Necessidade de aprovação: o desejo de ser aceite pelos outros

A necessidade de aprovação e validação é algo que, de uma forma geral, é comum a todas as pessoas. Somos seres sociais, vivemos em sociedade, e precisamos de sentir que somos aceites e estimados pelas pessoas que nos rodeiam. No entanto, esta necessidade de aprovação pode ser excessiva e tornar-se, assim, num problema que mina a nossa autoestima.

Neste artigo explicaremos em que consiste de facto esta necessidade de aprovação, porque é que temos esta necessidade, quando é que ela se torna excessiva e como conseguir equilibrá-la.

O que é a necessidade de aprovação?

A necessidade de aprovação, ou validação, é a necessidade que temos de que as pessoas à nossa volta aprovem ou validem o que somos, as nossas escolhas, decisões ou feitos. A necessidade de aprovação reflete o facto de fazermos depender o nosso valor em alguma coisa da aprovação e opinião dos outros. É algo transversal a todas as pessoas e não é uma necessidade má, mas sim uma necessidade natural e humana.

Assim, a necessidade de aprovação ou o desejo de ser aceite pelos outros é algo natural que acaba por nos mover a todos de alguma forma. Todos nós, em maior ou menor grau, procuramos agir de acordo com aquilo que é esperado de nós, para minimizarmos os riscos de rejeição e deceção. Esta necessidade de aprovação está relacionada com a desejabilidade social, ou seja, ao facto de todos nós desejarmos, de uma forma geral, ser “bem-vistos” pelas outras pessoas. Esta desejabilidade social faz com que, muitas vezes, guiemos as nossas ações por aquilo que achamos que a outra pessoa quer ou espera.

Quais as causas da necessidade de aprovação?

Ao percebermos que a necessidade de aprovação é transversal a todas as pessoas, podemos questionar-nos: mas porquê? Porque é que precisamos tanto de nos sentirmos aceites e validados pelos outros? Trata-se, na realidade, de um instinto de sobrevivência inato que já faz parte das nossas características enquanto seres-humanos. Desde os nossos primeiros antepassados que a nossa sobrevivência sempre dependeu da pertença a um grupo, sendo a proteção desse grupo essencial para a nossa sobrevivência.

Por isso, é natural que este legado nos tenha deixado com esta necessidade de sermos aceites pelos outros. Embora hoje em dia possamos conseguir sobreviver, no sentido mais literal do termo, sem pertencermos a um grupo, a validação e pertença continuam a ser extremamente importantes e necessárias. Sabemos que quando não somos aceites podemos não conseguir construir relações, ter um emprego, ser bem-sucedidos… Assim, a necessidade de aprovação é sem dúvida uma necessidade natural e legítima.

No entanto, se em níveis equilibrados a necessidade de aprovação é uma coisa normal e não necessariamente negativa, quando ela ultrapassa esse equilíbrio, torna-se em algo prejudicial e limitador.

Os níveis de necessidade de aprovação variam?

Apesar de a necessidade de aprovação ser algo transversal a todas as pessoas, a realidade é que pessoas diferentes podem ter níveis ou graus de necessidade de aprovação diferentes. Isto acontece por diversos fatores.

Por um lado, questões de personalidade podem ditar o quão forte é a nossa necessidade de aprovação. Há pessoas que, por natureza, têm traços que fazem delas mais ou menos dependentes dos outros e da sua aprovação. Pessoas com uma baixa autoestima terão tendência a ter níveis de necessidade de aprovação mais elevados.

Por outro lado, temos também de ter em conta os fatores ambientais e de história de vida. Pessoas que vivenciaram durante a sua vida situações nas quais se sentiram rejeitadas, ou pessoas que durante a sua infância receberam com alguma frequência mensagens negativas sobre si próprias, terão tendência a ser mais inseguras e, consequentemente, a procurar a aprovação e o elogio dos outros.

De um modo geral, as pessoas que conseguiram construir um sentido coerente e saudável de si mesmas, que têm uma autoestima saudável e equilibrada, conseguem ter níveis de necessidade de aprovação mais equilibrados. E níveis equilibrados são aqueles em que a pessoa, embora obviamente também precise de se sentir validada e reconhecida pelos outros, é capaz de também se validar a si mesma internamente. É, por exemplo, alguém que sabe que fez um bom trabalho mesmo que ninguém lho diga, ou sem precisar que isso seja constantemente referido pelos outros.

A minha necessidade de aprovação é excessiva?

Podemos perceber se a necessidade de aprovação é excessiva observando determinados sinais de alerta, tais como:

  • Não conseguir expressar a opinião: um dos sinais de uma excessiva necessidade de aprovação é o facto de a pessoa não se conseguir expressar, ou seja, não conseguir dizer aquilo que pensa e sente, sobretudo quando a sua opinião é contrária à dos outros. Isto acontece porque a pessoa tem tanto receio de que os outros não a aceitem ou que formem uma imagem negativa dela, que dizem tudo aquilo que acham que a pessoa quer ouvir, e não aquilo que realmente pensam;
  • O estado emocional e humor depende excessivamente dos outros: ou seja, aquilo que os outros fazem ou dizem tem um grande impacto na forma como a pessoa se sente. Um comentário negativo é o suficiente para a pessoa se sentir extremamente em baixo e para lhe estragar o resto do dia. Às vezes nem é preciso um comentário negativo, basta ter feito algo e não ter recebido um elogio ou valorização por isso, para se sentir triste ou desanimada;
  • Dificuldade em dizer não: esta característica segue a mesma linha da primeira, da dificuldade em expressar o que se pensa e sente. Alguém que procura excessivamente agradar os outros, ou seja, que tem uma excessiva necessidade de aprovação, tem muita dificuldade em dizer que não a um pedido ou favor, pois considera que se o fizer a pessoa vai ficar zangada ou não vai pensar de forma positiva sobre si. Como a pessoa quer agradar o outro a todo o custo, sentir-se-á impelida a dizer sempre que sim, mesmo que isso a prejudica;
  • Tendência para a introversão: ou seja, tendência a ser mais reservado ou ficar mais calado por medo que, se disser ou fizer algo, pode ser mal viso pelos outros. É o medo de ser ridículo ou de ser julgado negativamente, levando então a preferir uma postura mais passiva;
  • Preocupação excessiva relativa à própria imagem, aparência ou forma de agir, por referência ao receio da opinião, julgamento e avaliação dos outros.
  • Priorizar as necessidades dos outros em vez das suas;

O que mantém os níveis excessivos?

É também importante percebermos porque é que, quando a necessidade de aprovação é demasiado elevada e por isso prejudicial, ela se mantém. A necessidade de aprovação excessiva é mantida por mecanismos da nossa mente, chamados de distorções cognitivas.

As distorções cognitivas são lapsos típicos da nossa mente, nos quais interpretamos a realidade de forma enviesada, de acordo com as nossas próprias crenças, medos e receios, e não de forma objetiva.

Algumas das distorções cognitivas que estão na base da necessidade de aprovação são:

  • Leitura da mente: tendência a achar que se sabe o que os outros estão a pensar, por exemplo “de certeza que ele não me ligou porque me achou ridículo”;
  • Generalização: tendência a achar que, porque uma coisa aconteceu uma vez, então vai acontecer sempre. Por exemplo, acreditar que se uma vez fez algo que foi alvo de crítica, se tentar fazer isso novamente, vai ser outra vez alvo de crítica;
  • Rotulação: tendência a atribuir a si próprio rótulos ou características negativas.

Estas distorções cognitivas têm na sua origem crenças mais profundas e medos enraizados, como o medo da perda, o medo da rejeição, o medo da crítica e do julgamento ou avaliação negativa, entre outros.

Assim, o que sustenta a necessidade de aprovação excessiva são crenças irracionais e pensamentos automáticos negativos. A crença é algo mais profundo, que faz parte da forma como lemos o mundo, os outros e a nós próprios. O pensamento automático negativo surge no momento em que algo está a acontecer, e é formado a partir das crenças irracionais.

Uma crença irracional de base que está presente, de forma inconsciente, em muitas pessoas que têm uma necessidade de aprovação excessiva, é “preciso que toda a gente goste de mim para ser feliz” ou “tenho de ser aceite por todas as pessoas” ou ainda “se toda a gente não me aceitar, então eu sou um fracasso”.

No fundo, as crenças irracionais são interpretações enviesadas e ilógicas da realidade. São padrões de pensamento, de interpretação da realidade, disfuncionais e que fazem com que se gerem também padrões de comportamento e funcionamento pouco saudáveis.

Consequências da necessidade de aprovação excessiva

Quando excessiva, a necessidade de aprovação leva a várias consequências que operam a diferentes níveis. Por um lado, quando necessitamos demasiado da aprovação dos outros, acabamos por não conseguir viver de uma forma genuína e autêntica, respeitando aquilo que de facto nos faz felizes. Por causa disto, acabamos por deixar de arriscar, de seguir aquilo que queremos, de perseguir os nossos reais objetivos, de aceitar desafios. Tudo isto gera um consequente desânimo e um medo constante, que se vai alimentando. Ou seja, não fazemos as coisas por medo, e quanto menos fazemos as coisas, mais medo vamos tendo. É um ciclo vicioso.

Neste ciclo vicioso, acabamos muitas vezes por sacrificar relações pessoais, objetivos profissionais, projetos e sonhos. Além disso, sacrificamos constantemente a nossa autoestima. De facto, a primeira a sofrer com a nossa necessidade de aprovação excessiva é, de facto, a nossa autoestima e o nosso amor-próprio, que são fundamentais para a nossa saúde psicológica.  

Ao procurarmos de forma constante a aprovação dos outros, condenamo-nos à frustração, porque na realidade é impossível ser aprovado e aceite por toda a gente, já que cada pessoa tem perspetivas e gostos distintos.

Ao procurarmos constantemente e excessivamente a aprovação dos outros, estamos a fechar portas a oportunidades e a criar um terreno fértil para a ansiedade, a frustração, o stress e até a depressão.

Sendo frequentemente a necessidade de aprovação a única motivação para fazer e alcançar coisas, com o tempo isto dará lugar a um vazio e a níveis de stress muito elevados. Isto porque os desafios são sempre encarados segundo a perspetiva dos outros e não da própria pessoa, levando-a muitas vezes a fazer coisas que não têm real sentido ou não são importantes.

Como equilibrar a necessidade de aprovação?

Como vimos,  a necessidade de aprovação em si não é uma coisa má, todas as pessoas gostam de se sentir apreciadas pelos outros e isso é algo humano e natural. Deste modo, o objetivo não deve ser o de deixar totalmente de precisar da aprovação dos outros, mas sim de que essa necessidade seja equilibrada. O importante é conseguir equilibrar a aprovação dos outros com a sua própria aprovação. É fundamental que consiga também avaliar-se segundo os seus próprios critérios, segundo o seu próprio olhar, e não única e exclusivamente a partir do olhar dos outros.

Algumas estratégias que podem ajudar a diminuir a necessidade de aprovação são:

  • Avaliar os custos e benefícios de procurar a aprovação dos outros constantemente: para se sentir motivado para mudar, primeiro é importante que consiga analisar o custo-benefício de fazer essa mudança. Pense, então, sobre o que ganha em procurar a aprovação dos outros, em que circunstâncias ela é importante ou não, e quais as vantagens de conseguir depender menos dessa aprovação;
  • Questionar e analisar as suas crenças e pensamentos disfuncionais: coloque os seus pensamentos e crenças em perspetiva e questione-os. Adote uma nova perspetiva, aquela que o permite perceber que não conseguimos nunca agradar a todas as pessoas, há sempre alguém que não vai concordar connosco ou que não vai gostar de algo que nós fazemos. O facto de alguém não concordar connosco não diz nada sobre nós, apenas diz algo sobre a opinião da outra pessoa;
  • Seja menos exigente consigo mesmo, percebendo que não tem de ser exímio em tudo e muito menos tem de agradar a toda a gente porque, como vimos, isso é impossível;
  • Invista no seu autoconhecimento, ou seja, compreenda e reflita sobre a pessoa que é, aquilo que gosta, quais os seus pontos fortes e pontos a melhorar… Uma vez que tem tendência a guiar-se demasiado pelo que os outros querem ou esperam, acaba por se esquecer do que realmente quer, das suas próprias preferências pessoais. Assim, reflita sobre isto, se necessário escreva num papel. Perceba o que de facto quer, o que gosta, quais são os seus objetivos, valores e princípios…
  • Ouça-se mais a si próprio, aprendendo a perceber as suas necessidades do momento, o que quer fazer e o que sente. Em vez de se guiar pelo que os outros esperam, pergunte-se: o que eu quero? o que acho sobre isto? o que é importante para mim nesta situação?
  • Aprenda a lidar com a discórdia e desaprovação, percebendo que não é sinónimo de rejeição, ou seja, as pessoas podem não concordar connosco e não aprovar tudo o que fazemos, e isso não significa que nos rejeitem ou não gostem de nós;
  • Faça psicoterapia! Todas as estratégias acima são fundamentais, mas por vezes pode ser difícil aplicarmo-las sozinhos. A psicoterapia auxiliária a desconstruir padrões de pensamentos e crenças irracionais, a desenvolver novos modos de funcionamento e pensamento e a conseguir criar estratégias para diminuir a sua necessidade de aprovação e potenciar a sua autoestima e autoconfiança, bem como o seu amor-próprio!

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.