Coração partido: como ultrapassar um desgosto amoroso?

Um desgosto de amor é uma experiência pela qual, muito provavelmente, todas as pessoas passarão ao longo da sua vida. Um amor não correspondido, uma relação que termina, uma desilusão, traição, a sensação de aperto no peito, a saudade, entre outros.

E não é o facto de ser uma experiência comum que faz com que seja menos dolorosa. A desilusão ou o fim de uma relação amorosa constitui uma perda, que muitas vezes traz consigo outras emoções associadas: revolta, raiva, culpa, vazio, tristeza e confusão. A perda de uma relação pode ser tão ou mais impactante que qualquer outra perda.

Neste artigo pretendemos ajudar a compreender o porquê de um coração partido ser algo tão doloroso, bem como apresentar algumas estratégias para ajudar a ultrapassar o sofrimento de uma forma mais adaptativa.

Porque é difícil lidar com um coração partido?

A separação é uma das mais dolorosas experiências que o ser humano pode lidar. É um processo complexo, vivenciado em diversas fases e em diferentes níveis. Embora seja uma experiência comum – afinal de contas todos já tivemos o coração partido” -, é sempre diferente e única para cada pessoa e em cada situação.

Muitas vezes a separação pode mesmo ser vista como a “morte em vida”, uma vez que a pessoa continua a existir fisicamente, mas deixa de existir a sua presença na vida do outro. E é isso que faz um coração partido.

Construímos vínculos afetivos desde a infância, no meio familiar, e a partir daí adotamos um padrão de comportamento de apego que se estende ao longo da vida, podendo impactar na forma como vivenciamos as relações amorosas.

O objetivo do comportamento de apego é manter o laço afetivo, que representa proteção e segurança. Por outras palavras, todas as pessoas querem ser amadas e ter relações de intimidade, e é através das relações com os outros que projetamos também o nosso mundo e a nossa realidade.

Quando esses laços de rompem, há um ativar de uma sensação de desproteção, insegurança e abandono. Há também um abalar na nossa própria estrutura, que nos faz questionar quem somos e repensar muitas vezes toda a nossa identidade.

O ser amado e desejado está intimamente ligado ao nosso sentido de valor pessoal e à nossa autoestima. Por isso, quando sofremos um desgosto amoroso muitas vezes isso representa um forte golpe na nossa autoestima, uma sensação de rejeição que também é, por si só, muito dolorosa.

Além disso, quando perdemos a pessoa de quem gostamos e quando a relação termina, não termina apenas a relação, mas também todos os sonhos e projetos que lhe estavam associados. A morte de um sonho e de um projeto é frequentemente sentida como um fracasso e uma desilusão profunda, podendo deixar um sentimento de vazio e desesperança em relação ao futuro. É essa desilusão e vazio que nos deixam o coração partido.

Amor e vício: estão interligados?

Por muito que pareça estranho, amor e vício podem estar conectados. E não falamos aqui em obsessão ou relações tóxicas, mas sim em qualquer tipo de amor e vínculo. De facto, a ciência demonstra que os sentimentos amorosos e a paixão utilizam as mesmas vias neurais que substâncias psicoativas, ativando os sistemas de recompensa do cérebro e criando sintomas de dependência similares.

Quando temos o coração partido, a intensidade da dor e efeitos no corpo humano são semelhantes aos que sentem os toxicodependentes quando estão a tentar largar as drogas e passam pela síndrome de abstinência. Há inicialmente uma libertação de hormonas que, em conjunto com as emoções, levam o cérebro a libertar cortisol, a hormona do stress, diminuindo o nível de racionalidade. O cérebro aterroriza-se e reage como se estivesse frente a uma ameaça. O sistema imunitário enfraquece e sobem os níveis de stress.

Coração partido: que reações são comuns?

Quando temos o coração partido em virtude de um desgosto amoroso, existem variadas reações e sintomas que podem surgir, nomeadamente:

  • Problemas de sono (não conseguir dormir, acordar durante a noite…);
  • Alterações no apetite ou no peso;
  • Choro frequente;
  • Aumento da pressão arterial, devido ao stress;
  • Irritabilidade e impaciência;
  • Aumento da frequência cardíaca / coração acelerado;
  • Sensação de aperto no estômago;
  • Pele oleosa, devido ao aumento dos níveis de cortisol.

O coração partido em virtude de um desgosto amoroso representa uma perda. Logo, o luto é uma resposta normal e o tempo de elaboração desse luto muitas vezes pode até ser maior do que o luto por uma morte física. O luto pode ser descrito em cinco fases:

  • Fase de negação: a pessoa que perdeu o parceiro amoroso sente muita dificuldade em aceitar essa separação. Embora sabendo que esta ocorreu, vai adiando o encarar da realidade, acalentando a esperança de uma reversão, sem assimilar verdadeiramente a perda.
  • Fase de raiva: desencadeiam-se sentimentos de revolta ou fúria acompanhadas por sentimentos de injustiça face ao fim da relação. Pode acontecer também que estas emoções se façam acompanhar de comportamentos motivados pela raiva, como as discussões com o outro, acusações, etc.
  • Fase da negociação: nesta fase é habitual que a pessoa faça promessas com a finalidade de tentar reconquistar ou recuperar a relação perdida.
  • Fase da depressão: a pessoa entra finalmente em contacto com as emoções de tristeza associadas à perda. Aceita o fim e começa a recordar os momentos, a sentir a saudade e a falta do outro, e por fim chega o sofrimento.
  • Fase da aceitação: a pessoa já experienciou as várias emoções e sentimentos e compreende que tem de reinvestir a sua energia de outra forma, o chamado “seguir em frente”.

Obviamente que estas fases não são lineares, não têm de ocorrer da mesma forma para todas as pessoas, nem por esta ordem. Pode haver um avanço e retrocesso, saltando-se de uma fase para a outra, para a frente e para trás. Tudo depende de cada pessoa, da relação e das próprias circunstâncias de vida.

Coração partido: o que torna ainda mais difícil?

Sendo que, como vimos, uma separação ou desgosto de amor é sempre um processo difícil e doloroso, alguns fatores podem fazer com que seja ainda mais difícil lidar com um coração partido:

  • Quando existem muitos aspetos não-resolvidos ou a pessoa não compreende de todo o porquê do fim da relação (por exemplo, situações em que a outra pessoa simplesmente “desaparece” sem uma conversa ou explicação);
  • Se existe já um difícil histórico de desgostos amorosos ou perdas difíceis anteriores;
  • Se associado ao fim da relação surgem outras perdas, por exemplo perda de casa ou mudança do local de residência, mudança de cidade, mudança na relação com os filhos ou com outras pessoas, perdas financeiras, entre outros;
  • Se a pessoa tem vulnerabilidades prévias (por exemplo depressão ou outro quadro psicopatológico);
  • Se existem naquele momento da vida da pessoa outros eventos negativos ou stressores adicionais (ex: problemas no trabalho, problemas de saúde e conflitos);
  • Se a pessoa está isolada e tem pouco suporte social;
  • Situações em que as relações não são reconhecidas socialmente (por exemplo, casos extra-conjugais);
  • O grau de investimento, uma vez que quanto maior for o investimento na relação, mais dolorosa será a perda.

Existe estigma face ao coração partido?

Embora todos já tenhamos passado ou possamos vir a passar por um desgosto amoroso e tenhamos tido o nosso coração partido, a verdade é que socialmente tendemos a desvalorizar essa experiência nos outros. Reconhecemo-la e aceitamo-la socialmente num momento inicial, mas como um sofrimento passageiro e transitório. Estabelecemos comparações, achamos que o luto por uma relação não pode ser tão doloroso quanto uma perda definitiva decorrente da morte, razão pela qual tendemos a desvalorizar um coração partido.

A sociedade é muitas vezes incompreensiva com o sofrimento intenso de quem tem o coração partido decorrente de um desgosto amoroso, em parte devido a vivermos numa sociedade globalizada, consumista, em que tudo acaba por ser substituível.

Este processo de estigmatização prejudica e faz com que seja ainda mais difícil para a pessoa com o coração partido vivenciar a situação, pois sente-se frequentemente culpada por estar a sofrer tanto ou por não estar a conseguir ultrapassar tão bem como deveria. Por a sua situação não se solucionar com umas saídas à noite ou ao conhecer outras pessoas.

Como tal, é importante quebrar o estigma e aceitar o sofrimento associado a ter o coração partido como um sofrimento real e intenso, que deve ser compreendido e acolhido, com a consciência de que a experiência é diferente para cada pessoa.

É preciso ajuda para curar um coração partido?

O desgosto amoroso ou o fim da relação amorosa pode ser superado sem recorrer a ajuda profissional. No entanto, em determinadas situações o acompanhamento psicológico pode ser necessário e fundamental, quando o processo de luto culmina num luto complicado. Ou seja, quando a pessoa não consegue, ao fim de algum tempo, começar a reconstruir a sua vida, quando o luto se prolonga muito e causa prejuízo significativo no quotidiano da pessoa.

Nestas situações a intervenção psicológica será necessária. No entanto, não é necessário passar por um processo de luto complicado para recorrer à intervenção psicológica. A psicoterapia pode ser útil para qualquer pessoa com o coração partido, pois ajudará a pessoa a elaborar a perda, a processar as suas emoções, a compreender melhor a relação e a si mesma, a retirar aprendizagens relevantes da relação e a reorganizar o seu futuro pessoal e amoroso.

O que pode ajudar a curar um coração partido?

Não há formula mágica para curar um coração partido

Embora não existam receitas universais e cada pessoa lide de forma única e particular com um desgosto amoroso, existem algumas estratégias que podem ser úteis para ajudar a curar o coração partido.

1. Aceitar as emoções

Quanto mais tempo vivermos na fase da negação e tentarmos esconder, disfarçar ou simplesmente resistir às emoções dolorosas, não admitindo que estamos com o coração partido, mais difícil será ultrapassar a situação. Por isso, é importante chorar, sentir, ficar triste. É normal que as pessoas à nossa volta tenham a tendência para nos querer distrair e animar a todo o custo, no entanto os momentos de tristeza também são importantes. Aceitar que se está a sofrer é o primeiro passo para processar o luto e a perda.

Como vimos, o luto faz parte de alguém que teve o coração partido. É preciso passar pela fase da depressão e da tristeza, e dessa fase faz parte o recordar, o sentir saudade. Não evite por demasiado tempo ir àqueles lugares que lhe relembram a pessoa, ouvir aquela música ou guardar numa caixa os objetos e fotografias que fazem parte da relação. Esse confronto, embora doloroso, é absolutamente necessário para ultrapassar e curar o coração partido.

2. Analise, mas não em demasia

É normal que quando a relação termina fiquemos a remoer, a pensar vezes em conta sobre o que aconteceu, o que será que correu mal. Esta análise pode ser importante sim, mas não em demasia, e devemos tentar fazê-la com alguma racionalidade. É importante pensar sobre o que correu menos bem, para retirarmos daí aprendizagens para o futuro.

No entanto, devemos tentar criar uma narrativa realista, evitando embelezar (pensar que era tudo perfeito) ou catastrofizar (pensar que a pessoa nunca nos amou, etc). Procure perceber o que considera que correu mal e que aprendizagens pode retirar. Se acha que houve atitudes menos positivas, aprenda com isso e veja como algo que o poderá ajudar a ter melhores relações no futuro. Tudo isto ajudará a curar um coração partido.

3. Não espere encontrar todas as respostas

Por mais que analisemos, não vamos encontrar todas as respostas que queremos. As coisas nem sempre têm uma razão direta, e muitas vezes as razões que parecem existir não são aquelas que queríamos. Por isso, é importante aceitar um certo grau de incerteza, e aceitar que não vai compreender a 100% nem vai ter uma sensação de controlo absoluto sobre o que aconteceu.

Tente aceitar o fim da relação como algo natural, e construa a sua própria narrativa dos acontecimentos, de uma forma racional. A outra pessoa terminou consigo e não percebeu o porquê? Construa o seu discurso, por exemplo “não era a pessoa certa, por alguma razão não quis continuar na relação, o que me dá oportunidade de encontrar no futuro alguém que esteja tão investido como eu na relação”.

4. Diga que está com o coração partido

Para além de aceitarmos as nossas emoções, é fundamental expressarmos, “deitarmos cá para fora”. Quando expressamos as nossas emoções estamos a processá-las e a organizar melhor as nossas ideias. Por isso, fale com alguém de confiança sobre o que está a sentir. Dessa forma poderá ter uma outra perspetiva da situação. Se não quiser falar, escreva aquilo que está a sentir, o importante é exteriorizar as emoções.

5. Equilíbrio é a chave

Chorar é importante, ficar triste também. Mas não tem de ficar triste 24h por dia. Procure encontrar um equilíbrio que lhe seja confortável, sem deixar, se possível, de se manter ativo. Pode começar com pequenas coisas, como fazer uma caminhada ou ligar a um amigo para conversar. Mas tente equilibrar e manter a atividade.

6. Reinvista a sua energia

Quando estamos numa relação investimos nela muita da nossa energia. Por isso, quando a relação termina é natural que fique uma sensação de vazio. É necessário reinvestir a energia, voltá-la para coisas novas ou coisas antigas que deixou de fazer tanto por causa da relação

É natural que fique com tempos mortos, por exemplo ao fim-de-semana em que costumava estar com a pessoa. Procure preencher esses momentos investindo em coisas de que gosta (hobbies, passatempos), reconectando-se com velhos amigos ou familiares, fazendo coisas que já não fazia há algum tempo… Crie os seus próprios rituais e rotinas. Abrace a mudança, ela pode ser ótima e renovar a sua esperança no futuro e a curar um coração partido.

7. Cortar os laços, pelo menos por um tempo

Esta estratégia não é universal, pode não se aplicar a toda a gente e depende muito das relações. No entanto, na maior parte das situações é importante que, pelo menos no início, haja um corte de relações com a outra pessoa. É difícil fazer o luto se estivermos constantemente a encontrá-la, se continuarmos a visitar constantemente as suas redes sociais… Por mais que custe, afaste-se por um tempo.

8. Reorganize a sua vida

Com o fim da relação há muitas alterações: rotinas que mudam, relações que se alteram, coisas que já não faz sentido dar continuidade… É importante que se tente reorganizar nesse sentido, atendendo primeiro ao que é prioritário e indo depois reorganizando, aos poucos, tudo o resto. Tinham amigos em comum? O que se irá alterar na relação com eles? Se calhar é importante conversar com os seus amigos sobre isso. Estava a juntar dinheiro para comprarem uma casa? Em que poderá investir esse dinheiro agora? Que destino lhe vai dar? Perspetive o futuro e organize um projeto de vida para si, um coração partido não é um fim de linha!

9. Não tome decisões por impulso

Vimos anteriormente que uma das fases do processo de luto é a raiva. É inevitável sentirmos revolta e isso por vezes faz-nos adotar comportamentos irrefletidos de que depois nos arrependemos. Para evitar esses impulsos, se se sentir mais descontrolado, pare por um segundo, respire fundo e fale com alguém da sua confiança.

Ouvir a perspetiva da outra pessoa irá ajudá-lo a refletir sobre as possíveis consequências da ação que pretende tomar, evitando assim tomar decisões das quais se poderá arrepender. Coração partido e decisões por impulso tendem a não correr bem!

10. Não transforme a outra pessoa no “diabo”

Os sentimentos de raiva, relativamente comuns em teve o seu coração partido, muitas vezes, fazem-nos também diabolizar a outra pessoa. Às vezes, parece até que é mais fácil dessa forma: se a detestarmos, não a queremos de volta, a saudade não é tão forte.

No entanto, essa raiva é apenas aparente e uma forma de esconder uma tristeza que cedo ou tarde virá ao de cima. Exteriorize a sua raiva, mas depois procure manter um pensamento racional. Por muito que a outra pessoa tenha errado consigo, provavelmente ela não é um monstro ou a pior pessoa do mundo. Simplesmente, não era a pessoa para si, o sentimento esmoreceu ou não era assim tão forte. Custa aceitar, mas a verdade liberta.

Transformar a outra pessoa na fonte de todos os nossos males não nos irá ajudar a encontrar o equilíbrio e a recuperar do desgosto amoroso.

11. Cuidado com relações de substituição

É relativamente comum dizer-nos, quando estamos de coração partido, que nada como uma nova pessoa para esquecer a anterior. Embora em parte seja verdade que a excitação inicial de uma nova conquista reestabelece o nosso ego e a nossa autoestima e tira a nossa mente, por momentos, da dor da perda, a longo prazo esta solução poderá não ser a melhor.

Enquanto não tiver as ideias organizadas e não tiver processado a perda, não estará verdadeiramente preparado para investir numa relação, ou estará a construir a relação em bases muito frágeis. Pode ser importante tirar um tempo para investir em si, para reorganizar as ideias para poder depois investir noutra relação. No entanto, como em tudo, este é um conselho de “nem sempre nem nunca”. Ou seja, se realmente achar que deve envolver-se com outra pessoa e se tiver vontade de o fazer (não apenas para esquecer, mas porque naquele momento lhe faz sentido) poderá ser saudável desde que o faça de uma forma clara, tanto para si como para a outra pessoa.

12. Não tenha receio de pedir ajuda

Por vezes podemos não conseguir ultrapassar o fim da relação sem ajuda, ou simplesmente precisarmos de nos reconstruir de uma forma que requer um processo de psicoterapia. Não tenha receio em pedir ajuda de um psicólogo, afinal de contas todos, em alguma momento da nova vida, já tivemos o coração partido!

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.