Neurose: o que é, sintomas, causas, tipos e características

A neurose diz respeito a um estado psíquico de mal-estar ou desequilíbrio. É um conceito que advém sobretudo da psicanálise e que nem sempre é utilizado da forma correta. Para ajudar a clarificar, neste artigo explicaremos o que é a neurose e quais as suas principais características e sintomas associados.

O que é a neurose?

A neurose é um estado psíquico ou mental característico de distúrbios psicológicos leves, onde não há distorção da realidade. Por outras palavras, a neurose designa quadros clínicos com origem psíquica ou psicológica, muitas vezes ligados a situações adversas na vida da pessoa, que provocam alterações a nível psicológico e emocional.

A neurose consiste num estado de conflito interno ou intrapsíquico, gerando angústia. Assim, a neurose pode descrever qualquer transtorno mental ou psicológico que seja passível de causar tensão e que interfere com o modo de funcionamento racional e funcional habitual da pessoa.

Quais os sintomas da neurose?

Os principais sintomas que caracterizam a neurose são a insatisfação geral, as manias, mentiras, problemas de comportamento, ansiedade, etc.

Um estado neurótico pode levar a crises de choro ou pensamentos negativos. Pode também ser característico de pessoas demasiado emotivas, com reações emocionais muito exacerbadas e dificuldade em gerir e exercer controlo sobre as suas emoções.

Uma forma simples de compreendermos o conceito de neurose é quando, por exemplo, dizemos que alguém tem uma “neura”, como referência a alguma mania ou dificuldade emocional que a pessoa apresenta. De facto, a palavra neura é usada por referência à neurose, para descrever algum tipo de comportamento atípico. Por exemplo, alguém que se preocupa em excesso com a limpeza e arrumação pode apresentar uma neurose (neste caso associada a um padrão obsessivo-compulsivo).

Segundo a psicanálise, a neurose acontece por a pessoa tentar, sem sucesso, lidar com conflitos e traumas inconscientes. De facto, o conceito de neurose está diretamente relacionado com a psicanálise e teoria psicanalítica e à forma como esta explica a origem dos problemas de saúde mental ou psicológica. Por essa mesma razão, profissionais de saúde mental com outra orientação teórica acabam por não utilizar o termo neurose. Em vez disso, referem-se às perturbações mentais pelos seus sintomas e não pelas suas causas.

Como surgiu o termo “neurose”?

Como vimos, o termo neurose tem origem na psicanálise. Inicialmente e antes de que a psiquiatria e a psicologia tivessem um maior desenvolvimento, neurose era o termo usado para fazer referência a uma grande variedade de perturbações psicológicas e distúrbios nervosos com interferência na personalidade e normal funcionamento da pessoa.

A primeira vez que o termo neurose foi utilizado foi em 1769, por William Cullen, um médico escocês que acreditava que estas patologias estavam associadas a uma má gestão emocional. Em 1893, Sigmund Freud traz uma nova definição para o conceito de neurose, fazendo referência à forma como as pessoas se relacionam consigo mesmas e como reagem às circunstâncias da vida.

Assim, a neurose tornou-se um dos conceitos principais da psicanálise de Freud. Este acreditava que o sofrimento e angústia eram causados pelo inconsciente, e que seria no inconsciente que se geravam as raízes da neurose.

Deste modo, Freud definiu diferentes categorias de neuroses:

  • Neuroses atuais, sendo aquelas que resultavam de impedimentos da satisfação sexual;
  • Neuroses narcísicas, que originavam os quadros neuróticos;
  • Neuroses de transferência, como a presença de bloqueios emocionais, mecanismos de defesa, fobias, etc.

Quais as causas da neurose?

A forma como entendemos as causas da neurose sofreu variações ao longo do tempo. Inicialmente, segundo a teoria psicanalítica, Freud considerou que a neurose acontecia devido a um conflito entre o nosso lado consciente e o nosso lado inconsciente. Defendia que existia um conflito entre o nosso “eu” racional e as nossas vontades instintivas e impulsivas.

Outra teoria sobre as origens da neurose remete-a para a infância, sendo que o desequilíbrio característico da neurose seria originado por eventos adversos e questões vividas na fase inicial da vida. Ou seja, as situações, memórias e emoções que reprimimos para nos protegermos, poderiam dar origem à neurose.

Deste modo, quando passamos por uma situação negativa que afeta o nosso equilíbrio emocional, podemos estar a tentar substituir traumas do passado por uma realidade mais satisfatória.

De forma geral e em jeito de conclusão, as causas da neurose podem ser variadas e dependerão da perspetiva, sendo importante uma análise caso a caso para uma compreensão mais correta e objetiva.

Qual a diferença entre neurose e psicose?

Enquanto que na neurose há um mal-estar emocional do qual a pessoa tem consciência, sendo consciente dos seus atos e comportamentos, na psicose não há esta consciência. Ou seja, na psicose existe uma perda de noção da realidade, o que não acontece na neurose. A psicose não é uma doença, mas sim um estado ou sintoma resultante de doenças, como por exemplo, a esquizofrenia.

Na neurose a autonomia psíquica é perdida apenas parcialmente, não tendo grandes implicações na personalidade da pessoa, enquanto na psicose há uma maior perda de autonomia e interferência ao nível da personalidade. Deste modo, a neurose está na origem de quadros psicopatológicos menos graves do que a psicose. Se a neurose pode ser gerida de forma individual pela própria pessoa ou então com a ajuda da psicoterapia, a psicose geralmente exige tratamento psiquiátrico.

No que diz respeito às causas, enquanto a neurose tem geralmente origem funcional ou psicogénea, a psicose tende a ter causas mais orgânicas.

Se a neurose compromete a emoção, o equilíbrio emocional, já a psicose compromete a própria razão e perceção da realidade. Também por este motivo, o neurótico não perde a noção da realidade, enquanto que o psicótico sim. Similarmente, na neurose existe uma consciência do mal-estar emocional, enquanto que na psicose muitas vezes a pessoa não tem consciência do seu estado psíquico.

Nas relações com os outros, a neurose não impede que a pessoa continue devidamente integrada. Por outro lado, na psicose há uma disrupção no relacionamento com os outros e dificuldade em manter relações integradas, funcionais e saudáveis.

Para melhor compreendermos esta diferença, pode ser importante considerarmos um exemplo. Uma pessoa com perturbação de pânico inserir-se-ia na neurose, já que tem um problema de ansiedade que não consegue controlar, mas do qual tem plena consciência. Por outro lado, a psicose aplicar-se-ia a uma pessoa com esquizofrenia, que tem delírios e alucinações e não é consciente da sua rutura com a realidade.

Características de uma pessoa neurótica

Uma pessoa com um quadro de neurose apresenta, geralmente, grandes apreensões e angústias acerca de diferentes aspetos da sua vida e do mundo à sua volta. Quando há um quadro de neurose presente, a pessoa geralmente revela uma vulnerabilidade emocional e tem dificuldade em lidar com críticas ou mudanças.

Uma pessoa com neurose geralmente revela uma preocupação excessiva e exacerbada, sendo que estas preocupações têm por vezes origem em questões do passado ou experiências adversas que a pessoa vivenciou. A pessoa com neurose é geralmente instável emocionalmente e tem tendência a antecipar e prever cenários negativos, tendo por isso pensamentos negativos persistentes e dificuldade em geri-los e modificá-los. Assim, há uma tendência, na pessoa com neurose, para estar constantemente em estado de tensão e a sofrer por antecipação.

Quando a neurose se agrava, a pessoa que dela padece pode acabar por desenvolver perturbações diversas e sintomas tais como: medos, fobias, ansiedade, paranoia, sentimentos de vazio, apatia, isolamento social, angústia, pessimismo, melancolia, insónia, pessimismo…

Quais os tipos de neurose?

Podemos identificar diferentes tipos de neurose, algumas originárias nas primeiras definições do termo, derivadas da psicanálise freudiana, e outras mais recentes:

  • Neurose atual: como vimos, este tipo de neurose tem origem na repressão da sexualidade;
  • Neurose narcísica: resulta de um conflito interno que faz com que a pessoa se sinta desadequada face ao mundo que a rodeia. O pessimismo e a melancolia podem inserir-se neste tipo de neurose;
  • Neurose de transferência: acontece, por exemplo, quando a pessoa transfere os seus sentimentos de um relacionamento passado para um relacionamento do presente;
  • Neurose traumática: é a neurose que tem origem em situações adversas e traumáticas do passado, que deixaram marcas e sequelas emocionais;
  • Neurose obsessiva: caracteriza-se pela presença de ideias ou comportamentos obsessivos e de compulsões, como por exemplo a obsessão por limpeza ou organização;
  • Neurose histérica: caracteriza-se por um desejo acentuado de chamar a atenção e conquistar a compaixão ou pena por parte das outras pessoas. Geralmente passa por um padrão de vitimização;
  • Neurose fóbica: caracteriza-se por, tal como o nome indica, presença de medos ou fobias a diferentes objetos, situações, locais…

A neurose está na origem de que perturbações?

Como vimos, a neurose diz respeito a um estado de mal-estar ou desequilíbrio emocional. Como tal, a neurose pode originar diferentes tipos de perturbações:

  • Perturbações de ansiedade, tais como fobia, perturbação de pânico ou perturbação obsessivo-compulsiva;
  • Perturbações psicossomáticas, caracterizando-se pela presença de sintomas físicos que não têm uma causa orgânica reconhecida;
  • Perturbações dissociativas, que consistem em pequenas alterações de consciência como amnésia;
  • Perturbações afetivas e de humor, como a depressão ou a perturbação bipolar.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.