Depressão pós-parto: sintomas, diagnóstico e tratamento

A depressão pós-parto é uma problemática que, embora conhecida a sua existência, é pouco compreendida e falada. A maternidade é quase sempre associada apenas a aspetos positivos, e vista como uma transição de vida feliz, mas a verdade é que pode acarretar também problemas para a saúde psicológica.

Dada a importância de sensibilizar e compreender esta problemática, este artigo pretende explicar de forma completa o que é a depressão pós-parto, bem como os fatores de risco, sinais e sintomas e formas de tratamento ou prevenção.

É normal sentir tristeza após o parto?

A tristeza após o nascimento do bebé afeta entre 50 a 70% das mulheres, habitualmente entre o 4.º e o 10.º dia após o parto. Toda a felicidade associada ao ser mãe é repentinamente interrompida por sentimentos negativos inexplicáveis, designados por “atividade emocional excessiva”.

A mulher pode sentir sentimentos contraditórios em relação ao bebé. Pode ocorrer a dificuldade de a mãe desenvolver laços afetivos com o bebé, o que se torna assustador e faz surgir o medo da ausência do esperado instinto maternal. Para além disso, há um sentimento de ansiedade e a mulher pode questionar-se acerca da sua própria capacidade para lidar com as novas exigências e com o futuro. Estas emoções são parte de um período normal de ajustamento à maternidade, não configurando necessariamente depressão pós-parto.

É necessário compreender que a gravidez, o parto e a maternidade são altamente exigentes para as mulheres. As novas mães têm de reestruturar a sua identidade de modo a dar lugar na sua vida ao bebé. Assim, é natural a existência de um período transitório de instabilidade emocional, sem complicações, mas sendo necessários suporte e vigilância da mulher e do bebé. Além disso, a pressão social muitas vezes sentida, em que a mulher se sente impelida a sentir só emoções positivas e a ser uma boa mãe, faz com que sinta culpa e não saiba lidar com a avalanche de emoções deste período de vida.

É importante que exista uma maior consciência acerca das dificuldades sentidas pelas grávidas e recém-mães, para que seja normalizado o facto de poderem existir emoções negativas, evitando que a mulher se sinta culpada face às mesmas.

O quadro de tristeza pós-parto é, assim, normal e transitório. O que distingue esta tristeza da depressão pós-parto é a gravidade, intensidade das emoções e o prejuízo que estas causam na funcionalidade e bem-estar da mulher e o perigo para a mesma e para o bebé.

O que é a depressão pós-parto?

A maternidade é um acontecimento que exige um enorme esforço de adaptação por parte da mulher e que pode transformar o puerpério num período de grande vulnerabilidade emocional. Para além de todas as transformações físicas, psicológicas e sociais inerentes à gravidez, o parto é também para a mulher um momento de grande exigência não só a nível fisiológico, mas também psicológico, porque passa a existir a responsabilidade por outro ser que exige atenção permanente.

Após o nascimento de um bebé, o casal passa por um período de ajustamento à maternidade e paternidade, tal como acontece quando se enfrenta a perda, a mudança ou a deceção, em que a pessoa acaba por se ajustar mais fácil ou dificilmente. Contudo, esse tempo de adaptação pode ser longo e difícil.

A depressão pós-parto, também conhecida como depressão puerperal, é um transtorno mental de alta prevalência que provoca alterações emocionais, cognitivas, comportamentais e físicas. Inicia-se de maneira insidiosa, levando até semanas após o parto. A depressão pós-parto pode ser definida como uma perturbação do humor que pode ser reconhecida pela presença de um episódio depressivo maior que se desenvolve após o parto, tendo quase sempre início entre o 2º e o 3º mês após o mesmo. A depressão pós-parto é um processo lento e insidioso, ou seja, vai-se desenvolvendo gradualmente, havendo dias em que a mulher se sente bem e outros em que se sente mal.

A depressão pós-parto afeta entre 10% e 20% das mulheres, podendo começar na primeira semana após o parto e perdurar até dois anos.

Quais os sinais e sintomas da depressão pós-parto?

É importante reconhecer os principais sinais e sintomas da depressão pós-parto, que obviamente podem variar de mulher para mulher:

  • Tristeza e angústia profunda;
  • Alterações de humor;
  • Dificuldades de concentração, tornando-se difícil fazer atividades normais como ler ou manter uma conversa;
  • Fadiga;
  • Sentimentos de raiva para com o bebé, o companheiro ou outros filhos;
  • Rejeição do bebé, sendo a ligação afetiva com o bebé pode parecer que simplesmente não acontece, originando sentimentos de culpa e vergonha;
  • Frustração por não conseguir responder a outras tarefas e exigências, havendo uma sensação esmagadora de não conseguir fazer frente às atividades quotidianas, algo que atinge de modo particularmente severo as mulheres que sempre levaram uma vida ativa, energética e capaz;
  • Sentimento de culpa e insuficiência, isto é, a mulher sente-se culpada e inadequada por achar que é a única mãe a não conseguir lidar com a situação;
  • Insónia e dificuldades do sono, tornando-se difícil adormecer, ainda mais quando acordada pelo bebé, ou mantendo um estado de hibernação, querer dormir o dia todo e nunca acordar a sentir-se descansada;
  • Ideação suicida;
  • Medo de fazer mal ao bebé;
  • Diminuição do apetite;
  • Diminuição da libido / apetite sexual;
  • Alterações ao nível do funcionamento cognitivo / mental;
  • Presença de ideias obsessivas e pensamentos intrusivos;
  • Choro frequente;
  • Falta de interesse por atividades que antes eram consideradas agradáveis e prazerosas, tornando-se cada vez mais difícil conviver e lidar com acontecimentos sociais;
  • Ansiedade excessiva – as mãos deprimidas podem experienciar ataques de pânico, com sentimentos de pavor, palpitações, dificuldade em respirar e tremores, sendo que estes podem ocorrer por diversas razões, mas normalmente devido a uma falta de confiança básica na capacidade em cuidar do bebé;
  • Dúvidas e preocupações exageradas quanto à capacidade de cuidar do bebé;
  • Irritabilidade ou agressividade, que pode originar problemas e conflitos relacionais, em particular com o/a companheiro/a.

Quais as causas da depressão pós-parto acontece?

A etiologia da depressão pós-parto ainda não é completamente conhecida, mas acredita-se que, para além dos fatores de risco, fatores hormonais e hereditários possam estar envolvidos. Tanto a gravidez quanto o parto são eventos stressantes para a mulher, além de atuarem na maioria das vezes como fatores desencadeantes da depressão pós-parto, principalmente se vierem acompanhados de acontecimentos adversos.

As alterações hormonais contribuem de forma significativa para as mudanças de humor durante a gestação, o que contribui para uma resposta psicológica negativa, fazendo com que a mulher sinta também constrangimentos relativamente às mudanças ocorridas no seu corpo. Além disso, a mulher passa s submeter-se por responsabilidades diferentes, como por exemplo, o acompanhamento pré-natal, as mudanças na alimentação, entre outros.

São identificados alguns fatores de risco que contribuem para uma maior propensão de desenvolver depressão pós-parto:

  • Mãe muito jovem;
  • Mulheres com sintomas depressivos durante ou antes da gestação;
  • Histórico de transtornos afetivos;
  • Mulheres que sofrem mais antes ou durante a menstruação, com tensão pré-menstrual;
  • Mulheres que passaram por problemas de infertilidade;
  • Mulheres com dificuldades na gestação;
  • Parto por cesariana;
  • Dificuldades económicas ou carência social;
  • Desemprego;
  • Baixo nível de escolaridade;
  • Gravidez não planeada;
  • Mães solteiras;
  • Passar por perdas importantes ou ter perdido um filho anteriormente;
  • Bebé com anomalias;
  • Conflitos conjugais;
  • Stress;
  • Falta de apoio familiar e/ou social;
  • Alta hospitalar prematura;
  • Dificuldades na amamentação;
  • Violência obstétrica (desrespeito e abuso na atenção obstétrica nas instituições de saúde);
  • Ajuda insatisfatória nos cuidados com o bebé;
  • Baixo peso do bebé ao nascer;
  • Ausência ou interrupção do aleitamento materno;
  • Pouco contacto com o bebé após o parto;
  • Irritabilidade do bebé.

Quais as consequências da depressão pós-parto?

A presença de depressão pós-parto pode trazer aspetos negativos para o desenvolvimento da criança, uma vez que a criação do vínculo entre a mãe e o bebé é prejudicada pelos sentimentos da mãe, trazendo preocupações para o desenvolvimento da criança. Também para a mãe a depressão pós-parto pode trazer prejuízos sérios, nomeadamente a nível dos relacionamentos e interações sociais dificultando e, em determinados casos, até eliminando relações sociais.

Em casos mais graves a depressão da mãe pode estender-se ao bebé, sendo os principais sinais notadas na criança os seguintes:

  • Olhar vazio e vago;
  • Dificuldade em sorrir;
  • Diminuição do apetite e dificuldades na alimentação;
  • Vómito, diarreia;
  • Dificuldade em manifestar interesse pelos estímulos ao seu redor.

Podem ainda verificar-se outras consequências, tais como negligência do bebé, divórcio, problemas no desenvolvimento da criança (atraso na aquisição da linguagem, desenvolvimento cognitivo inferior, problemas de comportamento e psicopatologias enquanto adulto).

Para evitar estas consequências é imprescindível um diagnóstico e intervenção atempados.

Diagnosticar e identificar a depressão pós-parto

Muitas vezes torna-se difícil identificar e diagnosticar a depressão pós-parto e decidir quem precisa de ajuda externa, por várias razões:

  • Uma vez que as mudanças após a maternidade são esperadas, pode tornar-se difícil distinguir se se tratam de alterações normais ou de uma depressão pós-parto;
  • A depressão pós-parto torna-se por vezes um modo de vida, pelo que a pessoa não consegue imaginar uma vida em que não se sinta persistentemente esgotada, zangada, ressentida e letárgica;
  • A mulher pode recear ser considerada uma má mãe se confessar estar a passar por uma depressão pós-parto;
  • Pode existir uma perceção de que deve enfrentar a situação sozinha e de que será “fraca” se pedir ajudar;
  • Pode haver uma crença errada de que a terapia e a medicação para tratar a depressão pós-parto não são úteis.

O diagnóstico da depressão pós-parto deve ser feito o mais precocemente possível, para que a pessoa receba a ajuda de que necessita o antes possível, minimizando os efeitos negativos da mesma. Os sinais devem ser identificados pelos profissionais de saúde que lidam mais de perto com a recém-mãe, bem como pelos familiares. Os cuidados de atenção primária, nomeadamente o médico de família ou pediatra, que lidam mais diretamente com a mãe logo após o nascimento do bebé, são um bom ponto para identificação precoce dos sinais de depressão pós-parto e correto encaminhamento e referenciação. O diagnóstico deve ser rigoroso, tendo em conta todos os sintomas presentes bem como os fatores de risco e de stress.

Tratamento da depressão pós-parto

Em muitos dos casos as mulheres com depressão pós-parto recuperam no espaço de alguns meses. Cada oito em dez mulheres melhora num espaço de doze a dezoito meses e, embora durante esse tempo a sua vida possa ter tido alterações significativas, por vezes tem efetivamente hipóteses de a retomar quando melhoram. Contudo, em algumas mulheres não se verifica uma recuperação a curto-prazo. Entre 10 a 20% das pacientes ficam mergulhadas na depressão durante muito mais tempo.

Face à gravidade da depressão pós-parto e das suas consequências, é fundamental um acompanhamento correto e qualificado, contando com diferentes profissionais de saúde. Estes profissionais devem estar preparados para identificar as alterações psicológicas decorrentes neste período, tendo um conhecimento amplo e científico para o reconhecimento dos sintomas depressivos, desde os transtornos transitórios até aos mais graves.

A forma de tratamento mais eficaz é a combinação de medicação com psicoterapia. A psicoterapia permite que a recém-mãe possa identificar os seus principais problemas e preocupações, bem como falar sobre os mesmos, expressar as suas emoções e aprender estratégias para gerir as emoções e os problemas presentes. A abordagem cognitivo-comportamental e os grupos terapêuticos (com várias mães em situação semelhante) têm-se revelado particularmente eficazes.

A psicoterapia ajuda a recém-mãe a lidar com problemas imediatos, fazendo com que os pensamentos negativos que sustentam a depressão, ou seja, os padrões de pensamento negativos, sejam detetados e se torne possível substitui-los por abordagens mais positivas e eficazes. A mulher pode ser incentivada a manter um diário, onde anota os pensamentos negativos e as situações que lhe deram origem, tentando posteriormente substitui-los por positivos. A psicoterapia pode ter um enorme valor na depressão pós-parto, sendo a melhor forma de travar a falta de autoconfiança e as preocupações associadas à maternidade. As sessões de psicoterapia poderão ajudar a mulher a interiorizar novos padrões de funcionamento e pensamento que facilitarão a resolução de questões práticas quotidianas da família. Vão sendo debatidos problemas, que farão com que outros acabem por submergir do nível subconsciente, podendo assim haver uma resolução dos mesmos e os conhecimentos a adquirir da resolução posterior da perturbação emocional também podem ser gradualmente integrados na vida da mulher.

No que diz respeito ao tratamento farmacológico, os fármacos mais recomendados para a depressão pós-parto são os inibidores seletivos da reabsorção de serotonina, que são particularmente eficazes no período pós-natal, porque parte do seu efeito é moderar a sensibilidade das aminas biogénicas às mudanças hormonais que ocorrem nesse período.

Como prevenir a depressão pós-parto?

Embora nem sempre seja possível prevenir a ocorrência de problemas do foro psicológico, ainda mais perante uma situação tão exigente quanto a gravidez e a maternidade, algumas medidas podem ser extremamente úteis para promover uma gravidez, parto e pós-parto o mais tranquilos possível:

  • Recursos de saúde adequados e apoio pré, peri e pós-natal;
  • Alimentação nutritiva e saudável;
  • Exercício físico moderado e adaptado à condição do corpo;
  • Bom suporte social e familiar;
  • A mulher deve falar sobre as pessoas da sua confiança sobre o que sente, e esses sentimentos devem ser compreendidos, validados e normalizados;
  • Pedir ajuda para cuidar do bebé e das tarefas domésticas e demais tarefas necessárias;
  • A mulher deve ter tempo e espaço para si, de modo a poder fazer atividades que antes fazia e lhe davam prazer;
  • Procurar que continue a existir tempo para o casal;
  • Usar técnicas de relaxamento como a respiração diafragmática ou a meditação;
  • Não criar expectativas irrealistas e perceber que é perfeitamente normal que o período do parto e pós-parto seja difícil e palco de múltiplas mudanças;
  • Evitar colocar demasiada pressão sobre si mesma – a chegada de um bebé pode trazer uma grande sensação de pressão, da necessidade de ter que ser uma mãe perfeita. É importante relembrar que ao ter um filho a mãe não deixa de ser mulher e um ser-humano, com todas as suas dificuldades e vulnerabilidades, e que a aprendizagem se faz com o tempo;
  • Respeitar os próprios limites físicos e emocionais;
  • Estar informada, isto é, obter informações sobre a gravidez, o período pós-parto, as reações mais comuns e formas adequadas de as gerir;
  • Conversar com outras mães e partilhar experiências – existem vários grupos e até fóruns na internet que permitem esta partilha;
  • Ser realista acerca das mudanças de vida, compreendendo que o corpo irá mudar, a rotina irá mudar, e a vida no geral mudará, procurando integrar essas mudanças de forma progressiva e ao seu próprio ritmo;
  • Cultivar a relação com o bebé de forma saudável.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.