Competição no trabalho: descubra como lidar com a competitividade

Na atual sociedade globalizada o mercado de trabalho é cada vez mais marcado pela competitividade. O mundo profissional é exigente, cada vez há mais profissionais qualificados, a pressão para resultados é crescente e a necessidade de estar em todo lugar a todo o momento é premente. Por isso, nem sempre é fácil lidar com a competitividade no local de trabalho e esta, quando não é gerida de forma adequada, pode ter efeitos nefastos. Este artigo irá ajudá-lo a compreender melhor o fenómeno da competitividade laboral, bem como a dotar-se de algumas estratégias para a conseguir gerir de forma eficaz.

Porque surge a competitividade e em que contextos é mais notória?

A competitividade no mundo laboral surge da existência de uma oferta vasta, da concorrência e escassez de recursos ou oportunidades. Quando existem várias pessoas para um mesmo trabalho, ou várias empresas que fazem o mesmo produto, a competitividade emerge. Se só tivesse uma cadeia de supermercados para fazer compras, limitar-se-ia a comprar aí os seus produtos, porque não havia outra opção. A empresa em questão não sentiria a competitividade porque não existiria nenhum concorrente.

Assim, a competitividade é um fenómeno natural e inerente a um mercado globalizado e capitalizado. Embora surja nos vários contextos laborais, existem áreas em que a sua presença é mais marcada: vendas, marketing, área comercial, negócios, entre outras em que haja pressão para o atingimento de resultados e trabalho por objetivos.

Vantagens e desvantagens da competição no trabalho

A competitividade, isto é, a vontade de ser melhor, nasce da ambição. E a ambição é um ingrediente fundamental para o crescimento e desenvolvimento profissional, bem como para a produtividade. Desta forma, a competitividade saudável pode ser positiva e ter vantagens no mundo do trabalho:

  • O trabalhador torna-se mais atento, dedicado e empenhado;
  • A empresa ganha em produtividade e resultados, pelo menos a curto-prazo;
  • Incremento da motivação e da criatividade, pois existe uma necessidade de criar ideias novas que ultrapassem as já existentes. O facto de existir concorrência incentiva o trabalhador a investigar, trabalhar e melhorar, levando-o a simplificar um processo existente ou a definir uma nova abordagem para acelerar o processo produtivo. Em suma, a procura por ser “o melhor” leva-nos a sermos mais criativos e a desenvolver ideias inovadoras e mais eficazes;
  • Aumento da motivação dos trabalhadores para alcançar e ultrapassar metas e objetivos definidos;
  • Diminuição da zona de conforto, isto é, a vontade de ser o melhor leva o trabalhador a não se satisfazer com os métodos tradicionais e a procurar novas abordagens;
  • Aperfeiçoamento de competências, uma vez que a ambição de atingir resultados leva o profissional a apostar na sua formação e aperfeiçoamento, por forma a destacar-se de uma forma positiva;
  • Maior assertividade na tomada de decisões, uma vez que quando existem desafios para ultrapassar e resultados para atingir, os trabalhadores têm maior pró-atividade e motivação para tomar decisões com menor insegurança.

No entanto, se a competitividade pode ter vantagens, quando levada ao extremo ou quando não é equilibrada e gerida de forma eficaz, pode ter efeitos nefastos:

  • Prejuízo das relações interpessoais no trabalho, uma vez que o desejo de vencer pode levar a encarar os colegas de trabalho como inimigos, e a agir com eles de forma hostil;
  • Comprometimento da funcionalidade da empresa, devido à existência de um ambiente hostil e relações interpessoais negativas;
  • Falta de sincronia e coordenação no trabalho em equipa, uma vez que um nível demasiado elevado de competitividade pode levar o grupo a deixar de funcionar com vista a um objetivo comum, estando cada indivíduo focado apenas nos seus objetivos individuais;
  • Diminuição da motivação e consequentemente da produtividade dos trabalhadores a longo-prazo, uma vez que a existência de um ambiente hostil cria stress e insatisfação no contexto laboral;
  • Maior risco de stress, burnout, absentismo ou diminuição da produtividade dos trabalhadores.

Deste modo, a competitividade pode ser positiva ou destrutiva, e o resultado dependerá da capacidade da organização e dos próprios trabalhadores para a gerir eficazmente.

Quais os sinais de uma competitividade pouco saudável?

Se a competitividade equilibrada traz benefícios, mas o ultrapassar dos seus limites acarreta efeitos nefastos para a empresa e os seus trabalhadores, é importante reconhecer alguns sinais de alarme:

  • Começam a ser muito frequentes as discussões e conflitos no contexto laboral;
  • Os trabalhadores começam a expor as falhas ou os erros de outros colegas aos supervisores;
  • Em trabalhos de equipa um ou mais elementos procuram ter todo o reconhecimento pelo trabalho que foi feito em conjunto;
  • Verifica-se a cópia ou plágio de trabalho alheio;
  • Os relacionamentos interpessoais e o ambiente de trabalho tornam-se cada vez mais conflituosos e hostis;
  • Ausência de comunicação ou falhas de comunicação frequentes;
  • Prejuízo dos objetivos coletivos para benefício individual;
  • Existência de boatos, intrigas ou críticas pejorativas no ambiente de trabalho.

Como é que as empresas podem promover uma competitividade saudável?

Cabe às empresas, em primeira instância, procurar promover uma competitividade saudável, com vista a um aumento da produtividade, criatividade e inovação. Para isso, é importante adotar algumas medidas:

  • Seleção e recrutamento adequados, procurando profissionais com um perfil ajustado à função em questão. Na área comercial, onde a competitividade é inevitável, é fundamental selecionar profissionais que sejam capazes de lidar com ela de uma forma saudável, equilibrada e eficaz, procurando o atingimento de objetivos de forma criativa e sem violar princípios éticos e deontológicos;
  • Promoção de relações laborais saudáveis e de um ambiente laboral mais harmonioso. Para isso, as empresas devem promover a comunicação, quer entre trabalhadores quer destes com os supervisores. Podem também ser promovidas dinâmicas de grupo e exercícios de team bulding, que promovem o trabalho em equipa e a cooperação entre os vários trabalhadores;
  • Reconhecer os esforços dos trabalhadores e dar feedback constante. Não guardar o feedback apenas para quando o trabalhador comete erros ou precisa de ser corrigido, mas ser capaz de dar feedback também quando existe esforço e empenho por parte do profissional. A existência de um feedback contínuo e de uma comunicação transparente estimula os trabalhadores a melhorar e a procurar concretizar objetivos globais e conjuntos, despertando assim a motivação coletiva;
  • Definir políticas empresariais que promovam a igualdade. Isto é, a melhor forma de promover uma competitividade saudável é fomentar um ambiente empresarial que garante a igualdade e equidade dos trabalhadores, assegurando que todos podem ascender às mesmas oportunidades;
  • Definir e valorizar o cumprimento de princípios éticos e deontológicos definindo, se necessário, sanções para as suas violações;
  • Valorizar as diferenças, sendo capaz de reconhecer o perfil de cada trabalhador e aproveitar as suas idiossincrasias, tornando cada um relevante para o trabalho da empresa como um todo. A empresa cresce e enriquece com a diversidade de trabalhadores, com múltiplos pontos de vista, pois este contexto variado promove a criatividade e inovação. Desta forma a empresa comunica também aos seus colaboradores que todos eles, embora possam ser a dado momento concorrentes uns dos outros, podem contribuir de forma única para a empresa;
  • Evitar conflitos desnecessários e saber geri-los quando eles surgem. Isto é, a empresa deve ter a capacidade de evitar desavenças desnecessárias e sem qualquer resultado positivo, bem como de gerir e mediar discussões, problemas e conflitos que possam surgir.

Enquanto trabalhador, como posso lidar com a competitividade?

Para além das medidas que devem ser adotadas pela própria empresa, cada trabalhador pode utilizar um conjunto de estratégias que auxiliem a adaptação a um ambiente competitivo.

Aposte no seu autoconhecimento

Quanto melhor se conhecer a si mesmo, maior noção terá das suas fragilidades, limites e potencialidades. Isto vai ajudá-lo, por exemplo, a saber como lida tendencialmente com uma situação stressante e competitiva, e a ajustar esses padrões de comportamento. Por exemplo, se tem noção que é uma pessoa impulsiva, mais facilmente poderá começar a trabalhar no seu autocontrolo. Este aspeto vale também para a escolha de determinado trabalho: se sabe que não gosta de trabalhar com pressão para resultados e que este regime de trabalho não se encaixa consigo, é preferível que eleja outra vertente ou local para trabalhar.

Conheça bem a empresa, os colegas e supervisores

Quando começa a trabalhar em determinada empresa, procure adaptar-se e crie relacionamentos saudáveis com colegas e supervisores. Quanto melhor integrado estiver no ambiente laboral, menor o risco de se sentir espezinhado pelos outros devido à competitividade. Procure conhecer a empresa, o seu modo de funcionamento, conheça as pessoas que trabalham consigo, o seu perfil, e promova uma comunicação transparente.

Peça ajuda e conselhos

Peça ajuda e conselhos a pessoas mais experientes. Ninguém é autossuficiente e perfeito, pelo que o nosso desenvolvimento pessoal e profissional passa pelo recurso aos outros. Procure colegas de profissão ou pessoas em quem confie para que o possam aconselhar e fornecer uma outra perspetiva sobre como pode lidar melhor com a competitividade e ajustar-se ao contexto laboral em questão.

Foque-se em si mais do que nos outros

Lembre-se que muitas vezes não precisa de “eliminar” a concorrência para atingir objetivos. Embora existam de facto situações em que só há lugar para um (por exemplo, candidatura a um emprego, seleção do melhor vendedor do mês, etc.) em muitas outras circunstâncias o sucesso não é limitado a um indivíduo. Isto significa que para ser bem-sucedido e atingir os seus objetivos não quer dizer que outros não o possam atingir. Por exemplo, para ser um bom trabalhador na sua empresa e destacar-se pela positiva, não precisa que os outros sejam maus. Pelo contrário, se trabalhar com pessoas igualmente competentes, elas podem até ser um recurso valioso para o ajudar a crescer profissionalmente. Deste modo, analise bem a situação em concreto e pense se, em vez de ver os outros como inimigos, não os poderá antes ver como colegas de equipa que o podem auxiliar de forma cooperativa ao atingimento de objetivos.

Dê o seu melhor no trabalho

Dê o seu melhor e procure desenvolver-se continuamente, realizando as funções que lhe são designadas da melhor forma possível e sendo criativo. Quando está mais focado em superar-se a si próprio do que aos outros, o processo criativo é mais livre e, consequentemente, mais produtivo e eficaz. Se passar o tempo todo a olhar por cima do ombro e atento aos outros, perde tempo fundamental para se dedicar ao seu trabalho.

Dê o exemplo aos seus colegas

Se trabalha num contexto laboral competitivo, não espere que sejam apenas os outros a cooperar consigo, dê o exemplo. Procure promover relações saudáveis com os colegas e cooperar com eles, sem prejudicar os seus objetivos. Modifique a sua forma de agir, utilizando uma linguagem não intrusiva, evitando fazer acusações e optando por fazer sugestões, reagindo de forma calma e tranquila a discórdias ou pontos de vista diferentes, e procurando mostrar que a cooperação pode trazer resultados mais positivos para todos.

Não dependa demasiado da validação externa

Receber feedback é fundamental e devemos procurar questionar os superiores sobre a qualidade do nosso trabalho, para o podermos ajustar e aperfeiçoar. No entanto, depender demasiado da validação externa, daquilo que os outros dizem de si, é prejudicial para a sua autoconfiança e para o seu desempenho. Para diminuir esta dependência, defina para si mesmo padrões e objetivos, e depois verifique de que forma os consegue atingir, congratulando-se a si próprio, quando apropriado, pelo trabalho que desenvolveu. No fundo, desenvolva o seu próprio padrão de qualidade e reconheça os seus feitos, mesmo antes de alguém o fazer por si.

Não reaja com agressividade

É difícil não ser impulsivo no calor do momento, em plena escalada do conflito. No entanto, se conseguir desenvolver o seu autocontrolo e adotar uma atitude mais amigável, terá vantagens. Uma reação agressiva só aumentará a competitividade negativa, enquanto que uma atitude calma e ponderada ajuda a promover a cooperação e a resolver o conflito. Além disso, isto fará com que os colegas de trabalho o vejam de uma forma mais positiva e tenham tendência a trata-lo com maior respeito e cordialidade.

Não tente vencê-los, junte-se a eles!

Em vez de despender tempo e energia a tentar superar os seus colegas, tente aproveitar a situação de forma positiva. Por exemplo, peça conselhos e ideias em aspetos que sabe que os seus colegas são mais experientes, o que os fará sentir-se lisonjeados e lhe permite a si aprender algo novo, enquanto promove uma maior cooperação entre todos.

Comunique com chefias e supervisores

Tentar fazer as coisas sem o conhecimento dos seus supervisores pode levar a que saia prejudicado. Antes de tomar alguma decisão ou atitude que possa prejudicar alguém, consulte os seus supervisores e aconselhe-se relativamente à melhor forma de agir. Se não tem a certeza se a atitude que vai tomar é correta, não a tome sem pedir aconselhamento. Dê também feedback do seu trabalho aos supervisores, para que eles acompanhem a sua evolução e reconheçam o seu trabalho. Manter o seu chefe informado acerca do seu trabalho irá permitir que o seu desempenho seja comprovado e que não possa ser negado ou minimizado por ninguém.

Seja empático

Por fim, procure ver o outro lado, colocar-se no lugar dos colegas e mesmo dos supervisores e da própria empresa. Quando olha para a competitividade como um todo, e não de forma pessoal ou como algo que o prejudica só a si, consegue ter uma visão mais alargada e completa das circunstâncias. Consequentemente, isto irá ajudá-lo a adotar uma atitude mais positiva e a adaptar-se mais eficazmente à situação. Lembre-se que a competitividade saudável e equilibrada pode ser extremamente benéfica para si enquanto trabalhador e para a empresa. Seja promotor desta competitividade, no fundo, converta-se em primeiro lugar naquilo que gostaria de ver nos outros.

Em suma, procure alcançar a competitividade saudável focando-se nos seus objetivos e lembrando-se de que o sucesso pessoal não implica o fracasso alheio.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.

Adicionar comentário