O que leva alguém a ficar solteiro?

Apesar de ainda hoje haver pressão, exercida de forma mais ou menos indireta, para que as pessoas continuem a seguir os papéis tradicionais – é suposto namorar, morar junto, casar, ter filhos, etc. – muitas pessoas decidem ficar, simplesmente, solteiras. Mas afinal de contas o que as motiva?

Ficar solteiro: abordagem geral

A investigação acerca dos solteiros é uma área que habitualmente tem sido negligenciada pela literatura acerca das relações românticas.

Ainda assim, uma das hipóteses apontadas para justificar os motivos pelos quais as pessoas se manteriam solteiras seria o facto de serem indivíduos evitantes em termos relacionais, valorizando mais a independência e a auto-confiança. Para eles, a autonomia seria crucial, o que os levaria, em alguns casos, a suprimir sentimentos de amor e compromisso.

Por outro lado, também as pessoas com um tipo de vinculação mais ansiosa, isto é, mais dependentes e inseguras emocionalmente, pelo facto de terem sido possivelmente rejeitadas por parceiros relacionais que não aceitavam estas características, poderiam manter-se solteiras por estes motivos. Neste caso, provavelmente não se tratará de uma decisão totalmente livre, mas motivada pelas inseguranças da pessoa – prefere proteger-se porque receia voltar a ser magoada na próxima vez que “baixar a guarda” ao entrar numa relação.

Daí que algumas das motivações inerentes ao ficar solteiro sejam o sentir-se indesejável ou com menor auto-estima, assim como a sensação de perda de liberdade pessoal, tempo e dinheiro caso se envolva numa relação, assim como dificuldades a nível de confiança no outro e o querer evitar o conflito.

Em todos estes casos, as pessoas que lhes forneceriam um porto seguro e base segura, poderiam ser pessoas que não os parceiros maritais ou românticos (por exemplo, pais, amigos próximos, irmãos). Pode-se dizer que a hierarquia de prioridades da pessoa que prefere estar solteira seria diferente da pessoa que está numa relação visto que esta última geralmente tende a priorizar o parceiro romântico, sendo que as outras pessoas a que recorre ficam em segundo plano.

O ser-se “solteiro por escolha própria” seria uma forma de resistência à centralidade da ideologia familiar em prol da centralidade da escolha na (não) construção de relações íntimas, com a valorização preferencial do sentido de autonomia e individualidade. No fundo, seria uma forma de dar prioridade a uma escolha livre, em vez de se seguir pelo que é suposto ou esperado pela sociedade.

Assim, e apesar das pressões culturais e psicológicas para que seja suposto as pessoas se casarem, muitos indivíduos relatam crescimento pessoal, um aumento de oportunidades e amizades, e um sentido de independência que valida os seus estilos de vida presentes.

Deste modo, o ficar solteiro poderia dever-se, por exemplo, a uma preferência pelo investimento em oportunidades de carreira ou a uma valorização da liberdade e da possibilidade de fortalecer amizades.

No fundo, a decisão seria sempre baseada no balanço entre custos e ganhos de se envolver ou não numa relação.

Há, ainda hoje, discriminação dos solteiros?

Para muitas pessoas, e em muitas situações, o ficar-se solteiro seria percecionado como um estatuto apenas temporário ou transitório, o qual só poderia ocorrer devido a dificuldades “em escolher ou ser escolhido”. Significa isto que as pessoas à volta muitas vezes veem o ficar solteiro como sendo resultado de uma escolha meramente binária – ou não está a conseguir escolher um parceiro, ou nenhum parceiro o escolhe – não compreendendo que pode haver muito mais justificações para a pessoa estar solteira.

Deste modo, a partir do momento em que essa fase de solteiro se arrastasse no tempo, seria considerada uma disrupção biográfica e social, isto é, pensar-se-ia que “há alguma coisa de errado com esta pessoa”.

Assim, ainda hoje parece haver, em algumas circunstâncias, uma visão algo estigmatizada do estar solteirocomo correspondendo a uma categoria social desviante – “não é suposto ficar-se solteiro, é suposto arranjar alguém”.

Surge assim o conceito de singlism, que corresponde ao preconceito e discriminação em relação aos indivíduos que não se casam. As crenças incontestáveis da supremacia do casamento como um ideal cultural seriam inclusivé perpetuadas, inadvertidamente, pela comunidade social e científica – socialmente, porque ainda há uma ideologia do casamento muito vincada e, cientificamente, porque se dá preferência a estudar fenómenos relacionais em detrimento do fenómeno de se estar solteiro.

Vemos da mesma forma homens e mulheres que decidem ficar solteiros?

Tanto a imagem do homem como a da mulher solteira incluiriam avaliações positivas e negativas, as quais foram investigadas em diversos estudos da Psicologia.

Na mulher, as avaliações positivas seriam respeitantes ao valor dos papéis sociais e conquistas das mulheres solteiras, historicamente e nos dias de hoje: a mulher de “carreira independente”; a “tia favorita” e a madrinha ou a cuidadora dos pais mais velhos; as profissionais devotas, incluindo professoras e enfermeiras. Já as avaliações negativas corresponderiam, entre outros, à “solteirona” (e medo de se tornar uma), havendo ainda a perceção da mulher solteira como “neurótica”, “perigosa” ou sexualmente insatisfeita e descontrolada.

Já as imagens do homem solteiro incluiriam o profissional reto, demasiado ocupado e absorvido no trabalho para considerar o casamento, e o aventureiro, demasiado independente para estar “preso” a uma vida doméstica. Outras possibilidades seriam o do bon vivant, o do “solteirão” auto-centrado e imaturo, o do excêntrico ou marginal, e o do “menino da mamã”.

Inês Dias

Mestre em Psicologia Clínica e Pós-graduada em Profiling Criminal e Criminologia Forense, interessa-se ainda por Viagens, Fotografia e Música. O seu gosto pela formação e ensino levou-a a dar explicações a dezenas e dezenas de alunos ao longo dos anos e a dar formação. Mas também a procurar, ela própria, aprender sempre mais, sobre diversos temas. Mantém um certo carinho pela escrita e revisão de texto, o que a levou a colaborar em diversos projetos na área da Psicologia e não só. Este é mais um deles.

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