Como ajudar as crianças a atravessar uma situação de crise?

Se vivenciar uma situação excecional, em que as nossas capacidades de resolução de problemas não são suficientes para lhe fazer frente (gerando-se, assim, a crise), é difícil para nós, adultos, ainda mais o é para crianças. Situações como acidentes, catástrofes naturais, epidemias, doenças graves e/ou crónicas, morte ou luto, entre outras, são situações excecionais que geram a necessidade de encontrar formas – novas, diferentes – de adaptação.

No caso das crianças, estas possuem menos ferramentas e estratégias para resolver problemas que os adultos. Além disso, dada a sua curta vivência, mais situações são passíveis de serem imprevisíveis e, por isso, geradoras da crise. Assim, torna-se fundamental saber como podemos nós, adultos, auxiliar a criança a gerir uma situação de crise da forma o mais adaptativa possível.

As crianças são assim tão diferentes dos adultos?

Em qualquer circunstância mas, sobretudo, numa situação de crise, é necessário entender que a criança não é um adulto em miniatura. Ela é, em tudo, diferente de um adulto. Pensa de forma diferente, sente de forma diferente, vê a realidade de forma diferente. A sua forma de ler o mundo é mediada por guiões diferentes dos nossos, por experiências distintas e mais escassas. Se nós conhecemos relativamente bem o funcionamento do mundo, a criança é o cientista que está à descoberta.

Por isso, numa situação de crise a compreensão que a criança tem do que se passa é diferente e a sua perceção de impotência, dependência e incapacidade para agir é maior do que num adulto.

Também é preciso pensar que a palavra “criança” é insuficiente para definir a nossa forma de ação. É necessário ter em conta a idade da criança, pois esta será determinante para a forma como ela vai viver e processar a situação que está a viver. Diferenças mínimas, de dois ou três anos em crianças, podem condicionar respostas totalmente diferentes.

Podemos ter em conta alguns marcos desenvolvimentais que nos ajudam a perceber os principais medos das crianças em diferentes idades:

  • 0 a 6 meses: barulho/ruído elevado, mudanças rápidas de posição, aproximações súbitas, perda de suporte físico;
  • 7 aos 12 meses: pessoas estranhas, confronto com objetos ou pessoas não familiares;
  • 1 a 5 anos: pessoas estranhas, tempestades, animais, escuro, separações dos pais, objetos;
  • 6 a 12 anos: seres sobrenaturais, ferimentos, doenças, ladrões, ficar sozinho, falhar, críticas, punições;
  • 13 a 17 anos: testes e exames académicos, desempenho escolar, ferimentos, aparência, escrutínio de pares, desempenho atlético.

Analisando estes marcos desenvolvimentais, é possível perceber que, numa situação em que a criança tem de ficar internada num hospital, para a criança de 5 anos será sobretudo difícil a separação dos pais ou o facto de estar num ambiente estranho, enquanto para o adolescente de 15 será particularmente difícil o afastamento dos pares, a possibilidade de julgamento por parte dos outros ou a alteração do seu aspeto físico.

O que pode dificultar ainda mais a vivência da crise numa criança?

Vivenciar uma situação de crise é, para qualquer criança, difícil. No entanto, existem fatores que podem colocar ainda mais a criança em risco e que é necessário ter em conta:

  • Nível de exposição ao incidente – quanto mais próxima a criança estiver da situação, maior a sua vulnerabilidade. Por exemplo, se morreu uma criança na escola, as crianças que lhe eram mais próximas (colegas de turma, amigos) estarão mais vulneráveis do que os outros colegas da escola.
  • Experiências traumáticas prévias – se, para além da situação que a criança está a vivenciar, esta já tiver passado por experiências traumáticas prévias (maus-tratos, negligência, acidentes, perdas, entre outros), maior será a sua vulnerabilidade e maior terá de ser o nosso nível de proteção.
  • Antecedentes de doença mental ou problemas de desenvolvimento – crianças com patologias psiquiátricas ou com problemas do desenvolvimento poderão ter um risco acrescido na vivência da situação de crise.
  • Isolamento – quanto mais isolada a criança estiver, sem suporte familiar adequado e proteção, maior o nível de risco.
  • Dinâmica familiar e social – uma criança que vive numa família disfuncional, onde existem conflitos muito frequentes e uma fraca comunicação ou afeto, ou então que vive numa comunidade isolada e com poucos apoios, estará também mais vulnerável.
  • Perda ou medo de perder algum ente querido – se associada à situação de crise a criança vive ainda no medo de perder algum ente querido ou passou por uma experiência de luto, maior a sua vulnerabilidade. Por exemplo, se pensarmos numa situação de epidemia, estarão em maior risco as crianças que têm familiares infetados ou cujo risco de infeção é maior.
  • Incompreensão face ao sucedido – isto é, não perceber bem o que aconteceu ou o que está a acontecer.
  • Separação dos pais ou de outras figuras significativas, bem como o facto de estar rodeada de pessoas desconhecidas e ambientes estranhos.

Quais as reações esperadas mediante a idade da criança?

Dependendo da idade da criança, diferentes reações são comuns quando existe a vivência de uma situação excecional e crítica. É necessário entender essas reações como esperadas, e procurar auxiliar a criança a processá-las e geri-las. De salientar ainda que cada criança é única e vivenciará a situação de forma muito particular e individual. Por outro lado, há que ter em conta que a criança é muitas vezes o espelho dos adultos que a rodeiam, pois vê neles um modelo de atuação, pelo que as nossas reações poderão influenciar também a vivência da criança.

  • Até aos 5 anos: ansiedade de separação das figuras parentais; choro e gritos; reações de imobilização ou movimentos lentificados; tremores; assustada; necessidade excessiva de contacto físico com contenção; comportamento regressivo: chuchar no dedo, fazer xixi na cama, medo do escuro. As crianças neste período vêem as suas reações afetadas pelas reações dos adultos que as rodeiam, espelhando a preocupação e intensidade de sintomatologia, assim como a resolução ou minimização.
  • Dos 6 aos 12 anos: afastamento, comportamento disruptivo, comportamento regressivo, terrores noturnos, alterações ciclo do sono, medos irracionais, irritabilidade / reações de luta, recusa escolar, queixas somáticas. Frequentemente a prestação e integração no ambiente escolar também fica afetada. A longo prazo também podem surgir sintomas de depressão, ansiedade, sentimentos de culpa, insensibilidade ou embotamento afetivo.
  • Dos 12 aos 17 anos: flashbacks, pesadelos, embotamento afetivo, evitamentos, depressão, abuso de substâncias, comportamento antissocial, afastamento ou isolamento, baixo rendimento escolar, alterações padrão de sono, confusão. Os adolescentes podem sentir culpa devido ao facto de não terem sido capazes de prevenir os ferimentos ou perdas e poderão construir fantasias de vingança que influenciam diretamente a recuperação e restabelecimento do seu prévio funcionamento adaptativo.

Como ajudar a criança?

O papel do adulto é fundamental na forma como a criança, independentemente da idade, vai reagir à situação que está a viver e de que forma a vai gerir. As crianças são seres dependentes, que dependem de um adulto cuidador com a responsabilidade de garantir a sua segurança e cuidados. Assim, quanto melhor for o papel desse cuidador, maior a probabilidade de a criança vivenciar e gerir a crise de uma forma mais adaptativa.

Proteger e garantir segurança

A primeira, mais básica e fundamental estratégia é garantir a proteção e segurança da criança. Enquanto esta não estiver segura, não será capaz de se reestabelecer e adaptar. Não podemos acalmar ou tranquilizar uma criança que acabou de ver um acidente, se ela ainda está no local do acidente. Assim, proteção e segurança passam por: abrigo e conforto, alimentação adequada, afastar de cenários violentos ou potencialmente traumáticos, ambiente tranquilo, familiar e seguro. Deve tentar garantir-se a proximidade das pessoas significativas para a criança, um ambiente o mais familiar possível, com os seus brinquedos ou objetos diários. Afastá-la de coisas que a possam perturbar – que podem ser pessoas, notícias, entre outras – é também fundamental.

Não mentir

A tendência a mentir à criança para a proteger é natural em qualquer adulto. No entanto, ao contrário do que muitas vezes pensamos, mentir não vai contribuir para a sua proteção, podendo até ter efeitos contraproducentes. Devemos explicar à criança aquilo que está a acontecer e que vai acontecer de forma verdadeira, mas adaptada à sua idade e à sua compreensão. Quando mentimos a criança sente-se insegura, confusa, e não é capaz de processar adequadamente as suas emoções. Para além de não mentir, não oculte. Não guarde segredos das crianças, pois elas pressentem quando as coisas não estão bem. Se não souber diga com sinceridade “eu não sei”.

Explique a situação de forma clara e adaptada à idade

Para conversar com a criança e explicar-lhe a situação, adapte-se a ela, à sua idade e às suas características. Coloque-se ao nível visual da criança (se ela for pequena, ajoelhe-se), toque-a para ela se sentir mais acolhida, e use exemplos que ela conheça bem. Explique várias vezes se for necessário. Além disso, transmita confiança na informação que está a passar à criança.

Depois de lhe explicar o que está a acontecer, pergunte-lhe se ela tem alguma dúvida e se quer fazer alguma pergunta. Mesmo que ela não queira, diga que estará disponível para falar sobre o assunto e responder a perguntas quando ela quiser.

Garanta ainda que a criança recebe a informação por si ou por outros adultos em quem ela confia, e não por outras fontes. Limite a sua exposição a notícias e fontes de informação diversas.

Incentive a criança a expressar-se através do lúdico

As crianças pequenas ainda não dominam o vocabulário da mesma forma que os adultos, e frequentemente não encontram palavras para exprimir o que pensam ou sentem. Por isso, uma boa forma de permitir que a criança se expresse é através de meios lúdicos: brincar, desenhar, etc. Através do desenho poderá compreender melhor como a criança está a processar a situação e, depois, conversando sobre o desenho, pode explorar o que ela pensa e o que está a sentir.

Faça com que a criança sinta que tem um papel ativo

Uma vez mais com o objetivo de proteger a criança, muitas vezes excluímo-la da gestão da situação, falamos como se ela não estivesse presente ou tomamos decisões sem a consultar. Por exemplo, com o objetivo de proteger a criança podemos decidir que ela não vai à escola. No entanto, é fundamental conversar sobre isso com ela, explicar-lhe porque é que estamos a pensar tomar essa decisão e perguntar-lhe o que é que ela pensa sobre isso.

Para que a criança se sinta segura e tenha uma sensação de maior controlo, é fundamental conversar com ela e permitir que ela se sinta incluída na gestão da situação difícil que está a ser vivenciada.

Por exemplo, para uma criança que tenha sido diagnosticada com uma doença crónica, é fundamental que ela sinta que tem um papel importante a combater o “monstro da doença”, e que ela é o herói nessa batalha. Traga o lúdico para a vivência da situação.

Antecipe tudo aquilo que vai acontecer

As crianças não lidam bem com alterações drásticas de rotina e com coisas imprevisíveis. É natural que numa situação de crise coisas imprevisíveis aconteçam a todo o momento. No entanto, tente antecipar o mais possível aquilo que vai acontecer para que a criança se possa preparar. Diga-lhe quando e como vai acontecer, e o que é que ela pode fazer para estar mais preparada.

Mantenha as rotinas

Procure, o mais possível, manter as rotinas da criança. A rotina e a estrutura têm um papel fundamental para a criança, o seu bem-estar e o seu desenvolvimento. Dentro do possível procure manter os seus horários de sono, de alimentação, bem como os períodos para estudar, aprender e brincar. Nunca se esqueça que o brincar é absolutamente imprescindível para uma criança, que é através do brincar que ela organiza o seu mundo interior e que, por isso, os tempos lúdicos devem sempre fazer parte da sua rotina.

Se a criança está fora do seu entorno familiar, tente encontrar brinquedos ou jogos de que ela gosta, bem como algum objeto familiar que ela possa ter consigo.

Não se torne demasiado benevolente e não abandone as regras

É também natural que, numa altura mais crítica, tenhamos tendência a permitir que a criança tenha mais comportamentos desadequados e que sejamos menos firmes na aplicação das regras. No entanto, é importante que encontre um equilíbrio e que as regras que se aplicavam antes, salvo algumas exceções inevitáveis, continuem a existir. Embora não o pareça, desta forma estamos a proteger a criança porque lhe estamos a transmitir uma maior sensação de normalidade e continuidade.

Se de repente já é permitido fazer birras ou dizer palavrões, parece que o “mundo virou ao contrário” e já nada do que conhecíamos é igual.

Não critique nem julgue a criança

Se a criança apresenta comportamentos regressivos (faz xixi na cama, quer usar chupeta outra vez, etc) ou se mostra mais zangada, não a critique e não julgue. Como vimos, isto é uma reação normal face à vivência de uma situação crítica. Opte por conversar com ela, explicar que é normal que ela tenha essas reações, e ajudá-la a encontrar outras formas de conversar sobre o que sente e de se sentir mais segura e confortável.

Ajude a criança a manter hábitos de vida saudáveis

Alimentação equilibrada, horários de sono regulares e exercício físico são fundamentais para o bem-estar físico, mental e emocional da criança. Por isso, procure manter o mais possível estes hábitos. Se possível faça exercício em conjunto com a criança, optem por jogos como a apanhada, em que o exercício físico se junta ao lúdico de uma forma muito mais apelativa para a criança.

Ensine a criança a relaxar

O relaxamento pode ser fundamental para ajudar a criança a gerir as suas emoções e sentir-se melhor. Por isso, pode usar várias estratégias adequadas que ajudam a criança a distrair-se numa situação de maior ansiedade (por exemplo, se tiver que tomar uma injeção) e a relaxar:

  • Contar de zero a dez e de dez a zero.
  • Dizer um trava-línguas.
  • Falar sobre um tema que a criança goste muito.
  • Relaxamento respiratório: ensinar a criança a inspirar pelo nariz e expirar pela boca, várias vezes e de forma lenta. Pode usar algumas estratégias que ajudam em crianças mais pequenas: soprar um balão (realizando o movimento de inspiração e depois de expiração para encher o balão); soprar uma vela na expiração, o mais lentamente possível; num copo com uma palhinha, indicar à criança para fazer ‘bolinhas’.
  • Relaxamento muscular: usar exercícios que ajudam a criança a contrair e descontrair os músculos. O relaxamento vai começar pela cabeça e pelo rosto, depois segue para o pescoço, o tórax, os braços, as pernas e os pés. Durante o exercício, vamos dizendo à criança o músculo ou o conjunto de músculos que ela deve tentar relaxar. Podemos usar imagens que ajudem a criança a realizar o relaxamento. Por exemplo, para as mãos: “aperta com força os punhos como se estivesses a espremer um limão muito duro; agora larga o limão e relaxa a mão”.
  • Visualização de imagens agradáveis: se há uma coisa em que as crianças são especialistas é a imaginação. Por isso, uma boa forma de a criança relaxar é usar a sua imaginação. Para isso, podemos pedir à criança que se deite de forma confortável e se concentre na sua respiração durante alguns minutos. Depois, pede-se que ela se foque naquilo que nós vamos descrever. Pedimos que ela imagine um cenário bonito e tranquilo, como uma praia ou um campo, e que visualize o maior número de pormenores possível (cores, cheiros, movimentos, sons, etc) e que vá descrevendo depois aquilo que vê.
  • Exercícios de mindfulness e foco no presente – pode consultar alguns destes exercícios aqui.

Para cuidar bem da criança, precisa de cuidar primeiro de si

Por último, na tentativa de proteger a criança e colocá-la no topo das prioridades, não se esqueça de si mesmo. Precisamos de ser cuidados antes de podermos cuidar de alguém. Num momento sensível e difícil as suas emoções também serão dolorosas e também precisa de tempo para processá-las. Ouça-se a si próprio e pense no que é importante para se sentir bem. Se precisar de tirar um tempo para si, peça ajuda e verifique se alguém pode assegurar os cuidados das crianças.

Não se preocupe se tiver de chorar ou mostrar as emoções à frente da criança. Isso vai ajudá-la a perceber que os adultos também choram e que está tudo bem em mostrar aquilo que sentimos, permitindo que ela também se sinta à vontade para mostrar o que está a sentir.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.

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