Trabalhar em cruzeiros: será a viagem assim tão incrível?

Se estiver a pensar em trabalhar em cruzeiros, vá em frente! No entanto, vale a pena mencionar que a minha opinião não é imparcial, já que fiz parte do grupo de pessoas que amaram essa experiência. Há também um segundo grupo de pessoas, aqueles que detestaram a vida no mar. Mas uma coisa é certa: não há intermédios. Por outras palavras, ou se ama ou se detesta trabalhar em cruzeiros.

Neste artigo irei partilhar a minha experiência pessoal e dar a conhecer um pouco sobre os pontos positivos e negativos de embarcar, literalmente, neste estilo de vida tão peculiar que é trabalhar em cruzeiros.

A dura realidade de trabalhar em cruzeiros

Trabalhar em cruzeiros não é para toda a gente!

Comecemos por utilizar as lentes do segundo grupo de pessoas acima mencionado, aqueles que detestaram a sua experiência. Um navio de cruzeiros só é sinonimo de férias, festas e paraíso, se tiver pago para entrar. Caso contrário, estará a ser pago para passar meses a fio num espaço confinado, na maioria das vezes sem um único dia de folga. Sim, utilizar a palavra prisão pode talvez ser um exagero, mas então o que devemos chamar a um lugar onde outras pessoas escolhem o que come, onde vai, quando volta, e quanto bebe? Trabalhar em cruzeiros tem destas coisas!

Aliás, muitos são os casos daqueles que trabalham 10h ou 12h por dia e só têm direito à área restrita aos trabalhadores do navio. Consegue imaginar o que é passar 6, 8 ou 9 meses num espaço estéril, escuro, com pouquíssimas janelas? Estes também têm ainda menos opções de escolha quando vão para o seu refeitório designado, aquele que normalmente é o maior, o mais sujo, o mais sombrio, o mais frequentado, e que está quase sempre aberto. Isto porque o número de crew members é muito maior do que o de staff members, e com horários tão variados, é preciso ter acesso ao refeitório a praticamente qualquer hora do dia. Trabalhar em cruzeiros não é para todos!

Qual a diferença entre crew e staff members?

Os crew members e staff members não estão no mesmo barco, figurativamente, é claro

Crew members

Os crew members e staff members não estão no mesmo barco, figurativamente, é claro. Os crew members são os funcionários que trabalham com as funções essenciais e mais básicas, estando praticamente na base de toda a pirâmide de operações do navio. São aqueles que não só limpam, cozinham, organizam, como também fazem a manutenção do navio e são cruciais nas operações de segurança, proteção e salvamento deste e dos seus passageiros.

Contudo, são também os que se encontram na base da remuneração, dos privilégios, da carga horária, do conforto… resumidamente, do reconhecimento pelo serviço prestado. Depois de um longo dia de trabalho, os crew members também partilham um quarto com 3 ou mais pessoas, e às vezes, a própria casa de banho é partilhada por todos daquele mesmo corredor. Não, não é fácil ser um crew member, e gostaria de expressar a minha gratidão por todos eles. Se quiser trabalhar em cruzeiros como crew member, pense duas vezes, pois não é, de todo, um mar de rosas.

Staff members

Os staff members são aqueles que estão em contacto direto com os passageiros, tirando, obviamente (ironia) todos aqueles responsáveis pela limpeza do navio, serviço de quarto e afins. São, por exemplo, staff members os entertainers, e pessoas encarregues pelo guest service e excursões. Vale a pena mencionar que estive incluída nesta equipa, e não na dos crew members. Do lado mais exclusivo ainda da staff, estão os managers, que são considerados oficiais, assim como a tripulação responsável pela navegação do navio e, como tal, têm também a sua própria cantina, com uma maior e melhor variedade de alimentos.

Como staff members, temos mais liberdade, podemos jantar, e às vezes almoçar, no restaurante buffet reservado aos passageiros. Staff members podem também frequentar as áreas designadas aos passageiros e, na maioria das vezes, não são obrigados a utilizar o uniforme fora da hora de trabalho. Então, porque se queixam alguns dos staff members?

O lado negativo de trabalhar em cruzeiros para os staff members

Dependendo da sua posição, a carga horária continua a ser maior do que a de qualquer outro trabalho em terra. Por vezes, não há mesmo tempo para desfrutar dos portos, que foram provavelmente uma das razões para certas pessoas terem escolhido esse emprego. Os dias de trabalho, não só são intermináveis, como muitas vezes são repartidos e mergulhados em stress, porque tudo no navio está desenhado para dar lucro à empresa.

E a comida? Sim, é bom não ter que cozinhar e ter mais tempo para tirar aquela soneca na sua pausa de 30 minutos, mas isso não quer dizer que quem está na cozinha esteja a pensar em si enquanto prepara o jantar. Na verdade, muito provavelmente não partilham a mesma nacionalidade e cultura que você, e por isso vai dececionar-se inúmeras vezes, o que não ficará mais fácil com o passar dos dias, ou dos contratos.

Mas tudo bem, talvez tenha conseguido contrabandear algum alimento do último porto onde esteve, e poderá desfrutar dele na sua cabine partilhada antes de ir dormir, isto é, se o seu vizinho da cabine ao lado, ou o seu próprio colega de quarto, deixarem.

É preciso ter sorte e capacidades sociais satisfatórias para conseguir conviver com alguém que não conhece num espaço tão reduzido, o que frequentemente parece mesmo impossível. Mas está bem, se conseguir falar com a sua família antes de dormir, talvez consiga descansar melhor, mas quer mesmo gastar um balúrdio (pouco exato porque não me recordo propriamente dos planos de internet, e também porque variam de companhia para companhia, mas acreditem, é um balúrdio) numa internet de fraca conexão?

Fatores extra a ter em conta por trabalhar em cruzeiros

Mas nem tudo é mau! Existem bares reservados aos crew members e por vezes até há festas! Mas atenção, se beber demasiado é melhor aproveitar a fluidez de emoções e despedir-se dos seus amigos, porque a política é igual em todas as companhias: tolerância zero! (normalmente tem de estar envolvido num acidente ou incidente para que essas medidas sejam realmente tomadas). Drogas, assédio e agressões também fazem parte dessa lista negra, e com câmaras e análises clínicas aleatórias, é melhor não arriscar.

Além disso, é ótimo só ter que acordar 30 minutos antes de começar a trabalhar, já que só tem uma viagem de 5 minutos para fazer até ao trabalho, mas isso também quer dizer que está constantemente no ambiente onde trabalha, com as pessoas com quem trabalha, e com todo o stress que isso acarreta.

Quais os benefícios de trabalhar em cruzeiros?

Nem tudo é mau, trabalhar em cruzeiros tem vários benefícios

Como já deu para entender através do que referi anteriormente, nem tudo neste emprego é perfeito, mas se tudo fosse bom, não seria um emprego, certo? Então, passemos às razões que me levam a acreditar que trabalhar em cruzeiros é umas das melhores experiências para quem é uma pessoa responsável que tem de pagar contas no final do mês.

1. Forte sensação de segurança

Há imensos navios com capacidade para oito mil pessoas, e mesmo estando num desses, nunca me senti tão segura! Acredito que tal se deva maioritariamente às práticas de vigilância implementadas nos navios, e não só às qualidades pessoais de respeito e ética de cada pessoa. Estando num ambiente fechado, repleto de câmaras e agentes de segurança, é difícil que algo passe despercebido.

Claramente, perdemos no que toca à privacidade, mas quando partilha a sua “casa” com milhares de pessoas, mais vale abraçar a ideia de Big Brother por completo. Essas medidas são tomadas para evitar que a vida de tantas pessoas seja posta em risco por terrorismo, piratas e afins, e consequentemente também são usadas no dia-a-dia para situações mais banais.

2. Contacto com diversas culturas diferentes

Nessa casa Big Brother também se encontram dezenas de nacionalidades diferentes! Já almoçou com pessoas de 6 ou 7 países distintos na mesma mesa? Esse é o quotidiano de um crew member, e acredito que tal nos torna mais empáticos e curiosos do que aqueles que não tiveram a mesma exposição às diferentes culturas. Essa multiculturalidade reflete-se em tudo, como na comida, no treino para aprender que gestos podem não significar o mesmo em outros países, nas festas, nas conversas e nos hábitos.

É um ambiente tão rico que fico feliz só de o recordar! Graças a essa mistura, tive a sorte de partilhar o quarto com excelentes pessoas de variados países como a Índia, Espanha, Coreia do Sul, Montenegro, Estados Unidos, Canadá, etc. Todas elas fantásticas mulheres, com diferentes funções no navio, o que nos permitia ver esta vida ambulante através de outra perspetiva, além de poder desabafar sobre um dia menos bom ou sobre um colega mal-humorado.

3. Oportunidades e novas experiências

Mas de boas pessoas os navios estão cheios! Nem todos os contratos darão amigos para a vida, mas todos darão a oportunidade de experienciar momentos memoráveis. Há contratos onde a vida social será muito ativa, com festas para o crew, festas para os guests, festas nos portos… E haverá outros onde o mar estará calmo, com mais tempo para ir ao ginásio, ler um livro, ver uma série descarregada antes de embarcar, e por aí em diante. O navio oferece isso tudo, e muito mais, nesse pequeno mundo à parte, onde a sauna e a discoteca se encontram a 3 minutos de distância.

Os positivos sobrepõem-se aos negativos?

Nem todos gostam da vida no mar!

Bem, decidir se os aspetos positivos de trabalhar em cruzeiros se sobrepõem aos negativos depende de cada um e da sua experiência. Como staff member, a minha vida no navio era privilegiada. Apesar de só ter tido um dia inteiro de folga por semana enquanto massagista, também pude aproveitar imenso o meu tempo livre nos outros contratos.

Consegue imaginar o que é ir dormir aos Estados Unidos e acordar nas Bahamas? Ou ter o prazer de tomar um café enquanto se aprecia o mar e com sorte vê golfinhos e outros animais marinhos? Pois, tanto a viagem quanto o destino têm de ser aproveitados com todos os sentidos atentos, pois nunca um céu será tão estrelado, nunca uma folga será tão merecida, nem nunca um passeio será tão gratificante. Essa é provavelmente a maior razão para se trabalhar num navio… a viagem, que acaba por ser não só física, mas em muitos outros aspetos, interior.

– agradecemos à Naiane Ferreira a disponibilidade para a redação deste artigo.

A redação do trabalhador.pt