Idadismo: combater o preconceito com a idade

Já lhe disseram que é demasiado velho para alguma coisa? Já sentiu que foi vitíma de preconceito pela sua a idade? Pois é, embora o pensamento social venha a evoluir ao longo do tempo, parecem persistir alguns preconceitos e estereótipos com a idade.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), fruto do aumento da esperança média de vida e de uma acentuada quebra da natalidade nos países desenvolvidos, em 2050, 2 mil milhões de pessoas estarão acima dos 60 anos de idade.

Neste artigo abordamos o conceito de idadismo e as suas consequências para quem trava a batalha do preconceito com a idade”, procurando desconstruir algumas ideias feitas que persistem em não desaparecer.

O que é o idadismo?

Já ouviu falar em idadismo? O termo é uma tradução do inglês “ageism”, que consiste no estereótipo, preconceito e discriminação de pessoas com base na sua idade.

O idadismo é uma pratica comum e insidiosa que tem efeitos negativos na vida de muitos adultos, gerando um sentimento de exclusão em diferentes situações, tanto na vida profissional como nas próprias relações sociais. É uma forma de tornar os mais velhos invisíveis.

O idadismo está por todo o lado, não afetando apenas que tem 70, 80 ou 90 anos. Trata-se de um preconceito que é, de certa forma, normalizado pela própria sociedade, não sendo considerado propriamenete um assunto premenente, ao contrário do racismo ou sexismo.

Embora por vezes lhe possa passar ao lado, são muitas as frases ditas por aí que indicam claramente um preconceito com a idade / idadismo. Deixamos alguns exemplos:

  • “Já não tens idade para esse tipo de trabalho”;
  • “Já não tens idade para vestir essa roupa”;
  • “Já foste mais bonito do que és hoje”;
  • “O teu tempo já passou”;
  • “Tens um bom currículo, mas há profissionais mais jovens”.

Quais as consequências do idadismo?

Para muitas pessoas o idadismo é uma batalha de todos os dias que, salvo raras exceções, não conseguem vencer.

Este preconceito tem inúmeras consequências, nomeadamente a perda de oportunidades no mercado de trabalho, mesmo quando os candidatos mais velhos reunem todas as competências necessárias para a vaga de emprego.

O idadismo faz com que as pessoas se sintam deslocadas em determinados ambientes sociais, como em bares ou festas. Ou que sejam mal vistos por terem escolhido usar uma roupa considerada mais jovial e portanto, “reservada” única e exclusivamente aos jovens. O idadismo faz com que as pessoas se sintam incapazes, afetando o seu bem estar.

A consequência da exclusão, dos julgamentos e da indiferença afetam diretamente a saúde psicológica de quem sofre com este preconceito, afetando a sua autoestima e até a sua saúde física. O idadismo afeta as pessoas.

Idadismo: quando somos julgados pela idade

O idadismo é uma construção social e, ao longo do tempo foi sendo colocada como algo tão natural que muita gente nem sequer se apercebia tratar-se de um problema – e, portanto, pouco se falava disso.

A saúde, a capacidade, a fragilidade, entre outros pontos se tornaram estereótipos: idosos são frágeis, não podem ficar sozinhos, são incapazes de trabalhar, têm a saúde debilitada, são um peso para os filhos ou familiares mais jovens, são um custo alto para a sociedade, entre outros.

Embora o termo idadismo tenha sido definido em 1969 pelo psicólogo americano Robert Butler como “preconceitos, estereótipos, aversão e/ou evitamento de forma individual ou institucional contra idosos”, foi só recentemente que o assunto passou a ser mais discutido, numa tentativa de mostrar que o envelhecimento pode e deve ser uma fase de autonomia, vivida de forma saudável.

Como combater o idadismo?

O primeiro passo para combater o preconceito com a idade é começar por desconstruir as ideias feitas que parecem persistir na socidade e que, por não serem um “tema de primeira página”, acabaram por se tornar verdades absolutas para alguns. O combate ao idadismo começa por si, todos temos um papel a desempenhar.

Outro ponto importante no combate ao idadismo, é evitar as generalizações, isto é, rejeitar a ideia que todas o adultos com mais idade se comportam da mesma forma e que a população é heterogênea. Sabemos que generalizar e agrupar as pessoas por “gavetas” é um comportamento humano, no entanto quando levado ao exagero tem consequências.

Como já referimos, não há propriamente uma idade definida para idadismo, um adulto de 40 anos também pode sofrer deste preconceito. Muito se fala nos rótulos criados para os mais velhos. No entanto, o conceito de “velho” pode variar dependendo da ocasião. Facto é que a idade é algo incontornável, afinal de contas todos vamos lá chegar – queremos com isto dizer que as pessoas que atualmente alimentam este preconceito, serão as suas vitímas no futuro.

Idadismo no mercado de trabalho

Uma das situações em que o idadismo sempre esteve presente é no mercado de trabalho. É muito comum que sempre dê preferência aos mais candidatos mais jovens e que se tratem os mais velhos como se fossem incapazes de desempenhar algumas funções, mesmo sem lhes demonstrar. O setor empresarial das TIC é um exemplo onde o preconceito da idade se fez sentir.

Nem sempre o idadismo está ligado somente à velhice propriamente dita. Em relação ao trabalho, este tipo de preconceito pode começar ainda mais cedo, por volta dos 40 anos. A partir desta idade é já comum enfrentar dificuldades no acesso ao emprego.

A melhor forma das empresas combaterem o idadismo no mundo laboral, passa pela promoção de programas de valorização dos seu trabalhadores mais velhos – havendo já exemplos de empresas que o fazem. As próprias empresas têm muito a ganhar, beneficiando da experiência que os mais velho podem transmitir aos mais novos.

Idadismo social

Na vida social e no lazer, muitas pessoas agem como se não houvesse espaço para os mais velhos. Como se o lugar destes fosse em casa ou a praticar atividades “mais condizentes com a sua idade” no cartão de cidadão. O idadismo afeta também a vivência social.

Neste âmbito referir que não existe uma definição de atividades adequadas, já que tudo vai depender do gosto e da disposição de cada pessoa. O correto mesmo é que todos pudessem ser livres para viverem da forma como preferirem. Assim como há muitas pessoas mais jovens que gostam de ficar em casa ou fazer programas menos badalados, há muitas que são mais velhas, mas gostam de sair para dançar ou frequentar a noite.

Idadismo físico

A disposição tende a diminuir com a idade, mas não é uma regra. A vitalidade não é uma característica apenas dos mais jovens. Há pessoas idosas que gostam de se exercitar e praticar outras atividades.

Desde que essas atividades sejam feitas com orientação profissional (como deve ser em qualquer idade), não há nenhum problema e é algo que faz muito bem para a saúde física e mental.

Idadismo para as mulheres

O idadismo não é um problema apenas dos homens, aliás muito pelo contrário. As mulheres costumam sentir o preconceito da idade com mais frequência que os homens. Isso porque há um ideal de beleza feminina que está muito associado à juventude. Traços que nos homens sao muitas vezes encarados como charme – como é exemplo o cabelo grisalho ou até alguns quilos a mais. Quando nas mulheres estes traços são encarados como sinal de descuido com a aparência.

A própria indústria da beleza tem a sua quota parte neste processo, já que as mulheres são constantemente bombardeadas com publicidade a produtos de beleza (“fique mais bonita, mais magra, mais jovem…”). Para as mulheres, o idadismo chega mais cedo, perdendo o valor por já não serem propriamente jovens.

A verdade é que, ainda hoje, a sociedade encara o envelhecimento como um grande problema, como algo negativo. O idadismo ainda é um tabu. Mas, como já referido, é algo que precisa de ser discutido e combatido. 

É importante que as pessoas mais velhas se mantenham autônomas e possam escolher como querem viver, o que querem fazer, sem que haja uma pressão ou mesmo uma censura social. A sociedade não deve (nem pode!) determinar como cada um de nós se deve comportar em função da idade.

Independentemente da idade lembre-se que as suas ações tem consequências na vida das outras pessoas. Por vezes, uma “mera generalização” pode ter uma impacto bem maior do que pensamos na vida de alguém. Combata o idadismo é importante, quanto mais não seja porque a próxima vitíma do preconceito com a idade é você.

Mariana Bueno

Brasileira, jornalista e escritora. Desde criança tem os livros como os seus grandes companheiros e, mais tarde, transformou a escrita em profissão. É formada em Comunicação e pós-graduada em Media Digitais. Gosta de transmitir informações por meio dos seus textos e adora ouvir e contar boas histórias, de preferência as que descobre ao viajar por diferentes lugares.