Por que não estou a fazer a minha tese de mestrado? Motivos e soluções

Chegado o último ano da faculdade, vários são os alunos que têm de realizar um longo trabalho de investigação – a dissertação. Esta é uma tarefa que implica trabalho continuado, muita dedicação e espírito de sacrifício. E parece que nem todos conseguem chegar ao fim. Ou chegando, vão adiando a tarefa consecutivamente. Porque será?

Os 8 motivos para não terminar a sua tese

São vários os motivos que o podem impedir de estar a avançar no desenvolvimento da sua tese. Como em tudo na vida, uns motivos são mais nobres que outros. Entre os principais motivos poderão estar:

  1. A escolha de um tema desinteressante;
  2. Não saber onde e como começar;
  3. A falta de tempo / outras prioridades;
  4. Ausência / má orientação académica;
  5. Incertezas quanto ao “caminho profissional”;
  6. Falta de espírito de sacrifício;
  7. Perfecionismo;
  8. Insegurança quanto ao futuro.

1. Afinal, o tema da tese não é tão interessante assim

Transversalmente, quando não estamos motivados para fazer uma tarefa, tendemos a adiá-la ou a simplesmente não a fazer. Escolher um tema para a tese de mestrado pode não ser muito fácil: há, habitualmente, uma infinidade de temas passíveis de serem estudados e, quanto mais opções, mais difícil a escolha. A tarefa está em escolher algo que seja minimamente inovador ou que, pelo menos, não tenha sido muito estudado.

Independentemente destas questões, o aluno poderá não estar a trabalhar na tese porque o tema da mesma não é bem aquilo que queria. Poderá valer a pena falar com o seu orientador de tese e pedir a sua opinião, fazer um brainstorm, assim como algumas pesquisas em modo livre e ver o que pode surgir. Claro que se o aluno só se aperceber que não gosta do tema a um ou dois meses da entrega da tese de mestrado, talvez seja melhor prosseguir com o tema, tentando, quanto muito, adaptar ligeiramente o objeto de estudo.

2. Eu até quero fazer a tese, mas não sei bem como fazê-la

Muitos alunos, mesmo com boa orientação, podem não saber ao certo como fazer uma tese de mestrado. A estrutura habitual costuma ser Resumo, Introdução, Enquadramento Teórico, Metodologia, Resultados, Discussão, Conclusão e Anexos.

Depois de definir o tema e a estrutura, com base ou não em literatura anterior, poderá ser útil ler alguns artigos científicos e consultar outras fontes de informação, nem que seja de uma forma “diagonal”, numa primeira fase (isto é, ler o resumo, parte da introdução e a conclusão). Paralelamente, terá de pensar na metodologia e recolher dados, para serem posteriormente analisados e explicados, com base nas leituras anteriores.

Por uma questão de motivação, pode-se ir escrevendo diversas partes da tese, ou seja, não tem de se seguir uma estrutura muito linear ao longo da construção da mesma.

3. Não tenho tempo para a tese!

“Não ter tempo” é diferente de “não sei como organizar o tempo”. E geralmente é esta última a verdadeira razão para não se estar a avançar a tese de mestrado: falta de gestão de tempo.

É certo que há um cem número de tarefas muito mais interessantes que estar a ler artigos científicos em inglês, trabalhar com SPSS ou passar horas a escrever no Word. Mas aqui, tal como em muitas outras tarefas universitárias e não só, é essencial haver trabalho continuado. É natural que haja alturas em que se consiga trabalhar mais que outras e também é esperado que nas duas últimas semanas antes da entrega da dissertação, o trabalho seja muito mais condensado.

Seja como for, definir objetivos, mais do que se obrigar a trabalhar x horas por dia, pode ser útil. A título de exemplo, pensar em algo do género: “até ao final da semana, tenho de conseguir ler estes quatro artigos, tirar as ideias-chave e escrever por tópicos” (e associar logo os tópicos às respetivas referências bibliográficas, já que vai facilitar o trabalho na altura de construir o texto com as citações incluídas). Tendo este objetivo em mente, fazer um plano semanal de tarefas, consoante a disponibilidade horária. Há quem prefira definir objetivos diários (mais pequenos) ou até organizar-se por horas. Aí dependerá da forma de organização de cada um. O que é preciso é haver uma.

4. O meu orientador de tese só me desorienta!

Muitos alunos queixam-se que não é fácil trabalhar com os respetivos orientadores: ou porque são difíceis de contactar, ou porque tendem a demorar semanas a responder a e-mails, ou simplesmente porque não conseguem ser claros a dar instruções, deixando os alunos “sem norte” sobre como desenvolver a sua dissertação.

Pode ser útil procurar o orientador no respetivo gabinete da faculdade, insistir no contacto, tentar até pedir ajuda a outro professor ou colegas ou ainda contactar Centros de Estudo que tenham professores universitários, se houver possibilidade disso. Se a situação persistir, dever-se-á considerar a possibilidade de mudar de orientador. A dissertação não poderá é ficar demasiado tempo “bloqueada” por este motivo.

5. É mesmo isto que quero para mim? Estou no curso certo?

Estas pode ser duas das perguntas que os alunos mais têm medo de fazer a si próprios, com receio de ouvir a sua própria resposta. Esclareçamos uma coisa: é natural haver fortes flutuações de motivação ao longo da realização da dissertação, assim como haver momentos de autoquestionamento, que geralmente são intensos, mas passageiros.

Agora, se estas questões são muito frequentes e se já se manifestavam ao longo do próprio curso, provavelmente têm razão de ser. Há alunos que só estão em determinado curso por pressão alheia (especialmente dos pais), por considerarem que dá estatuto ou prestígio, por motivações meramente financeiras ou porque pensam que é um curso “com saída”. Poderá ser pertinente perceber se realmente a procrastinação da realização da tese é reflexo de uma insatisfação mais profunda com o próprio curso ou mesmo com o Ensino Superior. Não está escrito em lado nenhum que temos de acabar uma tese de mestrado e acabar o curso universitário!

6. Estou disposto a sacrificar-me?

Há alunos que vão adiando a tarefa de escrever uma dissertação porque simplesmente não estão dispostos a deixar de fazer outras coisas em prol da tese. A verdade é que fazer uma tese de mestrado exige muito tempo e provavelmente haverá alguns “nãos” que teremos de dizer: uns dias a menos de praia, menos saídas à noite, ficar menos tempo no café ou nem ir, etc.

Se houver uma boa gestão de tempo, é possível fazer tudo. Mas tendo em conta que, pelo meio, também é preciso dormir e descansar, possivelmente teremos de abdicar de algumas coisas.

7. Quero que a tese de mestrado saia perfeita!

Não digo, com isto, que se deva fazer um trabalho desta envergadura “às três pancadas”, mas que fique claro que o perfeccionismo pode ser contraproducente. Haver a obsessão de fazer um trabalho “perfeito”, com o tema “perfeito”, com tudo escrito maravilhosamente e saindo bem “à primeira”, querendo analisar todas as variáveis de todas as formas, só vai prejudicar o trabalho.

Uma dica que costumo dar e que eu própria apliquei ao longo da realização da minha tese de mestrado é permitir-me que aquilo que escrevia não saísse bem à primeira: ia escrevendo partes da tese, completando à medida que ia sendo possível e só “embelezar” no fim. O importante é escrever, não que fique já a versão final; caso contrário, podemos ficar bloqueados porque não está a “sair” como idealizámos. Porque o engraçado neste processo é que, quando nos retiramos a pressão de escrever tudo de modo “perfeito”, as coisas saem melhor do que pensamos.

8. Quero acabar já a faculdade? Estou preparado?

Podemos estar a fazer um boicote inconsciente à nossa tese visto que acabar a tese significa, muitas vezes, acabar o curso e a vida universitária, e ter de passar para a “vida adulta”, de entrada no mercado de trabalho, mundo desconhecido para muitos.

Há quem se mantenha a estudar precisamente para adiar a entrada nesta nova fase, a entrada no mercado de trabalho. Mas será este o seu caso?

Inês Dias

Mestre em Psicologia Clínica e Pós-graduada em Profiling Criminal e Criminologia Forense, interessa-se ainda por Viagens, Fotografia e Música. O seu gosto pela formação e ensino levou-a a dar explicações a dezenas e dezenas de alunos ao longo dos anos e a dar formação. Mas também a procurar, ela própria, aprender sempre mais, sobre diversos temas. Mantém um certo carinho pela escrita e revisão de texto, o que a levou a colaborar em diversos projetos na área da Psicologia e não só. Este é mais um deles.

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