Política: o que é e qual a sua importância?

O aproximar de eleições costuma fortalecer discussões sobre partidos, candidatos, corrupção e voto. Seja numa reunião familiar, nas redes sociais ou numa simples conversa entre amigos, cada um escolhe o seu lado. Mas será que a política se resume a isso? Afinal, o que é política e porque é tão importante entendê-la?

De forma direta, a política é um modo de organizar a vida em sociedade, criando normas e diretrizes que procuram facilitar o convívio entre todos. Ou seja, respeitar a sua vez numa fila de um supermercado, por exemplo, é uma forma simples e quotidiana de se exercer a política.

Além disso, essa palavra é comummente associada às esferas do poder, englobando o Estado, o governo e a administração pública que possuem o objetivo final de garantir o bem-estar social, isto é, o bem-estar de todos.

Apesar de ser um termo subjetivo e de difícil compreensão, a política está em tudo o que fazemos e por isso, entendê-la é fundamental para que os cidadãos tenham uma voz dentro da sociedade.

Qual é a origem da política?

A palavra política deriva do grego “politiké”, uma expressão utilizada para designar uma forma de governo que visava o bem de todos.

O seu surgimento tem origem na Grécia Antiga, devido a necessidade de criar um sistema que organizasse o funcionamento das cidades gregas, que eram chamadas de cidade-estado. Por outro lado, a ideia de política na Grécia também compreendia o princípio de participação popular, onde cidadãos de várias classes cooperavam com as decisões relativas às cidades.

Dessa forma, muito mais que presidentes e deputados, a política tinha como principal fundamento o bem comum através da resolução de conflitos e da tomada de decisões por parte do povo.

Um dos principais percussores desse período foi Aristóteles, que conceituou o ser humano como um animal político, isto é, que necessita da convivência em sociedade para satisfazer as suas demandas materiais e psicológicas. Para Aristóteles, a família era a primeira responsável por inserir o ser humano na vida política, onde aprendemos desde cedo as primeiras regras de boa convivência com nossos familiares.

Sendo assim, é possível concluir que, segundo Aristóteles, é inviável escapar da vida política, já que isso faz parte tanto do nosso inconsciente, quanto da sociedade em que vivemos, desde à família, até o Estado.

Porque é que a política é importante?

Todos os dias somos bombardeados por notícias em jornais, revistas e redes sociais sobre um lado negativo da política, normalmente envolvendo escândalos, corrupção e politiquices. Por conta disso, muitos olham para a política como algo mau e até mesmo distante e inacessível, tornando-a um objeto de discussão exclusivo para políticos e homens de fato.

Existem ainda aquelas pessoas que acreditam tratar-se apenas de um voto, debatendo de dois em dois anos sobre candidatos, partidos e promessas eleitorais.

Entretanto, como entendemos anteriormente, a política vai muito além da democracia: ela está em todos os lugares e em absolutamente tudo o que fazemos. Na verdade, o simples fato de existirmos já é considerado política – algumas existências mais do que as outras.

Imagine como deve ser difícil a vivência de um homossexual no dia a dia de um país que mata a sua população LBGTQIA+. Ou ainda, a vivência de uma mulher negra em países historicamente racistas e machistas. O posicionamento destes grupos num meio social é, portanto, dificultado, uma vez que são grupos que historicamente possuíram pouquíssimos ou nenhum direito político.

Dessa forma, apesar do exercício da democracia através do voto ser sim política, todo o caminho que nos levou à conquista desse direito também é válido. Até porque o voto como o conhecemos hoje é muito diferente da maneira como eram eleitos os governantes há alguns séculos. Foi preciso muita luta popular e exercício ativo da política para que houvesse mudanças. 

Quando os cidadãos compreendem a importância da política, tornam-se sujeitos ativos do mecanismo político, garantindo direitos e cooperando em decisões que levarão ao bem comum e sobretudo, ao bem individual de cada existência.

Tudo é política!

Já parou para pensar que diversos aspetos do seu dia a dia podem ser, na verdade, um exercício prático da política? Ao entender a política como uma forma do cidadão se posicionar dentro da sociedade, é possível concluir que tudo o que fazemos em meio social é considerado uma forma de manifestação política. O que come, o que veste, onde trabalha, os espaços que frequenta, a forma como fala e expressa as suas ideias. Tudo isso é política.

Confira infra questões simples do dia a dia que podem ser entendidas como uma expressão política:

1. Comida

A comida é algo essencial para o ser humano e hoje em dia, é também um símbolo de posicionamento político direto perante a sociedade.

Movimentos como o Veganismo lançaram luz sobre questões como a exploração animal e a sustentabilidade. Ano após ano, são cada vez mais pessoas engajadas nas ideias do movimento que se preocupam em evitar ou cortar completamente o consumo de alimentos de origem animal e os seus derivados.

É importante salientar que a agropecuária – a indústria da carne – além de explorar animais, está também diretamente relacionada com emissão de gases do efeito estufa, ao desmatamento de vários quilómetros de florestas, bem como ao gasto excessivo de água, um recurso cada vez mais escasso.

Além disso, a crescente procura por alimentos orgânicos e a preocupação em consumir produtos de pequenos produtores rurais também contribuem como ativismo e fazem parte da filosofia desse movimento.

Ou seja, escolher não comer carne e comprar apenas produtos de pequenos comércios é uma forma ativa de se posicionar politicamente.

2. Vestuário

Apesar terem sido criadas inicialmente como uma forma de proteger o corpo das mudanças de temperatura, as roupas foram usadas ao longo dos séculos também como uma forma de exercer política. 

Na Idade Moderna, durante a era das monarquias, as vestes expressavam o grande contraste social da época. Enquanto a nobreza esbanjava roupas exageradas, grande parte da população europeia mal tinha o que comer.

Por outro lado, as roupas também foram usadas como um símbolo político de resistência feminina. Na década de 30, Coco Chanel ousou ao desenvolver calças para as mulheres, que até então eram peças exclusivas para homens.

Na década de 80, o visual agressivo do movimento Punk manifestou ideais políticos de anticonsumo, de anticapitalismo e de ruptura com o sistema.

Anos depois, o advento da era da informação impulsionou o consumo em massa e o fast-fashion, tornando a indústria da moda a segunda mais poluente do mundo, além de ser movida a trabalho precário, análogo a escravidão.

Em contrapartida, o surgimento do movimento slow-fashion nos últimos, anos demonstrou, a crescente preocupação do consumidor com a moda descartável do fast-fashion, que gera impactos ambientais e sociais profundos.

Ou seja, inevitavelmente, ao comprar uma roupa, expressamos algum tipo de mensagem ou posicionamento político.

3. Futebol

Apesar de muitos insistirem constantemente que o futebol e a política não se misturam, é impossível pensar num futebol dissociado da política. Isto porque o desporto mais tradicional do mundo costuma refletir exatamente a sociedade na qual está inserido, fazendo com que a história do futebol esteja recheada de manifestações políticas e ideológicas.

No Brasil, por exemplo, a ditadura militar por diversas vezes usou a seleção brasileira como forma de propaganda política. Em Portugal, o sucesso europeu do Benfica foi apontado por muitos também como um bandeira do então regime. O título do Mundial de 1970 foi amplamente divulgado como uma forma de enaltecer o patriotismo militar do governo de Médici.

A democracia corinthiana é outro bom exemplo da mistura de futebol e política no Brasil. O clube, que nasceu como uma expressão política de operários oprimidos pelas grandes indústrias, por diversas vezes posicionou-se contra a ditatura, incentivando a população a votar.

Outras equipas do futebol brasileiro também se manifestaram durante a ditadura, como o Grêmio, que teve na suas arquibancadas a “Coligay”, a primeira claque gay do Brasil, rompendo com os tradicionalismos militares da época.

Mas, como vimos, o fenómeno não se resume ao Brasil: diversos outros clubes internacionais como o Barcelona, por exemplo, possuem uma história marcada por disputas políticas. Em Itália, o tradicional Livorno tem o antifascismo e os ideais comunistas no seu legado histórico. Durante os jogos, alguns adeptos usam símbolos comunistas, além de máscaras de Lenin e de Che Guevara.

4. Música

A relação da política com a música já é uma manifestação conhecida. Diversos artistas usam a música como forma de arte engajada para denunciar problemas sociais e fazer críticas políticas.

Na década de 60, no meio a ditadura, o movimento tropicalista brasileiro procurava unir a estética e a música à uma crítica social política mais suscinta. Artistas importantes como Gilberto Gil, Nara Leão e Caetano Veloso participaram.

E quem nunca ouviu a música “Que País É Este?” lançada em 1987 pela banda Legião Urbana. As críticas feitas por Renato Russo na sua potente letra política revelam um Brasil cheio de contradições e problemas sociais.

Por outro lado, o rap, estilo de música que nasceu nos Estados Unidos da América, procurou, desde o início, abordar problemáticas políticas que retratassem a vida marginalizada como as armas, as drogas, a violência e o racismo.

Na mesma linha, o funk – estilo comercial, porém historicamente marginalizado – representa uma cultura de resistência, que sofre com ataques diários, porém é a retratação fiel da periferia brasileira e talvez por isso, tenha tantas críticas.

Seja qual for o estilo, ouvir ou fazer música é apenas mais uma das inúmeras maneiras de exercer a política – mesmo que a letra não seja sobre política.

5. Trabalho

O mundo do trabalho passou por inúmeras transformações até tornar-se algo totalmente formalizado e com garantia de direitos como conhecemos hoje.

Durante as civilizações antigas, as primeiras formas de trabalho eram oriundas da escravidão – servos totalmente explorados e sem direitos.

Séculos depois, com o advento da era das máquinas durante a revolução industrial, o trabalho continuou a acontecer de forma análoga à escravidão: subsalários, condições precárias de trabalho e jornadas de trabalho sem fim. Nesse cenário, a classe operária mobilizou-se e foi através de muita luta e engajamento político que os ideais trabalhistas começaram a difundir-se por todo o mundo, com o objetivo de conquistar direitos.

No Brasil, a conquista de alguns direitos laborais, como o direito a férias, a um salário mínimo e a uma jornada de trabalho reduzida, apenas se efetivou em 1943, no governo do então presidente Getúlio Vargas.

Portanto, a história do trabalho é marcada por diversas lutas e muito engajamento político. Por isso, o simples ato de trabalhar já é, por si só, um ato político.

Políticas públicas o exercício da política

Agora que compreendeu que a política de facto está em tudo e em todos os lugares, é hora de entender como e de que forma essas políticas são ou podem ser garantidas para melhorar a vida dos cidadãos.

As políticas públicas são mecanismos legais criados pelo Estado e pelos governos para garantir direitos, melhorias na qualidade de vida dos cidadãos, acesso à serviços e assistência à população como um todo. O seu principal objetivo, portanto, é garantir que os cidadãos possam aceder e usufruir plenamente de todos os direitos que lhes são garantidos por lei.

Com a criação de políticas públicas efetivas, a administração pública atua no planeamento dos governos de modo a criar soluções para os problemas da sociedade. O resultado direto dessa ação é a redução das desigualdades sociais, favorecendo a inclusão de diferentes minorias.

É importante salientar que, apesar do processo de criação das políticas públicas caber aos poderes Executivo ou Legislativo, as demandas de quais as políticas a serem criadas parte da sociedade.

Sendo assim, se ficou interessado e quer exercer ainda mais os seus direitos políticos para além do voto, saiba que pode participar do processo de criação de políticas que podem trazer melhorias para a sua comunidade.

A redação do trabalhador.pt