Terapia de casal: o que é e para quê serve?

Para muitos é só nos filmes e programas de televisão que encontram imagens de casais sentados num sofá a discutir em frente a um terapeuta. Numa tentativa às vezes desesperada de salvar um casamento. Frequentemente é esta a única imagem que temos, de um mundo ficcional que, por muito que tente a aproximação à realidade, nunca lhe é inteiramente fiel.

Será isso a terapia de casal? Como funciona no mundo real? Para quê e a quem serve? Este artigo pretende responder a estas questões e ajudar a compreender o que é a terapia de casal e qual o seu objetivo.

Porquê a necessidade de intervenção nos casais?

Tal como o próprio nome indica, a terapia de casal procura intervir com o casal assumindo, por isso, como grande foco a conjugalidade. É sabido que em Portugal o número de divórcios triplicou nas últimas duas décadas, e que o número de casamentos tem vindo a diminuir. Como tal, a crise na conjugalidade tem sido crescente numa sociedade de relações rápidas e em constante movimento.

Se antes o casamento era mais uma questão de obrigatoriedade, uma aliança por vezes de conveniência, em que o amor não era ingrediente principal, hoje é uma decisão livremente tomada e assente no amor (na maioria das situações na nossa sociedade ocidental). Como tal, sendo o amor e os afetos os pilares atuais da conjugalidade, estes são também mais frágeis e inconstantes.

Deste modo, a terapia de casal tem como objetivo intervir na conjugalidade, que assenta em diferentes pilares:

  • Funcionalidade: se a relação é ou não funcional, com base em comportamentos e cognições associados às relações;
  • Satisfação: se os elementos do casal se encontram satisfeitos com a relação, o que depende dos significados que lhe são atribuídos;
  • Intimidade: é uma capacidade individual e relacional que se consubstancia numa relação específica, e que tem impacto nos outros pilares.

Quais os objetivos da terapia de casal?

A terapia de casal é um processo de psicoterapia em conjunto, com um foco voltado para o relacionamento do casal, que procura:

  • Desenvolver a comunicação entre os elementos do casal;
  • Estimular novos e antigos comportamentos saudáveis;
  • Aprender a resolver problemas com assertividade e a gerir o conflito;
  • Extinguir padrões comportamentais disfuncionais;
  • Promover uma maior satisfação conjugal e sexual;
  • Diminuir gradualmente os focos de conflitos patológicos;
  • Estabelecer novos padrões de relacionamento para o casal.

Quais os sinais de alerta?

Existem alguns sinais que podem ser indicativos de que o casal pode necessitar de ajuda para trabalhar alguns aspetos da sua relação, designadamente:

  • Tristeza frequente de um ou ambos os elementos do casal;
  • Irritabilidade, isto é, quando um ou ambos os elementos do casal ficam facilmente irritáveis e apresentam um limiar de tolerância cada vez menor;
  • Isolamento progressivo e escassez de momentos em conjunto, começando um ou ambos os elementos do casal por fazer uma existência praticamente separada;
  • Pouco ou nenhum desejo sexual, com afastamento físico ou quebra ao nível da intimidade;
  • Discussões frequentes com um conflito que vai escalando para níveis mais elevados de agressividade e desrespeito;
  • Falta de interação entre o casal e indiferença;
  • Afastamento afetivo e indiferença quanto aos sentimentos do outro;
  • Mentiras recorrentes, traição e excesso de situações que excluem a participação do cônjuge.

Para que situações é a terapia de casal indicada?

A terapia de casal não tem necessariamente de ser uma solução de última linha, uma solução desesperada de salvamento da relação. Qualquer casal que identifica aspetos da relação que gostaria de alterar ou promover, pode beneficiar da terapia de casal. A terapia de casal pode ser uma opção segura e aberta para os casais que procuram encontrar um espaço alternativo (longe da vida doméstica) para resolver determinados conflitos com a ajuda técnica de um profissional especializado, neutro e fora do conflito.

Alguns exemplos de situações que podem beneficiar da terapia de casal são:

  • Quando o casal se encontra em período de crise, necessitando de ajuda para modificar e trabalhar os aspetos subjacentes a essa crise;
  • Quando os sintomas e o mal-estar de um dos elementos do casal coincide com situações de conflito do casal;
  • Quando o casal encara mudanças significativas e apresenta dificuldades de adaptação a essas mudanças;
  • Quando existem dificuldades de comunicação;
  • Quando existem dificuldades parentais;
  • Quando se verificam dificuldades ao nível da vida sexual do casal;
  • Quando há, no geral, insatisfação com a vida conjugal, por diversas razões.

Importa ainda salientar que a terapia de casal não é exclusiva para casais que estejam casados, podendo também aplicar-se em situações de namoro, união de facto, entre outras.

Por outro lado, existem situações que impossibilitam a intervenção e que, como tal, são contra-indicadas na terapia de casal. Isto é, a terapia de casal perde a sua eficácia com a falta de implicação real dos elementos do casal ou quando os objetivos não são verdadeiramente conjuntos. Assim, a terapia de casal não é indicada quando:

  • A separação já foi completamente decidida por um ou ambos os elementos do casal, seja litigiosa ou não;
  • Há investimentos muito diferentes ou desinvestimento de um ou de ambos os cônjuges;
  • Existem relações extraconjugais ou outros segredos que o indivíduo deseja manter;
  • Há uma intenção claramente voluntária de um dos parceiros de utilizar a terapia para prejudicar o equilíbrio psíquico do outro;
  • Existem abusos físicos;
  • Há dependência de álcool ou drogas;
  • Existem doenças psiquiátricas graves (quadros psicóticos, ciúme patológico, níveis elevados de ansiedade ou depressão).

Nestes casos, é aconselhada a terapia individual e as questões existentes devem ser previamente trabalhadas antes de o casal poder optar pela terapia de casal.

Como funciona a terapia de casal?

A terapia de casal não pode ser vista como uma terapia individual de um dos cônjuges com a presença do outro. Isto porque a terapia de casal trata-se de uma intervenção na relação do casal com a presença de ambos que são, ao mesmo tempo, criadores e criaturas da relação.

O papel do terapeuta

É importante compreender que o terapeuta de casal não se assume como um perito que vai definir as verdades universais e o caminho que o casal deve seguir. O terapeuta é antes um participante ativo numa conversa que, mediante os seus conhecimentos técnicos, construirá melhores caminhos para o crescimento do próprio casal.

O terapeuta irá procurar promover uma comunicação aberta entre os membros do casal e é por meio desta comunicação aberta que os irá ajudar a construir alternativas para o seu projeto de vida. A responsabilidade da mudança é essencialmente do casal, e não do terapeuta. O terapeuta funciona apenas como um elemento facilitador que ajudará a promover essa mudança desejada, mas o compromisso tem de ser do casal.

É fundamental também entender que o terapeuta atua de forma neutra, não sendo atribuídas culpas ou razões. Uma relação é construída por duas pessoas, é dinâmica e, como tal, a gênese dos problemas encontra-se na relação entre ambos e não em apenas um dos elementos. É importante compreender a relação como algo que é co-construído por ambos, e não um espaço de atribuição de culpas. O objetivo das sessões não é a disputa nem encontrar culpados. O objetivo é fazer o casal avaliar as suas responsabilidades, crenças, sentimentos e expectativas, sem fazer juízos de valor. O profissional é um mediador, não um juiz. Para isso, é fundamental que o casal esteja aberto a um diálogo franco, honesto e aberto e a olhar a relação como um todo.

A metodologia utilizada

No início do processo o terapeuta procura definir o problema existente, delinear uma história do problema e uma história da relação de casal, feita por ambos. O terapeuta procura ainda avaliar as motivações de ambos os elementos do casal, compreendendo se ambos têm uma perspetiva semelhante face à problemática e níveis de motivação semelhantes ou distintos para trabalhar as dificuldades identificadas. Após esta avaliação os objetivos da intervenção são definidos de forma conjunta e colaborativa entre terapeuta e casal, e é estabelecido uma espécie de contrato ou compromisso para a intervenção.

Geralmente num processo de terapia de casal existem sessões conjuntas, em que estão ambos os elementos do casal, e sessões individuais, com os elementos em separado. Esta metodologia pretende criar um espaço de existência conjunta e também um espaço de comunicação individual, sendo sempre garantida a confidencialidade.

Nas sessões a ferramenta essencial é o diálogo, mas podem ser utilizadas diversas técnicas, como exercícios práticos, role-play, tarefas para casa, exercícios de escrita, etc. A utilização de diferentes técnicas dependerá do casal, da intervenção, dos objetivos, sendo avaliada a sua pertinência.

O fim do processo de intervenção é ditado, idealmente, quando os objetivos inicialmente definidos foram atingidos. A terapia de casal também pode terminar quando o casal ou um dos seus elementos não quer continuar, ou quando o terapeuta considera ter esgotado os seus recursos ou não poder, de alguma forma, dar continuidade à intervenção.

Desconstruir mitos associados à terapia de casal

Para melhor compreender a terapia de casal é também fundamental desconstruir alguns mitos frequentes:

  • O objetivo da terapia de casal é sempre o de salvar a relação – como vimos, o terapeuta de casal não pode ter uma agenda pré-definida e padronizada, nem se assumirá como perito naquela relação. O seu papel é o de entender o casal e ajudá-lo a construir e delinear o melhor caminho. Por vezes, esse caminho pode ser o da separação e o terapeuta pode auxiliar nesta tomada de decisão de uma forma funcional e saudável. O objetivo da terapia de casal é melhorar o relacionamento, mesmo que eventualmente se perceba que a relação não poderá continuar, e que as partes ficarão mais felizes seguindo cada qual o seu caminho. Nestes casos, o terapeuta pode ajudar nas escolhas mais benéficas para ambos, na reorganização familiar e pessoal.
  • Quando os casais se amam não discutem – o conflito é um processo natural de qualquer relacionamento. Para além de ser natural, é até desejável, pois é no conflito que surge o diálogo, o debate de ideias, e a possibilidade de crescer enquanto indivíduo e enquanto casal. Um casal que não tem discórdias perde a oportunidade de se conhecer mutuamente e de construir uma relação saudável e real. Por isso, discutir é normal num casal, o que é desejável é que o casal faça uso de estratégias de gestão do conflito saudáveis e construtivas. E é aí que a terapia de casal pode dar uma valiosa ajuda.
  • Um casal deve resolver os seus problemas sozinho – ninguém é autossuficiente e, tal como se temos um problema de saúde procuramos ajuda, também os problemas relacionais podem necessitar de ajuda especializada. A terapia é um recurso saudável e legítimo para quem procura melhorar o autoconhecimento individual e do casal, para quem procura melhorar a relação conjugal e a qualidade de vida no geral.
  • Falar sobre os problemas só vai piorar as coisas – varrer os problemas para debaixo do tapete só faz com que eles se acumulem chegando a um ponto de difícil retorno. Falar sobre as dificuldades e problemas é fundamental para os ultrapassar e fortalecer a relação entre o casal. O terapeuta neste cenário atua como um mediador e facilitador, permitindo um diálogo aberto e livre de julgamentos, auxiliando ainda a uma maior compreensão e a encontrar soluções para os problemas existentes.
  • O sexo e a intimidade são um assunto só do casal – sem dúvida que a sexualidade é um tema sensível e muito pessoal, podendo ser difícil falar sobre ele de forma aberta com outra pessoa. No entanto, é importante compreender que o terapeuta é um profissional especializado, que trabalha com estas questões, e que pode ajudar nas dificuldades existentes.
  • É preciso contar tudo e não me sinto à vontade para isso – o terapeuta só trabalha com aquilo que o casal quer trazer para a terapia. Muitas questões podem não ser abordadas, e não há mal nenhum nisso. O profissional não vai insistir nem obrigar o casal a falar de aspetos que este não se sente à vontade para falar. Como referido anteriormente, é o casal quem define em primeiro lugar os objetivos do que irá ser trabalhado.
  • A terapia de casal é para problemas graves ou para casais que estão juntos há muito tempo – a terapia de casal pode ser útil para qualquer casal em qualquer fase do relacionamento, e pode servir também para resolver situações específicas e/ou pontuais (por exemplo, desacordo relativamente à gestão do dinheiro, à educação dos filhos, etc).

Porque é importante procurar a terapia de casal?

O conflito conjugal está entre os principais stressores na vida do ser humano, com potencial para desencadear depressão e outros problemas emocionais. Sendo assim, procurar a terapia de casal pode ser fundamental para prevenir a existência de problemas vários e para promover uma melhor qualidade de vida, principalmente nos momentos de crise. A terapia de casal tem sido, inclusivamente, um importante instrumento capaz de auxiliar no tratamento de quadros de depressão, e apresenta vários benefícios:

  • Melhorar a comunicação entre o casal;
  • Trabalhar questões de afetividade e dependência emocional;
  • Auxiliar em processos de mudança;
  • Desenvolver a capacidade de reconstrução da relação;
  • Trabalhar a diferença e a aceitação;
  • Ajudar a dar sentido ao futuro e à felicidade;
  • Ajudar a desenvolver um apego saudável;
  • Auxiliar no processo de gestão parental;
  • Promover um maior autoconhecimento e também um melhor conhecimento do outro;
  • Desenvolver ferramentais e estratégias de resolução de problemas e conflitos;
  • Reduzir a frequência de discussões não saudáveis;
  • Criar maior proximidade entre o casal e fortalecer compromissos;
  • Resgatar o interesse e/ou paixão um pelo outro;
  • Melhorar a vida sexual;
  • Melhorar a qualidade de vida em geral e a satisfação no relacionamento.

É importante compreender que uma relação não perdura magicamente apenas porque existe amor e afeto. O funcionamento de uma relação depende de um trabalho conjunto e individual, de um compromisso que é renovado e pró-ativamente assumido.

Assim, a terapia de casal não é um assumir o mau funcionamento do casal, mas sim a sua vontade de trabalhar a relação, de reencontrar a intimidade, de dar seguimento a um projeto de vida em conjunto. A terapia de casal torna-se assim um recurso valioso, que serve para auxiliar à resolução de problemas existentes na relação do casal e promover soluções e diretrizes eficazes para que o casal reencontre, conjuntamente, o equilíbrio.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.

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