de violência. Podemos ser agressivos na forma de agir ou falar, mas não chegarmos a ser violentos.

A agressividade não pode ser vista meramente como um problema isolado, nem tratada como um mero sintoma. É necessário entendê-la na dimensão global da pessoa ou da criança, conhecendo aquele que exerce a agressividade para melhor compreender de onde esta surgiu e porquê.

A agressividade na infância é normal?

A distinção entre o que é ou não normal é sempre complexa e subjetiva, uma vez que dependerá de inúmeras variáveis. Existem certos comportamentos que fazem parte do desenvolvimento da criança e que se poderão inserir no espectro dos comportamentos normais e esperados.

Birras, comportamentos de oposição e desafio, sobretudo entre os 2 e os 5 anos são esperadas e por vezes podem fazer-se acompanhar de alguma agressividade (pontapear, atirar objetos, espernear, entre outros). Estes comportamentos são normais e fazem parte da resposta da criança à frustração, uma vez que esta ainda não possui mecanismos adequados e eficazes para a gestão da frustração e a autorregulação das suas emoções e dos seus comportamentos.

No entanto, quando esta agressividade se torna mais intensa, mais frequente e gera risco para a própria criança ou para outros, então este comportamento já pode ser indicativo de uma perturbação ligada ao comportamento.

Quais as perturbações associadas à agressividade na infância?

Quando a agressividade ultrapassa determinados limites, tal como indicado anteriormente, podemos estar a falar da presença de uma perturbação, nomeadamente perturbação do comportamento. Indicamos, em seguida, algumas das perturbações associadas à agressividade na infância:

Perturbação da conduta

Esta perturbação caracteriza-se por um padrão repetitivo e persistente de comportamentos que violam os direitos individuais dos outros ou as normas e regras sociais próprias da idade. Podem verificar-se a presença de diferentes comportamentos, e para que a perturbação seja diagnosticada estes devem estar presentes nos últimos 12 meses, com a presença de pelo menos um dos comportamentos nos últimos 6 meses:

  • Agressão a pessoas e animais: provocações, ameaças e intimidações; agressão física; utilização de armas ou objetos que podem provocar lesões corporais graves; crueldade física para com pessoas ou animais; roubo ou coação;
  • Destruição de património: provocar incêndios com a intenção de causar danos ou destruir de outra forma património alheio;
  • Fraude ou furto: arrombar casas, prédios ou automóveis; mentir com frequência para obter bens ou favores ou para se esquivar de obrigações legais (por exemplo ludibriar pessoas); roubar objetos; falsificação;
  • Violações graves de regras: contrariar proibições e regras impostas pelos pais (ex: sair à rua à noite, fugir de casa…); faltas à escola.

Quando esta perturbação está presente, devido à gravidade dos comportamentos, existe prejuízo na funcionalidade da criança e nos seus contextos de vida, nomeadamente nas relações sociais e familiares, bem como no contexto escolar.

Perturbação de oposição e desafio

Esta é uma síndrome que, quando ocorre em crianças pequenas, é um importante preditor do comportamento transgressor no futuro, quando jovens. Normalmente esta perturbação manifesta-se antes dos 8 anos de idade e não costuma ocorrer depois do início da adolescência. Ocorre mais frequentemente em rapazes do que raparigas.

A perturbação de oposição e desafio caracteriza-se pela presença, durante pelo menos 6 meses, dos seguintes sintomas e comportamentos:

  • A criança perde muito frequentemente a calma;
  • Discute muitas vezes com os adultos;
  • Recusa-se a obedecer a regras e pedidos dos adultos;
  • Incomoda e arrelia os outros frequentemente;
  • Há uma responsabilização dos outros pelos seus erros ou pelo seu mau comportamento;
  • Irrita-se com muita facilidade;
  • Fica enraivecido e ressentido;
  • Frequentemente fica rancoroso ou vingativo.

De forma simples, este transtorno caracteriza-se por comportamentos de desafio e oposição às regras impostas pelos adultos, e consequente desobediência. Como tal, geram-se frequentemente conflitos com maior ou menor grau de agressividade.

Quais as causas da agressividade na infância?

Existem razões diversas para se verificarem comportamentos de agressividade na infância. Dada a complexidade destes comportamentos, a sua causalidade também é complexa, podendo existir diversas razões que contribuam para o surgimento de comportamentos agressivos na infância. Algumas destas razões podem ser:

  • Dificuldade em estabelecer vínculos afetivos e seguros com as figuras de vinculação (pais ou outros cuidadores);
  • Privação afetiva nos primeiros anos de vida;
  • Dificuldade ou incapacidade dos pais em imporem limites e regras e em estabelecer a disciplina;
  • Observar, aprender e imitar comportamentos agressivos por parte de pessoas que rodeiam a criança;
  • Dificuldade em pensar nas causas e consequências dos comportamentos e não conseguir expressar as suas emoções e pensamentos de forma clara;
  • Sentir que o contexto e as pessoas que a rodeiam não são responsivas o suficiente.

Frequentemente este tipo de comportamentos desenvolvem-se em meios sociais e familiares marcados por conflitos e adversidades. Assim, os sintomas dos problemas comportamentais são muitas vezes precipitados e sustentados por situações difíceis de vida e por dificuldades ao nível dos relacionamentos interpessoais.

No entanto, estas causas não são absolutas nem invariáveis. Ou seja, uma criança pode nascer e crescer neste tipo de contexto e não desenvolver comportamentos agressivos, e outra pode desenvolvê-los apesar de não crescer neste tipo de contexto, devido a outras variáveis. A combinação de atributos e características individuais com os fatores ambientais e contextuais vai incrementar ou reduzir a possibilidade de surgirem na criança problemas de comportamento.

A nível individual, podemos identificar alguns fatores de risco que podem contribuir para o desenvolvimento de agressividade na infância:

  • Temperamento difícil;
  • Dificuldades de autocontrolo;
  • Anormalidades neurológicas;
  • Atraso no desenvolvimento;
  • Capacidade intelectual inferior;
  • Dificuldades na leitura e na escrita;
  • Hiperatividade;
  • Desempenho inferior em testes de memória.

Verificam-se ainda algumas influências genéticas nas perturbações da conduta e do comportamento, ou seja, a agressividade na infância pode ter o contributo de uma herança genética que faz com que exista maior risco de a criança desenvolver problemas deste género.

No que diz respeito aos fatores familiares, a forma como os pais educam os seus filhos e os estilos parentais que adotam têm uma influência significativa no comportamento da criança e na possibilidade de apresentação de agressividade na infância. Alguns dos fatores que têm maior peso são o grau de envolvimento parental, o tipo de disciplina utilizada e as estratégias de resolução de conflitos.

Os fatores de risco neste âmbito são:

  • Formas de diálogo e organização pouco flexíveis;
  • Relacionamentos familiares pouco afetivos;
  • Estilos parentais negligentes ou autoritários;
  • Experiências adversas no seio da família, como por exemplo divórcio ou discórdia parental;
  • Problemas de saúde mental dos pais;
  • Baixo nível socioeconómico da família;
  • Criminalidade no seio da família;
  • Ausência de cuidados institucionais e de recursos comunitários para a família e para a criança.

Também a escola tem um importante papel no desenvolvimento da criança e na mediação dos comportamentos que esta adota. Assim, o ambiente escolar pode ter um papel importante na probabilidade de existir agressividade na infância. O espaço escolar pode tanto ser um lugar de construção e desenvolvimento positivo para a criança como, por outro lado, um espaço de reprodução das dificuldades que a criança já vivencia na família ou na comunidade.

Entre os fatores de risco associados ao contexto escolar destacam-se os seguintes:

  • Escola pouco atenta e responsiva às necessidades da criança;
  • O espaço escolar não promove de forma adequada o desempenho e desenvolvimento da criança;
  • O ambiente escolar é pautado por conflitos frequentes;
  • Pouco envolvimento entre a escola e a família.

Existem outros problemas associados à agressiva na infância?

Muitas vezes (ou na maioria das vezes) uma criança agressiva não é só uma criança agressiva. Também é uma criança ansiosa, assustada ou deprimida. A agressividade na infância faz-se acompanhar, frequentemente, de outras comorbilidades.

É comum que as crianças com problemas de comportamento apresentem sintomas de diferentes transtornos comportamentais, assim como alterações emocionais.

Por exemplo, o transtorno da conduta costuma aparecer associado a transtornos de défice de atenção e hiperatividade. Quando se verifica esta comorbilidade verifica-se uma maior frequência de interações conflituosas com a família, rejeição dos pares ou colegas, problemas escolares, adversidade psicossociais e o prognóstico do tratamento é pior.

Quando a perturbação da conduta ou do comportamento se faz acompanhar também de depressão, há por exemplo um maior risco de suicídio. Por outro lado, quando os problemas apresentados são de ansiedade, os níveis de agressão podem ser menores, mas o sofrimento da criança é exacerbado.

As comorbilidades não se tratam de várias perturbações na mesma criança, mas sim da configuração de um problema multifacetado na criança. Por isso, é fundamental estar atento a todos os sinais e sintomas para que a resposta dada à criança seja mais efetiva.

É importante ainda referir que a agressividade na infância coloca também a criança em maior risco de se envolver e participar em atividades particularmente perigosas.

Quais as consequências da agressividade na infância?

Como vimos, crianças agressivas são muitas vezes crianças com problemas mais profundos e dificuldades acentuadas. Muitas das crianças agressivas sofrem e a sua agressividade é uma externalização de emoções e sentimentos internos.

A agressividade pode trazer dificuldades acentuadas para a criança em termos sociais, não se conseguindo integrar socialmente, algo que se pode perpetuar e até agudizar na adolescência e idade adulta. Uma criança agressiva tem imensa dificuldade em lidar com as dificuldades uma vez que apresenta um baixo limiar de tolerância à frustração, pelo que terá dificuldade em gerir os obstáculos que lhe surjam ou em ser contrariada.

É recorrente que a criança tenha dificuldades no contexto escolar e um baixo rendimento académico, podendo fazer um caminho que culmine na delinquência ao chegar à adolescência. Estas crianças sofrem ainda de uma certa carência afetiva, e os seus comportamentos refletem muitas vezes uma ansiedade mascarada. Obviamente a agressividade na infância contribuirá também para a desorganização e desequilíbrio familiar, quer da família como um todo quer, por exemplo, do relacionamento entre os pais enquanto casal, podendo muitas vezes levar ao divórcio.

Como prevenir a agressividade na infância?

Para prevenir a agressividade na infância, é importante potenciar alguns fatores protetores. Apesar das adversidades, as crianças apresentam potencial de superação e resiliência, que é a capacidade de encontrarem uma forma construtiva para reorganizar a sua vida após um problema e para se acomodarem e reequilibrarem constantemente frente às adversidades.

Quanto mais proteção a criança receber ao longo da sua vida, menor será a probabilidade de surgirem consequências negativas e de surgirem comportamentos de agressividade na infância.

Assim, algumas importantes estratégias para prevenir a agressividade na infância são:

  • Garantir que a criança está inserida numa comunidade inclusiva a diferentes níveis (económico, social e cultural);
  • Proporcionar à criança um ambiente seguro e protegido;
  • Garantir a existência de recursos de apoio para a criança, bem como medidas de controlo e supervisão adequadas;
  • Estabelecimento, no seio familiar, de regras claras e bem definidas, sendo que os pais devem comunicar às crianças quais as regras e normas no contexto familiar e quais as consequências respetivas para a quebra das regras. Colocar limites a uma criança ajuda-a a entender que ela não é o centro do universo e que apesar de ser amada e respeitada, outras pessoas também deverão ser. Assim, ela passa a reconhecer que cada pessoa ocupa o seu lugar;
  • Na fase das birras ensinar a criança a controlar-se e acalmar-se;
  • Reforço positivo dos comportamentos adequados que a criança apresenta (elogiar, recompensar…);
  • Ensinar e ajudar a criança a desenvolver a capacidade de autocontrolo;
  • Dar oportunidade à criança de expressar o que pensa e sente;
  • Ensinar a criança sobre estratégias de resolução de problemas;
  • Não recorrer a castigos físicos e a violência para punir (as crianças aprendem muito por observação e modelagem!);
  • Proporcionar um ambiente familiar afetivo e onde existe carinho;
  • Ensinar a criança a lidar com a raiva e outras emoções negativas de forma positiva e construtiva;
  • Adoção de estratégias e políticas escolares de promoção da cooperação e de combate ao bullying e outros comportamentos negativos;
  • Na escola os professores devem promover o diálogo e valorizar os esforços e conquistas da criança, promovendo também reflexão entre os outros sobre o comportamento e os conflitos.

Como intervir na agressividade na infância?

Quando se verifica agressividade na infância o tratamento atempado é fundamental. As crianças que apresentam um comportamento agressivo ou mesmo algumas das perturbações anteriormente referidas devem ser acompanhadas por psicólogos, para além de muitas vezes ser necessário, simultaneamente, um acompanhamento social e psiquiátrico (no caso de ser necessário tratamento farmacológico).

Ao nível da intervenção psicológica as metodologias de intervenção mais comuns e eficazes são as seguintes:

  • Treino de competências de resolução de problemas: este é um tipo de intervenção que procura ajudar a criança a desenvolver capacidades cognitivas para resolver problemas interpessoais. A forma como a criança pensa (competências cognitivas) está associada a forma como ela percebe, codifica e experiencia o mundo à sua volta. A agressividade não surge apenas pelas circunstâncias do contexto em que a criança se encontra, mas também pela forma como a própria criança percebe essas circunstâncias e acontecimentos. Assim, esta forma de intervenção combina procedimentos de reestruturação cognitiva, prática e simulação de situações para que a criança aprenda e ponha em prática competências de resolução de problemas mais eficazes;
  • Treino parental: o treino parental tem por objetivo ajudar os pais a adquirir estratégias e competências para melhor gerir o comportamento dos seus filhos no contexto familiar. São abordadas formas de interação e estratégias para promover na criança comportamentos pró-sociais;
  • Terapia familiar: na terapia familiar procura-se atender a aspetos cognitivos e comportamentais que são disfuncionais na família. Entende-se neste caso que a agressividade reflete um problema funcional da própria família. Neste sentido, procura-se compreender as dinâmicas familiares, alterando-as de uma forma positiva e saudável, ajudando também a família a criar alternativas para encarar o problema e a construir interações mais saudáveis e construtivas;
  • Terapia multisistémica: esta intervenção parte do princípio que a agressividade da criança emerge do contexto familiar, considerando assim a família um sistema entre muitos outros em que a criança se insere. Por isso, geralmente neste tipo de intervenção também são envolvidos outros sistemas, nomeadamente a escola. Podem ser usadas diferentes técnicas e metodologias, que se dirigem às necessidades da criança e dos sistemas que interferem no seu comportamento;

Independentemente do tipo de intervenção, esta deve estar de acordo com o nível desenvolvimental da criança. Por exemplo, para crianças do pré-escolar o foco será nos cuidados educativos e primários, em intervir sobretudo com os adultos próximos da criança para os ajudar a melhor gerir o comportamento da criança e a promover o seu desenvolvimento e comportamento adequado. Já no caso de crianças mais velhas, há a necessidade de intervir de forma mais direta com a criança com o objetivo de promover as suas competências sociais e de autorregulação.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.