Surto psicótico: causas, sintomas, prevenção e tratamento

O surto psicótico é uma situação que pode ocorrer e que pode estar associada a algumas psicopatologias, mas também tratar-se de um estado transitório devido, por exemplo, ao trauma ou choque ou ao consumo de alguma substância. Nem sempre é clara a compreensão do que é um surto psicótico, e este tipo de episódios pode ser bastante assustador.

Neste artigo pretendemos explicar em maior detalhe o que é um surto psicótico, que situações ou patologias o podem desencadear, como lidar com alguém em surto psicótico e qual a intervenção adequada.

O que é um surto psicótico?

A palavra surto geralmente remete-nos para mudanças de comportamento inesperadas ou desproporcionais perante uma determinada situação ou estímulo. No entanto, ao contrário de determinados comportamentos que às vezes apelidamos de surto (por exemplo dizemos que a pessoa “surtou” porque teve um ataque de raiva) o surto psicótico é uma situação diferente, que ocorre sem aviso prévio, de forma inesperada e faz-se acompanhar de sintomas psicóticos, que consistem num desfasamento da realidade.

Um surto psicótico é um estado mental temporário que envolve um distanciamento da realidade e distorções no conteúdo ou forma do pensamento, perceção, afeto, comportamento e funcionamento interpessoal.

O surto psicótico afeta a capacidade do indivíduo de pensar de forma clara, a capacidade de distinguir o que é real daquilo que é imaginário, a capacidade de gerir emoções, de tomar decisões e de se relacionar com os outros.

Quais as causas do surto psicótico?

Diversas situações e fatores podem levar ao desencadear de um surto psicótico. O surto psicótico surge de forma comum associado a uma descompensação de doenças e perturbações psicóticas, tais como a esquizofrenia. No entanto, o surto psicótico também pode ser uma manifestação de outras psicopatologias, como por exemplo a depressão grave.

Assim, embora muitas vezes associemos a crise psicótica à patologia psicótica, por exemplo, a doenças como a esquizofrenia, o surto psicótico também pode surgir derivado de outras situações:

  • Outras patologias (ex: depressão, bipolaridade) conjugadas com fatores adicionais / stressores;
  • Medicação, ou seja, o surto psicótico pode surgir como efeito secundário de determinados fármacos;
  • Stress psicológico intenso ou vivência de uma situação traumática muito intensa (trata-se, neste caso, de uma reação aguda de stress dissociativa, que pode eventualmente ser normativa e a pessoa pode conseguir reestruturar-se. O organismo bloqueia para defesa, de forma involuntária);
  • Privação do sono;
  • Abusos de substâncias – álcool ou drogas. Todas as drogas, principalmente as ilícitas, podem ter o potencial de alterar o funcionamento do sistema nervoso, de forma temporária ou mesmo prolongada;
  • Epilepsia;
  • Tumores cerebrais;
  • Distúrbios melancólicos ou da tiroide;
  • Hipoglicémia;
  • Acidentes Vasculares Cerebrais;
  • Lúpus;
  • Sífilis;
  • Doença de Wilson’s (excesso de cobre em alguns órgãos – cérebro, fígado…).

Quais os sintomas do surto psicótico?

O surto psicótico caracteriza-se, tal como referido, por alterações na perceção e consequentes alterações comportamentais. Os principais sintomas do surto psicótico são os seguintes:

  • Delírios: ocorrem quando o individuo tem uma perceção correta da realidade, mas a interpreta de forma distorcida. Por exemplo, a pessoa ouve o som de chaves e acredita serem sons “do além”. A pessoa efetivamente ouve o som das chaves, mas interpreta de uma forma distorcida e delirante. Existem diferentes tipos de delírios:
    • Delírio de grandeza: a pessoa tem a ideia de que tem um valor inestimável, um poder imensurável, relação especial com entidades divinas, entre outros (por exemplo acha que tem um relacionamento próximo com Deus, ou que é o próprio Deus, ou que consegue viajar para outros planetas, ou que é amigo de várias celebridades…);
    • Delírio de ciúme: ocorre quando o indivíduo acredita que o seu parceiro sexual ou amoroso lhe é infiel;
    • Delírio persecutório: a pessoa acredita que é maltratada ou perseguida por outras pessoas ou entidades;
    • Delírio somático: a pessoa tem a ideia de que tem um defeito físico ou uma doença que na realidade não se verifica;
    • Delírio misto: podem constar mais do que um tipo das ideias referidas, sendo que nenhuma é prevalente.
  • Alucinações: a alucinação ocorre quando o indivíduo tem uma perceção errada da realidade, ou seja, vê, ouve ou sente algo que não está lá e que mais ninguém consegue ver, ouvir ou sentir. As alucinações podem ser de diferentes tipos:
    • Visuais: a pessoa vê coisas que mais ninguém vê;
    • Auditivas: a pessoa pode ouvir vozes que comentam ou falam entre si, ou pode ouvir vozes que falam diretamente com ela. Pode ouvir apenas uma voz ou várias vozes. Habitualmente quando as vozes são apenas comentadoras não há um risco tão grande de a pessoa passar ao ato ou adotar algum comportamento perigoso, porque as vozes falam entre si, não falam para a pessoa. No entanto, se se tratar de uma voz ou vozes que falam diretamente para a pessoa o risco é maior, uma vez que a pessoa pode ouvir as vozes a dar-lhe ordens ou a mandá-la fazer coisas potencialmente perigosas;
    • Olfativas, gustativas;
    • Tácteis;
    • Cenestésicas (sentir coisas no corpo);
    • Cinestésicas (sentir o corpo a mexer).
  • Discurso desorganizado, incoerente e muitas vezes de conteúdo incompreensível:
    • Por vezes a pessoa não consegue encadear as suas ideias;
    • O que diz traduz o conteúdo das suas alucinações ou delírios, daí que possa parecer um conteúdo ilógico;
    • Falta de fluência no discurso;
    • Utilização de palavras que não existem (neologismos);
    • Mutismo / não falar.
  • Comportamentos agressivos;
  • Despersonalização;
  • Comportamento estranho, sem lógica e, por vezes, bizarro:
    • Grande agitação psicomotora (hipercinésia);
    • Redução da atividade psicomotora (hipocinésia);
    • Paracinésia (negativismo, maneirismos, estereotipias, flexibilidade cérea – contração muscular que provoca posições muito rígidas).
  • Apatia, quase ausência de movimento/reatividade/emotividade;
  • Sintomas negativos:
    • Embotamento afetivo: não há emotividade, a pessoa não reage emocionalmente;
    • Alogia (pobreza de pensamento – dificuldade em pensar, em encadear ideias, em raciocinar, o pensamento abstrato é muito difícil);
    • Avolição (pobreza de iniciativa, a pessoa não toma ação, não consegue ter iniciativa para nada).  
  • Alterações nos padrões de sono e alimentação;
  • Medo, assustado.

Como prevenir um surto psicótico?

Como referido anteriormente, o surto psicótico pode surgir por variadas razões, sendo que nem todas são totalmente controláveis, tal como é o caso das perturbações psicóticas como a esquizofrenia. No entanto, alguns aspetos podem ser fundamentais e contribuir de forma significativa para evitar o surgimento de um surto psicótico.

Como vimos o surto psicótico surge muitas vezes decorrente do consumo de substâncias psicoativas. Como tal, evitar o consumo de drogas é importante para evitar o surgimento de surtos psicóticos, uma vez que estas substâncias agem diretamente no sistema nervoso central e podem alterar funções importantes do organismo. Não só o consumo de drogas pode desencadear sintomas psicóticos como pode, a longo prazo, induzir a doença psiquiátrica grave.

Apesar de os restantes fatores serem difíceis de controlar, uma boa forma de prevenir é estar atento aos primeiros sinais e alterações do funcionamento da pessoa, tais como alterações bruscas a nível profissional ou académico ou nas relações interpessoais. Qualquer alteração deve ser alvo de uma avaliação por um profissional de saúde mental, pois se for diagnosticada a psicopatologia subjacente pode evitar-se o surgimento de surtos psicóticos. Quando a doença já está diagnosticada, a adesão ao tratamento e seguir de forma correta o tratamento prescrito é fundamental para evitar a descompensação e consequentes surtos psicóticos.

Como agir perante alguém em surto psicótico?

Se estamos perante alguém que está a ter um surto psicótico o primeiro aspeto fundamental é garantir a segurança. Ou seja, considerando que a pessoa não está consciente da realidade, pode tornar-se agressiva ou até perigosa. Por isso, antes de nos aproximarmos temos de garantir que não nos estamos a colocar em risco. Por exemplo, a pessoa tem consigo objetos perigosos como facas? Devemos também observar se ela apresenta indicadores ou indícios de que pode ser agressiva: agressividade verbal (insultos, etc), olhar desafiador, raiva, contração muscular, punhos cerrados… No caso de existirem estes sinais devemos manter uma distância de segurança, e obviamente ativar os meios de socorro.

Se nos aproximamos da pessoa, esta aproximação deve ser sempre gradual e ponderada, uma vez que movimentos bruscos podem assustá-la. Se possível, pode ser útil levar a pessoa para um sítio com menos estímulos, para lhe dar uma maior sensação de segurança e permitir que esteja mais tranquila e que o excesso de estimulação (por exemplo ruídos, luzes) não contribua para aumentar o seu estado de confusão.

Depois de asseguradas estas questões, é fundamental ouvir com atenção e procurar estabelecer uma ligação de confiança com ela. Temos de pensar que a pessoa se encontra confusa, desorientada e desconfiada, pelo que temos de agir de forma tranquila e reconfortante, usando uma postura cautelosa, acolhedora, mas não intrusiva, ajudando a que a se sinta menos assustada.

É conveniente também perceber em que contexto surgiu o surto psicótico, isto é, se houve algum fator desencadeante, uma vez que isto pode ser importante para ajudar a pessoa no momento do surto psicótico.

De forma resumida apresentamos algumas dicas fundamentais para lidar com a pessoa em surto psicótico:

  • Aproximar-se com uma postura calma e serena, sem fazer muitos movimentos bruscos e sem gesticular demasiado, de maneira a não ser interpretado como ameaçador;
  • Evite olhar de uma forma direta e fixamente para a pessoa – ainda que a pessoa o possa olhar com um olhar avaliador, desafiador, não deve olhá-la da mesma forma;
  • Lembre-se que a pessoa em causa poderá estar assustada, criando um ambiente tranquilo de modo a transmitir-lhe segurança – muitas vezes existem barulhos à volta, rádios ligados ou televisão ligada… Se a pessoa estiver a ter alucinações auditivas pode tentar abafar ou anular as vozes com outros ruídos, colocando por exemplo a televisão num volume alto. Deve tentar criar um ambiente mais seguro para a pessoa e com mais condições para ela poder comunicar consigo. Não desligue os aparelhos sem pedir primeiro, pergunte à pessoa se pode desligar. Se por um lado é importante criar um ambiente seguro e diminuir estímulos, por outro também é importante perceber qual a função desses estímulos e agir de forma gradual.  
  • Diminuir ao máximo os estímulos distratores, por exemplo desligando a televisão e o rádio para reduzir os estímulos e a tensão existente;
  • Se estiverem presentes outras pessoas, pedir-lhes delicadamente para se retirarem – a não ser que seja alguém importante e que possa ajudar a tranquilizar a pessoa, a presença de muita gente no local pode aumentar o grau de confusão;
  • Tentar iniciar a interação com a pessoa de forma empática, dizendo algo como “compreendo que não se esteja a sentir bem, estou aqui para ajudar”, “podemo-nos sentar e conversar um pouco?”;
  • Fale devagar e de uma forma clara, utilizando um tom de voz neutro, usando também frases curtas e simples para evitar confusões;
  • Vá comentando aquilo que está a observar, por exemplo “está com medo? Com fome? Está assustado? Pode dizer-me o que o está a deixar assim?”;
  • Explore o que a pessoa está a ver ou a ouvir, para verificar se existem alucinações. Não contrarie a pessoa nem seja intrusivo a dizer que aquilo são alucinações ou “coisas da cabeça dela”. Lembre-se que a pessoa está efetivamente a ouvir ou a ver aquilo, e que por isso ser agressivo na forma de abordar a situação só vai ser prejudicial. Se a pessoa em surto psicótico lhe perguntar se também está a ver ou a ouvir, responda “Eu não estou a ouvir, mas acredito que esteja a ouvir e percebo que isso possa ser assustador”;
  • Evite fazer comparações e utilizar verbalizações agressivas como por exemplo “parece uma criança!”;
  • Não reformule aquilo que disser para tentar ser melhor compreendido. Seja sempre sucinto, claro e objetivo e, no caso de precisar de repetir o que disse anteriormente, faça-o utilizando as mesmas palavras;
  • Permita sempre que a pessoa disponha de um espaço próprio, não se colocando numa postura de confrontação (em frente à pessoa ou tentando rodeá-la);
  • Não se esqueça que as suas emoções são percebidas, podendo influenciar e determinar as suas atitudes e comportamentos;
  • Se tiver a sensação que a pessoa não está a dar-lhe qualquer atenção, lembre-se que poderá estar a ouvir outras vozes que podem ser muito incomodativas;
  • Não adote de forma nenhuma uma postura crítica;
  • Não se coloque em frente da porta de saída, para que a pessoa não se sinta encurralada ou aprisionada;
  • Sempre que possível tente ganhar a colaboração da pessoa. Se a ajudar a criar alternativas e fazer escolhas, está a contribuir para que haja um maior autocontrolo;
  • Se reparar que o indivíduo está a delirar ou a ter alucinações, tente não a contrariar. Pelo contrário, tente entrar no “filme” e compreender o que a pessoa está a ver ou a sentir.

Sempre que o doente represente perigo para si próprio, para os outros ou para o património, ou seja portador de anomalia psíquica grave que não possua o discernimento necessário para avaliar o sentido e alcance do consentimento, pode ser necessário desencadear um transporte ou internamento compulsivo. O transporte compulsivo acontece quando a pessoa está em risco naquele momento concreto (por exemplo, anda na rua com uma arma e apresenta alucinações indicando que ouve vozes que a mandam fazer coisas). Neste caso, é emitido um mandato de transporte compulsivo, desencadeado pelas autoridades, e a pessoa é transportada até à urgência hospitalar, numa ambulância, e é acompanhada pelas autoridades. No hospital a pessoa é alvo de uma avaliação psiquiátrica. No entanto, isto não significa que a pessoa fique internada, uma vez que a avaliação pode determinar que o internamento não é necessário.

Por outro lado, o internamento compulsivo ocorre quando, não havendo risco imediato, há a possibilidade de vir a existir perigo, por exemplo, quando a pessoa apresenta intenção suicida ou homicida. Neste caso, um familiar pode desencadear o processo através do delegado de saúde ou do Ministério Público e solicitar o internamento compulsivo. O internamento compulsivo pode ser gerado com mandato judicial prévio ou sem mandato judicial prévio, sendo solicitado de imediato ao Ministério Público pela autoridade no local da ocorrência.

Qual o tratamento para o surto psicótico?

Como exposto anteriormente, o surto psicótico pode ser desencadeado por diferentes situações clínicas ou até eventos altamente stressantes, pelo que o tratamento irá sempre depender do que desencadeou o surto psicótico.

Por exemplo, se o surto psicótico foi desencadeado por um evento traumático terá tendência a ser apenas uma resposta transitória do organismo, sem se repetir. Ainda assim a avaliação psiquiátrica é importante para determinar a necessidade de tratamento e eventual toma de fármacos.

Se, por outro lado, o surto psicótico é gerado por outra situação médica, como por exemplo depressão ou problemas de tiroide, um ajuste no tratamento da patologia será a melhor resolução para evitar repetição dos episódios.

No caso de o surto psicótico ser gerado pela presença de uma perturbação psicótica, como por exemplo a esquizofrenia, é importante primeiramente que exista um diagnóstico clínico minucioso. A avaliação completa e detalhada vai permitir considerar as melhores opções de tratamento atendendo às necessidades específicas do paciente.  

Entre os tratamentos disponíveis para perturbações psicóticas encontram-se a medicação e a psicoterapia. O tratamento é mais eficaz quando ambas as formas são combinadas, isto é, quando o paciente toma medicação e faz psicoterapia em simultâneo. Obviamente que isto também dependerá da fase da doença. Isto é, numa fase inicial o paciente pode não ser capaz de aderir adequadamente à psicoterapia, pelo que pode ser necessário introduzir primeiro a medicação para estabilizar o seu estado, podendo a psicoterapia ser contemplada mais tarde e assim que exista essa estabilização.

Quando o surto psicótico é desencadeado pelo consumo abusivo de substâncias psicoativas, os sintomas podem passar após cessar o consumo da substância. No entanto, nalguns casos pode não ser suficiente e serem necessárias medidas adicionais para além da desintoxicação, tais como o uso de fármacos, o acompanhamento psicológico ou até mesmo o internamento.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.