Monogamia: o que é e principais aspetos

A família, a monogamia, o romantismo. Em toda parte, o sentimento de exclusividade, em toda parte a concentração do interesse, uma estreita canalização dos impulsos e da energia.

Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley

A frase que abre este artigo faz parte de um clássico da literatura, o livro Admirável Mundo Novo, obra-prima de Aldous Huxley publicada em 1932. O trecho versa sobre um assunto que desperta bastante interesse, mas também controvérsias: a monogamia.

Embora a monogamia seja o modelo de relacionamento mais comum em todo o mundo, existe quem coloque em cheque essa prática: afinal, nós, seres humanos, somos naturalmente monogâmicos ou estamos apenas a cumprir com uma convenção socialmente imposta?

Ficou interessado neste assunto e quer saber mais sobre a monogamia, como se estabeleceu na sociedade e qual a sua prevalência na natureza? Então não deixe de ler este artigo!

O que é a monogamia?

A palavra monogamia vem do grego μονός, monos, o que significa “um” ou “sozinho”, e γάμος, gamos, que significa casamento. Portanto, monogamia é o tipo de relacionamento em que um indivíduo terá apenas um parceiro, que pode ser tanto sexual como romântico, durante a sua vida ou durante períodos (monogamia em série), diferente da poligamia (poliandria, poliginia ou poliginandria) ou do poliamor.

A prática, que de acordo com estudos antropológicos terá tido origem a partir da poligamia, surgiu como alternativa para facilitar os relacionamentos, ajudar a controlar a taxa de natalidade, limitar habitat, preservar riquezas, entre outros critérios que ainda estão sob análise dos investigadores. O que se sabe, no entanto, é que a monogamia enquanto modelo de relacionamento idealizado é parte da cultura de algumas das sociedades mais populosas do mundo, como as das nações ocidentais, recomendado pelas mais diversas doutrinas do cristianismo e do judaísmo.

Importante referir que a generalidade dos investigadores / cientistas utilizam o termo monogamia no sentido sexual. Ademais, postulam alguns aspetos da monogamia, assunto que abordaremos adiante.

Principais aspectos da monogamia

Quando nos referimos às relações humanas, o termo monogamia pode ser dividido em algumas categorias, a saber:

  • Monogamia civil: refere-se a casamentos de apenas duas pessoas. Em Portugal, apesar do adultério não ser tido como um crime, não é permitido permanecer casado com mais de uma pessoa simultaneamente.
  • Monogamia social: refere-se aos relacionamentos, como namoro e noivado, entre dois indivíduos que vivem juntos, mantêm relações sexuais e colaboram mutuamente para viverem juntos (aquisição de recursos básicos, como comida, habitação e dinheiro).
  • Monogamia sexual: diz respeito a dois indivíduos que são parceiros sexuais e têm uma relação baseada nisso, não sendo admitidos outros parceiros.
  • Monogamia genética: caracterizada por aqueles casais que trocam o material genético apenas entre si. Por exemplo, quando uma mulher tem filhos apenas com um determinado homem e vice-versa.
  • Monogamia em série: termo empregue para fazer referência a pessoas que terminam relações e começam outras (alguém que se divorcia e depois se casa novamente, por exemplo).

A monogamia entre os animais

A monogamia não é exclusividade dos seres humanos, visto existir na natureza outros animais que podem passar toda a vida juntos, sem que haja troca de parceiros. Esse comportamento reflete o instinto reprodutivo das espécies visando a sobrevivência, propósito alcançado pela monogamia. Além disso, a poligamia pode gerar problemas com a capacidade imunológica da prole, doenças sexualmente transmissíveis e conflitos sexuais.

Não obstante, a poligamia, assim como a monogamia, também tem as suas vantagens. Entre os seus benefícios estão maior poder reprodutivo e maior oportunidade dos machos encontrarem parceiras que sejam geneticamente mais variáveis – que poderão gerar descendentes de melhor qualidade -, ou sexualmente atraentes. É importante destacar que todos os prós e contras também são válidos para as fêmeas.

Monogamia: instinto ou convenção social?

Embora seja amplamente difundido que a monogamia se estabeleceu como modelo de relacionamento predominante por ser um instinto natural dos seres humanos, Manuel Lucas Matheu, investigador e presidente da Sociedade Espanhola de Intervenção em Sexologia e membro da Academia Internacional de Sexologia Médica, defende que o comportamento foi gradualmente naturalizando-se em decorrência de fatores económicos.

Isso significa dizer que a monogamia é o modelo de vida menos oneroso para a sobrevivência da nossa espécie, afinal, quanto maior a família, mais recursos serão necessários para a manter. Para o investigador, se praticamos a monogamia isso acontece por um único motivo: por sermos pobres.

Ademais, algumas linhas de estudo da Psicologia sugerem que o conceito de monogamia nada mais é do que uma fantasia romântica entre os seres humanos baseada no sentimento de posse, desigualdade de género, exclusividade e expetativa de felicidade depositada no par. Para estes profissionais, a possibilidade de duas pessoas permanecerem felizes e sem desejar outro parceiro por toda vida seria meramente ilusão. A tendência é que, aos poucos, as pessoas passem a testar novas formas de relação, estabelecendo mais de um vínculo amoroso e ainda assim preservar uma relação dita “principal”.

Concluindo…

A monogamia é a relação estabelecida e desenvolvida com um só parceiro, ou seja, diz-se que uma pessoa é monogâmica quando não se relaciona simultaneamente com mais de uma pessoa. Via de regra, esses relacionamentos estão associados à ideia de fidelidade entre o casal, sendo que, para a antropologia, a monogamia está relacionada, sobretudo, a fatores económicos.

Importa referir que o oposto de monogamia é a não-monogamia, que pode se manifestar através da bigamia ou poligamia, tipo de relacionamento permitido em algumas culturas, como no islão. Em Portugal, a bigamia (duplo casamento) e a poligamia (diversos casamentos) estão proibidos por lei; todavia pessoas e relações não-monogâmicas existem, mesmo que o Estado, bem como a sociedade ocidental judaico-cristã continue a não as reconhecer.

Luana Castro Alves

Licenciada em Letras e Pedagogia, redatora e revisora, entusiasta do universo da literatura, sempre à procura das palavras. "Não se pode escrever nada com indiferença." (Simone de Beauvoir)