Luto: como lidar com uma pessoa enlutada?

O luto é um processo humano, natural e inevitável, mas nem por isso menos doloroso. Pode ocorrer em qualquer fase do ciclo vital, emergindo quer sejamos crianças, jovens ou adultos. Perder faz, afinal, parte da vida, e é disso que se trata o luto: de perda.

Face a qualquer perda significativa, de uma pessoa ou até de um objeto estimado, inicia-se um processo necessário e fundamental para que o vazio deixado, com o tempo, possa voltar a ser preenchido. Esse processo é denominado de luto e consiste numa adaptação à perda.

Que situações podem desencadear um processo de luto?

Perda não é, necessariamente, sinónimo de morte e, por isso, o luto não é apenas corolário da morte. Outras situações que desencadeiam um processo de luto são:

  • Desemprego;
  • Divórcio;
  • Rutura de uma relação (amorosa, familiar, de amizade);
  • Diagnóstico de doença crónica e/ou grave (porque se verifica a perda da autonomia, do estilo de vida e muitas vezes da identidade tidos até então);
  • Perda de um animal de estimação;
  • Perdas financeiras / económicas.

Fazer” o luto?

Frequentemente ouvimos expressões como “fazer o luto” ou “não fez o luto”, transmitindo a ideia de que o luto é algo que se faz, se concretiza. Na verdade, o luto é um processo, uma construção quase sempre inacabada. Não tem um fim, não existe nele um ponto final.

Ainda assim, geralmente este processo é pautado por algumas fases ou tarefas, dependo da forma como é conceptualizado. Por um lado, podemos entendê-lo como um processo que decorre ao longo do tempo, desenrolando-se por fases:

  1. Negação e isolamento: negar, não factualmente, mas emocionalmente, a realidade da perda, como se tudo não passasse de um pesadelo, porque quando o mundo vira ao contrário custa-nos vê-lo com clareza (“foi como se não acreditasse, apesar de saber, achava que não podia ser verdade”);
  2. Revolta: contra o mundo, Deus, nós próprios ou outros, pela crise gerada na nossa vida (“zanguei-me com Deus por ter levado alguém tão bom”);
  3. Contrato mágico ou negociação: tentativa de pedir ou implorar para que se refaça a perda que, apesar de tudo, sabemos inevitável e irredutível (“pedi a Deus que me levasse a mim e não a ele”);
  4. Depressão: é o “cair da ficha”, o encarar a realidade e, com ela, a avalanche de tristeza e desânimo (“não me apetecia sair da cama, senti que a vida não tinha sentido”);
  5. Aceitação: a aceitação da realidade da perda, e a tentativa, gradual, de reconstruir a vida a partir daí (“percebi que não podia continuar a minha vida assim, comecei a aceitar o que ela me dá, por mais doloroso que seja”).

Por outro lado, o luto também pode ser visto como um processo em que a pessoa enlutada realiza uma série de tarefas necessárias para a adaptação à perda e reconstrução da vida:

  1. Aceitação da realidade da perda;
  2. Trabalhar as emoções e a dor da perda;
  3. Adaptar-se ao meio sem o falecido;
  4. Recolocar emocionalmente o falecido e continuar a viver.

Importa perceber que, independentemente da forma como se concetualize o luto, as fases e tarefas não são lineares. A vivência de algo tão complexo e multidimensional é altamente variável de pessoa para pessoa. As fases não são vividas necessariamente por essa ordem cronológica, nem as tarefas, e o tempo e forma de vivência são iguais. Pode-se não passar pela negação, ou permanecer na fase da revolta durante mais tempo, ou até chegar à aceitação e regressar, em dado momento, a um estado deprimido. Do mesmo modo, a adaptação à vida depois da perda pode ser intercalada com a vivência da dor e do sofrimento, sem que um se suceda ao outro de forma linear.

Podemos ver o luto como uma subida íngreme a uma montanha: por vezes ficamos cansados, às vezes caímos às arrecuas para trás, com a sensação de que voltamos à estaca zero, no entanto estamos a avançar, gradualmente, ao nosso ritmo.

Qual o impacto da perda?

Luto é, invariavelmente, gerador de sofrimento. No entanto, não existem expressões universais do luto, e as respostas à perda são influenciadas por fatores individuais, contextuais e culturais.

O impacto da perda manifesta-se a vários níveis, por vezes difíceis de dissociar. No entanto, para uma maior clarificação, serão aqui divididos:

  • Fisiológico: fadiga, alterações dos padrões de sono e alimentares, dores, alterações gastrointestinais, sensações físicas associadas ao sofrimento, falta de ar ou hipersensibilidade ao barulho;
  • Emocional: depressão, ansiedade, hipervigilância, raiva, culpa, solidão ou bloqueio emocional;
  • Cognitivo: confusão, sensação de irrealidade, pensamento repetitivo e centrado na perda, pensamentos intrusivos e indesejados, desesperança em relação ao futuro, dificuldades de atenção e concentração; podem também surgir alucinações numa fase inicial logo após a perda, geralmente relacionadas com a pessoa falecida;
  • Comportamental: irritabilidade, inquietação, evitamento de objetos ou situações que lembrem a pessoa falecida ou, pelo contrário, procura obsessiva por esta, choro e isolamento social;
  • Espiritualidade: mudança nas crenças religiosas do indivíduo ou na forma como ele vive a dimensão espiritual, podendo, por um lado, questionar as suas crenças ou, por outro, encontrar na religião e espiritualidade um suporte social, uma explicação para o sucedido e uma forma de atribuição de sentido e significado;
  • Saúde: os dados epidemológicos revelam um aumento da mortalidade associado ao luto, justificado quer por efeitos diretos ao nível do sistema imunológico e neuroendócrino, quer por efeitos indiretos na mudança de estilo de vida (alterações de sono, redução do apetite, pouca motivação para cozinhar, aumento do consumo de substâncias, ausência de atividades de lazer e menor vigilância de sintomas físicos indicativos de problemas de saúde);
  • Saúde mental: aumento da probabilidade de desenvolvimento de psicopatologia, sendo mais comum o desenvolvimento de Transtorno Depressivo Major, Transtornos de Ansiedade e Perturbação Pós-Stress Traumático.

Quais os sinais de alarme?

As reações acima indicadas constituem reações comuns e normativas após uma perda. Os sinais de alarme surgem quando as reações emergem de uma forma exacerbada e prolongada.

Trata-se, neste caso, de um luto complicado ou patológico, havendo necessidade de intervenção por parte de profissionais de saúde. O luto complicado distingue-se do luto não-complicado pela intensidade ou duração e não pela presença ou ausência de determinadas reações. Isto é, não é pela pessoa não chorar que se verifica um sinal de alarme mas pode sê-lo se, por exemplo, durante meses a pessoa vive e reage como se a perda nunca tivesse ocorrido.

Alguns sinais de alarme e fatores de risco importantes são:

  • Perdas múltiplas, isto é, quando morrem várias pessoas queridas simultaneamente, como ocorre por exemplo em catástrofes;
  • Mortes violentas, súbitas ou traumáticas (ex: suicídio, homicídio, terrorismo ou negligência);
  • Desaparecimento, rapto ou morte sem corpo;
  • Ausência de reações, por tempo prolongado, face à perda (agir como se a perda não tivesse ocorrido durante bastante tempo);
  • Vivência como se a pessoa se mantivesse viva, ou mantendo os seus pertences tal como estavam por tempo indeterminado;
  • Incapacitação e reações muito intensas que colocam em risco imediato a saúde da pessoa (ex: não se alimentar, ideação ou tentativas de suicídio);
  • Ocorrência de outros stressores em simultâneo com a perda (ex: perda de emprego, diagnóstico de doença, perdas económicas ou financeiras);
  • Perda estigmatizada ou não aceite socialmente (ex: suicídio, perda no âmbito de uma relação extraconjugal, aborto);
  • Problemas prévios de saúde mental na pessoa enlutada;
  • Ausência de suporte social e/ou familiar.

Intervir no luto: para quê?

O luto, por constituir crise e sofrimento emocional, pode tornar necessária a intervenção a nível psicológico.

Esta intervenção pode ser necessária e benéfica sempre que a pessoa considere que necessita de apoio para vivenciar e integrar a perda, quer seja em situações de luto patológico ou não-patológico. A intervenção permite:

  • Ajudar a pessoa a aceitar e integrar a perda;
  • Permitir identificar e expressar sentimentos e emoções associados à perda;
  • Tentar promover a capacidade de o indivíduo se adaptar à perda e continuar a viver, construindo um novo projeto de vida;
  • Facilitar o afastamento ou transformação da ligação emocional à pessoa falecida, promovendo o estabelecimento e investimento noutras relações;
  • Dar espaço para a pessoa fazer o luto, uma vez que este processo exige a vivência de várias tarefas de forma gradual;
  • Proporcionar um apoio contínuo, sobretudo necessário em períodos mais críticos que oscilam com períodos de maior capacidade de adaptação;
  • Examinar as estratégias de coping, cognições, crenças e competências socioemocionais do indivíduo, auxiliando-o a uma (re)construção positiva destas;
  • Auxiliar na capacidade de resolução de problemas.

Como lidar com uma pessoa enlutada?

Sendo o luto um processo inevitável, é também inevitável o contacto com a perda de terceiros. Muitas vezes, surge o constrangimento, o não saber o que dizer, o receio de que as palavras magoem mais, ou de que não digam o suficiente. Não existem receitas universais para lidar com o luto, pois o sofrimento é pessoal e inigualável, no entanto seguem algumas dicas importantes no contacto com uma pessoa enlutada:

  • Permitir à pessoa a expressão das suas emoções e sentimentos, ouvindo-a com interesse genuíno;
  • Não forçar a pessoa a suprimir as suas emoções negativas, tentando a todo o custo “animá-la” ou “distrai-la”; permitir que a pessoa expresse e viva o seu sofrimento é importante;
  • Encontrar o equilíbrio entre dar apoio e suporte à pessoa e permitir que tenha o seu próprio espaço pessoal e respeitar os momentos em que precise de estar sozinha (ex: não encher a casa todos os dias de gente se a pessoa também precisa de momentos de maior silêncio e espaço pessoal);
  • Ajudar a pessoa em questões pragmáticas, porque muitas vezes não se encontra emocionalmente disponível para resolver essas questões (ex: tratar do funeral, levar os filhos à escola, resolver questões de trabalho, fazer as refeições, etc);
  • Ser empático e validar a resposta emocional da pessoa;
  • Ajudar a que a pessoa tenha segurança e privacidade;
  • Mobilizar os seus recursos pessoais e sociais, ajudando a que não esteja isolada (ex: contactar familiares próximos ou pessoas com as quais se sinta segura);
  • Não culpabilizar o indivíduo pelas suas ações ou sentimentos;
  • Não tente mascarar ou reprimir o seu próprio sofrimento por medo de deixar a pessoa mais fragilizada; a expressão de emoções é uma forma genuína de mostrar que também está a sofrer, que compreende a dor do outro e que a expressão emocional é natural e saudável;
  • Procurar respeitar a forma de vivenciar o luto, não tentando impor-lhe formas “corretas” de o fazer (ex: vestir preto, visitar o cemitério, guardar ou desfazer-se dos pertences, etc.; tudo isto deve ser vivido de forma pessoal e deve ser uma escolha de cada um);
  • Encontrar um equilíbrio entre permitir que a pessoa fale sobre a perda e permitir também que gradualmente possa falar e centrar-se noutros assuntos e aspetos. Não forçar nem a falar sobre a perda nem exigir que deixe de o fazer;
  • Não minimizar nem desvalorizar a dor da outra pessoa (ex: evitar frases comuns como “a vida continua”);
  • Não impor crenças que não sabemos se são partilhadas pela outra pessoa ou que podem ser interpretadas como desvalorização (ex: que a pessoa foi para o céu, ou que está num lugar melhor);
  • Permitir a recordação da pessoa perdida, revisitar memórias ou fotografias, pois isto auxilia no processo de integração e adaptação à perda;
  • Estar perto e disponível, sem ser intrusivo.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.

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