Avaliação psicológica: em que consiste e quando é utilizada?

A avaliação psicológica é um procedimento da competência exclusiva do psicólogo e pode ser aplicada em diversos contextos. Podemos associar a avaliação psicológica ao contexto clínico, em que o psicólogo avalia e elabora um diagnóstico, mas ela pode ser realizada em muitos outros contextos e âmbitos. Neste artigo pretendemos explicar de forma completa o que é a avaliação psicológica, quais as suas aplicações e em que contextos é realizada.

O que é a avaliação psicológica?

A avaliação psicológica é o processo científico de coleta de dados, estudo e interpretação de informações a respeito de dimensões psicológicas dos indivíduos e grupos através de estratégias psicológicas – métodos, técnicas e instrumentos – com objetivos bem definidos, que possa atender a diversas finalidades, visando apoiar tomadas de decisão.

Por outras palavras, a avaliação psicológica consiste em analisar e avaliar dimensões psicológicas individuais ou grupais específicas, com vista a delinear um perfil determinado. O processo de avaliação psicológica corresponde a um processo compreensivo, que é realizado através do recurso a protocolos válidos, atualizados e fundamentados do ponto de vista científico, e deve responder a necessidades objetivas de informação. As hipóteses geradas pela avaliação psicológica podem ser sobre o funcionamento intelectual, características da personalidade, aptidão para desempenhar uma tarefa ou um conjunto de tarefas, entre outras possibilidades.

Após a realização da avaliação psicológica, o psicólogo interpreta os resultados sempre tendo em conta qual é o objetivo da avaliação, as variáveis que os testes e instrumentos implicam, as características da pessoa avaliada e as situações ou contextos que podem interferir com os resultados.

Sempre que alguém é alvo de uma avaliação psicológica, é-lhe explicado pelo psicólogo a natureza e objetivos dessa avaliação, assim como os limites dos instrumentos utilizados, os resultados e a interpretações formuladas. Neste sentido, para a realização da avaliação psicológica é sempre necessário o consentimento prévio da pessoa avaliada.

Importa compreender que a avaliação psicológica é uma área complexa com aplicações em todas as áreas da psicologia. Seja qual for o domínio em que existe a intervenção de um psicólogo, esta nunca deve ser iniciada sem uma avaliação prévia. É necessário avaliar antes de intervir.

Quando é utilizada a avaliação psicológica?

A avaliação psicológica pode ser utilizada em diversos contextos e com diferentes objetivos. Apresentamos alguns exemplos:

  • Avaliação das competências intelectuais ou inteligência – consiste em avaliar as capacidades cognitivas e intelectuais da pessoa, e pode ser feita em diferentes contextos com objetivos distintos. Pode ser feita por exemplo em contexto empresarial como parte de um processo de recrutamento; em contexto escolar com vista a identificar défices e dificuldades específicas em alunos; num processo de intervenção psicológica com vista a identificar dificuldades que possam interferir com a intervenção; num processo judicial em que possa ser necessário atestar as capacidades ou défices da pessoa avaliada;
  • Avaliação da personalidade – pode ser usada por exemplo num processo de recrutamento e seleção, mas também num processo clínico para conhecer melhor dimensões da personalidade da pessoa que ajudam ao estabelecimento de um diagnóstico e ao planeamento da intervenção;
  • Avaliação psicopatológica – consiste em avaliar a presença de psicopatologia e estabelecer um diagnóstico. Pode ser realizada no âmbito de um processo clínico e com vista a uma posterior intervenção, mas também pode ser usado por exemplo no âmbito judicial para provar ou atestar a presença de psicopatologia;
  • Avaliação neuropsicológica – é usada geralmente para avaliar a extensão de um determinado défice numa dada competência ou capacidade e associação com a possível lesão, alteração cerebral ou doença neurológica;
  • Avaliação vocacional – é inserida normalmente em processos de orientação vocacional e tem como objetivo avaliar os interesses vocacionais, aptidões, capacidades, competências com vista a delinear um perfil que possa indicar possíveis percursos vocacionais, académicos ou profissionais adequados para o indivíduo;
  • Avaliação do desenvolvimento da criança – tem por objetivo avaliar os marcos desenvolvimentais da criança, permitindo perceber se a criança possui as competências esperadas para a sua faixa etária ou nível de desenvolvimento ou se existem défices ou capacidades subdesenvolvidas;
  • Avaliação psicopedagógica – permite identificar dificuldades de aprendizagem e, consequentemente, servir de suporte ao planeamento e implementação de medidas de apoio à aprendizagem;
  • Avaliação psicológica de condutores – é usada para renovação de determinados títulos de condução (como por exemplo motoristas de pesados de passageiros, transporte de crianças e em todos os condutores a partir de uma determinada idade) e tem como objetivo formular um parecer sobre a aptidão ou inaptidão da pessoa para o exercício de condução. Sáo avaliadas aptidões psicológicas de natureza percetivo-cognitiva, psicomotora e psicossocial (personalidade, gestão emocional, atitudes e comportamentos) que determinam a capacidade para a condução automóvel.

Que motivos levam à solicitação de uma avaliação psicológica?

A avaliação psicológica pode ser solicitada e desencadeada por diversos motivos:

  • Realizar ou auxiliar no diagnóstico de diferentes patologias;
  • Delinear o perfil de um aluno para ajudar no planeamento de medidas de apoio à aprendizagem;
  • Avaliar a maturidade da criança para ingressar em determinad ciclo de ensino, sobretudo utilizada na transição entre o pré-escolar e o primeiro ciclo;
  • Ajudar no processo de escolha académica ou profissional;
  • Avaliação da capacidade para conduzir;
  • Auxiliar tomadas de decisão legais e/ou judiciais;
  • Auxiliar na seleção dos indivíduos com perfil mais adequado para determinado cargo ou função profissional;
  • Avaliar capacidades psicológicas, por exemplo para juntas médicas ou processos de reforma;
  • Despistar, através da avaliação neuropsicológica, o aparecimento ou desenvolvimento de perturbações do foro neurológico como por exemplo AVCs ou demências.

Quem pode realizar a avaliação psicológica?

A avaliação psicológica é um ato exclusivo dos psicólogos e as técnicas e instrumentos de avaliação psicológica são utilizados por psicólogos qualificados com base em formação atualizada, experiência e treino específicos. Deste modo, os instrumentos de avaliação psicológica só podem ser acedidos por profissionais de psicologia, colocando-se a exceção dos estudantes de psicologia que, no contexto de aprendizagem, podem fazer uso destes instrumentos de uma forma supervisionada.

Um processo de avaliação psicológica obedece a procedimentos específicos que implicam:

  • A competência para escolher instrumentos apropriados ao objetivo da avaliação;
  • Conhecimento e experiência ao nível da aplicação e cotação de instrumentos de avaliação psicológica;
  • Competência para interpretar e integrar os resultados de uma forma útil e compreensiva.

A avaliação psicológica resulta posteriormente na elaboração de um relatório, que é um documento escrito e objetivo, rigoroso e inteligível. No relatório de avaliação psicológica constam informações como quais os instrumentos utilizados, os resultados objetivos da avaliação, a respetiva interpretação e, se aplicável, o prognóstico e um conjunto de sugestões no sentido da promoção do bem-estar da pessoa avaliada.

Os relatórios de avaliação psicológica incluem sempre o nome do psicólogo e número de cédula profissional, podendo também ser utilizada vinheta.

Que técnicas de avaliação psicológica existem?

A avaliação psicológica pode ser realizada com recurso a diferentes técnicas e metodologias, desde testes psicológicos e instrumentos psicométricos à entrevista ou observação. Os instrumentos de avaliação psicológica são aferidos e validados através de um processo de elevada complexidade científica, levado a cabo a partir de protocolos bem estruturados e aplicados através de metodologias adequadas e monitorizadas por investigadores científicos. Explicaremos com maior detalhe em que consistem estes diferentes métodos.

1. Entrevista

A entrevista pode ser feita com diferentes objetivos e consiste num procedimento complexo. Estas podem assumir a forma de:

  • Entrevistas estruturadas: seguem um guião preciso e o entrevistador dispõe de um conjunto de perguntas a realizar. O guião é feito com o objetivo de recolher dados específicos que possam gerar hipóteses diagnósticas;
  • Entrevistas semiestruturadas: têm um guião e um conjunto básico de perguntas, mas o entrevistador não fica totalmente preso a esse guião e, de acordo com as respostas, pode conduzir a entrevista de uma outra forma e inserir novas perguntas para explorar determinadas informações com maior profundidade;
  • Entrevistas não-estruturadas: não têm um guião pré-estabelecido, o entrevistador ouve o entrevistado e, de acordo com a informação dada, vai fazendo mais perguntas ou observações.

As entrevistas realizadas no início de um processo de atendimento psicológico tendem a ser não estruturadas ou semi-estruturadas, ao passo que entrevistas de recrutamento e seleção tendem a ser mais estruturadas.

A entrevista caracteriza-se por uma relação direta entre o psicólogo e a pessoa que está a ser avaliada, na qual se utiliza uma comunicação preferencialmente oral onde a fluidez do discurso e os silêncios são importantes. A entrevista tem objetivos pré-estabelecidos, entre os quais: estabelecer um clima positivo com o entrevistado, que permite que este se sinta mais à vontade para fornecer informação relevante; obter informações sobre a vida do indivíduo e sobre a sua rede de relações, bem como sobre características psicológicas e individuais; selecionar os testes psicológicos a serem aplicados para a realização de um diagnóstico ou avaliação adequados.

Durante a entrevista o psicólogo adota uma postura de escuta atenta, integra a informação e formula hipóteses numa fase posterior, evitando fazer interpretações precipitadas. Na realização da entrevista o psicólogo pode utilizar um guia orientativo da sequência da entrevista. Inicialmente o psicólogo adota uma postura mais diretiva para incentivar a interação, para deixar depois fluir a informação de forma natural e, no fim, regressa a uma atitude mais diretiva para clarificar informação relevante e fazer uma breve síntese do que foi falado.

Geralmente numa entrevista psicológica há algumas áreas importantes a serem exploradas: desenvolvimento e história de vida, história clínica, rede de relacionamentos, situação atual, particularidades biográficas e estratégias de resolução de problemas, interesses e atitudes… As dimensões a serem avaliadas na entrevista também dependerão diretamente do objetivo da avaliação psicológica e do âmbito em que esta está a ser realizada.

2. Testes psicológicos

Os testes psicológicos são instrumentos que avaliam construtos que não podem ser observados diretamente. Por exemplo, não podemos observar diretamente em alguém a inteligência, a ansiedade, a extroversão, entre outros. Quando conhecemos alguém há muito tempo podemos, através da observação do seu comportamento, afirmar que na nossa opinião ela é extrovertida.

No entanto, o psicólogo não tem essa informação e precisa de dados mais precisos e concretos. É esse o objetivo dos testes psicológicos. Consistem, em essência, num procedimento sistemático que pretende recolher amostras de comportamento relevantes para o funcionamento cognitivo, afetivo ou interpessoal e para pontuar e avaliar essas amostrar de acordo com normas. Estas normas dizem respeito, por outras palavras, à comparação em relação à média. Por exemplo, se a pessoa fizer um teste de QI e obtiver um resultado de 100 este resultado, em si, não nos diz nada. É necessário compará-lo com a norma ou a média da população com a mesma idade. Assim, os testes são instrumentos objetivos que fornecem informação preciosa sobre os indivíduos que estão a ser avaliados. Devem, no entanto, ser usados de forma rigorosa e adequada. Os testes psicológicos não são suficientes para produzir um diagnóstico ou interpretação, é necessário contextualizar através da entrevista e da observação do próprio indivíduo.

3. Observação

A observação é também um método de avaliação psicológica que pode gerar muitas informações. De uma forma mais direta ou indireta, a observação está sempre presente nos processos de avaliação psicológica, especialmente se a avaliação é individual. Por exemplo, quando o psicólogo está a entrevistar uma pessoa ou a aplicar-lhe algum teste psicológico, tem de estar atento ao comportamento dela: está a prestar atenção? Mostra-se reticente ou nervosa? Parece estar distante? Mostra-se cabisbaixa e com um ar fechado? Todos estes aspetos serão também fundamentais para os resultados da avaliação psicológica e sua interpretação.

A observação é também usada, por exemplo, em contexto escolar ou no atendimento clínico de crianças, para observar o comportamento das crianças e também as interações entre pais e filhos. Para um diagnóstico de hiperatividade, por exemplo, a observação do comportamento da criança é imprescindível e não pode ser substituída por um instrumento padronizado.

A observação pode ser livre e não tão estruturada, mas também pode ser auxiliada por grelhas e instrumentos semelhantes. Existem protocolos de observação nos quais são indicados aspetos que devem ser observados ou grelhas nas quais o psicólogo deve sinalizar a presença ou ausência de determinados aspetos e comportamentos.

Porque é que a avaliação psicológica é tão importante?

Como vimos anteriormente, a avaliação psicológica pode ser necessária em contextos e âmbitos variados. Não é possível muitas vezes determinar a aptidão de um indivíduo para assumir uma determinada função profissional sem aferir as suas capacidades psicológicas; não é possível adequar a aprendizagem escolar a um aluno sem perceber as suas aptidões e características psicológicas, cognitivas, afetivas.

Na psicologia clínica, não é possível intervir com a pessoa sem perceber primeiro, em profundidade, a problemática. Muitas vezes o paciente não se sente bem mas não sabe, de forma concreta, o que se passa: se será ansiedade, tristeza, depressão ou outro tipo de problema. Assim, a avaliação psicológica irá fornecer medidas concretas das funções psicológicas do paciente de modo a compreender o que de facto está a afetar a pessoa e a eleger a intervenção adequada.

A avaliação psicológica torna possível compreender a estrutura da personalidade e o funcionamento mental da pessoa, tendo em consideração a sua realidade biopsicossocial. Através da avaliação psicológica é possivel aceder à personalidade, às competências cognitivas, aos recursos emocionais e afetivos, e a muitas outras dimensões da psique.

Embora, como vimos, a avaliação psicológica possa ser feita com recurso a diferentes instrumentos e técnicas, ela é sempre centrada na pessoa. Isto é, os testes e instrumentos são apenas ferramentas e formas auxiliares de estabelecer um diagnóstico. Cada indivíduo é único e singular, existindo múltiplos fatores que interferem na sua vida e que não são quantificáveis.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.