Relações rebound: quando ficamos presos ao “ex”

Nós, seres humanos, estamos motivados para estabelecer e manter relações próximas e íntimas com os outros. Muitas dessas relações são de natureza romântica. Porém, e independentemente da natureza da relação e da vontade de estabelecermos e mantermos estes laços, a verdade é que as relações terminam. E, muitas vezes, tentamos arranjar uma “substituição”, as relações rebound.

O que são as relações rebound?

Todos nós conhecemos alguém (e esse alguém podemos ser nós próprios) que, depois de terminar uma relação romântica aparentemente significativa, “parte instantaneamente para outra”, provavelmente, achamos nós, sem estar preparado para tal. É preciso preencher o vazio que o fim da relação anterior causou e, para isso, não raras vezes, uma nova relação parece ser a resposta.

As relações rebound (literalmente, “ricochete” ou “recuperação”) referem-se a um fenómeno relacional aparentemente particular. Estas relações estão associadas a uma resolução emocional desadequada da relação anterior, por haver sentimentos não-resolvidos e desejo de contacto com o ex-parceiro, sendo geralmente iniciadas pouco tempo após o término de uma relação romântica significativa (dita “séria”).

Alguns autores propõem que estas relações são, por natureza, superficiais e de curta-duração (cerca de dois meses e meio de duração), servindo o propósito de aliviar o stress emocional associado ao término relacional prévio. Iniciam-se, habitualmente, entre um mês e meio e seis meses após o fim da relação significativa anterior.

O que leva uma pessoa a entrar numa relação rebound?

Como vimos, as relações rebound iniciam-se pouco tempo após a relação anterior ter terminado, sendo pautadas por uma vinculação continuada ao ex-parceiro e por motivações de entrada na relação seguinte influenciadas por este: desde a tentativa de se distrair de sentimentos dolorosos e procurar lidar com o vazio deixado pelo término da relação anterior ou ainda por questões de retaliação ou vingança, associado a pensamentos do género “vejam como não preciso dele(a) para nada, vou seguir com a minha vida!”.

No fundo, devido à rápida transição entre parceiros, os indivíduos em rebound experienciam durante menos tempo o estatuto de “solteiros”, pelo que o seu grau de bem-estar e autoestima tende a ser menos afetado. Significa isto que haver um certo “estatuto relacional não-interrompido” pode permitir que o estilo de vida flua mais suavemente e que, deste modo, não se sintam tão significativamente os efeitos do fim de uma relação amorosa a nível psicológico.

Assim, a pessoa que entra rapidamente numa nova relação parece sentir uma certa congruência entre o parceiro passado e atual, o que pode explicar a tendência para que se façam comparações entre estes. Deste modo, se o indivíduo encontrar semelhanças entre ambos, há uma sensação de estabilidade na sua vida, o que é congruente com a ideia de que as pessoas tendem a manter padrões de vinculação e dinâmicas relacionais ao longo do tempo, em relações diferentes, de forma muitas vezes inconsciente.

Em poucas palavras: as pessoas tendem a sentir atração por indivíduos que partilhem semelhanças com os ex-parceiros, em parte pela maior sensação de familiaridade, o que pode levar a que se sintam mais confortáveis a abrir-se e a depender emocionalmente destes. Porém, atenção que essa semelhança pode também levar a que os indivíduos se sintam mais ansiosos, pela evocação de medos de abandono e rejeição.

Qual o perfil de um rebounder?

Apesar de a investigação existente nesta área ser inconclusiva, há diversas perspetivas acerca do perfil típico de um rebounder, o qual seria uma pessoa que experiencia um sentido de perda devido ao término da relação anterior.

Enquanto uns defendem que um rebounder é alguém impaciente e com um amplo sentido de urgência por um novo amor, com maior abertura à experiência, hedonista e até emocionalmente “desligado”, outros autores sugerem que os rebounders são indivíduos que apresentam traços de maior “dependência” e que sentem mais dificuldades em desapegar-se de um parceiro.

Seja como for, as relações formadas por indivíduos em rebound teriam, assim, um carácter instrumental, no sentido de, entre outros aspetos, promoverem o processo de afastamento emocional relativamente ao ex-parceiro.

Vários autores propõem que estas relações seriam intencionalmente definidas à priori como sendo de curto-prazo, o que pode implicar uma mudança temporária nas características procuradas num parceiro. Por exemplo, num estudo de Pierce (2012), os participantes afirmavam procurar parceiros-rebound pelas suas características superficiais (por exemplo, atração física e sexual), de personalidade e interpessoais (por exemplo, extroversão, simpatia e entretenimento) e pela própria natureza da relação (por exemplo, sem compromisso ou seriedade, discrição e abertura sexual).

Quais as consequências de uma relação rebound?

Estudos demonstram que, se um indivíduo sentir muitas saudades do ex-parceiro, ou seja, se o considerar uma alternativa desejável e, por isso, deseje manter o vínculo emocional a este, então menor será a “qualidade relacional” da relação seguinte. Isto verifica-se especialmente quando a ligação é relativa ao ex-parceiro mais recente.

Deste modo, as saudades do ex-parceiro interferem com o funcionamento relacional atual. Estas podem ser causa ou consequência, já que o facto de as necessidades não estarem satisfeitas numa relação atual podem promover o ressurgimento de pensamentos sobre os ex-parceiros. Em poucas palavras: se a pessoa estiver numa nova relação que não esteja a correr bem, maior será a probabilidade de se lembrar da relação anterior e, provavelmente, até idealizá-la e questionar quais os motivos que ditaram o seu fim.

Assim, entrar numa nova relação romântica parece não ajudar necessariamente a ultrapassar o fim de uma relação com um ex-parceiro. Alguns estudos indicam que a manutenção de contacto (mesmo que apenas online) com um parceiro anterior pode ter impacto no ajustamento psicológico posterior, por dificultar o processo de desvinculação do ex-parceiro e consequente reorganização da vinculação.

Não obstante, é possível que as relações rebound tenham a sua “utilidade”, ainda que apenas a curto-prazo, nomeadamente por demonstrarem à pessoa que ainda consegue ser atraente ou desejável no “mercado de relações”, o que pode levar a um aumento na confiança e autoestima. Cabe à pessoa refletir sobre o que será melhor para si e verificar se não é “pior a emenda que o soneto”.

Inês Dias

Mestre em Psicologia Clínica e Pós-graduada em Profiling Criminal e Criminologia Forense, interessa-se ainda por Viagens, Fotografia e Música. O seu gosto pela formação e ensino levou-a a dar explicações a dezenas e dezenas de alunos ao longo dos anos e a dar formação. Mas também a procurar, ela própria, aprender sempre mais, sobre diversos temas. Mantém um certo carinho pela escrita e revisão de texto, o que a levou a colaborar em diversos projetos na área da Psicologia e não só. Este é mais um deles.

Adicionar comentário