Desmistificar alguns mitos sobre vacinas

Desde a invenção da primeira vacina, no final do século XVIII, várias doenças foram erradicadas e muitas estão perto de o ser, como o sarampo e a rubéola. Ainda assim, num mundo onde muito facilmente somos inundados por informação, persistem alguns mitos sobre as vacinas. Neste artigo procuramos desmistificar alguns deles.

A vacinação não é necessária porque o organismo consegue combater a infeção?

Um indivíduo não vacinado consegue, por vezes, combater uma infeção e tornar-se imune. No entanto, ao contrário dos vacinados, onde se aparecer a infeção a pessoa já está protegida, no caso dos não vacinados, o aparecimento de uma infeção pode levar a grandes riscos, perdas de função e morte. Por exemplo, no caso do sarampo, 1 em cada 20 crianças não vacinadas que contraia sarampo terá pneumonia e 1 em cada 4 terá de ficar internada.

Além disso, a Organização Mundial de Saúde mostrou que, com a vacinação, entre os anos 2000 e 2017 houve uma diminuição de 80% nas mortes por sarampo. Já a tosse convulsa, antes da introdução da vacina, atingia 300.000 pessoas por ano e matava cerca de 7.000, a maioria crianças. Outras consequências evitáveis são o atraso do desenvolvimento mental por infeções de Haemophilus influenzae tipo b e defeitos congénitos devido à rubéola.

As vacinas já não são necessárias porque as doenças que previnem são pouco frequentes

Trata-se de um dos mitos mais perigosos. Mesmo quem acredita nas vacinas pode pensar que não são necessárias por existir o chamado “efeito de proteção de grupo”. Mas estas doenças têm sido cada vez menos comuns exatamente por a vacinação se ter tornado uma prática mundial e frequente. Infelizmente, em tempos mais recentes, têm-se, novamente, tornado mais comuns, como foi o caso do surto de Sarampo em 2017 em Portugal. Acredita-se que uma das causas seja a menor adesão à vacinação.

As infeções diminuíram devido à melhor higiene e sanitização e não devido às vacinas?

É verdade que nas últimas décadas a melhor higiene e sanitização foram muito importantes na diminuição da transmissão de doenças e na qualidade de vida. Mas o papel das vacinas não pode ser menosprezado. Como é evidente, por exemplo, no caso do Haemophilus influenzae tipo b. Segundo o Centro de Controlo de Doenças, a incidência desta infeção diminui de 20.000 em 1990 para 1.500 em 1993, depois da introdução da vacina.

As vacinas têm componentes tóxicos?

Existem alguns componentes das vacinas que têm sido amplamente criticados por se considerarem tóxicos, entre eles o alumínio, formaldeído e timerosal (que contem mercúrio). No entanto é preciso ter em conta as doses. Algumas vacinas contêm alumínio, mas na pequena quantidade de 0.125-0.625 mg, valor bem abaixo do consumido diariamente (30-50mg, maioritariamente na comida e água).

O formaldeído e timerosal são outros ingredientes controversos, mas, mais uma vez, é uma dose mínima comparativamente ao que normalmente estamos expostos. No caso do formaldeído, crianças pequenas têm cerca de 10 vezes mais formaldeído no sangue do que aquele que se encontra numa vacina. Conclusão? As vacinas podem ser dadas com segurança.

As vacinas causam autismo?

Trata-se de um mito que apareceu em 1998, num estudo, entretanto descredibilizado, e que tem sido espalhado por personalidades como Donald Trump. Sobre este estudo, o médico-autor foi julgado e impedido de praticar medicina por má conduta profissional, já que aceitou uma larga quantia de um advogado que o incentivou a “atacar” a vacinação para ganhar um caso.

A reforçar a segurança das vacinas, em 2002, foi realizado um estudo dinamarquês com 537.303 crianças, onde se encontraram fortes evidências contra qualquer ligação entre a vacina VASPR e o autismo.

A verdade é que as vacinas têm efeitos secundários, sim, mas a grande maioria não passa de febre e desconforto no braço. São muito raras as reações adversas e quando acontecem são bem estudadas, cuidadas e monitorizadas. É mais provável sofrer um efeito adverso de uma doença para qual não se foi vacinado do um efeito secundário de uma vacina.

As vacinas enfraquecem o sistema imunitário dos bebés e das crianças?

O que ocorre é exatamente o contrário. Ao expor o organismo a formas brandas ou desativadas da doença, este tem oportunidade de criar anticorpos para combater a infeção e pode aprender como a combater eficazmente caso apareça novamente. É importante ressalvar que as vacinas contêm ou formas muito leves da doença ou micro-organismos mortos, que já não conseguirão causar dano.

O sistema imunitário dos bebés e crianças consegue lidar com tantas vacinas?

O sistema imunitário de bebés e crianças é muito mais complexo e capaz do que se pode pensar. Mesmo com a toma de todas as vacinas ao mesmo tempo, estariam a usar bem menos do que 1% da sua capacidade imune. Acresce que uma constipação comum expõe um bebé ou uma criança a muitos mais antigénios do que as vacinas.

Assim, é importante estar-se informado sobre o que realmente é bom ou não para nós e para as nossas crianças. Muitos dos medos relativos às vacinas são medos compreensíveis, mas existem muitas fontes e entidades que nos podem ajudar com as nossas dúvidas.

Desde que foram descobertas, as vacinas têm sido uma grande ajuda na diminuição da mortalidade e na melhoria da qualidade de vida. O esforço deve ser contínuo e global para que estejamos cada vez mais próximos de erradicar infeções.

Pode encontrar mais informação na página do Sistema Nacional de Sáude.

A taxa de imunização em Portugal é elevada

De acordo com um relatório da Comissão Europeia, embora a vacinação em Portugal seja voluntária os níveis de imunização são muito elevados. A título de exemplo mencionar que, em 2018, as taxa de vacinação em crianças contra a difteria, o tétano e a tosse convulsa, bem como contra o sarampo atingiram 99%, consideravelmente superior à média europeia. A taxa de vacinação contra a gripe para os mais idosos ficou em 61%, também acima da média europeia.

Lúcia Ribeiro Dias

Desde muito cedo que a possibilidade de tratar o outro a cativou. Assim se tornou Mestre em Medicina. Do percurso já feito, considera que há sempre algo a aprender com o doente, seja clinica ou pessoalmente. Além da Medicina gosta de se aventurar em viagens longínquas, de preferência sem planos. A literatura é outro dos grandes gostos, tendo sempre um livro por perto.

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