Perturbações alimentares: combater a ditadura da beleza

Numa sociedade global onde se multiplicam democracias, onde muitos países pautam o seu discurso por apelos de liberdade, há um tirano instalado. Uma ditadura silenciosa: a da beleza. Uma sociedade onde o magro é belo e o gordo é monstruoso, onde chovem comprimidos para emagrecer como drogas fáceis, onde a saúde surge depois da beleza que se deseja alcançar. Uma sociedade que nos conduz a uma utopia constante, uma corrida inglória a um objetivo irreal; uma sociedade que nos obriga ao pior ódio existente – o ódio a nós próprios.

A televisão apresenta programas que revertem à busca tão desesperada e obsidente por uma beleza estereotipada; é concursos de beleza, extreme make overs, cirurgias plásticas que operam magia, modelos de passerelle onde cabe apenas a palavra perfeição.

É claramente notória a corrida cada vez mais desesperada a uma beleza tão ansiada, que muitas vezes nos obriga, consoante a nossa vulnerabilidade, a uma prisão que nos acorrenta para sempre. Quantos de nós gostamos de nós próprios? Quantos de nós gostam de se olhar ao espelho, desvalorizando pormenores, e defeitos impercetíveis, e borbulhas que aparecem aqui e ali, e rugas pequenas nos cantos dos olhos, e mais uns quantos dentes que se podiam arranjar? Quantos de nós somos capazes de ver uma imagem íntegra, harmoniosa, peculiar, especial e única naquilo que somos? Se calhar, poucos.

E esta ditadura é um terreno fértil para o surgimento de diversas problemáticas, entre as quais as perturbações do foro alimentar.

O que são as perturbações alimentares?

Uma perturbação alimentar pode ser definida como uma perturbação persistente na alimentação ou na ingestão que resulta na alteração do consumo ou absorção dos alimentos e que provoca um défice significativo na saúde física ou no funcionamento psicossocial.

Dentro daquelas que se incluem neste espectro, as mais conhecidas e relacionadas com fatores sociais e com a tal ditadura da beleza são a anorexia nervosa e a bulimia nervosa.

Anorexia nervosa

A anorexia nervosa é uma perturbação do comportamento alimentar que se caracteriza por uma restrição do consumo de energia relativamente às necessidades, conduzindo a um peso significativamente baixo para a idade, sexo, trajetória de desenvolvimento e saúde física. Verifica-se ainda um medo intenso de ganhar peso ou de engordar, bem como comportamentos que interferem com o ganho de peso, mesmo quando este é claramente baixo. Há ainda uma perturbação na apreciação do peso ou forma corporal, influência indevida do peso ou da forma corporal na autoavaliação, ou ausência de reconhecimento persistente da gravidade do baixo peso atual.

Em suma, o que acontece na anorexia nervosa é que há uma restrição alimentar autoimposta, que conduz a uma perda de peso progressiva. Esta restrição alimentar é motivada por um medo excessivo de ser gordo ou engordar, mesmo quando o estado da pessoa é de uma clara magreza. É como se existisse uma fobia incontrolável de que, ao ingerir determinados alimentos, a pessoa vai engordar ou ficar gorda, ainda que racionalmente compreenda que os mecanismos do organismo não funcionam dessa forma. Ao mesmo tempo, o peso e a forma física assumem uma importância imensurável na avaliação que a pessoa faz de si própria – “se for gorda, não vou valer nada”. O irracional sobrepõe-se ao racional, motivado por medos intensos e fortes emoções negativas que dominam o estado emocional.

A restrição alimentar que ocorre na anorexia pode ser de diferentes tipos: jejum, restrição da quantidade de alimentos (comer muito pouco), restrição de alguns tipos de componentes (“alimentos proibidos”) ou dietas mascaradas (por exemplo, vegetariana).

Bulimia nervosa

A bulimia nervosa, por sua vez, é uma perturbação do comportamento alimentar com algumas características semelhantes, mas em alguns pontos distinta da anorexia nervosa. Caracteriza-se essencialmente por episódios recorrentes de ingestão alimentar compulsiva, isto é:

  • Comer, num período curto de tempo (por exemplo, um período até 2 horas), uma quantidade de alimentos que é sem dúvida superior à que a maioria dos indivíduos comeria num período de tempo semelhante;
  • Sensação de perda de controlo sobre o ato de comer durante o episódio (por exemplo, sentir-se incapaz de parar de comer ou de controlar a quantidade e qualidade dos alimentos). Posteriormente a este episódio de ingestão compulsiva verificam-se frequentemente comportamentos compensatórios inapropriados para evitar o ganho de peso (indução de vómito, uso de laxantes, diuréticos ou outros medicamentos, jejum ou exercício físico excessivo).

Tal como na anorexia nervosa, também na bulimia se verifica uma autoavaliação demasiadamente influenciada pelo peso e pela forma corporal, bem como um medo excessivo de engordar. No entanto, ao contrário do que acontece na anorexia nervosa, na bulimia o peso é geralmente normal, ou até ligeiramente acima do normal, devido aos episódios de ingestão alimentar compulsiva.

Há frequentemente nas bulímicas sentimentos de vergonha e culpa, bem como um esforço deliberado para esconder os sintomas. Por vezes os episódios de ingestão compulsiva ocorrem até a pessoa sentir desconforto ou mesmo dor. Habitualmente estes episódios são precipitados por estados de humor depressivos, acontecimentos interpessoais stressantes, fome intensa após restrição alimentar ou sentimentos associados ao peso corporal, forma do corpo e comida, seguindo-se a autocrítica depreciativa e o humor deprimido. 

Quais as consequências das perturbações alimentares?

As perturbações alimentares têm um impacto significativo em vários domínios, designadamente:

Domínio físico

  • Baixo peso;
  • Ausência de gordura subcutânea;
  • Atrofia muscular generalizada;
  • Atrofia mamária;
  • Pele fria e desidratada;
  • Cabeço seco e baço, às vezes com peladas;
  • Perda do pelo axilar e púbico;
  • Mãos e pés frios e avermelhados, palmas e plantas amarelas;
  • Intolerância ao frio;
  • Hipotensão;
  • Baixa temperatura corporal;
  • Amenorreia (ausência de período menstrual);
  • Na bulimia acontece também muito frequentemente problemas gastrointestinais e, devido à indução do vómito, erosão dentária e calosidades ou escaras nas mãos. Podem ainda ocorrer complicações como a rutura do esófago, a rutura gástrica ou arritmias cardíacas.

Domínio comportamental

  • Alterações na dieta, por vezes acompanhada pela alteração na ingestão de líquidos (abundância ou restrição);
  • Evitar fazer refeições acompanhada;
  • Interesse progressivo por nutrição;
  • Comportamento alimentar rígido e ritualizado;
  • Comportamentos bizarros em relação à comida (contar calorias, cortar alimentos em pedaços muito pequenos, usar utensílios inapropriados, adotar uma sequência estranha de alimentos, ruminar, comer muito devagar, sujar o prato, esconder a comida);
  • Episódios de ingestão alimentar compulsiva;
  • Mecanismos compensatórios, como vómito autoinduzido ou uso de laxantes e diuréticos;
  • Hiperatividade e exercício físico excessivo;
  • Por vezes ocorre também o abuso e dependência de substâncias (sobretudo álcool ou estimulantes).

Domínio emocional

  • Sintomas depressivos, isolamento, irritabilidade, insónia e diminuição do interesse sexual;
  • Preocupações com o comer em público;
  • Restrição da expressão emocional, isto é, dificuldade em expressar as suas emoções.

Domínio psicológico

  • Sobrevalorização da importância de ser magra e fixação no objetivo de um peso ideal;
  • Distorção da imagem corporal – há uma perceção por parte da pessoa de que está mais gorda do que realmente está, sendo que esta distorção contribui para a negação da doença. Não está implicada uma verdadeira alteração da perceção, ou seja, quando a pessoa se olha ao espelho é capaz de ver o seu corpo tal como ele é, no entanto há uma interpretação dessa imagem refletida que é distorcida. A imagem que a pessoa vê no espelho é reavaliada emocionalmente e projetada num eu ideal que ultrapassa muito a forma e o peso corporais.
  • Perturbação na perceção dos estímulos corporais – há uma falta de consciência do estado corporal. Por exemplo, a pessoa não reconhece a sensação de saciedade, não tem consciência por vezes de que se está a submeter a demasiada atividade física ou tem dificuldade em identificar sensações físicas decorrentes de emoções.
  • Sentido de ineficácia – há uma sensação de que se age em função das diretrizes dos outros, sentindo-se pouco capazes ou eficazes. Por isso, frequentemente surge o medo de perder o controlo, a desconfiança face aos outros e o perfeccionismo ou necessidade de controlo excessivo.

Quais os sinais de alarme?

Dada a gravidade do impacto das perturbações do comportamento alimentar a diversos níveis, é fundamental que aqueles que rodeiam a pessoa que dela sofre, sobretudo tratando-se de adolescentes, possam estar atentos a alguns sinais de alarme:

  • Preocupação excessiva com os alimentos;
  • Manifestar um interesse excessivo em nutrição ou culinária;
  • Sensibilidade em relação à comida;
  • Alimentação muito seletiva e restrita;
  • Preferência por comer sozinho/a;
  • Escolha preferencial e quase exclusiva por alimentos com baixas calorias;
  • Irritabilidade, angústia e discussões, sobretudo à hora das refeições e muitas vezes sobre a comida;
  • Comportamentos estranhos e bizarros em relação à comida;
  • Sair da mesa durante a refeição ou logo a seguir para ir à casa de banho;
  • Comer em segredo;
  • Negar que tem fome quando é óbvio que tem;
  • Expressar culpa face ao ato de comer;
  • Incapacidade de tolerar acontecimentos não planeados em relação à comida (por exemplo, ser anunciado que se vai comer fora);
  • Beber demasiada água ou beber muita coca-cola de dieta ou outras bebidas gasosas de baixas calorias (que ajudam a aguentar a sensação de fome);
  • Pesar-se com muita frequência;
  • Praticar exercício físico em excesso, especialmente antes ou depois de comer;
  • Usar laxantes ou diuréticos, muitas vezes às escondidas;
  • Sentimentos negativos em relação a si próprio/a;
  • Rigidez na rotina diária;
  • Afastamento de atividades sociais e isolamento;
  • Insistência no facto de estar gordo/a;
  • Medo extremo de aumentar de peso;
  • Fazer mal a si próprio/a, como arranhar-se ou consumir drogas ou álcool.

Quando surgem as perturbações?

As perturbações do comportamento alimentar tendem a surgir maioritariamente na adolescência ou início da idade adulta. Esta incidência explica-se, por um lado, pelo facto de na adolescência ocorrerem alterações corporais variadas e rápidas, sendo difícil para a adolescente acompanhar e integrar devidamente todas estas transformações.

O peso aumenta, o peito cresce, as ancas alargam, e há uma sensação de falta de controlo sobre o próprio corpo e consequente insatisfação com a imagem corporal. Por outro lado, é também nesta fase da vida que a identidade está a ser formada e construída, que a autoestima se vai formando, muitas vezes com fortes abanões. É sabido que a adolescência é um período de tempestade, um turbilhão de emoções e procura por respostas. É sobretudo de olhos postos nos outros que o adolescente procura moldar-se a si mesmo, e quando o mundo lhe diz que deve ser magro, essa torna-se rapidamente uma procura obsessiva.

Quem é mais afetado e como evoluem?

Por outro lado, há uma prevalência significativamente maior das perturbações do comportamento alimentar em mulheres (o rácio é de um homem em cada dez mulheres!). Tal é justificado por uma pressão social significativamente maior para as mulheres no que diz respeito à sua imagem e aparência física.

O comportamento alimentar perturbado tende a persistir por vários anos, podendo o seu curso ser crónico ou intermitente, com períodos de remissão alternando com recorrências dos episódios. De referir também que há frequentemente uma oscilação entre a anorexia e a bulimia, isto é, as pessoas podem muitas vezes enquadrar-se num quadro de anorexia e posteriormente de bulimia, ou vice-versa.

 É assim notório que as perturbações do comportamento alimentar são uma problemática grave e de difícil e longa intervenção. Por um lado há o grande obstáculo de a pessoa negar com frequência o problema, ou resistir à intervenção pelo medo intenso em engordar. De salientar ainda que existe um risco de mortalidade elevado, quer devido a complicações físicas decorrentes da doença, quer por suicídio. Deste modo, a ditadura da beleza mata e é urgente tratá-la, bem como preveni-la.

Qual o tratamento para as perturbações?

O tratamento para as perturbações do comportamento alimentar é, geralmente, multidisciplinar, e varia conforme a avaliação clínica e as características e gravidade da problemática.

Pode ser necessário o internamento hospitalar, sobretudo em situações em que há risco elevado de dano irreversível ou mesmo risco de vida. No entanto, os resultados mais favoráveis verificam-se em regime ambulatório. A intervenção é então multidisciplinar, com diversas valências:

  • Avaliação e acompanhamento médico e psiquiátrico, com a introdução, se necessário, de psicofármacos;
  • Psicoterapia individual e/ou em grupo, com especial enfoque na terapia cognitivo-comportamental;
  • Aconselhamento familiar ou terapia familiar;
  • Acompanhamento nutricional.

O principal objetivo do tratamento é a recuperação do peso corporal através de reeducação alimentar com apoio psicológico. Procura-se também intervir ao nível da autoestima, do medo excessivo e persistente em engordar, procurando-se que a pessoa adote padrões de pensamento mais saudáveis em relação a si própria, assim como desenvolver estratégias mais eficazes de resolução de problemas e uma maior capacidade de gestão emocional.

De salientar que o tratamento é geralmente demorado e difícil, sendo fundamental o apoio da família e amigos, por forma a promover uma maior adesão à intervenção.

Como prevenir as perturbações alimentares?

 Prevenir é sempre melhor que remediar e, no caso das perturbações do comportamento alimentar, dada a sua gravidade e dificuldade de tratamento, a prevenção é de facto fundamental.

Devemos sempre referir, em primeira instância, uma prevenção social e global, em que a responsabilidade seja colocada em todos nós, enquanto sociedade, na luta contra a ditadura da beleza. É urgente reformular a forma como projetamos uma aparência e forma física ideias, disseminadas pelos meios de comunicação social e enraizadas em preconceitos tantas vezes inconscientes. Importa portanto atender à urgência do resgate ao amor-próprio, entendendo a absurdez desta ditadura implacável. Para isso é necessário que a sociedade atenda aos seus mecanismos sociais, à forma como as pessoas são representadas ou como se sentem (ou não) representadas. Reformular a comunicação social, educar mentes e erradicar estereótipos, incluir a educação emocional desde tenra idade, mudar políticas e estratégias sociais.

Por outro lado, e talvez mais simples do que esta prevenção global, está a prevenção individual que cada um de nós pode fazer, por si e pelos seus, adotando um conjunto de estratégias:

  • Limitar a exposição e adotar um sentido crítico face a informações disseminadas relativamente a dietas milagrosas ou outros mecanismos para obtenção de uma imagem ideal;
  • Adotar uma alimentação equilibrada e saudável, composta por uma grande variedade de alimentos;
  • Manter um padrão alimentar regular, sem demasiadas variações em termos de horários ou quantidades;
  • Se necessária a perda de peso, fazê-la sob aconselhamento profissional e com planos alimentares que não sejam demasiado restritivos;
  • Praticar exercício físico de forma regular e equilibrada, como parte integrante de um estilo de vida saudável. Fazê-lo como um fim em si mesmo, para obtenção de bem-estar, e não como um meio para atingir o fim da perda de peso ou obtenção do “corpo ideal”. Para isso, é fundamental optar por um desporto ou atividade física de que se goste e que proporcione prazer e não uma sensação de obrigatoriedade;
  • Aprender a atender ao corpo e a ler, respeitar e regular os sinais que ele nos transmite, nomeadamente relativamente à fome e saciedade;
  • Entender o peso como um indicador frequentemente inócuo e insignificante quando tomado de forma isolada, sem ter em consideração outros fatores. O peso não reflete a imagem corporal, uma vez que varia bastante de acordo com fatores como a altura, a distribuição do peso corporal, o volume corporal, entre muitos outros;
  • Promover hábitos de autocuidado, ou seja, incluir no nosso dia-a-dia momentos que sejam só nossos e onde usufruamos da nossa própria companhia, realizando atividades que nos proporcionem prazer e bem-estar;
  • Desenvolver, conhecer e valorizar os nossos pontos positivos, qualidades e competências, olhando-nos como um ser-humano íntegro e global, que é mais do que a sua aparência física;
  • Olhar o corpo de forma mais funcional do que estética; ou seja, o corpo é uma máquina perfeita que nos permite fazer praticamente tudo aquilo que nos dá prazer – dançar, trabalhar, conviver, sorrir… Não é um quadro ou um adorno, mas sim uma estrutura funcional;
  • Expressar emoções, falar sobre o que sentimos e não reprimir os sentimentos;
  • Ser mais autoconsciente, aprendendo a atender aos seus pensamentos e emoções, compreender a sua origem. No fundo, ouvir-se a si próprio, ser capaz de identificar os seus pensamentos e reações, bem como de questioná-los criticamente e reformulá-los se necessário. Para isso, é necessário que se aceite em primeiro lugar, e que depois invista na relação que tem consigo próprio tal como investiria na relação com alguém de quem gosta;
  • Ver a alimentação como fonte de energia mas também como fonte de prazer que, quando equilibrada, não precisa de ser restringida de forma rigorosa. A comida é essencial para a sobrevivência de qualquer ser-humano, logo, não podemos vê-la como algo negativo, mas sim como o combustível essencial que faz o nosso corpo funcionar;
  • Aproveitar momentos de refeição e convívio, libertando-se do foco excessivo na comida e aproveitando a companhia;
  • Saiba que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas sim de coragem. Se está a ser difícil gerir o seu estado emocional, peça ajuda, por si e pela sua saúde.

Por fim, abrace a possibilidade da aceitação e do amor-próprio como uma libertação, compreendendo que a autoestima, essa, não se pesa.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.

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