Parentalidade consciente: dimensões, valores e benefícios

A parentalidade consciente pode ser considerada uma filosofia ou uma corrente, que advoga práticas parentais nas quais se atende de forma consciente às necessidades da criança.

É importante compreender que não existem receitas universais nem formas corretas ou incorretas de educar uma criança, que cada caso é um caso e que cada pai ou mãe aprende a sê-lo na sua própria experiência individual e única.

Investigadores e profissionais ligados à área da parentalidade produzem conhecimento e estudos, através dos quais surgem recomendações para uma parentalidade mais saudável, quer para pais quer para filhos. É este o sentido da parentalidade consciente, temática que nos propomos a explorar neste artigo.

O que é a parentalidade consciente?

Quando falamos em parentalidade falamos nos comportamentos inerentes aos papeis parentais, sendo que a parentalidade se pode dividir em três áreas:

  • Atividades parentais, que dizem respeito ao conjunto de atividades necessárias a uma parentalidade adequada, como os cuidados físicos, emocionais e sociais, o controlo e disciplina e a promoção do desenvolvimento;
  • Áreas funcionais, que remetem para os principais aspetos do funcionamento dos filhos, nomeadamente a saúde física, a saúde mental, o comportamento social e o funcionamento educativo e intelectual;
  • Pré-requisitos, que são o conjunto de especificidades que se revelam necessárias para o desenvolvimento da atividade parental, nomeadamente o conhecimento e compreensão, a motivação, os recursos e as oportunidades.

A parentalidade consciente consiste, basicamente, no estar atento, daí o termo consciente, aos filhos e a si mesmo. É estar presente e atento ao que acontece na criança e ao que acontece dentro dos pais nesse processo. Praticar uma parentalidade consciente é estar presente e notar tudo o que se encontra numa situação comum como dar banho, fazer os trabalhos de casa ou quando a criança tem um comportamento desafiante ou faz “birra”. A presença e a atenção permitem responder de forma criativa à situação, o que por sua vez vai permitir desenvolver a inteligência emocional da criança.

De uma forma geral, a parentalidade consciente consiste na aplicação dos conceitos, práticas e princípios do mindfulness (ou atenção plena) nas interações e relações entre pais e filhos. Isto é, é uma abordagem parental que procura trazer uma maior consciência para cada momento vivido no seio da relação parental.

A proposta é que os pais parem no momento presente e, em vez de reagirem de forma automática, direcionem a sua atenção para a experiência parental do momento presente – o que estão a sentir, o que estão a pensar, quais as necessidades da criança naquele momento. De acordo com vários estudos científicos, a parentalidade consciente é uma abordagem que permite criar um contexto mais adequado para a existência de uma maior satisfação e confiança nos pais e por consequência também nos filhos, melhorando a relação entre ambos.

A parentalidade consciente envolve a capacidade de reconhecer e aceitar a integridade da criança, para além do seu comportamento, bem como ser compreensivo face ao que a criança está a sentir e conseguir colocar-se no seu lugar, assim como aceitar incondicionalmente as emoções, pensamentos e comportamentos da criança, o que exige dos pais flexibilidade e reconhecimento da mudança e da impermanência das coisas.

Quais as dimensões da parentalidade consciente?

A parentalidade consciente resulta no desenvolvimento das seguintes qualidades parentais:

  • Escutar com atenção plena – consiste em direcionar a atenção para o momento presente durante as interações com os filhos, discernindo corretamente o significado dos pensamentos, emoções e comportamentos destes. Envolve conseguir identificar corretamente as pistas comportamentais da criança. Desta forma, os pais tornam-se mais conscientes das conversas que têm com os filhos, do tom de voz, das expressões faciais e da linguagem corporal das crianças;
  • Aceitação sem julgamento do próprio e da criança – consiste em aceitar, sem juízos de valor, as características e os comportamentos da criança, bem como de si mesmo enquanto pai ou mãe e dos próprios desafios que surgem no contexto da parentalidade. Isto envolve focar-se no momento presente e no que está a acontecer, para que as situações possam ser compreendidas. Envolve também aceitar os conflitos, que estes surgem de forma natural na relação entre pais e filhos, e aceitar ainda os desafios e as dificuldades da parentalidade;
  • Consciência emocional de si e da criança – consiste na capacidade de os pais terem uma perceção ativa das suas próprias emoções, bem como das emoções das crianças. É importante que os pais consigam identificar o seu próprio estado emocional, bem como o estado emocional da criança. Isto é importante porque estados emocionais muito intensos têm um grande impacto na forma como pensamos e na forma como nos comportamos. Se os pais conseguirem identificar corretamente as suas emoções conseguirão também descentrar-se das emoções fortes, permitindo uma concentração plena na interação com os seus filhos;
  • Autorregulação na relação parental – para a parentalidade consciente ser possível é necessário um comportamento pouco reativo, ou seja, comportarmo-nos de forma consciente em vez de automática e reativa. Para isso, é necessário um autocontrolo guiado pelos objetivos e valores parentais que os pais definem. É importante então que os pais desenvolvam as suas próprias estratégias de regulação emocional, o que inclui monitorizar as emoções, analisá-las e modificar reações emocionais automáticas;
  • Compaixão por si enquanto pai ou mãe e pela criança – para uma parentalidade consciente é importante que os pais consigam ser empáticos com a criança, mas também consigo mesmos, pois isto permitirá ser responsivo às suas necessidades e às do seu filho.

Quais são os valores da parentalidade consciente?

Para compreender a parentalidade consciente e a sua prática, é importante conhecer algum dos seus principais valores e perceber como é que eles podem ser aplicados.

Um dos valores importantes na parentalidade consciente é a igualdade de valor, ou seja, todos temos valor e somos equivalentes no respeito que merecemos. Os desejos, opiniões, pensamentos e emoções, bem como as necessidades, são válidos e devem ser tidos em conta e respeitados. Não é porque a criança é uma criança que as suas opiniões não devem ser tidas em conta. Isto não quer dizer que tenhamos de satisfazer todas as necessidades da criança, mas sim que as temos em conta. Por exemplo, se a criança comeu há pouco tempo e diz que tem fome, em vez de dizermos “não podes ter fome, acabaste de comer”, podemos dizer “comemos há pouco tempo, já perguntaste à barriga se é mesmo fome que ela tem? Podemos comer uma fruta daqui a bocadinho”.

Um outro valor importante na parentalidade consciente é a integridade, ou seja, à resposta aos limites e necessidades físicas e psicológicas. Respeitar a integridade da criança, mais uma vez, não significa dar-lhe tudo o que ela quer, até porque devemos separar a necessidade do desejo e da vontade. A chave está na comunicação e não em responder ou não exatamente da forma que a criança pede. Por exemplo se a criança diz “tenho fome, quero ir ao McDonalds” podemos responder “acredito que tenhas fome, eu também tenho. Sei que gostas muito do McDonalds, mas hoje acho que é importante comermos outra coisa mais saudável”.

Um valor também importante na parentalidade consciente é a autenticidade, ou seja, a capacidade de se exprimir de forma autêntica e credível. Para se ser autêntico é importante libertar-se um pouco da vontade de ser um pai ou mãe perfeito, percebendo que a perfeição é inalcançável. Em vez disso, é importante querer ser o pai ou mãe autêntico, que faz o melhor que pode com os recursos que tem.

Por fim, é fundamental como valor para a parentalidade consciente a responsabilidade, responsabilidade pelas próprias emoções, ações e comportamentos, escolhas e decisões. É também fundamental ensinar as crianças sobre responsabilidade e permitir que elas assumam desde cedo responsabilidades apropriadas. Progressivamente e de acordo com a idade, os pais podem incentivar o filho a assumir responsabilidade sobre o que comem, vestem, com quem se relacionam, como dormem, como gerem as suas tarefas escolares, etc.

Quais os benefícios da parentalidade consciente?

Vários estudos científicos têm sido feitos no âmbito da parentalidade consciente, ajudando-nos a compreender as suas vantagens e benefícios:

  • Maior capacidade de diminuir o sofrimento da criança e de responder de forma adequada às suas necessidades;
  • Diminuição de sentimentos de culpa em relação à parentalidade;
  • Interações mais positivas e satisfatórias com os filhos;
  • Facilitação do estabelecimento de uma vinculação segura entre pais e filhos;
  • Adoção de estilos e práticas parentais mais positivas e menos autoritárias ou permissivas;
  • Níveis mais baixos de sintomatologia psicopatológica nas crianças (ansiedade, depressão, comportamentos agressivos…);
  • Menor stress parental e maior perceção de autoeficácia parental;
  • Filhos com um melhor ajustamento psicossocial e uma melhor perceção de qualidade de vida;
  • Maior partilha emocional, flexibilidade e responsividade na relação entre pais e filhos;
  • Interações entre pais e filhos mais satisfatórias, com uma comunicação mais saudável e eficaz e menor severidade;
  • Menor probabilidade de surgirem problemas na adolescência como os problemas de comportamento ou o consumo de substâncias.

Que fatores interferem na parentalidade consciente?

Alguns pais parecem ter maior facilidade do que outros em adotar práticas de parentalidade consciente. Assim, é importante compreender as razões destas diferenças, percebendo o que é que pode interferir na parentalidade consciente.

A parentalidade é influenciada pelas características individuais dos próprios pais, por exemplo, as suas histórias de vida, a presença ou não de problemas psicológicos, as suas próprias características de personalidade, entre outros. Também as características individuais da criança influenciam diretamente as práticas parentais, nomeadamente o temperamento da criança.

Não podemos esquecer ainda que o contexto social em que a família se insere também terá um papel preponderante na forma como se estabelece a relação entre pais e filhos. Por exemplo, a própria relação entre ambos os progenitores, ou relação conjugal, tem impacto na forma como estes educam os seus filhos. O contexto onde vivem, o apoio da comunidade, os empregos que têm e a satisfação com a vida profissional e ocupacional, tudo isto é passível de influenciar as práticas parentais.

A relação entre o casal é um dos fatores com grande influência ao nível da parentalidade. É importante ter em conta a satisfação que o casal tem com a relação, a ajuda mútua que existe ou não ao nível da partilha de tarefas e responsabilidades, entre outros fatores. Também as relações sociais que os pais têm e a sua rede de contactos é importante, pois vai determinar o grau de apoio e suporte de que usufruem. Redes sociais consistentes e positivas são importantes na parentalidade e uma boa rede de suporte social promove o bem-estar dos pais e também da criança.

Alguns estudos indicam que as mães apresentam níveis mais elevados de parentalidade consciente do que os pais. Por outro lado, quanto maior é o número de filhos menor será a tendência para aplicar uma parentalidade consciente. Pais com níveis educacionais mais elevados parecem ter mais probabilidade em adotar uma parentalidade consciente. Quanto mais difícil for a conciliação trabalho-família e maiores níveis de stress os pais sentirem a nível profissional, mais difícil será também terem práticas parentais conscientes.

De facto, quanto mais exigente e stressante for o contexto profissional dos pais, menos disponíveis emocionalmente e mesmo em termos de tempo estes estarão para os seus filhos. Longas horas de trabalho, por exemplo, reduzem o tempo disponível dos pais para estarem com os filhos e, consequentemente, para estarem disponíveis e atentos nas interações com eles. O trabalho por turnos e o trabalho noturno também está associado a maiores dificuldades a este nível.

Porquê adotar uma parentalidade consciente?

Para além dos benefícios da parentalidade consciente que já foram anteriormente referidos, é importante compreender que esta não se trata de uma imposição ou de uma forma correta de fazer as coisas, pelo contrário. Adotar uma parentalidade consciente é ir de encontro aos seus próprios valores enquanto pai ou mãe, confiando no seu instinto e não valorizando tanto aquilo que são as opiniões dos outros sobre o que deve fazer. As correntes sobre parentalidade podem por vezes fazer os pais sentir que lhes é imposto uma forma específica de estar ou educar, ou então sentirem-se assoberbados com a quantidade de informação e recomendações existentes.

Este é o ponto positivo da parentalidade consciente. Ela não nos diz que temos de fazer daquela maneira ou da outra, que temos de aplicar aquela regra ou aquele castigo. Diz-nos apenas que, se estivermos efetivamente presentes no momento, atentos ao que está a acontecer no aqui e agora com o nosso filho, e confiarmos em nós, conseguimos dar uma resposta mais assertiva à situação. A parentalidade consciente permite-nos ver no papel de pai ou mãe uma oportunidade para o autoconhecimento e para o crescimento pessoal.

Como colocar em prática a parentalidade consciente?

Como vimos, não há uma receita universal ou uma forma certa de ser um pai ou mãe consciente. Para aplicar a parentalidade consciente precisa, antes de mais, de procurar estar no momento presente e respeitar-se a si mesmo enquanto pai ou mãe, aceitando os desafios da parentalidade e que esta nem sempre é fácil ou linear. Seguem algumas dicas práticas para uma parentalidade mais consciente:

  • Encorajar atitudes positivas no seu filho, elogiando e reforçando positivamente os seus comportamentos adequados;
  • Perguntar ao seu filho como correu o dia ou a escola e ouvir com a atenção e interesse o que ele tem para lhe contar;
  • Elogiar os progressos, os esforços e as conquistas do seu filho, mesmo relativamente às pequenas coisas;
  • Responsabilizar o seu filho pelas suas ações, mostrando-lhe como pode fazer de forma diferente;
  • Cuide de si e não descure do tempo para si e para o seu autocuidado;
  • Procure encontrar tempo no dia-a-dia para fazer atividades conjuntas em família;
  • Dê afeto, carinho, abraços e carícias ao seu filho;
  • Expresse o que sente ao seu filho, diga-lhe “gosto de ti”;
  • Procure aceitar o seu filho como ele é e não como gostaria que ele fosse;
  • Não tente nem queira ser perfeito/a e permita-se ser visto/a pelo seu filho tal e qual como é;
  • Acredite que, tal como está a tentar ser a melhor mãe o ou melhor pai que consegue, também o seu filho faz o melhor que pode com os recursos internos e externos de que dispõe;
  • Aprenda a escutar ativamente e de forma genuína (lembre-se da expressão “temos dois ouvidos e uma boca, o que significa que devemos ouvir o dobro do que falamos”);
  • Nas horas das refeições ou em que estão em família procure desligar outros estímulos distratores, como por exemplo a televisão;
  • Peça desculpa se sentir que errou;
  • Proporcione oportunidades ao seu filho para apreciar e se conectar com a natureza;
  • Fale com o seu filho sobre as emoções e ajude-o a dar nome àquilo que sente;
  • Veja intenções positivas e entenda que um comportamento que pode ser negativo pode ter por detrás uma intenção positiva, que geralmente tem a ver com necessidades que a criança está a tentar colmatar no momento;
  • Se se sentir sobrecarregado/a ou stressado/a, pare para respirar fundo e se conectar consigo mesmo/a;
  • Valorize e mostre interesse pelas ideias ou opiniões do seu filho;
  • Responda às dúvidas e perguntas da criança com genuinidade;
  • Aprecie música com o seu filho, incentive-o a cantar e a dançar;
  • Não queira educar dois filhos da mesma forma, compreenda e aceite que eles são diferentes e que também os pais são diferentes em fases distintas da vida;
  • Procure ser flexível, compreendendo que não tem de agir sempre da mesma maneira e que deve adaptar-se às circunstâncias e às situações;
  • Incentive o seu filho a praticar a gratidão, a pensar ou até escrever as coisas pelas quais está grato no seu dia;
  • Partilhe histórias suas com o seu filho;
  • Comunique com clareza para que a criança possa compreender o que lhe diz;
  • Confie em si e na sua capacidade enquanto pai ou mãe.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.