Os melhores livros portugueses de sempre

Luís de Camões, José Saramago, Gil Vicente, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Miguel Torga, Almeida Garret, Agustina Bessa-Luís… O que há de comum entre estes nomes? Todos são mundialmente conhecidos pela sua enorme contribuição para a literatura, e todos são autores genuinamente portugueses. Génios da prosa, do verso e do conto, estes homens e mulheres notáveis colaboraram ativamente para a difusão da nossa produção literária pelos quatro cantos do globo, colocando-a entre as mais importantes do mundo.

No entanto, nota-se nos últimos anos uma mudança no padrão de comportamento dos leitores, que já não consomem tanto a chamada “grande literatura”, preterindo-a por títulos ditos “menos nobres” e, claro, trocando o insubstituível prazer de ler por uma distração fortuita na internet. Facto é que existe espaço para todas as manifestações culturais e literárias, bem como para a tecnologia, no entanto, é importante promover um resgate da tradição literária portuguesa, sob pena de assistirmos, pouco a pouco, ao apagamento de uma parte tão importante da nossa história.

Pensando nisso, preparamos este artigo sobre os melhores livros portugueses de sempre, cujo objetivo é apresentar aos nossos leitores, especialmente aos da nova geração, verdadeiras obras-primas da nossa literatura, títulos que merecem ser lidos e autores que merecem ser prestigiados hoje e sempre.

Os dez maiores clássicos da literatura lusitana

1. Os Lusíadas, Luís de Camões

As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Os Lusíadas, Canto I

Clássico da literatura portuguesa, Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, é considerado o maior monumento poético da língua portuguesa. Trata-se de um longo poema do género épico, cujo objetivo é cantar a pátria e a história de Portugal, abordando grandes acontecimentos históricos para ressaltar a bravura do nosso povo, especialmente daqueles que superaram grandes navegações, perigos e guerras para fazer avançar o Império e a Fé.

Esta célebre epopeia de Camões, publicada pela primeira vez em 1572, período literário do classicismo, demorou 12 anos para ser concluída, tamanha a sua engenhosidade – são 8816 versos decassílabos (em maioria os decassílabos heroicos: sílabas tónicas 6.ª e 10.ª) e 1102 estrofes de oito versos (oitavas), apresentados em dez cantos distribuídos em 5 partes (proposição, invocação, dedicatória, narração e epílogo).

Embora seja uma leitura desafiadora, sobretudo para os dias de hoje, em que o imediatismo não nos permite apreciar as belas artes, vale muito a pena ter contato com a genialidade de Luís de Camões, que deixou um legado inestimável neste que é, indubitavelmente, um dos melhores livros portugueses de sempre.

2. O Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

“Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende.”

Fragmento de O Livro do Desassossego

O Livro do Desassossego é mais um título que não poderia faltar nesta lista dos melhores livros portugueses de sempre. Assinada por Bernardo Soares, heterónimo que é considerado o alter ego de Fernando Pessoa, a obra de conteúdo biográfico foi publicada em 1982, quarenta e sete anos após a morte do seu autor. Nela, o leitor é convidado a mergulhar nos pensamentos de um dos maiores autores do século XX – as suas confissões e a sua vida oculta.

São mais de 500 textos sem princípio, meio nem fim, absolutamente fragmentados, mas que permitem compreender um pouco melhor o microcosmo desta personalidade misteriosa e inquieta que criou tantas outras para extravasar a sua genialidade.

3. Livro de Soror Saudade, Florbela Espanca

"(...) Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Fragmento do poema Fanatismo, in Livro de Sóror Saudade

Considerada a mais importante figura feminina da literatura portuguesa, Florbela Espanca, poeta que tão bem explorou temas como o amor, o erotismo e a solidão, é a autora de um dos clássicos das nossas letras, nomeadamente, Livro de Soror Saudade. Publicado em 1923, esta obra-prima do género poema é uma refundição de dois manuscritos anteriores de Florbela, Livro de Mágoas e Livro do Nosso Amor e Claustro de Quimeras.

No Livro de Soror Saudade, a escritora expõe o sentimento vivo do amor e da paixão, o que acusa a presença do romantismo do fim de século, acrescido de uma abordagem erótica que comprova o desajuste de Florbela – uma mulher à frente do seu tempo – aos padrões sociais das primeiras décadas do século XX.

4. Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

“Sei, sei, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma."

Fragmento de Ensaio sobre a cegueira

Uma das obras mais marcantes da literatura no século XX, Ensaio sobre a Cegueira é um dos títulos que ocupam um lugar cativo na lista dos melhores livros portugueses de sempre. Publicado em 1995, este romance de José Saramago foi uma das razões de o autor ter sido galardoada com o prémio Nobel de literatura, em 1998.

Na obra, o escritor aborda uma epidemia de cegueira que afeta as pessoas de uma grande metrópole, provocando o caos e abalando as estruturas de uma sociedade pretensamente civilizada. De acordo com o próprio autor, trata-se de “um livro terrível”, cujo intuito é causar sofrimento ao leitor; essa experiência dolorosa, porém necessária, poderá ser capaz de nos fazer enxergar a miséria humana e o colapso moral enfrentado na contemporaneidade.

Por meio da alegoria da “cegueira branca”, Saramago constrói uma metáfora contundente acerca da hipocrisia, do discurso do capitalismo e da alienação que transforma o indivíduo num ser conformado e autómato. Um verdadeiro convite à reflexão, que nos instiga a abrir os olhos e resgatar, com urgência, o afeto perdido num mundo de solidão e desamparo.

5. Os Maias, Eça de Queiroz

“- Falhamos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.”

Trecho de Os Maias

Os costumes da burguesia portuguesa do século XIX podem ser revisitados através da leitura de Os Maias, obra-prima de Eça de Queiroz. Neste, que certamente é um dos melhores livros portugueses de sempre, o leitor terá contacto com história de três gerações da família Maia: o patriarca, Afonso Maia, o seu filho Pedro, traído pela mulher, e o diletante neto, Carlos.

Não obstante, engana-se quem pensa que Os Maias se encerra no relato fortuito da vida desses personagens, pois o seu enredo, ambientado em Lisboa, foi cuidadosamente construído para ultrapassar a mera saga familiar e criticar a sociedade provinciana do seu tempo. Assim, neste romance, Eça recobre tanto o processo realista de construção literária quanto o processo humanista de observação social. Um verdadeiro deleite para os amantes da literatura.

6. O nome das coisas, Sophia de Mello Breyner Andresen

"Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade
Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida
O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe (...)".

Fragmento do poema Nesta Hora, in O Nome das Coisas

Uma das mais emblemáticas obras de Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas é um livro de poemas que não poderia faltar nesta lista de melhores livros portugueses de sempre. Nessa obra, que tem grande lastro no tema da Revolução dos Cravos, deparamo-nos com poemas de reflexão profunda em relação ao tempo passado, presente e, sobretudo, ao tempo futuro, momento em que finalmente as pessoas estariam libertas para sonhar e se expressar – direitos silenciados durante o regime do Estado Novo, que vigorou em Portugal durante 41 anos ininterruptos.

A temática social adotada nos poemas de O Nome das Coisas mostra uma Sophia de Mello Breyner Andresen preocupada com as questões do seu tempo, bem como o engajamento de uma cidadã politicamente ativa, merecidamente galardoada com o Prémio Camões. Este importante expoente das nossas letras ousou dar à poesia um valor transformador, atmosfera que pode ser tão bem captada nos versos desta que é, sem dúvidas, uma leitura fundamental para quem aprecia a nossa literatura.

7. A Sibila, Augustina Bessa-Luís

“(...) Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoram e se deram vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus polos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida, sem que, porém, as suas aspirações mais inquietantes deixaram de ser, no seu íntimo, as mesmas formas incompletas, chave da transfiguração que os homens eternamente tentam moldar e se legam de mão em mão, como um segredo e como uma dádiva (...)".

Trecho de A Sibila

Agustina Bessa-Luís foi uma das mais consagradas escritoras da contemporaneidade portuguesa, cujo reconhecimento se deu muito em virtude do sucesso da sua obra-prima, nomeadamente, A Sibila, publicada em 1954. Recebido com grande entusiasmo pela crítica, o romance garantiu à autora os Prémios Eça de Queirós e Delfim Guimarães, colocando Agustina no panteão dos grandes autores da nossa literatura.

O enredo conta a história de Joaquina Augusta, a sibila, mulher decidida, ambiciosa e por vezes vingativa, dotada de virtudes e defeitos que fazem dela uma personagem fascinante, tal e qual as sibilas da antiguidade greco-romana, profetisas com o dom de conhecer o futuro.

Na obra são explorados temas relativos à vida no meio rural e às relações entre as pessoas que nele habitam, ao amor à terra e à propriedade e às relações familiares. Um livro que merece ser explorado, sobretudo pelo seu modo inédito de abordar a situação existencial do homem, liberta de maniqueísmos.

8. A Criação do Mundo, Miguel Torga

"(...) – Quando um governante tem sempre razão, dispensa a razão do povo. E é um contra cinquenta milhões. Que lhe parece?
– Se ele for mais inteligente que os outros todos, acho bem.
– Pois eu, nem mesmo assim (...)”

Trecho de A Criação do Mundo

Um clássico da literatura portuguesa contemporânea. Assim pode ser descrito A Criação do Mundo, romance autobiográfico de Miguel Torga, primeiro escritor a receber o Prémio Camões. Nesta importante obra, Torga narra as principais lembranças da sua vida, como a infância no campo e as suas paisagens, as suas viagens por uma Europa tomada pelo fascismo, o encontro em Paris com exilados políticos, as rebeliões contra o Estado Novo e a experiência no cárcere durante o Salazarismo.

Em A Criação do Mundo existe a expressão da consciência privada do indivíduo inadaptado e distanciado daquilo que tanto deseja: integridade, justiça social e democracia. Nesta obra, considerada um dos melhores livros portugueses de sempre, Miguel Torga dá o seu testemunho de uma memória nacional não muito distante, um retrato sincero de um Portugal do fim da primeira metade do século XX, época em que os cidadãos viviam sob o domínio de regimes ditatoriais que tanto cercearam as liberdades individuais.

9. Viagens na minha terra, Almeida Garrett

"(...) O vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada de grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e sente, que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali, reina ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração (...)".

Trecho de Viagens na minha terra

Publicado inicialmente em folhetim entre 1845 e 1846, Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett – um dos principais expoentes do romantismo em Portugal – descreve a viagem que o autor fez entre Lisboa e Santarém, bem como as suas impressões sobre os locais por que passou. No meio destas peregrinações, Garrett narra a história de Joaninha, a menina dos rouxinóis, de Carlos, que encarna o herói romântico, e de Frei Dinis, entrelaçando a tragédia que liga estas personagens com as suas crónicas de viagem.

A viagem de que fala o título serviu de inspiração para o desenvolvimento de uma série de reflexões acerca de questões nacionais de grande relevância naquele momento (meados do século XIX), como o combate ao absolutismo e a ascensão do liberalismo, assuntos importantes abordados através de uma novela passional, género de grande apelo popular – o que facilitava a propagação de uma mensagem, cujo teor era notadamente político – para as grandes massas populares. Para Garrett, o povo lusitano deveria buscar os seus caminhos pelos próprios pés, sem depender de falsos líderes, tema que ainda hoje é, estranhamente, atual.

10. Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente

"Ó cavaleiros de Deus,
a vós estou esperando,
que morrestes pelejando
por Cristo, Senhor dos Céus!
Sois livres de todo mal,
mártires da Santa Igreja,
que quem morre em tal peleja
merece paz eternal."

Trecho do Auto da Barca do Inferno

Considerado o “pai do teatro português”, o dramaturgo Gil Vicente é o autor de um dos melhores livros portugueses de sempre, como é exemplo o Auto da Barca do Inferno, uma das peças mais emblemáticas da nossa literatura.

Encenada em 1531, faz parte da Trilogia das Barcas, ao lado do Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca da Glória. Importante referir que “auto” é um género que surgiu na Idade Média, que se caracteriza pelos seus textos breves de temática cómica, via de regra, formados por um único ato.

Nesta obra, os dois barqueiros, o Anjo e o Diabo, recebem as almas dos passageiros que passam para o outro mundo: aqueles que foram bons em vida vão para a barca de Deus, enquanto os que foram trapaceiros e pecadores vão parar na barca do Inferno, castigo pela má conduta praticada durante os dias terrenos.

A peça satiriza o juízo final do catolicismo, bem como a sociedade portuguesa do século XVI, por meio de simbologias associadas à falsidade, ambição, corrupção, avareza, mentira e hipocrisia, uma crítica mordaz, de valor educativo considerável, cujo lema é “rindo, corrigem-se os defeitos da sociedade”. Todavia, a mensagem final, por trás dos risos, revela-se um tanto pessimista. Vale a pena a leitura!

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Luana Castro Alves

Licenciada em Letras e Pedagogia, redatora e revisora, entusiasta do universo da literatura, sempre à procura das palavras. "Não se pode escrever nada com indiferença." (Simone de Beauvoir)