Como responder à questão “está a planear ter filhos?”

Perguntas como “está a planear ter filhos”, “tem filhos?” ou “pensa engravidar num futuro próximo” não são questões colocadas ao acaso. Através destas, o recrutador pretende saber a disponibilidade das candidatas e os possíveis “imprevistos” que possam surgir e que requeiram ausências ou atrasos.  

Se se estiver a questionar quanto à relevância destas questões para o seu trabalho propriamente dito, nós damos a resposta: não têm qualquer relevância, e pior ainda, estas perguntas podem levar a situações de discriminação laboral, o que é ilegal. Portanto, tem todo o direito em sentir-se desconfortável e de questionar as intenções do recrutador perante este cenário de entrevista.

É completamente inaceitável continuar a perpetuar a ideia de que após serem mães, as mulheres deixam o foco do trabalho de lado, tornando-se menos produtivas e mais ausentes. Essa não passa de uma ideia retrógrada e ainda assente nos valores e crenças do século passado. Se tiver filhos ou estiver a planear ter, conheça os seus direitos e saiba como lidar com este tipo de questões… nós ajudamos!

O que diz a legislação?

O Código de Trabalho, consagra o direito à igualdade no acesso a emprego e no trabalho, estabelecendo que “o trabalhador ou candidato a emprego tem direito a igualdade de oportunidades e de tratamento no que se refere ao acesso ao emprego, à formação e promoção ou carreira profissionais e às condições de trabalho, não podendo ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão, nomeadamente, de (…) situação familiar (…), devendo o Estado promover a igualdade de acesso a tais direitos.” A violação deste direito é considerada uma contraordenação muito grave.

Quer isto dizer que as candidatas a um emprego, independentemente de terem filhos ou de estarem a pensar ter, não podem ser discriminadas e sujeitas a condições desiguais em função da sua situação familiar presente ou futura e devem por isso estar sujeitas condições iguais às dos restantes candidatos.

Como responder à questão?

Agora que apresentámos os direitos que pode e deve usufruir, é importante passar à fase de preparação da resposta, tendo sempre em conta os direitos referidos no Código de Trabalho acima mencionado.

Cenário #1: Não responder à pergunta

Em primeiro lugar, é importante esclarecer que não tem de responder a esta pergunta. Além de não estar relacionada com as suas competências profissionais, trata-se de uma “invasão da sua esfera pessoal” e até mesmo uma falta de respeito e de consideração pela profissional que é.

Imagine este cenário: tem um currículo invejado, mais de 10 anos de experiência na área, trabalhou em empresas de renome e atingiu todos os objetivos ao longo dos anos de trabalho… e mesmo assim, o recrutador ignora tudo isto, perguntando-lhe se tem ou se quer ter filhos.

Não ficaria irritada? Desiludida? Chateada? Se a resposta é sim, então acredite que é perfeitamente normal. Pode simplesmente optar por não responder, justificando a sua decisão com base no facto de que essa questão nada tem a ver com o trabalho propriamente dito, nem com as suas competências profissionais.

Cenário #2: Responder diretamente à questão

Se não vir que há problema (isto é, que é uma pergunta de mera circunstância) e se sentir confortável com o tema, pode ser honesta e partilhar um pouco sobre a sua vida pessoal. Se não tiver filhos nem estiver a pensar ter, certamente não terá de se preocupar com esta questão.

Por outro lado, se disser que já é mãe ou que está a planear ser, certifique-se de que realça o facto de essa parte da sua vida, por ser pertencente à esfera pessoal, não irá impactar o seu trabalho.

Cenário #3: Colocar a relevância da questão em causa

Apesar de não parecer, a entrevista de emprego serve para ambos os lados colocarem perguntas, portanto, se assim o entender, pergunte diretamente ao recrutador quais são as razões por trás da questão colocada. Este cenário não tem de ser visto como uma afronta ou procura de conflito. Aliás, se quiser responder à pergunta, é importante saber o que o recrutador realmente procura saber.

Pergunte educadamente qual a relevância da questão. Se a resposta apresentada estiver relacionada com a disponibilidade da sua parte (o mais provável), certifique-se apenas de que deixa claro que a sua vida pessoal em nada influencia o seu trabalho. Se, por algum motivo, verificar que as motivações do recrutador estão assentes em valores puros de discriminação ou machismo, e se for mãe ou quiser ser, o melhor é afastar-se do cargo em questão, pois certamente os seus direitos não serão tidos em conta.

Resumindo, durante os processos de recrutamento, a lei não permite que um candidato seja prejudicado por razões baseadas no seu sexo, orientação sexual, vida familiar, raça religião, etc. Desta forma, não deixe que os seus direitos sejam ignorados ou rejeitados. Esperamos que este artigo tenha esclarecido algumas dúvidas.

Foi alvo de discriminação? Apresente queixa

Caso considere que foi alvo de discriminação no acesso ao emprego, poderá apresentar uma queixa online junto da Autoridade para Condições de Trabalho (ACT). O anonimato é sempre garantido.

trabalhador.pt

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