EMDR: o que é, como funciona e quando é indicado?

O EMDR é uma técnica terapêutica recente no tratamento psicológico, mas que tem vindo a ser cada vez mais falada e difundida. Considerando as suas aplicações e a eficácia que tem demonstrado ter, é importante que esteja disponível mais informação, e informação clara e percetível, sobre esta técnica terapêutica, para que as pessoas saibam em que consiste o EMDR e possam compreender se esta poderá ser uma opção terapêutica adequada e eficaz para si.

Assim, neste artigo pretendemos explicar de forma simples e completa o que é o EMDR, quais as suas aplicações e a sua eficácia.

Como surgiu o EMDR?

O Eye Movement Desensitization and Reprocessing (EMDR), em português dessensibilização e reprocessamento através do movimento ocular, surgiu porque a psicóloga americana Francine Shapiro estava, um dia, a caminhar num parque enquanto pensava nalgumas coisas que a perturbavam. Ela reparou que, ao fazer movimentos com os seus olhos de um lado para o outro, para olhar para os elementos do parque, a sua angústia acabava por diminuir. Curiosa e intrigada com este fenómeno, começou a investigar e a fazer experiências, apercebendo-se que os movimentos oculares, por si só, não causavam ganhos terapêuticos.

Assim, a psicóloga decidiu introduzir outros elementos, nomeadamente cognitivos, procurando investigar o impacto das crenças ligadas a memórias de acontecimentos de vida. Observou que as pessoas que tinham memórias traumáticas, quando submetidas ao exercício dos movimentos oculares, apresentavam resultados melhores do que aquelas que só visualizavam e descreviam as imagens traumáticas.

A terapia começou inicialmente por ser usada para a Perturbação de Stress Pós-Traumático, nomeadamente com veteranos de guerra. Estes apresentavam reações emocionais intensas quando estavam perante estímulos como barulhos fortes, pois associavam esses ruídos aos ruídos que ouviam nos cenários de guerra. Após passarem pelo tratamento EMDR, essas associações eram quebradas e as memórias traumáticas eram reprocessadas, o que fazia com que as pessoas conseguissem retomar a funcionalidade e equilíbrio na sua vida.

Qual a base teórica que explica o EMDR?

Para compreendermos o princípio do EMDR temos de compreender que todas as pessoas têm um sistema de processamento psicofisiológico de informação. Podemos fazer a comparação com outros sistemas do nosso corpo, como por exemplo o sistema digestivo, em que ao nos alimentarmos extraímos nutrientes para a nossa sobrevivência. De forma semelhante, o sistema de processamento de informação processa as nossas várias experiências e armazena-as na nossa rede de memórias.

Essas memórias contêm imagens, pensamentos, emoções e sensações. Quando ocorre uma aprendizagem, as associações e experiências novas são moldadas às informações já existentes na memória. Assim, quando algo negativo ocorre, o processamento de informação pode ficar incompleto, porque as emoções fortes interferem com o processamento de informação.

Isto faz com que não seja possível conectar essa experiência com outras redes de memória. Por exemplo, alguém que sofreu abusos pode saber que o abusador é que é responsável pelos atos, mas esta informação não se conecta com o sentimento de que deve responsabilizar o abusador e não a si próprio. Assim, a memória é guardada sem ser devidamente conectada com elementos adequados. Quando a memória do trauma é evocada, a pessoa pode sentir-se a reviver a situação e experienciar as mesmas emoções fortes.

O que é o EMDR?

O Eye Movement Desensitization and Reprocessing (EMDR) trata-se de uma técnica de tratamento psicológico breve, focal e integrativa na qual, através de movimentos oculares e estímulos bilaterais específicos (dos hemisférios cerebrais) há uma dessensibilização e uma reprogramação ou reprocessamento mental. Deste modo, as recordações e sensações do passado, quando são traumáticas, ficam registadas na nossa mente de uma forma negativa e que acarreta dor e sofrimento psicológico. O EMDR pretende introduzir uma mudança significativa nas memórias do passado, em vez de ficarem armazenadas de uma forma negativa e que acaba por interferir no presente.

Assim, no EMDR as memórias, imagens ou informações do passado são reprocessadas pelo paciente, com a ajuda de estímulos bilaterais que podem ser auditivos, táteis ou visuais. O objetivo é o de facilitar o processamento de informações e o estabelecimento de cognições ou pensamentos positivos.

Para compreender melhor, imagine que presenciou um crime violento ou outro tipo de experiência traumática. Essa memória fica armazenada no seu cérebro com todas as emoções e sensações associadas. Uma vez que ela fica guardada na sua memória a longo-prazo, ela pode incomodá-lo por muito tempo. A memória perturbadora pode voltar involuntariamente, desencadeada por algum estímulo de que pode até não ter consciência, e trazer sensações de impotência e medo, por exemplo.

No EMDR a memória da experiência traumática é voluntariamente reativada, ou seja, é-lhe pedido para se relembrar com o máximo pormenor dessa experiência. Ao fazer isso, essa experiência passa a estar na memória de curto-prazo, pois está a “utilizá-la” no momento. Enquanto pensa na memória, é-lhe apresentado um estímulo, por exemplo uma luz que anda de um lado para o outro ou os dedos do terapeuta que se vão movimentando, e vai seguindo a luz ou os dedos com o olhar enquanto mantém a lembrança traumática na mente. Esta estimulação bilateral permite que permaneça focado no presente, enquanto revisita as memórias traumáticas dolorosas. De acordo com hipóteses neurobiológicas, esta estimulação bilateral estimula os dois hemisférios cerebrais, o que permite a devida reintegração e comunicação das redes de memórias entre ambos os hemisférios.

Assim, ao fazer isto a memória começa a processar muitas informações, de modo que a lembrança traumática vai perdendo a sua carga emocional. Quando a carga emocional diminui, é mais fácil pensar de uma forma diferente e mais adaptativa sobre a experiência traumática. Os pensamentos intrusivos vão diminuindo.

Como funciona o EMDR?

Com o uso da técnica EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), acima explicada, num espaço de tempo relativamente curto a pessoa passa a ter um maior controlo emocional e uma maior sensação de segurança. Isto porque os eventos perturbadores e traumáticos são reprocessados e a pessoa passa a conseguir encará-los de uma forma distinta, conseguindo por isso ter uma perspetiva mais leve e ajustada da vida e dos seus acontecimentos. O passado deixa de interferir de forma tão significativa no presente, e dessa forma a pessoa consegue também ter uma perspetiva mais positiva do futuro.

Pode ser difícil, por vezes, perceber porque é que as memórias passadas podem estar a causar os sintomas do presente, e como é que reprocessando-as conseguimos obter melhorias no bem-estar emocional. Isto acontece por vários motivos:

  • Por vezes vivenciamos experiências adversas muito cedo na vida, numa altura em que ainda não possuíamos os recursos necessários para lidar com adversidades;
  • Na altura em que as experiências adversas ocorreram podíamos não estar nas condições devidas para processar de forma adequada aquilo que vivemos;
  • As experiências adversas são muitas vezes tão exigentes e inesperadas que não conseguimos, no momento, construir uma narrativa adequada dos acontecimentos.

Desta forma, as memórias traumáticas, ao não serem processadas, ficam isoladas e não se juntam ao resto da nossa narrativa de vida de uma forma adaptativa. Ficam congeladas na nossa mente, tomando a forma de sensações incómodas que por vezes são despoletadas por determinados estímulos. Imagine por exemplo que a memória traumática está dentro de uma caixa, separada do resto das suas memórias, que foram adequadamente processadas. Essa memória, guardada na caixa, atrapalha o funcionamento psicológico e causa sofrimento no presente. Com o EMDR o que fazemos é abrir a caixa para que a memória possa ser reprocessada e devidamente reintegrada juntamente com as nossas outras memórias de vida.

Após o reprocessamento a pessoa não vai esquecer os eventos adversos, mas vai conseguir encará-los de uma forma menos dolorosa.

Importa salientar que quando falamos em memórias dolorosas do passado estas não precisam de ser traumas graves, como acidentes ou abusos, podem ser experiências aparentemente inócuas, mas que no momento causaram sofrimento. Por exemplo, para uma criança perder-se num supermercado e não saber dos pais pode ser, naquele momento, extremamente doloroso e assustador. Assim, muitas vezes a pessoa adulta não tem consciência total desses acontecimentos ou mesmo de que tenha memórias do passado a interferir com o presente. É relativamente comum que durante a terapia surjam memórias aparentemente esquecidas, que acabam por vir à tona.

Portanto, o EMDR não se foca apenas em eventos extremamente violentos, mas também em memórias adversas que o são porque na altura não possuíamos os recursos para as processar adequadamente – por exemplo, pais que diminuem o filho ou lhe dizem que ele não é capaz, acontecimentos na escola como ser alvo de gozo ou humilhação, situações de mudança de vida, entre outras.

Uma memória é traumática porque foi dolorosa para a pessoa em dado momento da sua vida, muitas vezes quando era muito pequena, de forma que não a conseguiu processar devidamente. Algo que foi traumático para uma pessoa pode não o ter sido para outra.

Em suma, o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) permite encontrar ligações entre o sofrimento atual e as memórias do passado que não foram devidamente integradas. Com o processamento dessas memórias o sofrimento diminui.

Quais as fases da intervenção com EMDR?

A aplicação do EMDR não se limita à utilização do reprocessamento com os movimentos oculares, estando inserida num processo terapêutico completo. Assim, geralmente a terapia EMDR processa-se em 8 fases.

Fase 1 – anamnese / história de vida e do problema

Nesta fase é feita uma recolha de informação mais completa, na qual se incluem questões acerca da história de vida da pessoa e das suas características individuais, passando depois para uma exploração mais aprofundada dos sintomas e das queixas apresentadas. Procura-se perceber qual é o problema que incomoda a pessoa, de que forma se expressa na sua vida quotidiana, qual a sua origem e o que a pessoa pretende alterar ou mudar em relação ao problema.

Algumas questões que são abordadas:

  • Qual é a queixa / o problema / os sintomas?
  • Como se caracteriza e quais são os canais de memória presentes?
  • Que situações atuais precipitam o surgimento dos sintomas?
  • De que forma os sintomas se expressam em termos de reações físicas e emocionais?
  • Anotação de eventos e situações em que os sintomas estão presentes, do mais recente até ao mais antigo
  • Analisar qual a memória mais antiga ou a pior
  • De que forma a pessoa gostaria de se sentir no futuro / qual a mudança pretendida?

Fase 2 – preparação e psicoeducação

Esta fase consiste em explicar à pessoa o processo, o que é o EMDR e como funciona, bem como de que forma se processarão as sessões. Nesta fase é importante que terapeuta e cliente estabeleçam uma relação e a pessoa sinta que o espaço terapêutico é um espaço seguro. São transmitidas algumas estratégias de autorregulação emocional.

Nesta fase pode também ser definida uma estratégia de segurança ou um lugar seguro, que a pessoa possa utilizar caso se sinta demasiado desconfortável ou em sofrimento durante as sessões. Este lugar seguro pode ser do presente ou do passado, real ou imaginário, e a pessoa aprende a usar os seus 5 sentidos para melhor conseguir imaginar e visualizar esse lugar. Deve conseguir, durante esta visualização, sentir-se mais relaxada e calma. Esta estratégia também pode ser usada no quotidiano da pessoa sempre que ela se sinta ansiosa e que surjam os sintomas.

Fase 3 – avaliação

Na fase 3 é elaborado o protocolo da memória a ser reprocessada. Ou seja, é selecionada uma primeira memória-alvo, e analisados, relativamente a essa memória, as imagens, pensamentos, emoções e sensações físicas. São explorados, relativamente à memória, os seguintes aspetos:

  • Imagens mentais associadas à memória;
  • Crenças e pensamentos negativos associados;
  • Emoções despoletadas pela memória;
  • Sensações físicas despoletadas pela memória;
  • Ao pensar na memória, o que é que a pessoa pensa sobre si?
  • O que é que a pessoa gostaria de pensar ao recordar-se da memória?

Fase 4 – processamento

Nesta fase é efetivamente reprocessada a memória-alvo, tantas vezes quantas forem necessárias até o grau de desconforto ser mínimo ou nulo. A pessoa traz a memória para a sua mente enquanto segue com o olhar algum estímulo visual. O procedimento é repetido várias vezes, e de cada vez são exploradas as sensações, emoções, pensamentos, imagens que surgiram. É reavaliado o desconforto e o procedimento repete-se até se atingir um grau de desconforto mínimo ou nulo. O objetivo é passar-se de uma carga emocional negativa para uma carga emocional neutra.

Fase 5 – instalação da memória na rede de memórias

Nesta fase procura integrar-se a memória, agora com carga emocional neutra, na rede de memórias da pessoa. É feito o processamento com movimentos oculares, mas desta vez é pedido à pessoa que, ao pensar na memória, pense nas palavras positivas que agora lhe fazem sentido. Assim, o objetivo é passar de uma carga emocional neutra para uma carga emocional positiva, num sentido de aprendizagem, crescimento, integração e visão periférica.

Fase 6 – rastreio corporal

Nesta fase são reprocessados os sintomas corporais associados à memória. Ou seja, é analisado de que forma se sente agora o corpo ao pensar na memória, se ainda existem ou não sensações incómodas, e a pessoa é convidada a focar-se nas sensações corporais positivas e de relaxamento à medida que processa as imagens associadas à memória.

Fase 7 – fecho

Esta é a fase de encerrar a sessão, estabilizar a pessoa e orientá-la para a mudança. São explorados aspetos tais como:

  • O que é que a pessoa aprendeu ou sentiu com a sessão?
  • Reforçar positivamente o esforço da pessoa
  • Explicar de que forma o processamento vai continuar nas próximas sessões
  • Explorar possíveis pensamentos ou reflexões que a pessoa tenha tido
  • Relembrar as técnicas de regulação emocional

Fase 8 – avaliação

Nesta fase são avaliados os efeitos produzidos pelo reprocessamento da memória e é selecionada a próxima memória-alvo. São avaliados aspetos como:

  • O que mudou a partir do reprocessamento da memória?
  • De que forma a pessoa sentiu mudanças, no seu dia-a-dia, em termos de sintomas, emoções, comportamentos, pensamentos…

Se a memória ficou completamente reprocessada e já não causa nenhum desconforto, passa-se para uma próxima memória. Se existe ainda desconforto, a memória volta a ser reprocessada a partir do ponto em que ficou.

Em que situações é o EMDR indicado?

Como vimos, o princípio do EMDR é o de trabalhar memórias do passado que são de algum modo responsáveis pelo sofrimento do presente. Assim, em diversos tipos de problemas emocionais ou patologias a raiz pode estar em situações do passado.

O EMDR tem mostrado ser eficaz em situações de:

  • Perturbação de stress pós-traumático;
  • Perturbação obsessivo-compulsiva;
  • Perturbações de ansiedade, sobretudo transtorno de pânico;
  • Situações de luto;
  • Vítimas de abuso sexual;
  • Vítimas de desastres naturais ou humanos;
  • Problemas sexuais;
  • Abuso de substâncias;
  • Controlo da dor crónica;
  • Depressão;
  • Problemas de autoestima;
  • Problemas de compulsão alimentar.

O EMDR é eficaz?

Sendo uma abordagem terapêutica relativamente recente, ainda são conduzidos diversos estudos científicos para atestar a sua eficácia. Até ao momento as investigações têm demonstrado que o EMDR é eficaz. Estudos realizados em intervalos e 6 e 18 meses demonstraram que os resultados e as melhorias observadas nos pacientes após o tratamento EMDR se mantiveram ao longo do tempo. A eficácia do EMDR tem sido comprovada para situações como depressão, transtornos psicossomáticos, disfunções sexuais, stress pós-traumático, dores crónicas, entre outros.

Quem administra o EMDR?

Em Portugal, para poder ser terapeuta EMDR o profissional tem de ter uma formação base na área da saúde mentalpsicologia ou psiquiatria, e ser profissional já em prática profissional. No caso dos psicólogos têm de ser membros efetivos da Ordem dos Psicólogos Portugueses, e no caso dos médicos têm de ter a especialidade em Psiquiatria ou Pedopsiquiatria.

A partir daqui, é necessário que o profissional faça a formação em EMDR, que é promovida pela Associação EMDR Portugal. A formação é constituída por 15 módulos teórico-práticos, geralmente realizados em 3 anos, num total de 400 horas. Inclui também 150h de supervisão em grupo e de frequência de sessões de desenvolvimento pessoal.

Pode encontrar os terapeutas EMDR (dessensibilização e reprocessamento através do movimento ocular) certificados no site da Associação EMDR Portugal.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.