Educação parental: o que é, importância e princípios

Ser pai ou mãe é um desafio muito exigente, talvez o principal desafio que surge na vida da pessoa que se torna mãe ou pai. E é um desafio sem retorno e sem aprendizagem prévia, ou seja, ninguém nos ensina a ser pais. É por isso que existem a educação parental.

A educação parental consiste num tipo de intervenção no qual profissionais no âmbito da educação, sobretudo psicólogos, intervêm com grupos de pais no sentido de promover competências parentais importantes.

Estes programas podem ser realizados em diferentes contextos e com vários propósitos, sendo sempre o objetivo global o de ajudar os pais a desenvolver e aprimorar competências importantes para conseguirem desempenhar de uma forma eficaz e saudável o seu papel de pais.

Neste artigo explicaremos de forma mais concreta em que consiste a educação parental e quais as suas aplicações práticas.

O que é a educação parental?

A educação parental consiste num conjunto de atividades educativas e de suporte que ajudam os pais ou futuros pais a compreender as suas necessidades sociais, emocionais, psicológicas e físicas, bem como as necessidades dos seus filhos, aumentando assim a qualidade da relação pais-filhos. As atividades de educação parental ajudam a criar um conjunto de serviços de suporte na comunidade para que as famílias as possam usar de forma vantajosa.

Assim, o objetivo geral da educação parental é apoiar os pais, dando-lhes informações práticas, transmitindo princípios de aprendizagem, modificação de comportamento e promovendo competências parentais de comunicação e resolução de problemas.

A educação parental engloba programas e serviços disponibilizados, quer a nível privado quer a nível público, a pais de diferentes níveis socioeconómicos e a crianças com ou sem características ou necessidades específicas. A educação parental procura promover o funcionamento mais saudável da família e não se restringe apenas a prestar cuidados e a promover competências parentais. Pode ser de natureza educativa e preventiva, mas também pode acontecer como uma resposta a situações de crise.

Na sua natureza, a educação parental é considerada uma intervenção de cariz social ou comunitário e, apesar de não ser um conceito novo, acaba por ser, na sua forma atual, algo relativamente recente.

A educação parental teve as suas origens nos EUA, em que o termo educação parental começou a surgir com a criação de centros comunitários nos quais mães e pais beneficiavam de acompanhamento por parte de profissionais e podiam integrar grupos criados para o efeito. A partir daí começaram a ser criados diversos programas com o objetivo de apoiar pais e famílias.

O programa “HeadStart”, por exemplo, procurava ajudar pais carenciados a preparar os seus filhos para a entrada para a escola. Já o programa “Education for Parenthood” ajudava as escolas a desenvolver formações acerca da parentalidade para as populações adolescentes.

É importante perceber que educação parental não é o mesmo que treino parental. Enquanto o treino parental se foca quase exclusivamente em mudar as práticas e estilos parentais, para resolver problemas de comportamento das crianças, a educação parental é mais abrangente. Os objetivos são sobretudo de prevenção, procurando prevenir comportamentos disfuncionais. Enquanto que o treino parental se destina mais a pais que apresentam uma problemática específica (por exemplo, são negligentes), a educação parental abrange todos os pais.

A educação parental, de uma forma mais concreta, procurar ajudar os pais e famílias, dar-lhes informação prática, transmitir-lhes princípios de aprendizagem e modificação comportamental e promover competências parentais, de resolução de problemas e comunicação.

A educação parental foca-se especificamente na importante aprendizagem que é tornar-se pai ou mãe. Procura melhorar as capacidades educativas dos pais e, em casos mais graves, romper o ciclo vicioso no qual as famílias com problemas têm filhos com problemas que, por sua vez, poderão vir a ter crianças com problemas.

Porque é que a educação parental é importante?

A parentalidade é um desafio bastante exigente, para o qual não existe uma preparação específica. Assim, o mais natural é que os pais sejam frequentemente assaltados por dúvidas e inquietações. Como são seres-humanos, também é natural que nem sempre consigam fazer tudo aquilo que gostariam ou que nem sempre saibam gerir determinadas situações na educação dos filhos. E tudo isso é natural, porque não nascemos a saber ser pais ou mães.

Deste modo, a educação parental é uma ajuda muito importante para pais e famílias, não só pensando nas crianças e em ajudar os pais a fazer o melhor por elas, mas também pensando nos próprios pais, em estes se poderem tranquilizar e sentirem-se melhores consigo mesmos enquanto pais.

A educação parental tem uma grande importância e utilidade, para ajudar os pais a não se sentirem tão perdidos, a definirem uma estratégia mais adequada em termos de parentalidade e para ajudarem também os seus filhos a resolverem problemas e a prevenir dificuldades maiores. Permite que os pais treinem competências e ajustem comportamentos de forma a melhorar o equilíbrio, a relação pais-filhos e o bem-estar de todos.

Quais os princípios da educação parental?

No âmbito da educação parental existe uma grande diversidade de programas, que diferem em relação aos objetivos específicos, ao público-alvo, às modalidades utilizadas, às estratégias, aos formatos, aos contextos, conteúdos e materiais. No entanto, todos os programas acabam por ter, em comum, o facto de se basearam nos mesmos pressupostos:

  • De que os pais têm um papel fundamental na vida dos seus filhos, influenciando o seu desenvolvimento e nível de adaptação;
  • De que é possível intervir na parentalidade no sentido de tornar os pais mais capazes de desempenhar as suas funções parentais;
  • De que, ao tornar os pais mais capazes, a intervenção na parentalidade irá contribuir para promover o desenvolvimento e a adaptação dos filhos.

Quais os principais aspetos trabalhados?

Para melhor compreendermos de que forma a educação parental funciona na prática, ajuda perceber quais são os principais aspetos, competências e temas trabalhados nos programas de educação parental, pelo que apresentamos os principais:

  • Informação sobre o desenvolvimento da criança, práticas educativas ou cuidados de saúde infantis;
  • Ensino de estratégias educativas específicas, tais como o elogio, a punição, o reforço positivo, a retirada de privilégios, o ignorar comportamentos, etc;
  • Ensino de modelos adequados de práticas educativas e de tipos de parentalidade;
  • Ensino de modelos de resolução de problemas eficazes e saudáveis, que incluem a identificação do problema, a exploração de opções de resolução, a antecipação das consequências, a seleção e implementação de um plano de ação, a avaliação da eficácia da solução implementada e o feedback;
  • Promoção da reflexão e tomada de consciência dos comportamentos parentais, dos valores educativos, da influência da história de vida dos próprios pais na forma como educam os filhos, etc;
  • Treino de competências de comunicação positiva e eficaz;
  • Promoção da capacidade de comunicar e expressar sentimentos e necessidades;
  • Ativação da rede de suporte social e importância de ter uma rede de suporte;
  • Ajudar os pais a compreender como podem melhor observar e compreender a criança e as suas necessidades, sobretudo quando esta apresenta comportamentos desadequados e como podem estes ajudar a criança a perceber as consequências naturais e lógicas das suas ações;
  • Ajudar os pais a evitar lutas de poder com a criança.

Como funcionam os programas de educação parental?

Os programas de educação parental geralmente funcionam em formato grupal, ou seja, em grupos de pais e geralmente em grupos pequenos ou médios, até cerca de 12 elementos. Isto porque a dinâmica prática e interativa das sessões não é possível com grupos muito grandes, e é desejável que os pais participem e intervenham.

Os programas podem ser realizados em contextos mais formais ou profissionais, como clínicas ou escolas, ou podem também ocorrer em locais da comunidade (como centros comunitários, juntas de freguesia). Podem ainda ocorrer em lugares informais incluindo visitas domiciliárias.

Os programas de educação parental podem diferir quanto ao público-alvo. Alguns programas são universais, o que significa que têm como objetivo informar e formar todos os pais, enquanto que outros programas são indicados, o que significa que são dirigidos a um grupo específico de pais que preenchem determinados critérios.

Geralmente são pais que estão em risco de apresentar comportamentos parentais negativos do ponto de vista da criança (como, por exemplo, mães adolescentes ou pais referenciados pelos serviços de proteção de menores) ou com filhos em risco de apresentar comportamentos negativos (por exemplo, bebés prematuros, crianças com necessidades educativas especiais, etc).

Podemos diferenciar os diferentes níveis da seguinte forma:

  • Nível universal, de promoção ou estatuto de baixo risco: “será que estou a educar bem o meu filho?”;
  • Nível de prevenção, estatuto de risco moderado: “o meu filho é muito desobediente”;
  • Nível indicado, de remediação ou estatuto de risco elevado: “não sei o que fazer, e muitas vezes perco o controlo sobre o que faço”.

O ideal, claro, é sempre a prevenção. Se forem implementados programas numa fase inicial e precoce da vida da família, em que os filhos são pequenos, para promover competências parentais e prevenir eventuais problemas, antes que os fatores de risco se estabilizem, será menor a probabilidade de surgirem problemas de desenvolvem ou perturbações clínicas.

Na educação parental é muito mais eficaz se houver um modelo interativo e dinâmico, já que não se pretende apenas transmitir informação, mas também, e principalmente, trabalhar competências. Deste modo, as sessões de educação parental são realizadas numa lógica de participação do grupo e com recurso a atividades práticas, como visualização de vídeos ou apresentação de exemplos práticos. Geralmente há uma ou mais competências que são trabalhadas na sessão, depois os pais devem aplicá-las em casa através de tarefas de casa e, na sessão seguinte, ser revisto até que ponto a competência foi apreendida, quais foram os obstáculos, etc.

Que programas de educação parental existem em Portugal?

Em Portugal também existem diversos programas de educação parental. Apresentamos alguns apenas a título de exemplo:

  • O Tesouro das Famílias – programa dirigido a famílias com crianças com idades entre os 6 e os 12 anos. É feito em sessões de grupo até 12 pais com a duração de uma hora e meia. Procura treinar e ensaiar competências parentais através de reflexão, visualização de vídeos e discussão de histórias;
  • Missão C: aplica-se a pais de jovens entre os 13 e os 16 anos de idade com problemas de comportamentos. O objetivo do programa é ajudar os pais para que consigam melhorar a gestão da disciplina e da comunicação com os filhos, aumentando a satisfação e eficácia parentais, o incentivo à qualificação escolar dos jovens, a organização familiar, entre outros aspetos;
  • Mais Família: é um programa com sessões de grupo para famílias com filhos entre os 2 e os 8 anos, fazendo uso de jogos, role-plays, tarefas de casa, procura fortalecer a relação entre pais e filhos, encorajar a definição de regras e promover competências parentais positivas e estratégias de disciplina não-violentas.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.