Anne Frank: vida e morte de uma vítima do nazismo

Foi no dia 3 de abril de 1946 que o mundo conheceu a história de Anne Frank, uma menina judia e um dos símbolos da tragédia do holocausto. A data marca a publicação do artigo intitulado Kinderstem (A voz de uma criança), no jornal holandês Het Parrol. Neste é possível ler trechos do diário da adolescente que sucumbiu às torturas do regime nazi num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

O diário, no qual Anne relata as agruras da vida na Alemanha nazista, foi publicado na íntegra no ano de 1947, dois anos depois de ter sido exibido pelo seu pai, Otto Frank, à historiadora Annie Romein-Verschoor. Annie entregou o material ao seu marido, o jornalista Jan Romein, que escreveu um texto sobre as impressões que teve depois de concluir a leitura do relato sincero e dilacerador de Anne.

A obra, que recebeu o título “O Diário de Anne Frank“, foi traduzida para diversas línguas, tendo alcançado um enorme sucesso em todo mundo; neste é possível sentir, a partir do testemunho comovente de Anne Frank, o terror provocado pelo nazismo.

Quem foi Anne Frank?

Anne Frank nasceu no dia 12 de junho de 1929, na cidade alemã de Frankfurt. O seu verdadeiro nome era Annelies Marie, todavia, era conhecida por “Anne” pelos membros da sua família, nome que a tornou mundialmente famosa. Era a filha mais nova do casal Otto e Edith Frank, sendo Margot, a sua única irmã, quatro anos mais velha.

Otto Frank era um homem de negócios e oficial condecorado que lutou no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Com o aumento das perseguições aos judeus na Alemanha, toda a família muda-se para a capital holandesa, Amsterdão, em 1934.

Em 1938, Otto e o seu sócio, o também judeu Hermann van Pels, fundaram uma empresa que comercializava pectina, um ingrediente para a preparação de geleias. Na Holanda, Anne sentiu-se em casa: aprendeu a língua, fez novos amigos e estudou numa escola local. Infelizmente, a sua vida tranquila teve fim em 1940, quando a Alemanha nazista invadiu e ocupou a Holanda, fazendo dos judeus alvo de leis segregacionistas. A partir de então as crianças judias foram proibidas de estudar nas mesmas escolas onde estudavam as crianças não-judias. Desta forma, Anne e Margot foram transferidas para uma escola judaica.

Foi no seu 13.º aniversário, em 1942, que Otto Frank presenteou a sua filha com o diário que viria a imortalizar a sua história. Neste, começou por registar, além de factos corriqueiros da vida de uma adolescente, relatos sobre as dificuldades vividas pelos judeus em razão da ocupação nazista.

O esconderijo da família Frank

Em julho de 1942 a família Frank recebe uma notícia que mudaria para sempre o rumo das suas vidas: seriam enviados para um campo de trabalhos forçados. Determinados a fugir a esse destino, mudam-se para um esconderijo, localizado no prédio onde funcionava o escritório de Otto.

O anexo secreto ficava localizado nos fundos do prédio, e fora montado graças à ajuda de funcionários de confiança do pai de Anne Frank, os únicos que sabiam da existência do lugar. Essas pessoas eram responsáveis por informar as notícias da guerra, bem como a perseguição aos judeus. Além disso, levavam para a família a comida que compravam no “mercado negro”, missão que se foi tornando cada vez mais difícil e arriscada, pois os cidadãos não-judeus que fossem apanhados a ajudarem judeus eram condenados à pena capital.

Nesse mesmo ano, o esconderijo recebeu uma outra família, os van Pels, da qual fazia parte o sócio de Otto, Hermann, a sua esposa, Auguste, e o seu filho Peter, um adolescente de dezasseis anos de idade – com o qual Anne Frank iniciaria um romance. Em novembro de 1942 o dentista Fritz Pfeffer é recebido no refúgio, que já se tinha transformado num local insalubre, visto a quantidade de pessoas que compartilhavam um espaço tão reduzido. Ademais, foram surgindo problemas de convivência, agravados pela tensão do momento e pela falta de comida.

Anne Frank passava uma boa parte do seu tempo a escrever no seu diário, o que minimizava os impactos que a guerra provocava na sua vida e na vida de  sua família. Anne gostava muito de estudar, por isso passava longas horas fazendo exercícios de  matemática, línguas, história e outras disciplinas.

A captura da família Frank

Depois de dois anos a viver no esconderijo, a família Frank e agregados foram capturados pela polícia nazista, que invadiu o anexo secreto graças à ajuda de um informador que jamais foi identificado.

Foram colocados em caminhões e levados para interrogatório – com exceção de dois dos funcionários de Otto, os quais haviam ajudado a família durante o tempo em que estiveram escondidos, tendo estes sido os responsáveis por encontrar, no esconderijo já desocupado, o diário de Anne Frank, além de outros documentos e álbuns de fotografias da família. Todo o material foi devidamente guardado, pois os homens acreditavam que seria possível devolvê-los assim que a guerra acabasse.

O pesadelo em Auschwitz

Campo de concentração de Auschwitz

Depois de capturados e interrogados, os Frank foram enviados para Auschwitz, um campo de concentração localizado na Polónia. Lá, crianças pequenas, idosos e todos aqueles que fossem considerados inaptos para o trabalho eram exterminados de imediato em câmaras de gás. Mulheres e homens seguiam rumos distintos, e foi assim que Otto Frank perdeu o contacto com a sua esposa e as suas filhas.

Anne Frank foi selecionada para o trabalho forçado, e assim como as demais prisioneiras, passou por uma “desinfeção”, quando teve a sua cabeça raspada e um número de identificação tatuado no braço. De dia, trabalhava até a exaustão; à noite, ficava confinada num barraco gelado e insalubre, que propiciava o surgimento de várias doenças, entre elas, a sarna, que comprometeu a pele de Anne.

Em 28 de outubro de 1942, Anne, Margot e a senhora van Pels foram transferidas para Bergen-Belsen, um campo de concentração localizado na Alemanha. Edith, mãe das Frank, permaneceu em Auschwitiz.

A morte de Anne Frank

Em 1945 uma epidemia de tifo espalhou-se no campo de concentração de Bergen-Belsen. Aproximadamente 17 mil pessoas foram vitimadas pela doença, entre elas, Anne e a sua irmã, Margot. Anne Frank tinha apenas 15 anos de idade quando morreu, dias após a morte de Margot. Os seus corpos, assim como de outras pessoas, foram colocados numa pilha de cadáveres e incinerados.

Otto Frank foi o único sobrevivente da família. No fim da guerra, depois de libertado pelos russos, foi informado sobre a morte de Edith, sua esposa, mas não obteve informações a respeito das filhas, apenas que tinham sido transferidas para o campo de concentração de Bergen-Belsen.

Em 1945, quando ainda tinha esperanças em reencontrar Anne e Margot, Otto recebeu, da Cruz Vermelha, a notícia sobre as mortes das filhas. Posteriormente, chegou às suas mãos o material que os seus funcionários haviam recolhido do esconderijo, e que seriam publicados anos depois, perpetuando assim a história de vida de Anne Frank e da sua família, vítimas do regime sanguinário comandado por Adolf Hitler.

O sonho de Anne Frank

Anne Frank gostava muito de escrever, e pretendia ser escritora ou jornalista para assim publicar as suas histórias sobre a vida no anexo secreto. Infelizmente, não teve essa oportunidade, não obstante, o seu diário ganhou repercussão internacional, tendo sido adaptado inclusive para teatro e cinema. Em 1960, graças aos esforços de Otto Frank, o esconderijo onde vivera com a família tornou-se um museu: a Casa de Anne Frank.

Acreditava que o relato da sua filha, que descortinava toda violência e crueldade do regime nazi a partir das experiências de Anne, seria uma importante ferramenta de conscientização, a partir do qual o mundo poderia refletir sobre os perigos da discriminação, do racismo e do ódio contra o povo judeu.

Contar a sua história é a forma que a temos de a homenagear.

Luana Castro Alves

Graduada em Letras e Pedagogia, redatora e revisora, entusiasta do universo da literatura, sempre à procura das palavras. "Não se pode escrever nada com indiferença." (Simone de Beauvoir)