Fake news: o fenómeno que faz tremer a democracia

Sabe o que são fake news? Vivemos na era da informação, na qual tudo se encontra à distância de um simples clique. Hoje, temos acesso a informação sobre qualquer assunto de forma quase instantânea, mesmo que proveniente de um ponto oposto do globo.

Acontece que, não raras vezes, a informação e a desinformação são difundidas ao mesmo tempo, tornando-se difícil, para a generalidade das pessoas, saber distinguir a notícia falsa da verdadeira.

Neste artigo abordamos o fenómeno das fake news, procurando explicar em que consistem, a sua perigosidade e as formas de combater a desinformação.

O que são as fake news?

As fake news nada mais são que notícias falsas

O conceito pode ser recente mas a ideia já é antiga. Já ouviu, certamente, a expressão “quem conta um conto acrescenta um ponto” e é sabido que uma mentira ou uma meia verdade, rapidamente se “transformam” numa verdade.

As fake news não deixam de ser isso mesmo, boatos, notícias falsas que se propagam como lava através dos mais variados meios de difusão: nas rádios, nos jornais e, maioritariamente, nas redes sociais, com o objetivo de manipular a nossa perceção sobre um determinado assunto.

Os títulos apelativos e irreais despertam a curiosidade dos leitores que acabam por comprar o jornal ou por clicar no artigo e cliques são sinónimo de lucro. Pensa-se que a questão económica tenha sido o motivo inicial para o “boom” destas notícias de carácter duvidoso. Claro que, rapidamente, as fake news se tornaram mais perigosas, começaram a surgir com o intuito de divulgar uma ideia, de semear estereótipos, de manchar a imagem de pessoas, de fazer propaganda política, entre outros.

Sempre ouvimos dizer que informação é poder. E neste caso a desinformação deixou de ser uma arma apenas militar, assumindo-se hoje como uma arma da era digital.

Que perigos representam as fake news?

São vários os riscos das notícias falsas

As fake news representam riscos a todos os níveis. No que respeita à saúde, as fake news propagam títulos de receitas milagrosas, curas secretas, informação errada e que pode colocar em risco a saúde pública. Por altura do coronavírus, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou o termo “infodemia”. Este termo foi utilizado para designar fenómeno da difusão de informação falsa acerca do vírus.

Também as teorias de anti-vacinação são muita vezes difundidas através de fake news, tendo vindo a ganhar seguidores, o que coloca em risco a nossa saúde e anos de evolução no combate a algumas doenças.

O conhecimento é colocado em causa constantemente. Os investigadores não deixam de existir e a investigação muito menos. Mas cada vez mais a informação que chega é a errada e essa é a que mais rapidamente se expande.

A ameaça mais séria das fake news talvez seja à própria democracia, uma vez que as redes sociais criam condições para o surgimento de uma sociedade em rede e a comunicação livre e supostamente “isenta”, faz-se também em rede o que parece ter vindo a favorecer a explosão de movimentos autoritários.

Aliado a esta forma fácil de passar a “mensagem”, temos a utilização de algoritmos, que afunilam a informação que vê na internet. Isto faz com que os contéudos que lhe são sugeridos sejam sempre do mesmo género, fazendo com que não esteja exposto a outros pontos de vista, limitando as suas perceções.

Como combater as fake news?

São várias as iniciativas que visam o combate às notícias falsas

Os jornalistas têm um papel importantíssimo no combate à disseminação das notícias falsas / fake news. Embora a vontade e a pressão para ser o primeiro a noticiar seja forte, o bom jornalismo já não passa unicamente por aí. É necessário confirmar a veracidade das notícias antes da sua divulgação.

A Agência Lusa criou o site “Combate às Fake News” para servir de suporte às duas conferências realizadas em Lisboa e Madrid onde foram discutidas as ameaças da desinformação. Depois deste projeto surgiu “Contra fake news”, um projeto mais abrangente que tem como objetivo agregar informação e desenvolver ideias de combate à propagação das fake news.

O Facebook tem vindo a adoptar medidas para impedir o avanço destas notícias, entre elas o trabalho desenvolvido com mais de 70 fact checkers em mais de 50 línguas. Pretende também informar o utilizador quando este estiver em contacto com fake news. Para além deste trabalho, o Facebook tem vindo a bloquear e a apagar contas ou notícias por conterem informação enganosa.

Já o Twitter pretende perguntar aos utilizadores se querem realmente partilhar uma notícia que não chegaram a abrir (e sendo assim a ler) para evitar que se propaguem este tipo de notícias.

O próprio WhatsApp tem hoje um limite quanto ao número de pessoas a quem pode partilhar um determinado conteúdo.

Como saber se uma notícia é verdadeira?

Há elementos que deve considerar em caso de dúvida da veracidade de uma notícia

Não há propriamente uma “regra de ouro” para distinguir uma notícia verdadeira de uma notícia falsa, no entanto há um conjunto de elementos que devem ser ponderados, designadamente:

  • Não acredite nos títulos demasiado apelativos – Não raras vezes, estes títulos têm como objetivo obter cliques (clickbait). Procure abordar o assunto mais aprofundadamente para não cair no erro de acreditar numa notícia falsa.
  • Esteja atento à fonte – Seja o site ou o escritor da notícia, pesquise para perceber a credibilidade e veracidade dos mesmos. Lembre-se que, hoje em dia, qualquer pessoa pode criar um site na internet, razão pela pela qual difundir uma notícia falsa não é propriamente difícil.
  • Notícias antigas já não são notícia – Acontece muito frequentemente reaparecerem notícias antigas que são partilhadas nas redes sociais como novas. Na altura tiveram impacto e se foram novamente partilhas é porque, muito provavelmente, hoje também terão. No entanto, não são verdadeiras.
  • Erros e pontuação – É muito comum que texto das fake news tenham erros ortográficos e gramaticais. É também habitual que as fake news tenham uma pontuação demasiado efusiva. Desconfie sempre.
  • Sites de verificação – Os sites fact cheking já existem e têm como grande objetivo esclarecer se uma página ou notícia é verdadeira ou falsa. Use e abuse:
    • O Google disponibilizou o Fact Ckeck Explorer;
    • O Observador é, em parceria com o Facebook e desde abril de 2019, parte integrante de uma rede mundial de Fact Checkers;
    • O Polígrafo é um projeto da SIC que tem como objetivo desmistificar algumas fake news. É transmitido semanalmente na televisão mas atualizado diariamente na página de internet.

Se tem curiosidade em aprofundar o tema das notícias falsas, aconselhamos a ver o documentário da Netflix “O Dilema das Redes Sociais“. Figuras de gigantes tecnológicas, que estiveram na origem da criação das grandes plataformas de comunicação que usamos hoje em dia, revelam o “outro lado da moeda”, designadamente como podem ser utilizadas para manipular a perceção da sociedade, o vício que causam e a problemática em torno das das fake news.

The Social Dilemma | Netflix 2020

Dão o exemplo da teoria que garantia que o planeta terra é plana, o que coloca em causa anos de investigação científica. Várias foram as páginas que partilharam esta teoria e que cresceram quase de um dia para o outro (em número de seguidores), simplesmente porque foram amplamente partilhadas.

Não queremos com isto diabolizar as redes sociais (apesar de elas serem o grande meio de propagação das fake news). São vários os méritos das redes sociais, permitiram, entre outros, aproximar o que estava longe. No entanto, tendo em consideração o periogo que as fake news acarretam, muito caminho haverá certamente a percorrer.

Acima de tudo, é necessário que cada um de nós pare para refletir. O facto de eu partilhar esta ou aquela pseudo notícia só porque é engraçada é inocente? Provavelmente não. É importante distinguir o verdadeiro do falso, o correto do incorreto e para isso é necessário pensar criticamente no assunto, não consumir toda e qualquer informação simplesmente porque nos apareceu no feed do Facebook, Twitter, Instagram ou qualquer outra rede social.

Mariana Ledo

Uma eterna namorada da literatura, vibra com as pequenas notas que encontra nas páginas dos livros da biblioteca. Decidiu viver das palavras e por isso formou-se em Estudos Portugueses e Lusófonos, pela Universidade do Minho.