Ludoterapia: o que é, funcionamento, finalidades e duração

Tal como o nome indica a ludoterapia vem de ludo, ou seja, consiste em algo lúdico. No entanto, pode parecer estranho juntar brincadeira com terapia, e muitas vezes surgem questões relacionadas com aquilo que é, de facto, a ludoterapia.

Neste artigo abordamos a ludoterapia, procurando dar resposta a algumas das perguntas mais vezes colocadas sobre este tema, nomeadamente em que consiste, como funciona e quais as suas aplicações. Boa leitura!

O que é a ludoterapia?

A ludoterapia pode ser considerada uma modalidade de intervenção psicológica com crianças. A ludoterapia é baseada no facto de o jogo e a brincadeira ser o meio natural de autoexpressão da criança. Assim, através do brincar é dada oportunidade à criança de expressar as suas emoções e problemas através do brinquedo.

De uma forma simples, a ludoterapia é um processo terapêutico específico para crianças que se baseia no brincar. São utilizados diversos brinquedos e materiais lúdicos, que permitem à criança exprimir o seu mundo interno e os seus conflitos emocionais.

O brincar faz parte da maioria dos processos psicoterapêuticos infantis, podendo ser aplicado de forma individual ou com grupos de crianças. Seja qual for a abordagem do profissional, a ludoterapia centra-se sempre no facto de o brincar ser o modo natural de a criança se expressar. Constitui-se como uma oportunidade para a criança ensaiar, “brincando” os seus sentimentos e problemas, da mesma forma que, numa terapia com adultos, estes ensaiam “falando”.

Como funciona a ludoterapia?

Com o decorrer do processo terapêutico, o terapeuta ajuda a criança a encontrar e a dar sentido a cada brincadeira, jogo ou dramatização. É como se as peças se fossem encaixando num grande quebra-cabeças e a criança vai assimilando os seus conflitos, identificando, por meio do brincar, as melhores soluções e, acima de tudo, criando novas ações. Cada intervenção deve ser compreendida como uma peça pela criança, por isso o terapeuta planeia cuidadosamente cada sessão tendo em mente o objetivo que levou a criança à intervenção.

Embora possa parecer “só brincar”, na verdade o processo de ludoterapia é preenchido de significado e o terapeuta faz um trabalho estruturado e com objetivos concretos que se vão ajustando à evolução da própria criança.

Nas sessões de ludoterapia, o terapeuta não julga nem interfere nas ações e na brincadeira da criança, deixando que seja ela a guiar, mas interage com ela e faz perguntas que ajudam a criança a refletir e a pensar em novas ações ou forma de resolução dos conflitos (ex: “porque é que o pai está a fazer isso?”, “o que achas sobre isso?”, “o que achas que a menina está a pensar?”, “o que é que os meninos podiam fazer a seguir?”).

A ludoterapia tem diferentes fases:

  • Fase inicial: inclui a avaliação do problema e a explicação à criança e aos pais sobre o processo de ludoterapia;
  • Fase intermédia: período em que a criança já se familiarizou com o processo de intervenção e se sente confortável no espaço terapêutico. O terapeuta continua a avaliar e a aprender sobre a criança, mas tem uma noção mais clara das questões que ela desenvolveu e consegue direcionar melhor a intervenção;
  • Fase final: inclui o processo de término da intervenção e feedback aos pais. Pode ser feito um relatório com os dados da intervenção a ser mencionados, tais como o progresso da criança, que pode ser entregue aos pais ou, caso solicitado, à escola, ao médico ou a outro profissional que acompanhe a criança.

Porque é que a ludoterapia deve ser utilizada?

A ludoterapia foi criada e é eficaz porque as crianças têm dificuldade ao nível do pensamento abstrato, ou seja, é difícil para elas expressarem claramente e de forma objetiva o que estão a pensar ou sentir. A criança ainda não entende a complexidade em separar algo específico em algo prático e tem tendência a visualizar um procedimento ou fenómeno complexo como uma experiência única.

É importante também considerar que as crianças gostam de brincar, por isso um ambiente terapêutico em que a criança brinque será muito mais acolhedor e motivador para ela.

Além disso, a capacidade linguística da criança é também mais limitada do que a do adulto. Como tal, o ato de brincar abre possibilidades de expressão para a criança que não poderiam ser obtidas de outra forma.

Durante a ludoterapia a criança, através do brincar, expressa os seus conteúdos internos, os seus conflitos, frustrações, anseios e dificuldades. Em muitos casos a criança não tem consciência direta desse sofrimento. A ludoterapia dá-lhe a oportunidade de observar melhor o mundo e de se conhecer a si própria. As suas motivações, impulsos e emoções são trabalhadas para que ela tenha maior consciência a respeito de si mesma e também dos outros e do mundo, podendo desenvolver a sua personalidade e aprender a lidar com conflitos.

Através da ludoterapia a criança pode alterar a forma como observa os acontecimentos, as relações e o mundo. Ao recriar as suas frustrações e ao conseguir lidar com elas de uma outra forma na brincadeira, está a consciencializar-se e a ganhar confiança em si própria para enfrentar essas situações.

A ludoterapia é indicada para que problemáticas?

Qualquer criança pode beneficiar de um processo de psicoterapia, como a ludoterapia, e este está indicado para crianças até determinadas idades e que apresentem algum problema ou alteração a nível emocional ou comportamental. Pode ser uma boa estratégia terapêutica em diversas problemáticas:

Quanto tempo dura a ludoterapia?

Em qualquer tipo de intervenção psicológica e terapia a duração é sempre variável e depende de muitas variáveis, desde a criança, ao problema que ela apresenta, e à própria dinâmica e evolução do processo terapêutico. Os dois aspetos mais importantes nas variáveis que interferem na duração da ludoterapia dizem respeito à etapa de desenvolvimento em que a criança se encontra e à sua idade. Geralmente, quanto mais recentes são os sintomas apresentados pela criança, menos tempo irá demorar a terapia.

Apesar da duração ser variável, ao longo do processo é sempre dado feedback aos pais acerca da evolução e progressos, bem como discutida a questão da duração e a proximidade ou não do término / alta.

Brincar na terapia é igual a brincar em casa?

Existem diferenças entre o ato de brincar da criança no seu contexto natural e o ato de brincar num contexto terapêutico. No contexto terapêutico existe um objetivo claro e o profissional detém as ferramentas necessárias para guiar, estruturar e interpretar este processo.

De uma forma geral, o brincar tem três funções básicas: desenvolvimento motor, desenvolvimento cognitivo e desenvolvimento emocional. Na ludoterapia a intervenção do terapeuta foca-se nas questões emocionais, com o objetivo de conduzir à compreensão, à reestruturação e ao equilíbrio psicológico e, consequentemente, ao bem-estar.

Que tipos de ludoterapia existem?

A ludoterapia pode ser diretiva, ou seja, o terapeuta assume a responsabilidade de guiar e interpretar a criança, ou não diretiva, em que a responsabilidade é atribuída à criança, que guia e dirige a sessão. A ludoterapia não diretiva também é conhecida como ludoterapia centrada na criança.

A terapia inicia-se na fase em que a criança se encontra, na sua configuração atual, permitindo-lhe a mudança a cada momento do contacto terapêutico, em que se reúnem as condições ideias para se dar o crescimento emocional. A ludoterapia permite à criança ser ela própria e aceitar-se por completo, sem avaliação ou pressão para mudar. Reconhecem-se e clarificam-se as atitudes emocionais expressas, mas possibilita-se a escolha do próprio caminho.

Ao brincar, a criança enfrenta os seus sentimentos de frustração, agressividade, medo, insegurança e confusão, entre outros, e aprende a controlá-los ou a abandoná-los. Ao mesmo tempo, vai percebendo que é autónoma, com direito às suas emoções sem culpabilidade, a pensar por si própria e a tomar as suas próprias decisões, aceitando as suas responsabilidades.

A ludoterapia é eficaz?

Diversos estudos científicos apontam os resultados positivos da ludoterapia com todo o tipo de crianças, destacando-se entre estes resultados positivos os seguintes:

  • Melhorias em perturbações de ansiedade como o mutismo seletivo;
  • Redução da agressividade e de comportamentos de acting-out;
  • Aumento da adaptação emocional em crianças que vivenciaram o divórcio dos pais;
  • Aumento da adaptação emocional em crianças vítimas de abuso e de negligência;
  • Aumento da adaptação emocional em crianças vítimas de abuso sexual e em crianças expostas a violência interparental;
  • Redução do stress e da ansiedade em crianças hospitalizadas;
  • Melhoria na capacidade de leitura;
  • Diminuição de dificuldades de adaptação à escola;
  • Melhoria de problemas da fala;
  • Redução de dificuldades emocionais e intelectuais no atraso mental;
  • Melhoria da integração social e emocional;
  • Melhoria na gaguez;
  • Melhoria nas perturbações psicossomáticas, como a asma e alergias;
  • Redução dos sintomas de depressão na criança;
  • Aumento do autoconceito.

Quais os princípios básicos da ludoterapia?

Existem alguns princípios que guiam o processo de ludoterapia, que são simples e devem ser seguidos de forma consistente, sincera e genuína, pois deles depende, em grande parte, o sucesso da psicoterapia. Estes princípios sobrepõem-se e são interdependentes:

  • Desenvolver uma relação amigável e tranquila com a criança, estabelecendo uma comunicação positiva o mais cedo possível;
  • Aceitar a criança exatamente como ela é;
  • Estabelecer uma relação de aceitação com a criança, para que esta se possa expressar livremente;
  • Reconhecer os sentimentos da criança, refletindo-os de forma compreensível;
  • Respeitar a capacidade da criança de resolver os seus próprios problemas, dando-lhe essa oportunidade, sendo a responsabilidade da escolha e da mudança da criança;
  • Não dirigir as ações ou conversas da criança, a qual deve indicar o caminho e o terapeuta deve segui-la;
  • Não apressar a terapia, pois é um processo gradual que o terapeuta compreende e aceita;
  • Estabelecer apenas os limites necessários para manter a realidade e para que a criança tenha consciência da sua responsabilidade.

Os pais são integrados na ludoterapia?

O envolvimento dos pais é fundamental na ludoterapia e diz respeito, sobretudo, ao seguimento de determinadas recomendações do terapeuta. É muito importante que os pais compreendam desde o início o objetivo da ludoterapia e quais serão as metas da intervenção. É fundamental também que estes estejam envolvidos e possam colaborar com o terapeuta para generalizar os efeitos da terapia noutros contextos, ajudando a criança a readquirir o bem-estar e equilíbrio emocional de uma forma mais consistente.

Ao longo do processo de ludoterapia, o terapeuta vai reunindo com os pais para recolher informações sobre o funcionamento e a evolução da criança em casa e na escola, e também dá aos pais orientações. Por vezes o terapeuta pode fornecer sugestões sobre estratégias parentais, sobre formas alternativas de comunicar com a criança e também informações sobre o desenvolvimento infantil. Por uma questão de manter a privacidade da criança não são discutidos em detalhe pormenores das sessões com a criança. Em vez disso, o terapeuta comunica aos pais a sua compreensão das necessidades da criança.

No início do processo terapêutico o profissional discute com os pais aspetos tais como:

  • Os objetivos e duração da ludoterapia;
  • As características básicas da ludoterapia;
  • A periodicidade e o horário (regra geral as sessões acontecem uma vez por semana e deve existir um horário fixo);
  • A duração das sessões (em média as sessões duram 45 minutos, embora possam ser encurtadas com crianças mais pequenas, de 2/3 anos);
  • Existência de reuniões periódicas com os pais;
  • Sigilo e confidencialidade;
  • Honorários;
  • Faltas, atrasos e desmarcações;
  • Possível contacto com a escola.

Que materiais são usados na ludoterapia?

A sala ou local onde a ludoterapia é realizada deve reunir algumas características, nomeadamente:

  • Ser um espaço insonorizado;
  • Não ter demasiada mobília ou decoração supérflua;
  • Paredes e chão de material facilmente lavável e resistente;
  • Espaço suficiente para permitir a movimentação da criança, mas não demasiado grande para evitar a dispersão e dificuldade do terapeuta acompanhar a criança.

Relativamente aos brinquedos utilizados na ludoterapia, estes devem estar à vista da criança, em pequenas estantes ou guardados numa mala, arca ou caixa. A acessibilidade dos materiais permite que a criança escolha por ela mesma o brinquedo que deseja.

Os brinquedos são os mediadores, facilitando as trocas e projeções entre a criança e o terapeuta. Estes facilitam o processo porque são o meio de comunicação da criança. O terapeuta não conduz a brincadeira, a criança deve poder brincar livremente. Alguns brinquedos utlizados são: bonecos que representam a família; figuras de soldados, índios, cowboys; figuras de animais; biberão; penico; utensílios de cozinha; pá e vassoura; telefone; peças de madeira; plasticina; material para desenhar e pintar; tesoura; bonecos de encaixa; livros; material médico de brincar; veículos automóveis de brincar; pistolas de brincar; caixa de areia; peças de construção como legos; bonecas e/ou casas de bonecas; entre outros.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.