Vício em pornografia: o que é, causas, sinais e tratamento

A pornografia surgiu nas últimas décadas, verificando-se um crescendo no que diz respeito ao seu consumo. Se o consumo de pornografia pode estar associado a aspetos positivos, tais como uma maior liberdade sexual e menos tabus acerca do sexo, por outro também está associada a fenómenos negativos, sendo um deles o vício em pornografia. Neste artigo pretendemos explorar o vício em pornografia, compreendendo os seus sinais, as consequências e as formas de prevenção e intervenção.

Quais os hábitos de consumo de pornografia?

Para muitas pessoas o primeiro contacto com a pornografia não ocorre de uma forma intencional, mas surge por exposição acidental ao conteúdo, isto é, quando ele aparece na internet ou outros meios de comunicação social. Ainda que o primeiro contacto seja involuntário, ele frequentemente converte-se depois em intencional e ativo.

O início do contacto com a pornografia ocorre, atualmente, numa idade precoce, sendo geralmente o primeiro contacto realizado por volta dos 12 anos. Assim, a exposição aos conteúdos de pornografia ocorre cada vez mais precocemente sendo que, a dado ponto da adolescência, parece passar a ocorrer um consumo regular. A tendência é para este consumo diminuir com a idade, passada a fase adolescente em que os fatores hormonais são um fator que contribui bastante para este consumo. No entanto, muitas pessoas mantêm o consumo e este pode tornar-se excessivo.

O consumo de pornografia, bem como a sua frequência, varia mediante diferentes fatores. O género é um destes fatores, sendo que a pornografia é significativamente mais consumida por homens do que por mulheres. Na maioria das pessoas este acesso é feito pelo menos uma vez por semana. A percentagem é maior em pessoas solteiras e ligeiramente menor em casadas, mas ainda assim elevada. Os fatores religiosos parecem também ter impacto, uma vez que o consumo é maior nas pessoas que não se identificam com nenhuma religião.

Fenómenos como o advento dos smartphones, as redes sociais e práticas como o “sexting” (envio de mensagens com conteúdo sexual) ou do envio de “nudes” (envio de fotografias em que a pessoa está nua ou parcialmente nua) contribuíram também para um maior recurso a este tipo de conteúdos. Estas práticas parecem ser sobretudo recorrentes em adolescentes e jovens adultos.

Assumir o consumo de pornografia parece ser ainda, em parte, tabu, e gerar desconforto ou até vergonha. Uma percentagem elevada de pessoas considera o consumo de pornografia algo de negativo e aparecem associadas emoções como culpa ou frustração. Algumas das razões que levam ao consumo de pornografia são o prazer sexual, a curiosidade, o alívio de stress ou tensão, o tédio ou procura de diversão, e ainda o aprender a satisfazer o/a parceiro/a.

O que é o vício em pornografia?

O vício em pornografia é caracterizado por um consumo excessivo e descontrolado. O que caracteriza qualquer vício não é meramente a quantidade em que a pessoa consome aquilo em que está viciada, mas sim a sensação de perda de controlo. Se eu comer muito chocolate não posso considerar que esteja viciada, se esse consumo excessivo foi por minha iniciativa e ocorreu dentro do meu controlo. No entanto, se eu não consigo, mesmo que queira, parar de consumir chocolate, e continuo a consumir mesmo quando isso me traz consequências negativas, então podemos considerar que estou viciada.

O mesmo se aplica à pornografia. O vício em pornografia caracteriza-se pela falta de controlo, pelo facto de a pessoa não conseguir não consumir mesmo que queira e mesmo que isso lhe traga consequências nefastas, e por ter cada vez mais necessidade de consumir pornografia para obter o mesmo grau de satisfação ou prazer.

O vício pode fazer-se acompanhar de sintomas de dependência física ou abstinência. Muitas das pessoas com vício em pornografia apresentam síndromes de abstinência semelhantes às dos usuários de álcool ou drogas.

As fases de desenvolvimento do vício são geralmente as seguintes:

  • Comportamento impulsionado por emoções positivas que progridem da procura para a compulsão;
  • Uso contínuo sob o risco de consequências negativas ou adversas;
  • Perda do controlo.

Porque é que o vício em pornografia acontece?

Compreender o vício em pornografia exige que primeiramente olhemos para os fatores sociais. A pornografia “invadiu” a cultura e a sociedade e nunca antes foi tão fácil aceder a este tipo de conteúdos. Aliás, não só é fácil aceder a eles como é quase impossível não nos depararmos, em algum momento, com conteúdos de pornografia. É difícil afastar por exemplo as crianças deste tipo de conteúdos porque eles estão altamente proliferados pela internet. Ou seja, a exposição ocorre mesmo que de forma involuntária, através de anúncios que surgem em páginas da internet, receção de vídeos e imagens por meio de aplicações ou e-mail, entre outros.

Existindo esta exposição e sabendo que a pornografia proporciona, para muitas pessoas, uma gratificação sexual imediata, após os fatores sociais temos de olhar para os mecanismos psicológicos e cerebrais que interferem no surgimento e manutenção deste vício.

Os estudos científicos parecem concluir que o vício em pornografia está relacionado com o nosso circuito cerebral de recompensa (e com a libertação de uma substância denominada dopamina). Quando o cérebro é exposto a conteúdo de pornografia, estes circuitos de recompensa são ativados. Pelas sensações que são libertadas, acabamos por depois acentuar a necessidade e a vontade de recorrer ao consumo repetido destes conteúdos. No fundo, o vício em pornografia acontece de modo semelhante a qualquer outro vício, e é desencadeado pelos mesmos mecanismos. Se a exposição que temos a substâncias como drogas pode ser limitada ou de mais difícil acesso, por outro lado a pornografia é de muito mais fácil acesso, tornando assim o vício e a dependência mais prováveis.

O consumo de pornografia estimula o circuito de recompensa e, uma vez que o seu consumo é bastante fácil e direto, torna-se mais tendencioso repetir esse consumo e procurar a mesma sensação de recompensa experimentada. Quando o cérebro se depara com um número ilimitado de estímulos cuja quantidade é incapaz de suportar, ele adapta-se, e esta dinâmica pode conduzir ao vício. Com o consumo de pornografia e a ativação do mecanismo de recompensa, verifica-se um fenómeno de excesso ou sobrecarga em termos de saciação (sensação de satisfação).

A forma como o consumo excessivo de pornografia afeta o nosso cérebro é semelhante ao efeito de outros vícios: verifica-se uma redução da produção de dopamina e uma queda nos recetores desta substância no circuito de recompensa. Com menos dopamina e também com menos recetores da mesma, é mais difícil estimular o circuito de recompensa. Este processo acaba por levar a uma resposta indiferente ao prazer, ou habituação. O ciclo que ocorre é o seguinte: satisfação com o estímulo leva a uma espécie de anestesia ao prazer, que por sua vez leva à procura por mais estímulo, que proporciona prazer momentâneo. Há um declínio dos recetores de dopamina que faz com que haja cada vez mais anestesia ao prazer a mais procura pelo estímulo, sendo que a quantidade de estímulo tem que ser cada vez maior ou mais frequente para proporcionar prazer.

Também contribui para o vício em pornografia algumas características atuais da mesma, designadamente:

  • A presença de fantasias extremas, altamente estimulantes e com conteúdo quase ilimitado;
  • Não existência de limite prático para o consumo, sobretudo quando falamos da pornografia na internet;
  • A progressão do consumo pode ocorrer não só em termos de frequência, mas também de variedade, passando-se para outro tipo de conteúdos, que podem ser cada vez mais incomuns ou “pesados”.

Quais as consequências do vício em pornografia?

O consumo excessivo e consequente vício em pornografia está associado a várias consequências, muitas delas graves e altamente interferentes com a funcionalidade e bem-estar da pessoa. As consequências vão desde o isolamento à perda de relações sociais e afetivas, bem como degradação de relações familiares e profissionais, podendo mesmo causar uma incapacidade progressiva a nível do trabalho.

Em termos de sintomas, conseguimos identificar alguns sintomas que estão associados ao vício em pornografia:

  • Impotência, isto é, dificuldade em ter ereção em interações sexuais, só o conseguindo ter com a pornografia;
  • Dificuldade em obter satisfação sexual e em ter uma vida sexual satisfatória;
  • Masturbação frequente que proporciona pouca satisfação;
  • Ansiedade social que se pode ir agravando e atingir níveis severos;
  • Sentimentos de angústia e culpa:
  • Aumento da disfunção erétil;
  • Ejaculação precoce;
  • Diminuição da sensibilidade peniana;
  • Deixar de ter ereções espontâneas;
  • Ejaculação retardada ou incapacidade em obter orgasmo durante o sexo real;
  • Incapacidade em manter a ereção;
  • Depressão e dificuldades de foco e concentração, bem como problemas de memória;
  • Diminuição da produtividade e problemas no trabalho;
  • Falta de motivação;
  • Alterações no sono e na alimentação.

O excesso de masturbação também pode levar a um esgotamento de vitaminas, minerais e hormonas que podem conduzir a uma ejaculação precoce. Pode haver uma alteração do comportamento para tentar contornar este problema, que geralmente não tem resultados eficazes e positivos.

Quais os sinais de que o vício em pornografia está presente?

Existem alguns sinais de alerta que nos podem ajudar a identificar o vício em pornografia. Estes sinais ou sintomas não têm de ocorrer em toda a gente da mesma forma, e existe variabilidade. Um só sinal ou sintoma por si só pode não representar qualquer perigo, sendo a junção ou acumulação de diferentes aspetos que pode indicar que algo não está bem. Os sinais podem ser um bom guião para nos ajudar a identificar a presença de um problema. Os principais sinais são:

  • A pessoa esconde os seus hábitos secretos de amigos ou da família e fica extremamente desconfortável e constrangida se lhe perguntam sobre o que esteve a fazer;
  • A produtividade da pessoa começa a decair significativamente, parece que deixa de ter tempo para fazer tarefas e dar conta de responsabilidades que antes fazia com relativa facilidade;
  • A pessoa não consegue deixar de ver conteúdo de pornografia, nem mesmo no trabalho ou em locais e circunstâncias que são inapropriadas;
  • Grande parte do acesso à internet é feito para consumo de conteúdo pornográfico;
  • A pessoa passa a gastar dinheiro para comprar pornografia ou para comprar mais espaço de armazenamento para a pornografia;
  • Verifica-se uma troca e preferência do sexo real pelo sexo virtual;
  • É difícil para a pessoa ficar excitada com uma interação sexual real;
  • A pessoa tem receio ou dificuldade em se aproximar de outras pessoas e flirtar ou cortejar;
  • A pessoa tem dificuldade em interagir com outras pessoas de uma forma geral;
  • Prefere ficar em casa a sair e abandona atividades;
  • A pornografia e a masturbação tomam conta da maior parte do dia da pessoa;
  • Há uma sensação frequente ou quase permanente de cansaço e desmotivação;
  • A pessoa cria contas em vários sites pornográficos;
  • A pessoa sente necessidade de consumir pornografia mais extrema ou que não está de acordo com as suas preferências habituais.

Como prevenir o vício em pornografia?

A prevenção de qualquer vício passa em mediar o consumo e promover a capacidade de autocontrolo. Tal como em tudo, a privação ou o proibir-se de fazer alguma coisa não é o segredo, mas sim a moderação.

Algumas estratégias que poderão prevenir o vício em pornografia são:

  • Fazer um consumo moderado e controlado de conteúdos pornográficos;
  • Eleger os conteúdos de preferência e os momentos do seu consumo de forma seletiva e racional;
  • Envolver-se em interações sociais reais e saudáveis, procurando ter uma sexualidade saudável;
  • Investir nas relações sociais e no convívio com outras pessoas;
  • Conseguir ter um olhar crítico ao consumir pornografia, compreendendo as diferenças entre o que é refletido sobre o sexo e a sexualidade na pornografia e a realidade, desconstruído alguns mitos e não generalizando aquilo que vê;
  • Diversificar as fontes de obtenção de prazer e gratificação – ter atividades ou hobbies que proporcionam satisfação, ter uma vida ativa, encontrar satisfação em vários domínios do quotidiano;
  • Identificar possíveis problemas e dificuldades, quer a nível sexual quer na sua vida em geral, e conversar sobre eles e procurar ajuda se necessário.

Como tratar o vício em pornografia?

O tratamento do vício em pornografia deve seguir a mesma linha do tratamento de qualquer outro vício ou dependência. Quando uma dependência está estabelecida a ajuda profissional é fundamental e potencia a eficácia.

Assim, o recurso a um psicólogo com especialização em sexologia (terapeuta sexual) será o mais indicado. O processo de intervenção é progressivo e procura dessensibilizar a pessoa do consumo através do recurso a diferentes estratégias e conseguir uma reabilitação e uma recuperação, com prevenção da recaída. Para além de uma intervenção mais cognitiva que se foca nos pensamentos e cognições associadas ao vício em pornografia, bem como nas emoções, são também utilizadas estratégias mais comportamentais, treinadas em sessão e aplicadas em casa.

Os objetivos do tratamento passam por:

  • Compreender melhor o vício em pornografia e os seus mecanismos;
  • Compreender o processo de intervenção e como ele funciona;
  • Identificar recursos positivos para a mudança e promover a motivação para a mudança;
  • Identificar e reduzir ou eliminar os obstáculos à mudança;
  • Promover e programar alterações de rotina e atividades naturalmente gratificantes;
  • Promover a capacidade de gestão emocional e autorregulação;
  • Prevenir a recaída.

A duração do processo é variável, dependerá de cada pessoa e do seu próprio ritmo, bem como de fatores tais como a duração da dependência, a idade, a motivação para a mudança, o estado de saúde, as suas vivências, etc.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.