Depressão infantil: as crianças também sofrem desta doença?

Depressão” e “infância” ainda são, para muitos, conceitos incompatíveis. Associamos frequentemente a infância a um período de alegria e despreocupação, e consideramos (erradamente) que as crianças não têm motivo para desenvolver uma depressão clínica. No entanto, isto está longe da verdade. A depressão infantil é uma realidade, e é fundamental estarmos conscientes dela para que exista uma adequada prevenção, bem como identificação dos sinais quando presentes, para uma intervenção o mais precoce possível.

Neste artigo iremos explorar o que é a depressão infantil, quais os sintomas, os sinais de alerta e as formas de a prevenir e de intervir quando já se encontra instalada.

As crianças podem ter uma depressão?

O reconhecimento da depressão infantil como um quadro psicopatológico é recente: só em 1980 surgem as primeiras referências a critérios de diagnóstico para a depressão infantil. O facto de os clínicos não terem contribuído durante muito tempo para o estudo da depressão tem uma explicação.

Apesar de as características nucleares da depressão serem transversais a crianças e adultos, a maturidade linguística, cognitiva e emocional é determinante na forma como as crianças e adolescentes comunicam os seus estados emocionais, logo, os seus sintomas. Daí que tenha existido alguma dificuldade em identificar a depressão infantil, tendo sido necessário algum tempo para se aprimorar os critérios e reconhecer os sintomas.

Atualmente reconhece-se que a depressão infantil é, de facto, uma realidade. No entanto, nem sempre é fácil ou linear estabelecer um diagnóstico. A criança não consegue descrever da mesma forma que um adulto a forma como se sente, e expressar as suas emoções de uma forma acessível ao outro.

Quais os sintomas da depressão infantil?

Para que se estabeleça um diagnóstico de depressão na criança ou adolescente, alguns critérios de diagnóstico têm de estar presentes:

  • Presença de 5 ou mais dos seguintes sintomas durante o mesmo período de pelo menos 2 semanas e que representam uma alteração do funcionamento prévio da criança / adolescente; pelo menos um dos sintomas é humor depressivo ou perda do interesse ou prazer. Os sintomas podem ser referidos ou observados.
    • Humor depressivo ou irritável;
    • Diminuição clara do interesse ou prazer nas atividades de vida diária;
    • Perda ou aumento significativos de peso ou diminuição do apetite. Em crianças deve considerar-se o não atingimento dos aumentos de peso esperados para a idade / fase do desenvolvimento;
    • Insónia (não conseguir dormir) ou hipersónia (dormir demais);
    • Agitação ou lentificação psicomotora (a criança fica muito agitada, não consegue parar quieta ou, pelo contrário, fica muito parada e move-se lentamente como se se “arrastasse”);
    • Sentimentos de desvalorização ou culpa excessiva;
    • Diminuição da concentração ou indecisão;
    • Pensamentos acerca da morte, ideação ou tentativa de suicídio.
  • Os sintomas causam mal-estar clinicamente significativo e/ou prejudicam o funcionamento da criança em uma ou mais áreas da sua vida (escola, família, amigos, desporto…).

Depressão infantil em diferentes idades

A depressão infantil e os estados depressivos manifestam-se de diferentes maneiras ao longo do desenvolvimento:

Depressão infantil em crianças do pré-escolar

As crianças mais novas, por ainda não terem as competências que lhes permitem compreender e gerir os estados emocionais, tendem a somatizar as suas queixas emocionais. Ou seja, costumava-se observar mais alterações comportamentais e queixas físicas como dores de barriga ou falta de energia. Isto dificulta por vezes a capacidade de os adultos perceberem que o problema da criança pode ser emocional.

Os pais podem ter dificuldade em compreender que as birras constantes, a agressividade ou a baixa tolerância à frustração podem ser sinal de que algo não está bem e podem mesmo ser uma externalização da tristeza.

Outros sintomas comuns na idade pré-escolar são a falta de interesse ou de prazer nas brincadeiras, a apatia, e queixas constantes de aborrecimento. Outros sinais podem ser a irritabilidade fácil, as alterações de apetite e do sono (sono agitado, pesadelos, dificuldades em adormecer, acordar a meio da noite…).

Pode ainda verificar-se um atraso na aquisição de determinadas competências esperadas para a idade ou a regressão em certos marcos desenvolvimentais, por exemplo a criança volta a fazer xixi na cama ou a querer lhe seja dada a comida na boca.

Depressão infantil em idade escolar

As crianças em idade escolar podem manifestar sentimentos de tristeza e também queixas físicas. Os sintomas mais comuns nestas idades são a diminuição do rendimento académico, a desmotivação e as dificuldades nas relações interpessoais.

O impacto da depressão a nível escolar está associado com a falta de interesse, mas também com outros sintomas que prejudicam a capacidade de a criança estar concentrada, atenta e disponível para as tarefas.

Podem ocorrer alterações no sono e no apetite e, naturalmente, se a criança não dorme e/ou não se alimenta bem, não conseguirá ter o mesmo rendimento escolar. A nível social, é comum as crianças isolarem-se e evitarem participar em determinadas atividades com os pares. Estão muitas vezes irritáveis e desafiadoras, o que reforça o conflito ou afastamento dos outros. Por vezes as crianças podem ter explosões comportamentais, agir de forma agressiva repentinamente, responder de forma brusca, o que aumenta ainda mais os sentimentos de solidão.

Depressão na adolescência

Os adolescentes já conseguem expressar melhor os seus estados emocionais, por isso poderá ser mais fácil identificar sintomas depressivos. Frequentemente existem sentimentos de inferioridade, culpa ou inutilidade e tendência a assumir uma visão sobretudo negativa de si mesmo, dos outros e do futuro.

O isolamento também é comum, com o adolescente a evitar o apoio da família, a isolar-se “no seu canto” e a desinteressar-se muitas vezes também da escola. O adolescente torna-se mais irritável e agressivo, acabando por atingir todos os elementos da família.

Na adolescência os sintomas depressivos estão muitas vezes associados a comportamentos de risco (abuso de substâncias, consumo de álcool ou tabaco, relações sexuais não protegidas, infração de regras ou leis, tentativas de suicídio, comportamentos delinquentes…). Estes comportamentos são reforçados pela visão negativa e de desesperança. A crença de que nunca se vão sentir de outra forma pode levar à ideação suicida e consequente tentativa de suicídio.

Prevalência da depressão infantil

Os estudos internacionais indicam que a prevalência da depressão é de cerca de 1 a 2% nas crianças e de 4 a 8% nos adolescentes. A menor prevalência na infância poderá estar relacionada com a existência de maior proteção e menor exposição a fatores de risco, atenuados pela rede de relações da criança, como a família e a escola.

Na adolescência, para além do confronto com novos desafios, o desenvolvimento cognitivo e emocional permite uma maior capacidade de reflexão e de autocrítica – criando espaço para o aparecimento de avaliações negativas de si e do mundo.

Por outro lado, as alterações hormonais podem ter um papel importante, podendo explicar a forma como as diferenças de género na depressão parecem acompanhar o desenvolvimento. Enquanto que na infância se verificam valores semelhantes na depressão entre rapazes e raparigas, na adolescência a prevalência é superior nas raparigas.

Em Portugal pelo menos 15 mil crianças e adolescentes apresentam, ou vão apresentar, uma perturbação depressiva com impacto significativo na vida pessoal e familiar.

Fatores de risco para a depressão infantil

Existem alguns fatores que podem predispor as crianças e/ou adolescentes para o desenvolvimento de depressão infantil:

  • Vulnerabilidade genética / histórico familiar de depressão;
  • Experiências precoces de perda (luto/morte de pessoa próxima, separações…);
  • Depressão parental ou abuso de substâncias por parte dos pais;
  • Estilos parentais punitivos, críticos e autoritários, nos quais os pais se focam nos insucessos da criança em detrimento dos seus sucessos;
  • Práticas parentais negligentes;
  • Discórdia conjugal e desorganização familiar;
  • Característicos pessoais da criança ou adolescente, tais como baixo nível de inteligência, temperamento difícil ou inibido, baixa autoestima, etc;
  • Acontecimentos de vida negativos, tais como perda de relacionamentos significativos, dificuldade em atingir objetivos e metas, doenças, separações entre pais e criança, divórcio parental, mudança de casa ou de cidade, mudança de escola, bullying, etc.

Fatores protetores para a depressão infantil

Existem também alguns fatores que fazem com que a criança tenha uma menor probabilidade de desenvolver depressão infantil:

  • Boa forma física e adesão ao exercício e atividade física;
  • Inteligência normativa;
  • Temperamento fácil;
  • Boa autoestima;
  • Estratégias de resolução de problemas e conflitos eficazes e adaptativas;
  • Capacidade para fazer e manter amizades;
  • Boas práticas parentais;
  • Estrutura familiar flexível na qual existe comunicação clara, elevada satisfação conjugal e onde os pais partilham as tarefas quotidianas;
  • Bom suporte social;
  • Baixos níveis de stress;
  • Contexto educativo com adequados recursos;
  • Boa articulação entre a família e a escola.

A que sinais os pais devem estar atentos?

Alguns sinais podem ajudar a identificar que algo se passa com a criança. Quanto mais os pais forem sensíveis a estes sinais e conseguirem detetá-los, mais precocemente o problema pode ser avaliado e tratado e, consequentemente, melhor o prognóstico.

Alguns sinais de alerta da depressão infantil são:

  • A criança regride no seu comportamento, deixa de fazer coisas que já fazia sozinha ou começa a apresentar comportamentos mais infantis;
  • A criança começa a fazer xixi ou cocó e a não ter controlo dos esfíncteres;
  • A criança isola-se, não quer brincar, prefere estar sozinha;
  • Há um grande medo, por parte da criança, de separação dos pais ou cuidadores (ela chora, faz birras acentuadas quando tem de se separar dos pais);
  • A criança não interage, fica parada e apática;
  • A criança apresenta alterações na rotina, na qualidade do sono ou da alimentação;
  • A criança apresenta uma alteração repentina no seu rendimento escolar ou no seu comportamento e desempenho na escola;
  • A criança está mais sensível e irritável do que o normal;
  • A criança está mais agressiva;
  • Há um descuido na sua higiene e na sua aparência ou uma mudança radical na forma como se veste;
  • Sensação recorrente de cansaço e falta de energia;
  • Fala devagar, sem expressão e dá respostas curtas;
  • Choro frequente;
  • Queixas físicas sem explicação orgânica (como dores de barriga, de cabeça…).

Porque é que a depressão infantil acontece?

As perturbações depressivas surgem devido a uma confluência de diversos fatores. Por um lado, estão os fatores genéticos e neurobiológicos. Filhos de pais com perturbação depressiva apresentam maior probabilidade de terem a mesma doença. A predisposição genética é tanto maior quanto mais precoce for a idade de início da perturbação. Por outro lado, fatores neurobiológicos também podem ter a sua contribuição, nomeadamente alterações neuro químicas.

Nos fatores que contribuem para a instalação de um quadro depressivo surge também o temperamento, ou seja, o estilo comportamental, emocional e de pensar, que é relativamente estável ao longo do tempo e se expressa em diferentes situações. Ainda que as experiências de vida possam afetar a sua expressão, o temperamento parece ter uma base genética ou biológica.

Um dos traços temperamentais na infância associados a uma maior propensão para a depressão infantil é a inibição comportamental, ou seja, a tendência que cada um tem para reagir face a situações novas. As crianças que apresentam sentimentos de angústia, preocupação, medo e pouca motivação para a exploração de situações desconhecidas revelam uma elevada inibição comportamental e um maior risco de depressão infantil. Também o facto de a criança ter maior sensibilidade a estímulos negativos, e focar-se demasiado em emoções desagradáveis, como ansiedade, medo, tristeza ou raiva, predispõe-na para a depressão infantil.

Obviamente, e como vimos nos fatores de risco indicados anteriormente, as experiências de vida têm também muita influência na probabilidade de a criança desenvolver depressão infantil.

Como prevenir a depressão infantil?

Compreendendo a depressão infantil como uma realidade e estando sensibilizado para a mesma, é possível que os pais e pessoas envolvidas na vida da criança possam prevenir a instalação de um problema de depressão infantil:

  • Dar autonomia e espaço à criança para crescer ou, por outras palavras, não superproteger. Nem sempre é fácil e os pais, querendo o melhor para os seus filhos, por vezes acabam por protegê-los em demasia, impedindo-os de concretizar desafios apropriados para a sua idade e fase do desenvolvimento. Quando não damos uma certa liberdade à criança para que se desenvolva, para que adquira aprendizagens importantes e seja autónoma, não conseguimos que ela adquira também segurança em si mesma e que enfrente as situações que vão surgindo de uma forma eficaz;
  • Proporcionar um ambiente familiar estável: isto significa não apenas um bom ambiente familiar, mas também a existência de regras e limites, que permitam à criança ter uma estruturação na sua vida, o que lhes dá segurança;
  • Ensinar a criança a lidar com a frustração, ou seja, a saber gerir as suas emoções quando recebe um não, quando não consegue alguma coisa ou quando as coisas não são exatamente como ela queria ou esperava;
  • Proporcionar uma rotina estruturada, estável e consistente à criança;
  • Incentivar, sem ser de forma intrusiva, a criança a falar das suas emoções;
  • Ser um modelo, ou seja, o adulto deve também falar sobre as suas emoções e ajudar a criança a aumentar o seu vocabulário emocional;
  • Procurar dar atenção à criança e dedicar tempo diário para estar com ela;
  • Elogiar e dar reforço positivo aos sucessos e conquistas da criança, bem como às suas qualidades;
  • Construir uma relação de confiança onde a criança se sinta amada, cuidada e amparada;
  • Articulação adequada entre a família e a escola;
  • Incentivar a criança a ter hobbies, passatempos e atividades de que gosta e das quais retira prazer. Procurar que esta escolha seja da criança, que ela decida que atividades quer experimentar e quais quer fazer, em vez de serem os pais a impor à criança várias atividades extracurriculares das quais ela se calhar nem gosta assim tanto.

Qual o tratamento para a depressão infantil?

Na depressão as vias de tratamento são o tratamento farmacológico (medicação) e a intervenção psicológica. Nas crianças e adolescentes a abordagem inicial deve ser psicológica. Mesmo que exista toma de medicação, deve existir sempre também uma intervenção psicológica, uma vez que a medicação apenas intervém nos sintomas e não nas causas. Além disso, a eficácia dos antidepressivos é menor na população pediátrica.

Ao nível da intervenção psicológica esta centra-se não só na criança e adolescente, mas também na sua família, podendo existir ainda, se necessário, articulação com a escola ou outros profissionais na área social ou da saúde. A intervenção psicológica na depressão infantil geralmente passa pelas seguintes técnicas de intervenção, que estão validadas cientificamente:

  • Pscioeducação: ajudar a criança e a família a compreenderem melhor as emoções, os pensamentos, depressão, o seu funcionamento e o funcionamento da intervenção;
  • Automonitorização: monitorização e avaliação dos sintomas através de registos diários e estabelecimento de objetivos;
  • Programação de atividades: são programadas pequenas tarefas agradáveis e desafios apropriados à idade, assim como o exercício físico e o relaxamento, para ajudar a promover o humor positivo;
  • Treino de Competências de Regulação Emocional: pretende ajudar a criança ou adolescente a lidar com as suas emoções e com situações stressantes ou negativas;
  • Treino de Resolução de Problemas: ajuda a criança ou adolescente a desenvolver um plano de ação para a mudança, a decompor os problemas, ponderar e avaliar diversas soluções e pô-las em prática;
  • Treino de Competências Sociais: pretende ajudar a criança ou adolescente a aprender estratégias para interagir com os outros, criar relações positivas, gerir conflitos…
  • Reestruturação cognitiva: pretende ajudar a criança ou adolescente a alterar pensamentos negativos e crenças disfuncionais, transformando estes padrões de pensamento em padrões mais positivos e realistas;
  • Intervenção com a família: nomeadamente treino parental, treino de comunicação familiar, fornecimento de suporte e apoio…

O tratamento deve ocorrer o mais precocemente possível. A depressão infantil é capaz de comprometer seriamente o desenvolvimento e o processo de amadurecimento psicológico e social da criança. Por isso, se queremos evitar problemas na adolescência ou idade adulta, a infância é o tempo adequado para a intervenção acontecer.

Quando a criança apresenta problemas, ainda que não esteja instalada uma depressão infantil, deve recorrer-se a um psicólogo. Por exemplo, problemas de rendimento escolar, de autoestima ou de convívio social, podem transformar-se em problemas mais graves se não existir uma intervenção atempada.

Esperamos que este artigo tenha sido esclarecedor!

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.