Como escolher um curso ou uma área profissional?

8 horas por dia. É o tempo que passamos a trabalhar, significando assim que é no trabalho que passamos a maior parte do nosso tempo. Se fazemos algo que nos faz infelizes, são 8 horas por dia de infelicidade. A viver à espera do fim-de-semana. Por isso, tomar a decisão do percurso profissional que queremos seguir é das decisões mais importantes da nossa vida.

Saber para onde ir

“Se não sabes para onde queres ir, qualquer caminho serve”, é uma frase icónica da Alice no País das Maravilhas. E também uma grande verdade. Só faz sentido caminhar quando temos um objetivo de percurso, e só faz sentido elegermos uma área profissional quando a essa decisão se antecede um processo de reflexão e autodescoberta.

A autodescoberta e reflexão sobre quem somos e para onde queremos ir dá trabalho. Mas é a forma de delinearmos um projeto de vida e um projeto profissional que seja realmente nosso e no qual nos possamos sentir realizados. Frequentemente permitimos que o nosso percurso formativo e profissional se faça em piloto automático: acabar a escola, tirar um curso mais ou menos ao acaso, encontrar um estágio, encontrar um emprego na área… Sem nunca pararmos para pensar se é realmente aquilo que queremos, qual o nosso projeto.

Quando pensamos na frase “se eu pudesse escolher…” devemos ganhar consciência de que realmente o podemos fazer.

Desconstruir mitos

Antes de toda e qualquer decisão, seja a escolha de um curso ou de uma carreira profissional – é importante desconstruirmos alguns mitos que nos fomos habituando a acreditar.

Após o secundário devo saber o que quero fazer

O término do ensino secundário não é necessariamente sinónimo do momento de uma escolha para a vida. Nem todas as pessoas têm de ter uma ideia definida nesta fase da vida, sobretudo porque, frequentemente, o sistema de ensino também não favorece a reflexão interior e a elaboração de um projeto futuro ao longo do percurso escolar.

A verdade é que o projeto de orientação vocacional e profissional deve ser feito ao longo de toda a vida. Desde o momento em que somos crianças e decidimos se preferimos brincar com o carro de bombeiros ou com o kit de pinturas. Em que preferimos ciências em vez de português. E, se temos 18 anos e não sabemos o que queremos fazer, tudo bem.

É porque o processo de reflexão e elaboração ainda se encontra em curso. Vale a pena relembrar que algumas das pessoas mais bem-sucedidas do mundo apenas enveredaram pela área profissional que lhes deu sucesso na segunda metade da vida: Stan Lee fez a sua primeira banda desenhada aos 39 anos, Vera Wang entrou no mundo da moda aos 40, John Pemberton fundou a Coca-Cola aos 55 anos.

O melhor é ir para a faculdade

Ir para o ensino superior é uma escolha, tão legítima como encontrar um trabalho, tirar um curso profissional, iniciar um negócio, viajar… Não é uma escolha mais legítima ou que proporciona mais oportunidades de trabalho ou melhores rendimentos. Bill Gates abandonou os estudos e decidiu fundar a Microsoft, Oprah Winfrey e Ellen DeGeneres alcançaram a fama e o sucesso sem curso superior concluído.

A empregabilidade é o mais importante

A empregabilidade é, indubitavelmente, um fator importante e a ponderar. No entanto, não deverá ser o mais importante. Um engenheiro que não gosta do que faz ou não sabe fazê-lo bem, não terá muitas oportunidades de emprego, ainda que o mercado seja favorável à sua área profissional. Adicionalmente, é necessário ter em conta que os dados e estatísticas relativos à empregabilidade, para além de não serem 100% fiáveis, são altamente variáveis em espaço e tempo.

O salário é muito importante

Obviamente que o rendimento que obtemos do nosso trabalho é fundamental. No entanto, a sua importância é uma medida subjetiva que dependerá dos objetivos e motivações de cada um. Além disso, rendimento e progressão são proporcionais, e a progressão só acontece quando há motivação. Numa profissão com um salário inicial baixo mas na qual investimos bastante, a hipótese de progredir é muito maior.

A orientação vocacional só faz sentido nos jovens

A orientação vocacional ou profissional não é a escolha de um curso, é a elaboração de um projeto profissional. E esse projeto deve ser elaborado e modificado ao longo de toda a vida. Não somos sempre nem para sempre a mesma pessoa, e a realidade de uma carreira para toda a vida, na área em que nos formamos, na mesma empresa, já não se adapta ao mercado laboral atual.

Só há uma profissão certa para cada pessoa

Se antigamente este mito podia ser uma verdade, já não o é hoje em dia. Estudos preveem que os jovens da Geração Y poderão passar por 14 ocupações diferentes até ao fim da carreira. Mais do que profissões devemos focar-nos em competências que somos capazes de usar: se preferimos movimentar-nos em ambientes mais lógicos, que podem incluir profissões nas áreas da matemática, estatística, economia. Ou se, por outro lado, nos sentimos mais confortáveis em contextos mais subjetivos e com maior componente humana e interativa.

Conhece-te a ti mesmo

O primeiro passo para a decisão de eleger uma área formativa ou profissional é o autoconhecimento: quem sou? De que coisas gosto? Quais são os meus interesses? Quais são os meus objetivos?

Frequentemente não investimos o suficiente neste processo de autoconhecimento porque vivemos em piloto automático, seguindo a trilha pré-definida sem nunca questionar se metemos por algum atalho. Então, vale a pena investir no processo de autoconhecimento, através de algumas estratégias:

  • Reflete acerca das tuas paixões e interesses: o que é que realmente gosto de fazer? Quando me sinto feliz, que tipo de atividades estou a realizar? Em que contextos, sítios e com que tipo de pessoas mais gosto de estar? Se o dinheiro não fosse importante, o que escolheria fazer para o resto da minha vida?
  • Reflete acerca dos teus objetivos e da tua missão: o que pretendo dar ao mundo? Que contribuições gostaria de fazer para a sociedade? Qual sinto ser a minha missão e o meu principal objetivo?
  • Explora as tuas competências e capacidades: o que sei fazer bem? Quais são os meus pontos fortes? O que é que costumam dizer que faço bem? Para analisarmos e definirmos as nossas competências é fundamental ter em conta não apenas aquelas que adquirimos formalmente, ou seja, por via da aprendizagem (escola, cursos, workshops, etc), mas também aquilo que adquirimos de forma informal: na nossa vida pessoal, em hobbies, na família, etc. Por exemplo, uma pessoa que gosta de viajar e viaja com frequência desenvolve competências tais como a capacidade de adaptação, competências de comunicação e relacionamento interpessoal, capacidade de resolução de problemas, conhecimento de diferentes culturas… Alguém que pratica desporto desenvolverá competências como a resiliência, resistência à frustração, capacidade para trabalhar em equipa, relacionamento cooperativo…

Também é fundamental conhecermos as nossas preferências em termos de contexto laboral: que tipo de horários prefiro? Que aspetos não suporto no ambiente de trabalho? Quero trabalhar em equipa ou de forma individual? Que rendimento quero auferir e qual a importância desse fator para mim? Lido bem com a pressão e com o trabalho por objetivos? Gosto de tarefas repetitivas ou tenho de ter desafios para me sentir motivado?

Neste processo de autoconhecimento pode ser fundamental e benéfico recorrer ao auxílio de um Psicólogo para iniciar um processo de orientação vocacional. Este pode ser fundamental no processo de reflexão e elaboração de um projeto profissional, ou até numa fase de mudança ou reconversão de carreira. Para além da reflexão conjunta, pode disponibilizar diferentes instrumentos como testes psicotécnicos, inventários de personalidade, entre outros.

Experimenta

É frequente dizer-se que não sabemos aquilo de que gostamos até experimentarmos. Fazer é saber, e experiência é conhecimento. Para realmente definirmos o nosso perfil e elaborarmos uma escolha profissional é necessário termos contacto com a realidade, e podemos fazê-lo das mais diversas formas:

  • Voluntariado: existem inúmeras associações e áreas nas quais é possível fazer voluntariado, sendo uma excelente forma de, ao mesmo tempo que contribuímos e ajudamos os outros, experimentamos e desafiamo-nos a nós próprios em diferentes áreas e contextos.
  • Universidade Júnior ou atividades promovidas por instituições de ensino superior;
  • Empregos de verão;
  • Estágios;
  • Atividades extracurriculares;
  • Cursos, workshops, formações.

Desafia-te a errar

Pode ser difícil descobrirmos a nossa vocação ou definirmos uma escolha vocacional quando não saímos da nossa zona de conforto. Devemos desafiar-nos a fazer coisas que se encontram entre aquilo que sabemos fazer e aquilo que ainda não sabemos mas somos capazes de aprender. Quando nos envolvemos em desafios, desenvolvemos novas habilidades e competências, para além de testarmos os nossos limites e nos ficarmos a conhecer melhor a nós próprios.

Neste processo de abraçar o desafio e sair da zona de conforto o erro é fundamental. As principais descobertas fazem-se errando: descobri que não gosto disto porque experimentei e tive uma má experiência; descobri que não tenho perfil para fazer estas tarefas; etc. É preciso entender o erro como uma necessidade fundamental para a descoberta.

Informa-te sobre o mercado

É fundamental estarmos informados acerca do mercado laboral, das áreas profissionais ou cursos do nosso interesse, colocando algumas questões: quais são as necessidades existentes nesta área profissional? Existe espaço para a inovação? Qual a realidade em termos de oferta e procura?

Na procura de informação existem diversas entidades que poderão ser de grande utilidade:

  • Cidade das Profissões;
  • Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP);
  • Direção Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT);
  • Direção Geral do Ensino Superior (DGES);
  • Serviços de Orientação Vocacional.

Dentro das respetivas áreas de interesse, é importante obter um conhecimento prático daquilo que, de facto, é a realidade e o quotidiano do trabalho. Quer ir para Direito porque o atrai o estudo da legislação, mas sabe realmente como é o dia-a-dia de um advogado? Para obter este conhecimento prático é importante estabelecer contactos e conversar com profissionais da área, para que lhe possam fornecer um insight útil.

Adicionalmente, é também importante conhecer vários caminhos e não apenas um. Cada área profissional pode proporcionar diferentes saídas em termos de trabalho e percurso de carreira. Por exemplo, alguém com curso de Direito poderá ser advogado mas também pode trabalhar como jurista, consultor, entre outras.

Constrói um balanço de competências

Após a definição do objetivo ou área de interesse, é importante realizar um balanço de competências, que consiste na comparação entre as competências detidas no momento atual, e aquelas que serão necessárias ter para alcançar o objetivo esperado. Para realizar o balanço de competências é necessário seguir as seguintes etapas:

  • Definir os objetivos a alcançar: por que área profissional quero enveredar? Por que razão me interesso por essa área? O que pretendo atingir dentro desta área profissional?
  • Perceber que competências e conhecimentos são necessários para chegar ao resultado final: o que é valorizado num profissional desta área? Que tipo de qualificações são exigidas? É necessário realizar alguma formação ou tirar um curso superior? Se sim, quais os requisitos de entrada? Procure informação junto de fontes fidedignas como estudos realizados por consultoras especialistas, conversas com profissionais, entre outras que tenha à disposição!
  • Focar-se nas suas experiências e percurso: listar todas as experiências profissionais, projetos, atividades, hobbies, formações e outros contextos através dos quais adquirimos determinadas competências e potencialidades;
  • Identificar todas as competências e aprendizagens adquiridas: através do percurso traçado acima, é importante identificar todas as competências e aprendizagens, quer formais quer informais, que possui;
  • Comparação entre as competências que tem e aquelas que precisa de desenvolver para alcançar o objetivo: a partir daqui deverá traçar um plano realista e exequível que lhe permita chegar à meta que definiu.

Por fim, o que resta é manter-se fiel ao seu objetivo e não desistir, sabendo que todas as conquistas começam com a decisão de tentar! Boas escolhas!

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.

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