Praxe académica: conheça mais sobre esta tradição secular

Ingressar numa universidade é o sonho de muitos jovens (e não só), e quando isso acontece, é um evento que marca para sempre a memória daqueles que têm o privilégio de aceder ao conhecimento académico. Um curso superior é capaz de proporcionar diversas e ricas experiências pedagógicas, lúdicas e sociais, que nos capacitam para uma vida profissional de sucesso.

E quando falamos em universidade, é comum vir-nos à mente uma prática bastante comum em Portugal: a praxe académica, ritual de iniciação dos caloiros em que os alunos veteranos – os chamados “doutores” – dão as boas-vindas aos novos colegas.

Se já se cruzou com estudantes vestidos de preto pelas ruas das principais cidades universitárias do país (Porto, Coimbra, Lisboa, etc.), provavelmente presenciou essa pitoresca tradição que, apesar da irreverência inata, jamais deverá prescindir do respeito e da autoestima.  

Ficou interessado neste assunto e quer saber mais sobre a praxe académica, a sua história, principais ensinamentos, bem como atitudes que não são toleradas? Então não deixe de ler este artigo!

O que é praxe académica?

A praxe académica é uma espécie de “batismo” de estudantes que surgiu há muitos anos nas universidades de Portugal. Foi criada com o objetivo de integrar os caloiros e de lhes transmitir uma sensação de pertença, algo muito útil no processo de adaptação ao meio universitário.

Tradições, eventos, regras e rituais de celebração estão entre as principais componentes da praxe, que via de regra é organizada em hierarquias, que desempenham um papel crucial para o seu bom funcionamento. Regra geral, tem início no mês de setembro, e dura até maio do ano seguinte, quando ocorre a famosa festa da Queima das Fitas, uma cerimônia que marca a passagem desse período da faculdade em que um aluno passa de caloiro a veterano.

Importante referir que a praxe académica deve ser exercida, irrevogavelmente, em consonância com os valores instituídos pela universidade e sempre primando pelo respeito entre os envolvidos neste momento tão importante.

Não obstante, por vezes. assiste-se a notícias de abusos cometidos pelos estudantes mais velhos contra os novatos, que a despeito da essência do rito, que é de integração, submetem os iniciantes a práticas vexatórias e humilhantes, o que constitui uma grave violação ao código da praxe e em tudo o que ela se baseia.

Ademais, a participação da praxe não é obrigatória, devendo sempre ser respeitada a vontade do caloiro que se opuser a participar das inúmeras tarefas, eventos, brincadeiras e demais atividades que a constituem.

História e tradição da praxe académica

A praxe académica surgiu em Portugal logo após a inauguração da primeira universidade portuguesa, nomeadamente, a atual Universidade de Coimbra, ainda no século XIII. Antigamente, a tradição estudantil visava à humilhação dos caloiros, que eram obrigados a participar de “brincadeiras” violentas que incluíam agressões verbais e físicas.

Ao longo dos séculos, essa prática estudantil sofreu inúmeras modificações e deixou de ser restrita à comunidade académica. Atualmente, está incorporada ao calendário social de algumas cidades, contudo, ainda é alvo de questionamentos em relação a muitos aspetos.

Pelo menos desde 1727 a praxe académica tem vindo a ser contestada pelas autoridades portuguesas, que a proibiram logo após a instauração da República no país, em 1910 (a prática só retornou ao ambiente universitário nove anos depois, em 1919).

Posteriormente, no meio da agitação política da década de 1960, período em que as universidades se transformaram em centros políticos movidos a ocupações e transformações culturais e sociais, a praxe foi novamente abolida; todavia, nos anos 1980, findada a agitação política estudantil, foi resgatada e sobrevive até os dias de hoje.

O Traje Académico

Ao percorrer as ruas das cidades universitárias portuguesas é comum encontrar alunos vestidos de preto, com longas capas, meia calça, saias e gravatas. Este é o famoso Traje Académico, que tradicionalmente era usado por universitários e professores com o objetivo de se distinguir dos demais indivíduos da sociedade. Atualmente, apenas os alunos usam a vestimenta.

Atualmente, o traje acadêmico para homens inclui:

  • Calças pretas;
  • Colete preto;
  • Capa e batina;
  • Gravata preta;
  • Camisa branca,
  • Sapatos pretos.

Para as mulheres, a roupa tradicional completa é constituída por:

  • Camisa branca;
  • Casaco peto;
  • Gravata preta;
  • Saia preta;
  • Capa e batina;
  • Meia calça escura,
  • Sapatos altos pretos.

Curiosidades sobre o Traje Académico

  • A Capa e Batina, acessórios do traje académico, serviram de inspiração a J. K. Rowling, escritora, roteirista e produtora cinematográfica britânica que viveu na cidade do Porto, notória por escrever a série de livros Harry Potter. Na saga, alunos de Hogwarts, uma escola fictícia de magia, usam roupas que em muito se assemelham às vestes dos universitários portugueses;
  • Diz-se que lavar a Capa e Batina é o mesmo que se desfazer das memórias do percurso académico, por esse motivo, estas duas peças, via de regra, não são lavadas;
  • O maior gesto de respeito na vida académica é colocar o traje no chão para outra pessoa passar por cima;
  • O traje pode ser utilizado como forma de demonstrar respeito a determinados lugares onde um indivíduo se encontra, ou mesmo quando um indivíduo se encontra na presença de alguém em particular.

O que não é permitido na praxe académica

Todos os anos, existem praxes que se tornam notícia pelos piores motivos, pois, infelizmente, muitos alunos veteranos utilizam de métodos reprováveis que configuram um verdadeiro atentado à dignidade humana. Para evitar que a brincadeira ganhe contornos dramáticos, é preciso respeitar um código de conduta, cujas regras partilhamos a seguir:

  1. Nenhum caloiro deve ser submetido à humilhação, tampouco ter a sua integridade física ou psicológica colocada em risco;
  2. Caso a ordem dos “doutores”, como são chamados os alunos mais velhos, desagrade ao caloiro, este deve expressar o seu descontentamento e recusar-se a obedecer;
  3. Nenhum estudante pode ser discriminado por não querer participar das atividades realizadas no âmbito da praxe académica;
  4. A praxe reveste-se de um caráter livre e voluntário. Caso não queira participar da celebração, o caloiro não será privado de informações sobre os grupos que existem na universidade, isto é, equipas desportivas e núcleos culturais, por exemplo.

É importante referir que a universidade é um espaço em que se deve exercer a autonomia e a liberdade de pensamento, portanto, em caso de recusa, os alunos veteranos devem acatar o desejo dos iniciantes.

Ademais, todas as Universidades e Institutos Politécnicos de Portugal contam com um Provedor do Estudante, figura prevista por lei, no Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior. O aluno que se sentir ofendido ou coagido a participar de uma praxe académica considerada abusiva, poderá relatar as ameaças ao Provedor, que avaliará as denúncias. As sanções para os agressores vão desde uma simples advertência à proibição de frequentar a instituição.

Em caso de dúvidas, consulte o documento “Recomendações sobre praxes académicas”, redigido pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC), aqui disponível.

Luana Castro Alves

Licenciada em Letras e Pedagogia, redatora e revisora, entusiasta do universo da literatura, sempre à procura das palavras. "Não se pode escrever nada com indiferença." (Simone de Beauvoir)