Mecanismos de defesa: o que são, formação e características

Os mecanismos de defesa não mais são que estratégias que utilizamos, muitas vezes de forma inconsciente, para nos protegermos de emoções ou evitarmos confrontá-las. Produto da mente e do nosso modo de funcionamento interno, pode ser complexo compreender os mecanismos de defesa, mas ao mesmo tempo importante.

Perceber os mecanismos de defesa que utilizamos pode fazer com que consigamos alterar determinados padrões de funcionamento pouco adaptativos. Deste modo, neste artigo explicaremos o que são os mecanismos de defesa, como surgem, quais os principais mecanismos de defesa que utilizamos e como conseguir geri-los.

O que são mecanismos de defesa?

Os mecanismos de defesa são processos internos, subconscientes ou inconscientes, que surgem com o objetivo de proteger a integridade do nosso ego em diversas situações que a consciência não consegue resolver.

Os mecanismos de defesa surgem para proteger o nosso ego. Quando não conseguimos lidar com determinadas situações, por serem demasiado exigentes emocionalmente ou ameaçadoras, os mecanismos de defesa surgem. Por isso mesmo, são processos geralmente inconscientes, não nos apercebemos que estamos a utilizar os mecanismos de defesa ou que eles estão presentes.

Todos os nós, em dado momento e de alguma forma, acabamos por utilizar mecanismos de defesa, em maior ou menor grau. São uma forma de nos adaptarmos às situações e de minimizarmos o desconforto causado por elas. Assim, os mecanismos de defesa têm uma função adaptativa e ajudam-nos a proteger do perigo, da ansiedade, do desconforto, da angústia.

Deste modo, se presentes de uma forma equilibrada, os mecanismos de defesa não têm necessariamente de ser uma coisa negativa. No entanto, se usados de forma excessiva podem ser destrutivos e impedir-nos de ligar com os acontecimentos, de os processar e integrar, podendo ainda levar a que desenvolvamos padrões de funcionamento, pensamento e relacionamento desadaptativos.

Características dos mecanismos de defesa

Há algumas coisas importantes a termos em conta sobre os mecanismos de defesa. Uma delas é que os mecanismos de defesa surgem em todas as pessoas. Todos nós, de alguma forma e em algum momento, acabamos por fazer uso dos mecanismos de defesa. Assim, podemos considerá-los um processo mental normativo, que só se torna negativo ou patológico se utilizado de maneira excessiva e autodestrutiva.

Outro aspeto fundamental é percebermos que os mecanismos de defesa não são usados ou empregados de forma consciente. Quando usamos um mecanismo de defesa, não temos consciência de o estar a fazer. Podemos, mais tarde, ao refletir, compreender que de facto o fizemos, mas no momento fazemo-lo de forma automática e inconsciente.

O mecanismo de defesa que vai atuar em determinado momento irá depender da natureza da situação, mas também das características da própria pessoa. Ou seja, situações iguais podem gerar mecanismos de defesa distintos em pessoas diferentes.

Quando usamos um mecanismo de defesa e este é eficaz e ajuda-nos a reduzir o desconforto e o sofrimento, teremos tendência a passar a utilizar esse mesmo mecanismo de defesa para resolver novos conflitos.

O uso excessivo e prolongado dos mecanismos de defesa por ser destrutivo e ter consequências negativas no nosso ajustamento aos vários domínios de vida. Alguns mecanismos de defesa podem ser mais negativos e destrutivos, como por exemplo a repressão ou negação, que se usadas em excesso nos impedem de processar e integrar as situações que vivenciamos.

Podemos, inclusivamente, distinguir entre mecanismos de defesa adaptativos e mecanismos de defesa desadaptativos. Os mecanismos de defesa adaptativos são aqueles que nos permitem diminuir a angústia e a ansiedade. Contrariamente, os mecanismos de defesa desadaptativos são aqueles que não nos ajudam a diminuir a ansiedade e ainda acabam por constituir um ciclo de repetições e um padrão de comportamento ou funcionamento pouco saudável.

Quando os mecanismos de defesa falham, podem acontecer efeitos nefastos nos nossos comportamentos, podendo mesmo originar perturbações psicopatológicas.

Como são formados os mecanismos de defesa?

Como vimos, os mecanismos de defesa são formas de proteção do ego. Como tal, eles são formados pela necessidade, criada pelo facto de vivermos situações adversas, que ameaçam a integridade do nosso ego e da nossa autoestima, ou que são demasiado exigentes emocionalmente.

A base dos mecanismos de defesa é a angústia, pelo que quanto mais angustiados nos sentirmos, mais provável é que desenvolvamos mecanismos de defesa, e mais fortes estes serão. Quando estamos perante um conflito interno, isso cria em nós angústia. Essa angústia faz com que queiramos resolver esse problema.

No entanto, nem sempre conseguimos resolver o problema de uma forma direta ou imediata, uma vez que as nossas dificuldades ou problemas não podem ser resolvidas apenas pela via da razão. Isto porque os problemas pessoais geralmente têm uma carga emocional associada que diminui a nossa objetividade. Consequentemente, somos levados a resolver esses problemas de forma indireta, procurando um ajustamento para nos adaptarmos às exigências existentes e impostas socialmente.

Basta pensarmos, por exemplo, que muitos problemas que vivemos nos relacionamentos fazem com que, por vezes, nos sintamos mal connosco próprios, que nos possamos sentir culpados por agirmos mal, por não agirmos da melhor forma. Consequentemente, temos dificuldade em lidar com essa culpabilização, porque ela ameaça a nossa autoestima. Como tal, recorremos a mecanismos de defesa para nos protegermos, para evitarmos lidar com as verdadeiras implicações da situação ou para, por exemplo, atribuirmos a responsabilidade a outra pessoa.

Também quando perdemos alguém muito importante, e passamos por um luto, é normal no início usarmos como mecanismo de defesa a negação. Sabemos que aconteceu, mas parece que ainda não “caiu a ficha”, porque não estamos capazes ainda de, emocionalmente, encarar e processar a situação.

Quais os principais mecanismos de defesa?

Para melhor compreendermos o que são os mecanismos de defesa e o seu propósito, é importante analisarmos separadamente cada um dos principais mecanismos de defesa:

1. Negação

A negação é o mecanismo de defesa que utilizamos quando nos recusamos a aceitar a realidade ou verdade de determinada experiência. Um exemplo deste mecanismo de defesa pode ser pensarmos “eu só fumo socialmente e isso não tem problema”. Estamos a ignorar a realidade dos factos e a escolher um pensamento que é menos doloroso e que nos permite evitar confrontar com os aspetos negativos de um hábito que de alguma forma queremos manter.

Podemos ainda pegar num exemplo mais simples, como quando temos um projeto de trabalho importante para realizar e, apesar de não estar a cumprir as coisas como deveria, pensa “vai correr tudo bem, quando chegar à altura eu tenho isto pronto para entregar”.

Negar a realidade é um mecanismo de defesa que nos faz proteger a nossa autoestima e o nosso ego. A negação por vezes também é utilizada por vítimas de desastres e situações traumáticas, sendo uma resposta protetora inicial benéfica, uma vez que no momento de choque emocional inicial não estamos capazes de lidar ou processar a situação.

No entanto, a longo prazo a negação pode-nos impedir de incorporar informações desagradáveis sobre certas circunstâncias da nossa vida e isso leva-nos a consequências potencialmente destrutivas;

2. Repressão

A repressão é um mecanismo de defesa que envolve esquecermo-nos de algo mau. Podemos esquecer ou reprimir uma experiência desagradável e adversa do passado ou também reprimirmos alguma coisa desagradável que não queremos fazer (como ir a um encontro com uma pessoa que não queremos).

A repressão pode ser temporariamente benéfica, sobretudo quando reprimimos algo mau que nos aconteceu, mas a longo prazo a utilização contínua deste mecanismo de defesa é prejudicial porque nos impede de processar e integrar devidamente as experiências e aprender com elas;

3. Regressão

A regressão é um mecanismo de defesa no qual voltamos a um estado emocional infantil, no qual os nossos medos inconscientes, angústias e ansiedades, reaparecem. Em condições de tensão podemos ter tendência a reverter para estados mais infantis e emoções mais primitivas e antigas, dando origem a este mecanismo de defesa.

Um exemplo de regressão pode ser o pico emocional em que ficamos quando estamos presos no trânsito. Outro exemplo é quando desenvolvemos dependência emocional numa relação amorosa, ou quando nos encolhemos debaixo dos cobertores depois de um dia mau.

4. Deslocamento

Este é um mecanismo de defesa no qual nós transferimos os nossos sentimentos primários e originais (geralmente destrutivos, como a raiva) para longe da pessoa que é algo deles e os dirigimos a uma vítima mais infeliz e inofensiva. Imagine, por exemplo, que o seu chefe ou superior fez algo que o desagradou e o fez sentir raiva. Como não pode dirigir ou expressar essa raiva ao seu superior, por receio das consequências, acaba por descarregar na sua família quando chega a casa.

Assim, este mecanismo de defesa consiste em mudar os sentimentos da fonte provocadora de ansiedade para alguém que será menos provável de nos causar consequências negativas.

Embora este mecanismo de defesa nos possa proteger de consequências mais negativas no momento (como ser despedido), a longo prazo pode degradar as nossas relações pessoais. Além disso, ao deslocarmos a nossa raiva, ela não vai desaparecer nem se resolver.

5. Projeção

Este mecanismo de defesa parte do princípio de que há características e partes suas que pode não gostar e que lhe podem causar dor. Como tal, sentimos necessidade de as projetar noutras pessoas.

Imagine, por exemplo, que vê uma peça de roupa da qual gosta bastante, mas depois veste-a e em si fica mal. Ainda assim, veste essa roupa e vai a um jantar com os seus amigos. Ao entrar, tem a impressão de que eles ficam a olhar para si. Os seus amigos não fizeram nem disseram nada que possa ser interpretado como uma crítica, no entanto, a sua insegurança relacionada com a roupa leva-o a projetar os seus sentimentos nos seus amigos, e pode até deixar escapar uma frase como “porque é que estão a olhar para mim dessa maneira? não gostam da minha roupa?”.

De uma forma mais global, podemos usar este mecanismo de defesa projetando os nossos sentimentos de culpa e insegurança noutras pessoas.

5. Formação da reação ou formação reativa

Este mecanismo de defesa ocorre quando expressamos o oposto daquilo que estamos a sentir internamente. Por exemplo, imagine que sente inveja de determinada pessoa e gostava de ser como ela ou de ter o que ela tem. Em vez de expressar isto, tenta fazer o oposto, demonstrando que não quer estar perto da pessoa e que despreza tudo o que ela tem ou representa.

6. Intelectualização

Este mecanismo de defesa consiste em tentarmos neutralizar os nossos estados emocionais, como ansiedade ou raiva. Afastamo-nos da reação emocional ou do sentimento, por causarem desconforto ou incómodo, e racionalizamos esse sentimento.

Por exemplo, em vez de enfrentarmos o sofrimento e a rejeição sentida depois de alguém terminar um relacionamento amoroso connosco, decidimos realizar uma análise ao nosso orçamento e ao quanto agora podemos gastar ao mudar a rotina com o fim da relação ou ao passarmos a morar sozinhos. Estamos, de certa forma, a evitar pensar nas consequências emocionais focando-nos nas consequências locais e racionais.

7. Racionalização

Este mecanismo de defesa é utilizado quando temos necessidade de neutralizar e justificar, de alguma forma, comportamentos menos positivos da nossa parte ou atitudes das quais nos arrependemos. É mais fácil, por exemplo, culparmos alguém por algo que aconteceu do que assumirmos a responsabilidade, sobretudo quando nos sentimos envergonhados ou embaraçados.

Por exemplo, imagine que numa conversa com um amigo acaba por explodir e dizer coisas de que se arrepende. Para se sentir melhor depois, atribui a sua explosão a algo fora do seu controlo, à atitude das pessoas que deveriam saber que o estavam a incomodar, etc.

8. Sublimação

Este mecanismo de defesa desenvolve-se durante um longo período de tempo e ocorre quando transformamos as nossas emoções conflituosas em algo produtivo. Por exemplo, imaginemos um lutador de boxe profissional que converte os seus impulsos hostis em algo que pode utilizar no desporto e que é aceitável pela sociedade.

Outro exemplo é: pessoas que vão trabalhar para áreas humanitárias ou de serviços humanos para, inconscientemente, compensar dificuldades experimentadas a nível emocional no início das suas vidas.

9. Anulação

A anulação consiste em utilizarmos determinados rituais ou comportamentos para desfazer algo negativo. Por exemplo, alguém fazer o sinal da cruz para afastar um pensamento negativo ou pecaminoso.

10. Idealização

Consiste em vermos algo ou alguém apenas a partir de aspetos negativos, atribuindo qualidades de perfeição. Um exemplo fácil deste mecanismo de defesa é a forma como os adolescentes idealizam os seus ídolos.

11. Expiação

Este mecanismo de defesa surge pela necessidade de “pagarmos” pelos nossos erros no imediato. Ou seja, incapazes de lidar com o sentimento de culpa, precisamos de expiar ou projetar esta angústia. Daí que muitas vezes tenhamos necessidade de encontrar um “bode expiatório” para colocar a culpa.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.