Compulsão alimentar: o que é, causas, hábitos e diagnóstico

Quem nunca exagerou na quantidade de comida ou comeu mesmo sem ter fome? Quando não são recorrentes, estes comportamentos não são lesivos para a saúde. No entanto, quando passam a fazer parte da rotina, podem ser o gatilho para o surgimento de um distúrbio mental bastante conhecido como compulsão alimentar.

O que é a compulsão alimentar?

A compulsão alimentar trata-se de um distúrbio caracterizado pela falta de controlo. Embora menos falado, quando comparado com outros distúrbios alimentares como a anorexia e a bulimia, a compulsão alimentar é mais comum do que se possa pensar.

A característica principal da compulsão é a vontade incontrolável de comer, mesmo sem ter fome. As pessoas que padecem desta patologia perdem o controlo assim que começam a ingerir alimentos, sendo capazes de ingerir 5000 ou 6000 calorias numa única refeição.

Muito presente em indivíduos obesos, o distúrbio de compulsão alimentar acontece quando a pessoa ingere muitos alimentos num pouco espaço de tempo ou em intervalos muito curtos, geralmente em torno das duas horas.

A compulsão alimentar é o mesmo que bulimia?

Não. Embora a bulimia e a compulsão alimentares sejam ambos distúrbios alimentares, são bastante diferentes entre si.

A grande diferença assenta entres este, assenta no facto de que na compulsão alimentar, a pessoa não tenta “remediar” a ingestão de calorias. Já no caso da bulimia, após a ingestão de uma grande quantidade de alimentos, o bulímico recorrer a métodos não convencionais para eliminar os alimentos ingeridos, nomeadamente através de laxantes ou da indução do vómito.

Quais as causas da compulsão alimentar?

A compulsão alimentar pode ser causada por distúrbios hormonais, fatores psicológicos ou por uma combinação destes.

Algumas alterações hormonais impedem os neurotransmissores do cérebro de receberem “sinais” de fome e saciedade, fazendo com que a pessoa continue a sentir a necessidade de ingerir alimentos, mesmo que os que já ingeriu sejam suficientes para suprimir as suas necessidades calóricas.

As dietas consideradas mais rígidas também podem ser um gatilho para o surgimento desse tipo de distúrbio. Muitas privam o indivíduo de alguns tipos de alimentos (doces e massas, por exemplo) e isso aumenta o desejo por alimentos considerados “proibidos”.

Além dos fatores hormonais, é preciso considerar que a baixa autoestima pode também desencadear a compulsão alimentar, até como forma de compensar a ansiedade. Para estas pessoas, o alimento torna-se um refúgio, um momento de conforto ou de fuga, como se a comida representasse uma compensação por uma situação de angústia ou um momento de tristeza.

Outro fator importante é a relação da compulsão alimentar com a depressão. Alguns estudos apontam para que o risco de uma pessoa depressiva desenvolver uma compulsão alimentar ser maior do que uma pessoa sem um quadro depressivo.

Quais os sintomas da compulsão alimentar?

Em algum momento, todos nós exageramos naquilo que comemos e não é por isso que sofremos de compulsão alimentar. Não obstante, quando isso se torna um hábito sob o qual deixamos de ter controlo então aí sim, poderemos estar perante uma compulsão alimentar.

Exemplos de hábitos típicos de pessoas que sofrem de compulsão alimentar:

  • Comer muito rápido;
  • Comer e sentir-se culpado;
  • Comer para aliviar a ansiedade;
  • Alimentar-se mesmo sem apetite;
  • Comer durante momentos de stress;
  • Ingerir alimentos às “escondidas”.

Embora não se tratem de sintomas propriamente ditos, algumas pessoas que sofrem deste distúrbio alimentar poderão tentar procurar “justificar” a sua compulsão alimentar fazendo comentários como os que indicamos infra:

  • “É mais forte do que eu. Não me consigo controlar”;
  • “Vou inventar uma desculpa para não sair, ficar em casa e comer”;
  • “Eu mereço comer isto”;
  • “Vou comer o que quiser, ninguém vai ver”;
  • “Já estou gordo(a), isto não vai fazer diferença”;
  • “Sei que não devo, mas não consigo parar de comer”.

Diagnóstico da compulsão alimentar

As pessoas que ingerem alimentos compulsivamente precisam de ajuda para superar esse distúrbio. À semelhança de outros distúrbios alimentares, como a bulimia e a anorexia, quanto mais precoce for o diagnóstico da compulsão alimentar, maiores são as probabilidades do tratamento ser bem sucedido.

O critério clínico do diagnóstico tem como base os relatos do indivíduo e, eventualmente, da família e pessoas próximas. Não existe um exame específico para diagnosticar esta doença, sendo importante observar a relação do paciente com a comida, nomeadamente a frequência dos episódios de compulsão alimentar que, regra geral, deverão ser de, pelo menos, duas vezes por semana.

A par de outros distúrbios alimentares, o diagnóstico e tratamento da compulsão alimentar devem ser efetuados por uma equipa multidisciplinar (médico de família, nutricionista, psiquiatra e endocrinologista) como forma de maximizar as probabilidades de sucesso

Durante a consulta, o médico irá realizar alguns exames e solicitar exames laboratoriais de forma a diagnosticar e prescrever o tratamento mais adequado para o caso em concreto. É expectável que lhe sejam feitas algumas perguntas para conhecer um pouco da sua rotina e da sua relação com a comida, tais como:

  • Como é a sua rotina?
  • O que come ao longo do dia?
  • Em que horários sente mais apetite?
  • Quando está satisfeito, para de comer?
  • Pratica alguma atividade física?
  • Toma medicação? Em caso afirmativo, qual?
  • Quando se sente triste ou angustiado, sente vontade de comer?
  • Come apenas quando está com apetite?

Como prevenir a compulsão alimentar?

Alguns comportamentos podem ajudar na prevenção da compulsão alimentar. Listamos de seguida algumas dicas que consideramos serem importantes de colocar em pratica no seu dia a dia:

  • Consuma de alimentos rico em fibras – Dê preferência a frutas, verduras, hortaliças frescas e grãos integrais. Estes alimentos minimizam a sensação de fome, ajudando a evitar possíveis episódios de compulsão alimentar.
  • Beba bastante água – Além de hidratar, a água ajuda a controlar o apetite, causando uma sensação de saciedade.
  • Não “salte” refeições – É importante comer bastantes vezes ao dia, preferencialmente a cada três horas. Alguns estudos mostram que “saltar” refeições aumenta o risco de comer em excesso.
  • Coma devagar – Evite fazer as refeições à pressa. Um dos sintomas da compulsão alimentar é precisamente a ingestão de alimentos de forma muito rápida.
  • Planeie as suas refeições – Preparar as refeições com calma e atenção, controlando o tamanho das porções, é uma dica valiosa para evitar um episódio de compulsão alimentar. Varie os nutrientes e planeie todas as suas refeições.
  • Pratique exercício físico – A prática regular de exercício físico é uma boa opção para quem quer controlar a ansiedade, além de proporcionar uma sensação de prazer e bem estar.

É relativamente comum que as pessoas que sofrem de compulsão alimentar tenham alguma dificuldade em reconhecer o seu problema. Por isso mesmo, é particularmente importante o apoio e aconselhamento da família perante os primeiros sinais de compulsão alimentar.

Por fim, vale reforçar que o presente artigo não substitui o aconselhamento médico.

A redação do trabalhador.pt