Fascismo: o que é, como surgiu e o que defende?

Nos últimos tempos, certamente já ouviu ou leu o termo “fascismo”, frequentemente utilizado em discussões acaloradas, seja no mundo real ou no virtual. Facto é que nunca antes o termo esteve tão em “alta”, e isso deve-se, particularmente, a medidas e declarações no mínimo polémicas feitas por diferentes líderes governamentais em redor do globo. Verdade seja dita: para alguns, ser chamado de fascista pode ser considerado algo pior pior que uma ofensa.

Mas, sabe em que consiste o fascismo? Sabe o que defende este movimento? Será que, mesmo depois de tanto tempo da criação e difusão das ideias fascistas, ainda existem pessoas e governos que se identificam com elas? Descubra as respostas para estas perguntas neste artigo que preparamos especialmente para si. Boa leitura!

O que é o fascismo?

Movimento político, económico e social, o fascismo surgiu no início do século XX, na Itália, quando o político Benito Mussolini fundou, em 1919, o grupo Fasci Italiani di combattimento – embrião daquele que seria o Partido Nacional Fascista, fundado em 1922.

O regime totalitário, isto é, nacionalista, imperialista, antiliberal e antidemocrático, prosperou em alguns países, especialmente na Europa, no período pós Primeira Guerra Mundial – conflito cujos efeitos impactaram negativamente a economia de países como a Alemanha e Itália e proporcionou um cenário ideal para a ascensão de ideias totalitaristas.

As ideias fascistas defendiam um Estado forte e paramilitar, geralmente ligado a uma identidade étnica, com aversão a outras culturas e vinculado à imagem de um líder. Todavia, embora seja possível identificar algumas características do regime, definir o que é fascismo em linhas gerais não é tarefa fácil, pois não existe nenhuma definição universalmente aceite – e isso acontece porque cada país simpatizante ao sistema fez adaptações do mesmo. George Orwell, no seu livro “O que é o Fascismo?”, afirma que o regime carece de um arcabouço teórico forte, visto que foi determinado, na prática, pelas atitudes do seu idealizador, Mussolini, e muito pouco pela teoria.

Quais as características do fascismo?

Umberto Eco, célebre académico italiano, listou 14 características que nos ajudam a compreender o que é fascismo. Lembrando que essas características, de acordo com o intelectual, não precisam estar todas presentes simultaneamente. Conheça-as:

  • O culto à tradição;
  • A rejeição do movimento modernista, sob alegação de que cultura do Ocidente está depravada;
  • O culto da ação sem reflexão intelectual prévia;
  • Discordar é trair, não cabe ao militante questionar as contradições no discurso;
  • Racismo e xenofobia;
  • Apelo à classe média frustrada, que teme as aspirações de classes sociais desfavorecidas;
  • Obsessão com teorias da conspiração;
  • Retórica que retrata as elites como decadentes e afirma que estas podem sucumbir à pressão popular;
  • A vida é uma guerra perpétua, deverá sempre haver um inimigo para combater;
  • Os membros que pertencem ao grupo são considerados superiores a todos os forasteiros;
  • Culto ao sacrifício, todos são educados para se tornarem heróis e morrerem pela pátria;
  • Machismo, desdém pela mulher e intolerância com hábitos sexuais que fogem da heteronormatividade;
  • O povo é tratado como uma entidade única, que tem aspirações únicas, sem levar em conta o ponto de vista de cada indivíduo;
  • Emprego de vocabulário empobrecido para limitar raciocínio crítico.

Outros intelectuais também tentaram definir o que é o fascismo, o que comprova a fragilidade da doutrina. De qualquer maneira, é possível afirmar, com base em acontecimentos históricos, que este sistema virou símbolo de alguns dos piores momentos do século XX.

Qual a diferença entre nazismo e fascismo?

Nazismo e fascismo são ideologias de direita – posição no espetro político que aceita a hierarquia social ou a desigualdade social como inevitável, natural, normal ou desejável. Além disso, ambas são paramilitares e ultranacionalistas; contudo, existem duas diferenças básicas.

  • Primeira: nazismo, movimento político liderado por Adolf Hitler, na Alemanha, já nasceu como movimento eugenista – pois visava à exclusão de elementos indesejados da sociedade a fim de “melhorar” geneticamente a população -, e antissemita – por pregar hostilidade e discriminação contra povos semitas, principalmente os judeus. Estas características são próprias do regime nazista, não estando, portanto, na base do fascismo. Na Itália, por exemplo, a perseguição a judeus só teve início depois de firmada a aliança com a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.
  • Segunda: o nazismo é mais organizado, havia uma compulsão em registar tudo, com uma máquina burocrática bem estruturada. O fascismo é mais desorganizado, orgânico.

Fascismo em Portugal

Portugal teve um período da sua história conhecido como Estado Novo, regime que vigorou entre 1933 e 1974. Este momento também conhecido por salazarismo, em referência a António de Oliveira Salazar, que ocupou a chefia do governo durante uma boa parte da sua vigência.

Em linhas gerais, o Estado Novo, uma ditadura militar, caracterizou-se como um período autoritário, nacionalista, tradicionalista e corporativista, por isso, é comum que muitos associem o fascismo italiano ao salazarismo. Tal como em outros regimes totalitaristas, o Estado Novo português preocupou-se em moldar ideologicamente a sociedade da época em diversos âmbitos: social, económico, jurídico e cultural. Prisões, polícia política, campos de deportação de adversários do regime e censura fizeram parte desse período da nossa história.

Para alguns o salazarismo trouxe consequências nefastas para Portugal, como o seu isolamento e atraso econômico – o que fez emergir no país um grande sentimento de insatisfação com o Estado Novo; todavia,  para outros, nem tanto. Em abril de 1974, como culminância de um desejo social por mudanças, teve lugar a Revolução dos Cravos, um golpe militar que derrubou o governo de Marcelo Caetano e deu início à transição para um novo regime, que até hoje vem tentando diminuir a distância entre Portugal e os nossos vizinhos europeus.

O que é o fascismo social?

Cunhado pelo pesquisador português Boaventura de Sousa Santos, o conceito de fascismo social tem como objetivo denominar as novas formas de dominação e exploração nas sociedades contemporâneas, isto é, o fascismo desenvolvido no meio social sem que haja a sua imposição por meio do Estado. Está presente nas sociedades de democracias consolidadas, atingindo de forma mais dramática os países da periferia do capitalismo, como é o caso do Brasil, apenas para citar um exemplo.

Para Boaventura, o fascismo social fomenta uma violação sistemática dos direitos económicos, sociais, culturais, civis e políticos, atingindo principalmente os mais pobres, parcela da população que não possui uma voz para invocar direitos de cidadania em seu favor.

O fascismo está presente na sociedade?

Porque o termo parece denominar com precisão determinados comportamentos retrógrados de grupos de extrema-direita – por vezes representados por governantes igualmente intransigentes. Entre o regime idealizado por Mussolini e as atuais manifestações de intolerância – sejam elas étnicas, sociais, económicas ou políticas – parecem existir alguns pontos de intersecção, como o culto à violência e ao uso das armas como forma de resolução de conflitos, o profundo desprezo pela democracia e pela ciência.

Existe também uma tentativa de negar a história e tentar ressignificar os seus acontecimentos, bem como uma aparente aversão a tudo que possa significar o progresso. Por isso, ser chamado de “fascista” pode incomodar, exceto àqueles que são declaradamente seus simpatizantes.

Sugestões de filmes para compreender o fascismo

Quer mergulhar neste tema e conhecer algumas obras cinematográficas que exploraram esse período sombrio da nossa história? Então confira alguns títulos que poderão ensinar muito, seja de forma direta ou lúdica, sobre o que é o fascismo:

  • A vida é bela;
  • The Boy in the Striped Pyjamas (O menino do pijama às riscas);
  • Schindler’s List (A lista de Schindler);
  • O leitor;
  • A escolha de Sofia;
  • A onda;
  • Prelúdio de uma guerra.

Luana Castro Alves

Graduada em Letras e Pedagogia, redatora e revisora, entusiasta do universo da literatura, sempre à procura das palavras. "Não se pode escrever nada com indiferença." (Simone de Beauvoir)