Impulsividade: quais as consequências e como a controlar?

A impulsividade é uma característica que se define por uma dificuldade em controlar os impulsos para a ação, levando a um agir sem ponderação prévia. Todos nós somos impulsivos em algum momento, seja porque estamos num estado emocional que tolda a nossa racionalidade no momento, seja porque estamos cansados ou com pouca predisposição para pensar.

Compreender a impulsividade ajuda-nos a saber porque somos impulsivos, e também a controlá-la melhor. Este artigo pretende explicar melhor o que é a impulsividade, porque é que ela acontece, como a minimizar, e quando é que ela se torna patológica.

O que é a impulsividade?

A impulsividade é uma característica do comportamento marcada por reações rápidas e não planeadas, em que a avaliação das consequências não é realizada, ou é realizada apenas de forma parcial, focando-se apenas em aspetos imediatos em detrimento das consequências a longo-prazo.

De uma forma geral, quando se gera um processo de decisão para um comportamento, existem quatro fases:

  • Fase de intenção ou propósito: em que os impulsos e desejos exercem sobre nós a sua influência inicial (ex: desejo comer um bolo);
  • Fase de deliberação: quando a pessoa faz a apreciação das implicações de cada alternativa (ex: não tenho bolo em casa; se comer bolo não vou conseguir almoçar…);
  • Fase da decisão propriamente dita: que marca o início da ação (ex: não vou comer o bolo);
  • Fase da execução: representada pelo processo dinâmico de um conjunto de atos que são combinados para atingir o objetivo escolhido (ex: vou comer outra coisa e como o bolo noutra altura).

A impulsividade pode ainda ser dividida em três subtipos principais:

  • Impulsividade motora, caracterizada pelo agir sem pensar;
  • Impulsividade atencional, caracterizada pela falta de concentração;
  • Impulsividade por não planeamento, caracterizada por uma orientação voltada para o presente e não para o futuro.

Quais os mecanismos neuronais da impulsividade?

A impulsividade pode ser explicada a partir de mecanismos biológicos diversos que interferem no nosso comportamento. Estudos científicos apontam para circuitos do córtex pré-frontal como responsáveis pelo controlo do comportamento impulsivo.

O córtex pré-frontal conecta-se a todas as áreas de associação do córtex e ao sistema límbico e está envolvido em várias funções, tais como: escolha, monitorização e modificação de opções e estratégias comportamentais mais adequadas a um objetivo; manutenção da atenção; controlo do comportamento emocional.

Assim, a impulsividade pode estar ligada a diferentes padrões de funcionamento neuronal:

  • Impulsividade motora está ligada a défices na inibição de respostas, ou seja, alterações ao nível da função executiva controlo inibitório;
  • Impulsividade cognitiva por dificuldades ao nível das funções da atenção e/ou memória de trabalho, associada a dificuldades na inibição de informações irrelevantes;
  • Impulsividade cognitiva por dificuldades na tomada de decisões, que consiste na dificuldade em adiar a gratificação, sendo orientada pelo presente sem levar em consideração as possíveis consequências a longo prazo.

Por isso, alterações a nível neuronal podem explicar determinadas patologias e transtornos do controlo dos impulsos (impulsividade), designadamente:

  • Comprometimentos no circuito dorsolateral do córtex pré-frontal (que pode originar aumento da impulsividade motora e da impulsividade por falta de atenção);
  • Comprometimentos no circuito orbitofrontal lateral (associados a comportamentos de risco e à alteração da personalidade, interferindo na capacidade de tomada de decisão);
  • Comprometimentos no circuito do cíngulo (relacionado com a motivação, monitorização de comportamentos, controlo executivo da atenção e seleção e monitorização de respostas).

O que significa ser impulsivo?

Em primeiro lugar é importante distinguirmos entre ser impulsivo e ter um comportamento impulsivo. A impulsividade pode de facto ser uma característica da personalidade, se a pessoa apresenta um padrão de comportamentos impulsivos repetidos.

Por outro lado, todos temos comportamentos impulsivos ocasionalmente, o que não faz de nós pessoas impulsivas. A impulsividade pode ainda tornar-se de tal forma presente que está na origem de uma perturbação psicopatológica, tal como veremos mais à frente.

Muitas vezes associamos a impulsividade ao agir sem pensar ou até à agressividade, no entanto, como vimos, existem diferentes tipos de impulsividade.

Por isso, a impulsividade pode estar presente em todos estes aspetos:

  • Quando queremos muito uma coisa e não somos capazes de adiar ou controlar esse desejo. Exemplos: ver um alimento apetitoso e ter de o comer naquele momento; estar numa reunião e ter que sair para fumar; ver uma coisa e ter de a comprar naquele momento;
  •  Quando tomamos decisões sem ponderar as suas consequências a longo-prazo, o chamado “decidir por impulso”;
  • Quando estamos num estado emocional tão intenso que falamos ou agimos sem ponderar primeiro as nossas palavras/ações ou as suas possíveis consequências. Acontece frequentemente em discussões e pessoas com menor autocontrolo emocional terão tendência a agir desta forma mais frequentemente;
  • Quando não conseguimos manter a nossa atenção / concentração numa determinada tarefa ou estímulo, e consequentemente agimos de forma contrária ao nosso objetivo;
  • Quando numa dada situação nos tornamos demasiado impacientes e irritáveis, não conseguindo esperar ou ficando inquietos;
  • Quando “explodimos”, não conseguindo controlar as nossas emoções e acabando por ser agressivos física ou verbalmente;
  • Quando interrompemos com muita frequência os outros, não permitindo que acabem de falar;
  • Quando nos envolvemos em situações de risco por não ponderarmos as consequências dessa ação;
  • Quando temos dificuldade em fazer planos com antecedência e concretizá-los.

Todas estas situações têm por base a impulsividade, e muito provavelmente alguma ou várias já nos aconteceram a todos. Se acontecem todas estas ou grande parte, e várias vezes, nesse caso a pessoa terá um temperamento impulsivo que poderá, em maior ou menor grau, ser prejudicial para a sua funcionalidade e bem-estar.

Quais as consequências da impulsividade?

Ser impulsivo pode trazer consequências a diversos níveis: pessoal, social, profissional, entre outras. Algumas das principais consequências negativas são:

  • Colocar-se em situações desfavoráveis por tomar decisões precipitadas (por exemplo aceitar um emprego sem ter as competências necessárias);
  • Envolver-se em situações de risco: elevados níveis de impulsividade podem levar a episódios de agressividade, violência, comportamentos negligentes, etc. Além disso, por não serem ponderadas as consequências pode haver envolvimento em situações de abuso de substâncias, situações de perigo ou mesmo risco de vida;
  • Uso do ataque como defesa: uma pessoa impulsiva tem tendência a atacar para se defender, tendo dificuldade em filtrar ou ponderar primeiro o porquê da crítica que lhe foi feita ou daquilo que lhe foi dito. Muitas vezes há uma vivência constantemente na defensiva, com dificuldade em aceitar feedback por parte dos outros e com uma necessidade de se defender constantemente, fazendo-o atacando os outros;
  • Deterioração das relações pessoais, devido ao comportamento impulsivo repetido;
  • Problemas no trabalho;
  • Mal-estar, uma vez que as emoções negativas muitas vezes são dominantes e que após um ato impulsivo surge frequentemente a culpa;
  • Baixa autoestima.

Se a impulsividade não acontecer em níveis excessivos, esta pode ter algumas consequências positivas. Por exemplo, pessoas com temperamento impulsivo são geralmente mais capazes de expor as suas opiniões. Por outro lado a impulsividade, pode também ajudar a tomar a iniciativa mais frequentemente, uma vez que por não analisar o risco não tem tanto medo de arriscar, acabando por ter a iniciativa de iniciar determinados projetos. As “pessoas impulsivas” podem também ser pessoas mais espontâneas e menos rígidas.

Como controlar a impulsividade?

Se a impulsividade existe em níveis moderados mas é uma característica que por vezes o prejudica, podem existir algumas dicas práticas no dia-a-dia que o ajudam a adquirir controlo sobre o seu comportamento:

  • Procure perceber o que despoleta a sua impulsividade, quais são os seus “gatilhos”: que situações o fazem ser impulsivo? Em que áreas da sua vida é mais impulsivo? Ela é o resultado da raiva, medo, ansiedade, ou de que outras emoções? Primeiro é importante pensar nestas questões para descobrir a origem do problema e poder antecipá-lo antes de ocorrer;
  • Aprenda a reconhecer os primeiros sinais de que está a ficar nervoso ou descontrolado (ex: aceleração do batimento cardíaco, suor, calor…). Ao saber reconhecer estes sinais em si pode atuar preventivamente quando eles surgirem, por exemplo afastando-se para se acalmar;
  • Pare e afaste-se: quando um dos “gatilhos” que identificou anteriormente ocorrer, pare e, se puder, afaste-se da situação por uns momentos. Se por ser impulsivo se envolve muitas vezes em discussões violentas, avise as pessoas que lhe são mais próximas que da próxima vez se vai retirar por uns instantes, para elas estarem preparadas e saberem que isso é uma estratégia que está a utilizar para aprender a controlar a impulsividade. Durante esse momento de afastamento, respire fundo e abstraia-se dos pensamentos geradores de emoções intensas. Pode fazer um exercício mental exigente, por exemplo, contar de 50 até 0 de 3 em 3. Desta forma vai desviar a atenção da mente e, quando voltar a pensar na situação, provavelmente o impulso já não será tão intenso;
  • Nunca tome nenhuma decisão em menos de 1 hora: obviamente que este tempo pode ser variável e depende muito das situações. Mas a ideia é que defina uma regra para si próprio que o vai ajudar a ser “obrigado” a ponderar antes de decidir. Pode também colocar como regra não tomar nenhuma decisão sem falar sobre o assunto com alguém de confiança. Não significa que vai fazer o que a pessoa lhe disser, mas ao falar com alguém e contar a situação já está a pensar e a refletir sobre ela;
  • Quando estiver nervoso faça cinco respirações profundas (inspirar pelo nariz contando até 3, segurar o ar contando até 3, expirar pela boca contando até 3). Pode também visualizar um lugar que lhe traga tranquilidade, ou ainda fechar os olhos e visualizar na sua mente, como se fosse uma tela de cinema, a palavra “PARA” escrita em letras grandes;
  • Se estiver mesmo muito nervoso e descontrolado, descarregue a sua energia noutra coisa qualquer: vá dar uma corrida, contraia e descontraia os músculos, grite para dentro de uma almofada, escreva o que sente num papel e rasgue… Encontre as estratégias que melhor resultam consigo;
  • Faça exercício físico: este ajuda a libertar a tensão e provoca uma sensação de relaxamento e bem-estar, o que ajuda bastante ao nível do autocontrolo emocional;
  • Faça meditação ou pratique mindfulness: tirar momentos para simplesmente parar e refletir vai ajudar a adquirir um maior controlo sobre si próprio e sobre a sua mente;
  • Não tenha receio de pedir ajuda se precisar. A intervenção psicológica pode ser fundamental para o ajudar a trabalhar o autocontrolo mediante estratégias e metodologias cientificamente validadas.

A impulsividade pode tornar-se patológica?

Em determinadas situações a impulsividade pode tornar-se patológica e está na origem de diferentes perturbações neuropsicológicas ou do neurodesenvolvimento. Vejamos quais as principais:

  • Transtorno explosivo intermitente: é caracterizado por episódios distintos em que a pessoa não consegue resistir a impulsos agressivos, o que resulta em agressões contra si própria ou contra os outros, ou ainda destruição de objetos;
  • Cleptomania: caracteriza-se pela dificuldade em resistir a impulsos de roubar objetos desnecessários para o uso pessoal ou insignificantes em termos de valor monetário;
  • Piromania: é caracterizada por um padrão de comportamento incendiário por prazer, gratificação ou alívio da tensão;
  • Jogo patológico: caracteriza-se por um comportamento mal-adaptativo, recorrente e persistente, relacionado a jogos de azar e apostas;
  • Tricotilomania: caracteriza-se pelo ato de puxar de forma recorrente os próprios cabelos por prazer, gratificação ou alívio da tensão, acarretando uma perda capilar percetível;
  • Transtorno do controlo dos impulsos sem outra especificação: aplica-se a outros transtornos que têm por base a impulsividade, como oniomania (compras compulsivas), impulso sexual excessivo, automutilação recorrente, entre outros.

Embora não se encaixe neste conjunto de transtornos por ser uma perturbação do neurodesenvolvimento, no transtorno de hiperatividade com défice de atenção também existe uma forte componente de impulsividade. A criança com esta perturbação apresenta uma dificuldade em regular a sua atenção e os seus comportamentos, apresentando com frequência um comportamento impulsivo.

Estas crianças frequentemente “falam sem pensar”, interrompem, cometem erros por descuido, não conseguem esperar pela sua vez, deixam escapar a resposta antes de a pergunta ser concluída, etc. A mente da criança com esta perturbação é altamente sensível e as suas reações são automáticas.

Em qualquer um dos transtornos suprarreferidos deve existir uma adequada intervenção psicológica e psiquiátrica (ou no caso da perturbação de hiperatividade e défice de atenção, de pediatria do desenvolvimento).

Em suma, a impulsividade é uma característica que pode ser prejudicial, em maior ou menor grau dependendo da sua intensidade e frequência. O autocontrolo é uma capacidade que pode ser melhorada e aprimorada, e pode procurar praticá-la, sendo que a ajuda de um psicólogo pode ser muito útil e fundamental.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.