Como saber se tem alergia ao sol?

Desfrutar do sol, seja na praia, na esplanada ou simplesmente na varanda é, sem dúvida, dos maiores prazeres que podemos experienciar, sobretudo nos tempos de pandemia COVID-19, onde passamos tanto tempo confinados em casa.

Além dos claros benefícios psicológicos da luz solar é também crucial para a síntese de vitamina D, que está implicada numa boa saúde óssea. Assim, é já conhecido o benefício em ter uma exposição solar controlada, mas diária, com alguns autores a apontarem para os 15 minutos como uma boa média diária.

Mas o que acontece quando, subitamente, aparecem umas manchas atípicas, dispersas pela pele, depois da exposição solar? Será uma alergia?

Iremos explorar o que é a alergia ao sol, quais são os fatores de risco conhecidos, como se manifesta e como podemos prevenir e tratar.

O que é a alergia ao sol?

Em primeiro lugar, a alergia ao sol, ou erupções polimorfas à luz (EPL), como é também conhecida, é mais comum do que se pode pensar, podendo atingir até uma em cada cinco pessoas. Acontece principalmente na Primavera e é mais comum em mulheres jovens, maioritariamente entre os 15 e 35 anos, assim como em pessoas de pele clara. É ainda mais frequente nos locais onde a exposição ao sol não é uma constante durante todo o ano.

A alergia ao sol pode aparecer subitamente, horas ou dias após a exposição solar. Pode ser um episódio único ou, como acontece mais frequentemente, ser repetido no tempo, podendo desaparecer tão subitamente como apareceu.

O que causa alergia ao sol?

A alergia ao sol decorre de uma reação do próprio corpo, uma reação imunológica exagerada. Em suma os raios UV podem alterar uma substância na pele que irá ativar o sistema imune e levará a uma inflamação local que se traduz em pele vermelha.

Ainda não é totalmente compreendido o porquê de atingir certos indivíduos em detrimento de outros ou o porquê de poderem passar-se vários antes da alergia se manifestar. Alguns medicamentos com agentes fotossensíveis poderão estar envolvidos, como antibióticos, antidiabéticos, anti-hipertensores, entre outros, assim como certos ingredientes em produtos cosméticos. Outro produto que poderá estar envolvido na alergia ao sol é a erva de São-João, também conhecida como hipericão.

Quais os sintomas da alergia ao sol?

Os sintomas da alergia ao sol aparecem, tipicamente nas áreas expostas ao sol (peito, ombros, braços, pernas, pés), sendo que podem aparecer mesmo nas áreas cobertas nos casos mais graves. Como a face acaba por estar exposta aos raios UV durante todo o ano, existe uma exposição mais gradual e é pouco acometida por alterações características de alergia solar.

Os sintomas da alergia ao sol vão desde erupção cutânea (com a pele avermelhada), pequenas vesículas ou bolhas a pequenas pápulas (borbulhas) ou placas e podem estar associadas a muito prurido (comichão). Estas alterações geralmente aparecem horas, ou até dias após a exposição.

Quando a alergia acontece e se repete no tempo, manifesta-se tipicamente da mesma forma, o que facilita o diagnóstico.

Para efeitos de diagnóstico e futuro tratamento e tendo em conta que estas alterações podem desaparecer tão rapidamente como apareceram, é sempre boa ideia tirar uma fotografia às lesões. As fotografias irão permitir comparar episódios se estes se repetirem e permitem também ao médico ver as lesões, mesmo que estas já não estejam presentes à data da consulta ou urgência.

Para melhor a capacidade de diagnóstico através de fotografias há que atentar a alguns princípios:

  • A fotografia deve ter escala: ainda que as lesões sejam muito localizadas, por exemplo, às costas, é importante apanhar um plano onde se perceba bem qual a área do corpo que tem as lesões;
  • Optar por luz natural: das melhores maneiras de captar bem as lesões cutâneas é com a utilização de luz natural, tentando evitar sombras na imagem;

Além das fotografias existem pormenores que devem ser registados quando aparecem as lesões cutâneas, já que poderão ser facilmente esquecidos. Entre eles anotar após quanto tempo apareceram as lesões, quanto tempo permaneceram na pele e quando desapareceram, assim como as áreas que foram acometidas. Anotar ainda se houve alguma mudança ou toma de nova medicação recente.

Como confirmar o diagnóstico?

A alergia ao sol é um diagnóstico clínico, sendo que as lesões e o historial clínico devem ser avaliados por um médico, preferencialmente um médico dermatologista. Outras hipóteses de diagnóstico poderão surgir e motivar a realização de exames laboratoriais ou, em alguns casos, biópsias de pele.

Como tratar a alergia ao sol?

Quando há um primeiro evento e a suspeita de alergia ao sol é elevada a palavra chave passa a ser prevenção. Nunca é demais realçar a importância da aplicação de protetor solar (mesmo para quem nunca tenha tido alergia ao sol). O filtro do protetor solar (FP) deve ser elevado para permitir uma melhor proteção durante mais tempo. Um FP de 50 significa que a pele está protegida por um período 50 vezes superior ao que estaria sem proteção solar. De lembrar que o protetor solar deve ser aplicado frequentemente e após as idas à água, mesmo que seja um protetor resistente à água, já que atividades como nadar podem remover o protetor da pele. Outro aspeto a ter em atenção é a data de validade dos protetores solares, já que podem perder a sua eficácia após a expiração da validade.

Aliado a isto devem ser utilizadas roupas que cubram as áreas propensas a ter sintomas, assim como chapéus e óculos de sol. Nas idas à praia o guarda-sol deve ser uma constante e devem-se evitar as horas de maior intensidade de raios UV (entre as 11h-15h). Um cuidado especial deve ser tido na Primavera, dado a pele ainda não estar habituada à exposição solar e estar mais propensa às reações alérgicas.

A intensidade da alergia ao sol pode justificar, após uma ida ao dermatologista, a utilização de cremes calmantes e corticóides tópicos. A necessidade destes tratamentos deve ser reavaliada periodicamente dada a tendência para estas alergias eventualmente desaparecerem.

Outra alternativa possível, nos casos graves, é a terapia profilática com luz, também denominada de dessensibilização. Esta terapia deve ser efetuada no inicio da Primavera, antes do início de maior exposição solar e consiste em expor gradualmente a pele aos raios UV para criar uma tolerância aos mesmos.

Lúcia Ribeiro Dias

Desde muito cedo que a possibilidade de tratar o outro a cativou. Assim se tornou Mestre em Medicina. Do percurso já feito, considera que há sempre algo a aprender com o doente, seja clinica ou pessoalmente. Além da Medicina gosta de se aventurar em viagens longínquas, de preferência sem planos. A literatura é outro dos grandes gostos, tendo sempre um livro por perto.