Quarentena: as 5 melhores séries (pós)apocalípticas

Bem vindos a este admirável mundo novo onde ficar no sofá é um ato de altruísmo e socialização é o novo Anti-Cristo. Portanto toca a cumprir o nosso dever cívico e retirar conforto da miséria dos outros neste top 5 de séries (pós)apocalípticas.

The Walking Dead

Tal qual os zombies que tão grotescamente retrata, The Walking Dead parece ter expirado o seu prazo de validade, cambaleando por terreno já muito batido e regurgitando as suas próprias histórias. Mas não podemos esquecer que estes sobreviventes sulistas de um Apocalipse zombie estiveram na vanguarda do fenómeno cultural que ressuscitou um género moribundo e destilou este Apocalipse à sua essência: o Humano Vs. o Inumano. Nem sempre é fácil, mas algures entre as tripas e o melodrama barato encontramos pequenos diamantes em bruto, formados no equilíbrio perfeito entre personagem e ação, violência e surpresa, choque e tragédia. O todo não é maior que a soma das partes, mas as partes conseguem por vezes ser um repasto digno de George A. Romero.

The Handmaid’s Tale

Antes da palavra Corona ter-se tornado sinónimo de marketing viral (literalmente), a sociedade distópica de The Handmaid’s Tale, fundada no auge do conservadorismo e paranoia, era o Apocalipse inevitável para o qual caminhávamos a passos largos. Um Apocalipse ideológico, em vez do inferno bíblico que se avizinha, onde as mulheres alternam entre subserviência e reprodução, e liberdade é estrume a ser limpo das botas de homens brancos de meia idade. The Handmaid’s Tale funciona simultaneamente como um acidente de viação na faixa contrária do qual não conseguimos desviar o nosso olhar sádico, e um valente grito de Ipiranga para obrigar todos os testículos envaidecidos a voltarem à faixa correta e não acabarem com os seus princípios projetados contra o pavimento.

Into the Badlands

O filho incestuoso de Mad Max e O Tigre e o Dragão, lnto the Badlands é um monstro de Frankenstein formado dos restos decompostos das políticas de Game of Thrones, o cinema de ação de Hong Kong e o melodrama colorido da WWE, e trajado em uniforme da guerra civil norte-americana, onde as carabinas foram substituídas por espadas e artes marciais acrobáticas. Esta mistura de géneros pode parecer intragável à primeira vista, mas é feita com tanto amor e apreço pelas suas origens que é impossível não desfrutar deste monstro enquanto o prazer pecaminosos que é.

Black Mirror

O “Escolha A Sua Aventura” dos cenários Apocalípticos: Procuram a inevitável revolta das maquinas? Vejam o episódio Metalhead. O crescimento desmesurado do Capitalismo e Neoliberalismo? Fifteen Million Merits. Uma nova luta de classes ditada pelas redes sociais? Nosedive. A desumanização do inimigo pelo complexo militar? Men Against Fire. Black Mirror é um exame de escolha múltipla onde todas as perguntas apontam o dedo à nossa ineficácia moral em lidar com os avanços tecnológicos e onde a humanidade chumba escandalosamente, levando a pais e professores preocupados e um merecido “vais já direto para o quarto sem jantar!”.

The Leftovers

The Leftovers é um banho-maria de melancolia audiovisual, temperado em saudade e culpa, e polvilhado com doses industriais de pesar e melodrama. É subtil e nunca explosivo, simultaneamente frustrante e curioso na sua indefinição, com um travo agridoce que fica no palato muito para além do repasto inicial. Uma constante lembrança da tragédia dos que ficam para trás, lembrando que o mais difícil no Apocalipse é o pós.

– artigo redigido por Daniel Rosa.

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