Parentalidade positiva: o que é, desafios e estratégias

O termo parentalidade positiva é na atualidade amplamente discutido e falado. Com preocupações crescentes relativas à educação das crianças e exigências também cada vez maiores relativas à parentalidade, há uma maior necessidade de compreender novas abordagens relativas à mesma.

Neste sentido, a parentalidade positiva é uma nova forma de encarar a parentalidade. Neste artigo pretendemos explicar de forma clara o que é a parentalidade positiva e dar algumas dicas aos pais.

O que é a parentalidade?

Podemos definir a parentalidade como a influência que os pais têm sobre os filhos através do exercício de três papéis: os pais funcionam como parceiros de interação numa base regular, como instrutores e conselheiros, traçando padrões de comportamento e colocando exigências e, finalmente, são responsáveis pela organização do contexto em casa e pelo fornecimento de experiências variadas e estimulantes fora de casa. É ao nível do exercício destes três papéis parentais que se levantam muitas questões relacionadas com a educação das crianças, as quais, apesar de se encontrarem na ordem do dia, não são de forma alguma recentes.

No atual panorama de investigação sobre o desenvolvimento da criança é consensualmente aceita que os pais influenciam os processos de desenvolvimento dos seus filhos. O que continua a manter acesa a discussão e a direcionar as investigações é a procura de respostas acerca de como esta influência se processo e qual o papel desempenhado por outros fatores igualmente relevantes, nomeadamente as características temperamentais da criança. A consideração da educação como fator fundamental na determinação do percurso desenvolvimento da criança é por isso amplamente aceite e sabida.

A análise dos padrões de comunicação e das relações de autoridade no seio da família levaram à identificação de duas dimensões consideradas determinantes para o desenvolvimento harmonioso de crianças e adolescentes: a responsividade e a exigência. A responsividade é definida como a capacidade de os pais serem sensíveis às necessidades emocionais e de afeto dos seus filhos, assumindo uma atitude calorosa incondicional. Por outro lado, a exigência refere-se à capacidade dos pais se assumirem como protagonistas na afirmação de regras de comportamento e de valores morais, controlando o seu cumprimento por parte dos filhos. Ambas as dimensões serão fundamentais para uma parentalidade positiva.

É importante que os/as pais/mães satisfaçam as necessidades mais básicas de sobrevivência e saúde e proporcionem às crianças um mundo físico organizado, seguro e previsível, que permita o estabelecimento e a existência de rotinas essenciais ao seu desenvolvimento. Mas também é igualmente importante que mães e pais permitam que a criança contacte, reconheça e interaja com o mundo físico e social que a rodeia. Em simultâneo, devem ser satisfeitas as necessidades de afeto, confiança e segurança essenciais no estabelecimento de vinculações seguras com os seus filhos e filhas. Estas são as bases que permitirão uma parentalidade positiva.

Do que depende o exercício da parentalidade?

O exercício das funções da parentalidade depende de um conjunto e variáveis, nomeadamente, a história de desenvolvimento dos progenitores; a sua personalidade e recursos psicológicos; as próprias características da criança; a relação entre o pai e a mãe; o contexto e o suporte social existente; os recursos sócio-cognitivos (atitudes, expectativas, crenças) e os estilos e práticas parentais.

Atendendo a que todas estas varáveis são importantes e relevantes no desenvolvimento de uma relação saudável entre pais, mães, filhos e filhas, e sabendo que o exercício da parentalidade é uma tarefa exigente e envolvente, a parentalidade positiva é um conceito fundamental.

O que é a parentalidade positiva?

A parentalidade positiva define-se como um comportamento parental baseado no melhor interesse da criança e que assegura a satisfação das principais necessidades das crianças e a sua capacitação sem violência, proporcionando-lhe o reconhecimento e a orientação necessários, o que implica a fixação de limites ao seu comportamento, para possibilitar o seu pleno desenvolvimento.

Por outras palavras, a parentalidade positiva refere-se a um comportamento parental baseado no melhor interesse da criança que assegure a sua criação, educação, capacitação sem violência e proporcionando reconhecimento e orientação com a fixação de limites para permitir o pleno desenvolvimento da criança.

Assim, a parentalidade positiva parte do pressuposto que a criança tem diferentes direitos, interrelacionados entre si:

  • Direito à atualização plena do seu potencial;
  • Direito ao afeto;
  • Direito aos limites (à autoridade positiva e à hierarquia).

A parentalidade positiva, ao nível de políticas e medidas de apoio, implica:

  • Adotar uma perspetiva baseada em direitos: tratar as crianças e os pais como sujeitos de direitos e deveres;
  • Reconhecer que os pais têm a responsabilidade primordial sobre os seus filhos, sujeita aos melhores interesses da criança (bom trato vs mau trato);
  • Envolvimento igual de ambos os pais e complementaridade;
  • Ter em conta a importância de um nível de vida mínimo para o exercício de uma parentalidade positiva;  
  • Reconhecer as potencialidades dos pais, colocando uma prioridade particular no uso de incentivos;
  • Ser a longo-prazo, de modo a garantir a estabilidade e continuidade.

A parentalidade positiva previne maus tratos infantis, aumenta a autoestima e autoconfiança da criança, facilita o desenvolvimento da criança sendo que os primeiros três anos são fundamentais.

Quais os desafios da parentalidade positiva?

A parentalidade positiva coloca aos pais alguns desafios na educação dos seus filhos, nomeadamente:

  • Criar um ambiente seguro e estimulante: o que implica antecipar perigos e situações problemáticas e organizar de forma pró-ativa o ambiente em casa, permitindo à criança oportunidades para explorar, experimentar e brincar;
  • Criar um ambiente de aprendizagem positivo: implica estar disponível para a criança, responder de forma positiva e construtiva, dar pistas para resolver problemas e organizar oportunidades para a criança aprender. Permite à criança perceber que o adulto está disponível para a ouvir, tornar-se mais autónoma e capaz de resolver os seus próprios problemas;
  • Usar disciplina assertiva: implica recorrer a técnicas disciplinares positivas e emocionalmente neutras, impor limites e ser consistente e propor alternativas viáveis de comportamento. A criança aprende a respeitar normas e limites, num clima positivo, através da observação de modelos adequados;
  • Desenvolver expectativas realistas: implica expectativas e ideias ajustadas acerca das causas do comportamento da criança, sendo que criança e pais cometem erros e aprendem através da experiência;
  • Tomar conta de si enquanto pessoas: os pais devem promover o investimento no seu próprio bem-estar ao nível pessoa, conjugal e profissional. Devem também promover a integração na comunidade e compreender como os seus próprios estados emocionais afetam a criança.

Estratégias básicas para uma parentalidade positiva

Para os pais poderem exercer uma parentalidade positiva existe um conjunto de estratégias simples que se revelam altamente pertinentes:

  • Passar tempo com a criança;
  • Falar com a criança de forma calorosa e agradável;
  • Conversar e ouvir a criança com frequência;
  • Partilhar as suas próprias experiências;
  • Ser caloroso e afetivo;
  • Envolver-se na vida escolar da criança e articular adequadamente com a escola e os professores;
  • Dar elogios que sejam descritivos (em vez de “muito bem!” dizer “o teu desenho está muito bonito, já viste como usaste várias cores e estiveste concentrado a fazê-lo?”);
  • Dar atenção não-verbal;
  • Organizar atividades envolventes e estimulantes para a criança;
  • Dar um bom exemplo e ensinar competências e comportamentos;
  • Usar o ensino incidental (aproveitar experiências e coisas que acontecem para ensinar a criança);
  • Estabelecer regras básicas de comportamento;
  • Usar a discussão dirigida quando há quebra de regras;
  • Usar o ignorar planeado para problemas menores;
  • Dar instruções claras calmamente;
  • Suportar as instruções com consequências lógicas;
  • Usar o tempo para acalmar;
  • Usar o time-out para problemas mais graves (dirigir a criança para um espaço sem reforços positivos onde ela deve ficar até se acalmar);
  • Planear antecipadamente;
  • Falar com a criança acerca de regras básicas;
  • Selecionar as atividades envolventes e permitir autonomia à criança;
  • Usar incentivos para o comportamento adequado;
  • Selecionar e aplicar consequências lógicas (ex: sujaste a mesa terás de limpar);
  • Ter tempo para si mesmo, implementar técnicas de relaxamento e gestão do stress, pedir ajuda e não achar que, enquanto pai/mãe, tem de fazer tudo sozinho/a;
  • Os pais devem comunicar um com o outro, dar feedback construtivo, apoiar-se mutuamente quando ocorrem problemas de comportamento dos filhos e investir na satisfação conjugal, trabalhando a sua relação enquanto casal.

Parentalidade positiva e comunicação

Nem sempre tudo aquilo que os pais comunicam é facilmente percebido pela criança, e vice-versa. Muitas vezes o olhar, os gestos e as posturas dizem mais do que as palavras, ou seja, conseguimos comunicar sem precisar de falar. Noutros casos, a maneira como os pais dizem as coisas pode deixar as crianças confusas. Os gestos, posturas, tom de voz entram em contradição com as palavras e, sem se aperceberem, podem não estar a transmitir de forma eficaz o que pretendem.

A parentalidade positiva passa muito pela forma de comunicar com as crianças. As crianças aprendem muito com aquilo que ouvem e veem os outros fazer, principalmente pessoas que têm um papel muito importante nas suas vidas, como os pais.

Para uma parentalidade positiva, ao nível da comunicação, é importante:

  • Falar com a criança num tom de voz médio-alto, mas sem ser agressivo;
  • Dizer as palavras devagar e de forma clara;
  • Repetir corretamente as palavras que as crianças ainda dizem de forma errada (para conseguirem que estas aprendam por imitação);
  • Não abusar das palavras acabadas em “inhos/as” nem da “fala à bebé”;
  • Não dar informações contraditórias, como por exemplo dizer que estamos contentes com a criança enquanto apresentamos uma cara zangada ou cabisbaixa;
  • Valorizar o que a criança tem para dizer e observar a sua linguagem não-verbal.

Parentalidade positiva e o estabelecimento de regras

É comum e frequente as crianças colocarem em causa as regras dos pais e os desafiarem. Estes desafios e “provocações” não são ataques, mas sim um comportamento normal. São uma forma que as crianças encontram de expressar as suas necessidades de independência e autonomia. Ao desafiarem as regras, estão a tentar perceber se elas existem, se os adultos são consistentes na sua aplicação. Por exemplo se o pai ou a mãe dizem “não” a alguma coisa, devem manter esse “não” até ao fim, caso contrário a criança da próxima vez tentará ir mais longe, para testar quais são os limites e como funcionam.

Por isso, é importante que, no âmbito da parentalidade positiva, os pais estabelecerem as regras e limites, bem como darem ordens de forma clara e não serem repetitivos. Por exemplo, se pedir à criança para arrumar os brinquedos quando ela já está a fazer isso, está a dar uma ordem desnecessária. O aconselhável, nesta situação, seria estar mais atento e a elogiá-la pelo seu comportamento. O elogio é a melhor forma de conseguir que o comportamento se volte a repetir.

As ordens dadas à criança devem ser positivas e específicas. Ordens e informações pouco precisas confundem as crianças porque não dizem qual é o comportamento desejado, não se configurando como como um estilo de parentalidade positiva.

Algumas ideias positivas podem ser as seguintes:

  • Se a criança pede para brincar, em vez de dizer “já vou!”, diga “dá-me 5 minutos e já brinco contigo”;
  • Quando a criança entorna sumo enquanto está a beber, em vez de dizer “tem cuidado, és sempre a mesma coisa!”, diga “pega no copo com as duas mãos” (assim está a demonstrar qual o comportamento correto);
  • Se quer que a criança arrume os brinquedos, em vez de dizer “vamos arrumar os brinquedos” (o que pressupõe que o vai fazer com ela), diga “são horas de arrumares os teus brinquedos”.

As ordens devem ser dadas como tal, e não em forma de pergunta. Um pedido ou pergunta implica que a criança pode ou não fazê-lo. Se, por outro lado, os pais pretendem que a criança obedeça, devem transmitir-lhe a ordem em forma de afirmação e preferencialmente pela positiva. Devem ser usadas frases curtas e rápidas de dizer, porque são mais fáceis de as crianças reterem (exemplos: arruma os brinquedos, vai para a cama, anda devagar, fala mais baixo).

Sempre que possível os pais devem avisar com alguma antecedência que a hora de fazer alguma coisa está a aproximar-se e que, portanto, a ordem que der terá de ser cumprida. Desta forma, as crianças começam a preparar-se para o fim da atividade e também a desenvolver noções temporais.

As ordens não devem ser contraditórias. É importante que haja coordenação entre o pai, a mãe, tios e avós. Por vezes acontece que um dos pais dá uma ordem e o outro dá outra logo a seguir sem se aperceber da primeira ordem que foi dada. Isto contribui para aumentar o nível de desobediência e de conflitos. É fundamental que os adultos deem apoio às ordens que foram dadas anteriormente por cada um deles, bem como assegurar-se que a criança acabou de cumprir uma ordem dada por outra pessoa antes de a mandar fazer outra.

O cumprir ou não cumprir as ordens deve ter consequências lógicas e responsabilização. A consequência pode ser tanto positiva como negativa! Não devemos apenas aplicar uma consequência quando a criança tem um comportamento menos bom (por exemplo dizer à criança que só pode ir brincar quando arrumar o que desarrumou), mas também quando a criança tem um comportamento positivo e desejado (elogiá-la por ter arrumado os brinquedos). É fundamental elogiar a criança pelo comportamento desejado, pois assim ela irá dar mais atenção às ordens dos pais e ser mais obediente, além de estar a fomentar o seu sentido e competência e a sua autoestima.

Parentalidade positiva e elogio

A única forma de as crianças aprenderem um determinado comportamento é dando importância e valorizando esse comportamento. Se for apreciada e notada pelos pais, é provável que a criança repita o comportamento, enquanto que se for ignorada não o irá repetir.

A falta de elogio e de reconhecimento do comportamento correto pode levar a um comportamento desadequado. Por isso, na parentalidade positiva o elogio é muito importante. Os pais devem estar atentos aos comportamentos da criança e elogiá-los na altura em que ocorrem. Se for dada atenção à criança quando ela está, por exemplo, a brincar, ela sentirá menos necessidade de inventar formas menos apropriadas de chamar à atenção.

Para que o elogio seja eficaz ele deve ser o mais específico possível, isto é, elogiar descrevendo exatamente o comportamento realizado pela criança:

  • Estás tão bem aí sentado na cadeira;
  • Gostei muito de te ouvir dizer obrigado;
  • Muito bem, arrumaste os legos quando eu te disse;
  • Obrigado por limpares a mesa;
  • Estou muito orgulhoso de ti, emprestaste o brinquedo ao teu irmão.

Alguns elogios são pouco eficazes porque são desinteressantes, ditos com pouco entusiasmo, sem sorrisos ou troca de olhares. Para uma parentalidade positiva é importante que os pais, ao elogiar, sorriam, olhem a criança com ternura e afeto e até lhe façam uma festinha ou mimo. É também fundamental evitar conjugar elogio e crítica. Por exemplo “boa, vieste para a mesa quando mandei, mas que tal da próxima vez lavares as mãos antes de te sentares?” ou “ainda bem que fizeste a cama, mas porque é que não a fazes todos os dias?”. Se os pais estiverem a recordar falhas anteriores ou comportamentos menos adequados estão a desvalorizar o comportamento pretendido.

Para uma parentalidade positiva o elogio deve ser imediato, ou seja, logo após o surgimento do comportamento adequado, pois só assim produzirá efeitos. Não devemos elogiar apenas o comportamento perfeito, mas também as tentativas que a criança faz para o conseguir. Ou seja, é fundamental elogiar as tentativas e não apenas o sucesso.

É também importante incentivar a criança a elogiar o seu comportamento e o dos outros. Ao conseguirem fazer isto estão por um lado a contribuir para a construção de relações positivas e por outro a aprender a autoelogiar-se. Este tipo de discurso ajuda a criança a persistir perante tarefas difíceis e obstáculos. Como sabemos que as crianças seguem os modelos e exemplos que veem, também os pais devem usar o autoelogio, por exemplo: fiz bem aquele trabalho; a situação era complicada, mas eu consegui resolver; o frango que eu fiz estava muito bom.

Alguns exemplos de elogios verbais e não-verbais que os pais podem utilizar no âmbito de uma parentalidade positiva são:

Verbais:

  • Parabéns por teres feito um trabalho tão bonito!
  • És espectacular quando…
  • Eu gosto muito quando tu…
  • Fizeste isto tudo sozinho! Muito bem!
  • Isso deve ter dado muito trabalho!
  • Esforçaste-te mesmo muito para…
  • Por te teres portado tão bem, eu e tu vamos…

Não-verbais:

  • Abraçar
  • Fazer uma festa no rosto, passar a mão no cabelo
  • Pôr o braço no ombro da criança
  • Sorrir
  • Beijar
  • Fazer o sinal de “fixe”
  • Piscar o olho
  • Dar “mais cinco”

Em suma, a parentalidade positiva passa por um conjunto de ações dos pais que contribuem para o saudável desenvolvimento da criança e para a existência de relações positivas no seio familiar. Para exercer uma parentalidade positiva os pais devem também ser pacientes consigo mesmos e conscientes de que estão a dar o seu melhor, com uma perspetiva positiva e vontade de melhorar a cada dia, sem culpas e sem pressões.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.