Orgasmo feminino: benefícios, mitos e disfunções

O orgasmo feminino está, ainda hoje, envolto em inúmeros mitos, falta de conhecimento e ideias erróneas. No percurso da história o prazer feminino só muito tarde foi reconhecido e, como tal, há ainda muito por conhecer sobre o orgasmo feminino. Neste artigo pretendemos explorar informação pertinente sobre o orgasmo feminino, esclarecendo e desconstruindo mitos.

A sexualidade da mulher

Quando falamos em sexualidade e comportamento sexual, não podemos dissociá-los de todo o contexto social em que ocorrem. O comportamento sexual de cada pessoa desenvolve-se pela influência de vários fatores, e a cultura e sociedade em que a pessoa está inserida constituem um fator importante.

A sexualidade da mulher encontra-se ainda rodeada de estigmas e preconceitos, por razões históricas de submissão e inferioridade em relação ao homem, sendo que a emancipação feminina tem sido um processo longo e ainda por concluir.

Durante um longo período da historia considerava-se que a mulher teria um papel passivo durante o ato sexual, não sendo reconhecida a sua capacidade de sentir prazer. Este prazer, quando reconhecido, era considerado pecaminoso. Deste modo, a autonomia sexual da mulher sempre foi obstruída pela sociedade e pela religião. Isto foi-se alterando de forma progressiva no decurso da história, sendo que o advento da pílula anticoncepcional constitui um marco importante e de empoderamento da sexualidade feminina.

Por todo este contexto histórico em que a sexualidade da mulher esteve durante muito tempo nas sombras, reprimida, pouco se conhecia e ainda há muito por conhecer e desconstruir acerca da resposta sexual feminina e do orgasmo feminino.

Os órgãos sexuais femininos

Compreender o orgasmo feminino implica compreender também os órgãos sexuais femininos, pois as diferenças entre homens e mulheres no respeitante aos órgãos genitais também está na origem das diferenças no orgasmo.

Os órgão genitais femininos consiste num grupo de órgãos internos e externos. Os órgãos externos encontram-se no interior de pélvis e consistem nos ovários, tubas uterinas, trompas de falópio, útero e vagina. Cada órgão assume funções distintas: a vagina permite o ato sexual e funciona como canal de entrada do esperma e saída dos bebés; a uretra serve para esvaziar a bexiga no ato de urinar; os ovários produzem os óvulos e as hormonas sexuais estrogénio e progesterona; o útero é o órgão onde se aloja o embrião e onde este se desenvolve, até ao nascimento.

Os órgãos externos constituem-se pela vulva, que é a parte exterior dos órgãos sexuais femininos. Na vulva encontra-se a abertura da vagina, a abertura da uretra, os grandes e pequenos lábios, o monte de Vénus e o clitóris.

Por uma questão fisiológica, a mulher tem mais pontos de prazer ou zonas erógenas do que o homem, considerando-se também que o aparelho genital feminino é mais complexo.

A resposta sexual feminina

Para falarmos de orgasmo feminino temos necessariamente de falar de resposta sexual feminina. Podemos considerar a existência de quatro estágios ou fases da resposta fisiológica sexual feminina:

  • Desejo: a fase do desejo diz respeito a fatores psicogénicos de cada pessoa, que se formam de acordo com as experiências individuais e se materializam em fantasias e mecanismos psicológicos que levam a mulher a sentir desejo pela prática da atividade sexual. A fase do desejo constitui-se de pensamentos e sensações que levam a mulher a querer envolver-se numa experiência sexual, e que são altamente subjetivos. Na mulher estímulos olfativos e tácteis parecem ter uma influência significativa no aumento do desejo sexual;
  • Excitação: esta fase ocorre quando o corpo responde aos estímulos que desencadearam o desejo sexual. A fase da excitação engloba fatores psicológicos e fisiológicos que ocorrem em simultâneo. Corresponde a um sentimento subjetivo que a mulher sente ao mesmo tempo que se verificam alterações fisiológicas, tais como a expansão do canal vaginal ou a produção e secreção responsável pela lubrificação vaginal. Há a congestão vascular, que corresponde ao aumento da quantidade de sangue acumulada em alguns órgãos genitais, e a crescente e involuntária contração das fibras musculares. Mas, ao contrário da resposta sexual masculina, a resposta sexual feminina não se manifesta apenas nos órgãos genitais, sendo percebida em várias partes do corpo: seios (aumento ligeiro do tamanho e ereção dos mamilos), rubor (pele mais avermelhada), contração muscular de órgãos próximos aos genitais (como o rabo, a uretra e a bexiga), entre outros.
  • Orgasmo: a fase do orgasmo corresponde ao pico de prazer dentro de uma experiência sexual. Denomina-se plataforma orgásmica a fase em que ocorre a profunda vaso congestão do clitóris, dos pequenos e grandes lábios e do terço inferior da vagina. Pode ocorrer uma contração muscular prolongada de 4 a 5 segundos nesta zona antes de acontecer a descarga orgásmica. No momento do orgasmo verifica-se uma descarga de energia que origina a libertação da tensão sexual com contração da musculatura pélvica e genital, para além do ânus que se contrai de forma rítmica. As contrações rítmicas e involuntárias ocorrem a uma frequência de aproximadamente 12 vezes a cada 0,8 segundos. Após o orgasmo a mulher pode ser logo de seguida estimulada e ter mais do que um orgasmo, algo que não ocorre na resposta sexual masculina, uma vez que os homens precisam de algum tempo após a ejaculação para iniciar outro ciclo de resposta sexual;
  • Resolução: a fase da resolução ocorre após o orgasmo e consiste no relaxamento geral do corpo e da mente, que se concretiza por um sentimento de leveza e de maior bem-estar, sendo que esta sensação pode durar vários minutos ou mesmo horas.

Atingir ou não atingir o orgasmo: como e porquê?

Algumas das ideias por vezes erradas acerca do orgasmo feminino dizem respeito à forma como este é gerado ou, por outras palavras, o que leva ou não a mulher ao orgasmo. Há o intenso debate sobre se é a estimulação do clitóris, a penetração ou ambas que provoca o orgasmo, e ainda ideias associadas à necessidade de ligação afetiva na mulher para atingir o orgasmo. Estes preconceitos podem interferir negativamente no prazer feminino mas também na existência de uma vida sexual satisfatória para homens e mulheres individualmente e para casais.

Vários estudos parecem demonstrar que as atividades sexuais que estimulam o clitóris parecem ser as mais prováveis de maximizar a ocorrência do orgasmo feminino (masturbação feminina, estimulação manual do/a parceiro/a e sexo oral). Apesar de existir uma diversidade de zonas erógenas, o clitóris parece ser o input base do orgasmo feminino, sendo a principal estrutura anatómica responsável pelo prazer sexual nas mulheres. O clitóris tem mais de oito mil terminações nervosas sensoriais, isto apenas na superfície de manifestação externa, isto é, a glande.

Assim, a variedade de práticas sexuais e a maior duração dos preliminares pode levar a uma maior probabilidade de experimentar o orgasmo. A penetração, por si só, requer um nível mais elevado de excitação prévia para que possa provocar o orgasmo feminino.

Não são apenas as variações fisiológicas ou a estimulação e zonas erógenas que conduz ao orgasmo feminino. Existem fatores psicológicos que têm um papel determinante. Quando não existem pensamentos eróticos ou de desejo ou quando ocorrem pensamentos de falha ou medo do fracasso na relação sexual, pode existir maior dificuldade em atingir o orgasmo. Também se verifica que quanto mais a mulher está focada no desempenho sexual e/ou na sua aparência física, maior a interferência negativa e consequente dificuldade em atingir o orgasmo. De facto, as crenças associadas à imagem corporal parecem estar muito associadas às perturbações do orgasmo feminino. Mulheres que não se sentem confortáveis com o seu corpo ou que têm uma perceção negativa da sua aparência podem ter maior dificuldade em atingir o orgasmo.

Também existe influência das emoções e da afetividade no orgasmo feminino. Emoções negativas como a tristeza, culpa, falta de prazer e de satisfação e deceção estão relacionadas com dificuldades em atingir o orgasmo. Por outro lado, emoções positivas estão associados a níveis de satisfação mais elevados e, por consequência, a uma maior probabilidade de atingir o orgasmo feminino. Pensamentos e e emoções positivas associados à atividade sexual com o parceiro contribuem positiva e significativamente para alcançar o orgasmo.

Importa referir que a própria importância que a mulher atribui ao orgasmo pode interferir no prazer que esta obtém. O orgasmo pode ser extremamente importante para alguma mulheres e menos importante para outras. Além disso, orgasmo e prazer sexual não são sinónimos. É possível sentir prazer e obter satisfação sem atingir o orgasmo. Ainda assim, a capacidade de atingir o orgasmo contribui para a satisfação sexual como um todo. Mais mulheres consideram a relação sexual como satisfatória quando atingem o orgasmo do que quando não o conseguem atingir. As mulheres que experimentam orgasmos com maior frequência têm mais pensamentos positivos em relação ao sexo e atribuem maior importância ao orgasmo. Muitas vezes dar pouca importância ao orgasmo acaba por constituir um mecanismo de defesa, isto é, como a mulher considera difícil alcançar o orgasmo, acaba por o desvalorizar. Em suma, o orgasmo feminino é importante para a satisfação sexual das mulheres.

Em suma, algumas ideias importantes no que diz respeito ao atingir ou não o orgasmo feminino:

  • O envolvimento em atividades que envolvem o clitóris (como sexo oral ou penetração vaginal com estimulação adicional do clitóris) torna mais provável a existência de orgasmo;
  • Atribuir uma maior importância ao prazer e ao orgasmo faz com que a mulher o procure mais e por isso o atinja mais facilmente, obtendo níveis mais elevados de satisfação sexual;
  • A dificuldade em alcançar o orgasmo feminino está associada a níveis mais elevados de afeto negativo ou emoções negativas;
  • Pensamentos e crenças negativas, associadas por exemplo ao conservadorismo sexual (pensar que o sexo é errado, que a mulher não pode agir de determinadas formas ou se tem de comportar de uma forma específica no sexo) ou à imagem corporal levam a maior dificuldade em atingir o orgasmo feminino.

As funções do orgasmo feminino

Durante muito tempo considerou-se que o orgasmo feminino tinha como única função facilitar a conceção. Acreditava-se que a presença de orgasmo facilitava a possibilidade de a mulher engravidar. Assim, embora já fosse aceite o prazer feminino e este fosse reconhecido, continuava a ser muito associado à conceção e ao ato de engravidar. Isto contribuiu para que as mulheres recebessem informações erróneas que contribuíam para a sensação de que o orgasmo feminino por si só não era importante ou até que poderia ser errado.

Este ideia começou gradualmente a ser desconstruída, compreendendo-se que o orgasmo feminino tem inúmeras funções emocionais, psíquicas, sociais, que vão muito para além da mera conceção. No limite, o orgasmo feminino tem de ter a função que a mulher lhe quiser dar, sendo algo independente, livre e orientado para objetivos tão distintos e idiossincráticos que não deve ser categorizado. De uma forma simples a função básica do orgasmo é o prazer, e o prazer é um direito individual e subjetivo de cada mulher.

Qual a diferença entre o orgasmo feminino e o masculino?

O que torna o tema do orgasmo feminino tão pertinente e complexo não é apenas o facto de o prazer feminino ter sido durante tanto tempo reprimido e desconhecido. Há também as diferenças existentes entre o prazer feminino e masculino, que tornam o orgasmo feminino particular.

Enquanto que no homem a testosterona inicia a estimulação, na mulher a influência das hormonas para o início do estímulo sexual é menor. A motivação feminina parece depender mais de fatores psicológicos e da perceção de recompensa do que de estimulação estritamente física. Pode existir por exemplo a influência da proximidade emocional ao parceiro que pode ativar o ciclo de resposta sexual. A excitação sexual da mulher parece ser mais mental e subjetiva do que a do homem, podendo ou não ser acompanhada de manifestações fisiológicas. Alguns estudos demonstram que é mais frequente os homens atingirem o orgasmo do que as mulheres.

Se pensarmos que a mulher tem mais pontos físicos de prazer do que o homem, que tem até órgãos exclusivamente destinados ao prazer (clitóris) e que consegue atingir vários orgasmos sem precisar de um período entre ciclos sexuais, seria de esperar que a mulher conseguisse alcançar a plenitude sexual com mais facilidade. No entanto, a interferência de variáveis psicológicas e sociais, como a repressão e a vivência do sexo como algo errado ou então como meio para a satisfação masculina, justificam a complexidade do orgasmo feminino.

O orgasmo feminino e o prazer feminino no geral é muito mais variável de mulher para mulher e tem mais manifestações do que parece acontecer no homem.

Quais os benefícios do orgasmo feminino?

Estudos têm demonstrado os benefícios do orgasmo feminino, nomeadamente a melhoria da respiração, circulação e do sistema cardiovascular no geral, bem como melhorias ao nível da flexibilidade, força e massa muscular. Assim, o orgasmo feminino traz vários benefícios semelhantes aos produzidos por atividade física moderada a intensa.

O orgasmo feminino pode ainda contribuir para o alívio de sintomas menstruais, bem como outros sintomas físicos e queixas somáticas. O orgasmo feminino proporciona uma sensação generalizada de bem-estar e contribui para uma autoconfiança positiva.

As disfunções sexuais femininas

As disfunções sexuais femininas constituem alterações no ciclo de resposta sexual que causam desconforto ou insatisfação. Existem três grupos de disfunções sexuais femininas: as perturbações ao nível do interesse ou excitação sexual, as perturbações ao nível do orgasmo feminino e as perturbações ao nível da dor pélvica ou dor na penetração. Considerando que falamos aqui em orgasmo feminino, vamos focar-nos nas perturbações associadas ao orgasmo.

A dificuldade ou incapacidade em atingir o orgasmo, também denominada como anorgasmia, parece ser a queixa sexual mais frequente em serviços de ginecologia. As causas mais frequentes são as psicológicas, muitas vezes fruto de uma educação sexual conservadora e repressora. A anorgasmia pode ser primária, quando a mulher nunca experimentou um orgasmo, ou secundária, quando só acontece em determinadas circunstâncias.

Podem existir diferentes causas para esta dificuldade:

  • Ansiedade, sendo que a antecipação da mulher de que será difícil ou de que não conseguirá atingir o orgasmo levam a um estado ansioso que prejudica a possibilidade de atingir o orgasmo;
  • Transtornos hormonais e certas doenças crónicas;
  • Atitude negativa em relação à atividade sexual;
  • Conflitos relacionais;
  • Insatisfação com a imagem corporal, sentir vergonha do próprio corpo;
  • Falta de informação e crenças negativas sobre a sexualidade;
  • Grau de intimidade e à-vontade com o/a parceiro/a sexual;
  • Capacidade e grau de estimulação sexual;
  • Falta de atração pelo/a parceiro/a;
  • Stress e sobrecarga de tarefas e responsabilidades diárias;
  • Uso de medicamentos que inibem a líbido;
  • Falta de confiança no/a parceiro/a sexual.

Fingir o orgasmo: porquê?

Compreendendo todas as informações até agora sobre o orgasmo feminino, podemos melhor responder à tão debatida questão: porquê fingir o orgasmo? Há muitas vezes, neste âmbito, necessidade de atribuir culpas: a culpa é dela por não dizer que não satisfez em vez de fingir; a culpa é dele por não saber dar prazer. Dificilmente esta questão se resolve com atribuição de culpas, mas sim com compreensão.

Fingir o orgasmo tem em si implícito uma necessidade de demonstrar ao outro um prazer que não existiu – ou pelo menos não da forma como esperamos que este deveria ter existido. Surge aqui a primeira ideia causadora do problema: a de que é necessário atingir o orgasmo como garantia de que a relação sexual foi satisfatória. A pressão existente face ao orgasmo faz com que haja dificuldade em aceitar que pode haver muito prazer sem que exista orgasmo. Por isso, normalizar esta questão pode quebrar esta necessidade de fingimento.

Por outro lado, vimos que as respostas sexuais masculina e feminina são distintas. Como tal, é natural que os ritmos não sejam os mesmos, e a ideia de  atingir o orgasmo em simultâneo é uma expectativa implementada pelo entretenimento e os filmes. O sexo deve ser visto como uma atividade prazerosa entre duas pessoas, em que ambas procuram o seu prazer e o proporcionar prazer ou outro, não uma corrida em que ambos devem chegar à meta.

Por último, muitas razões e dificuldades podem estar implícitas no fingimento do orgasmo: não querer desapontar o outro; não ter vontade ou achar que não vale a pena investir e “trabalhar” para melhor descobrir a forma de obter prazer; falta de conhecimento do próprio corpo e do que dá prazer ao próprio; falta de recetividade ao outro e de conexão entre ambos. Não fingir o orgasmo feminino implica uma abertura para aceitar a vivência sexual do outro e, se for caso disso, para coordenar a nossa experiência sexual com a do outro que, muitas vezes, não existe. Seja por razões pessoais, inseguranças, receios, seja por razões inerentes à relação entre duas pessoas.

Desconstruir mitos sobre o orgasmo feminino

Tudo aquilo que falamos até agora permite-nos adquirir uma maior compreensão factual sobre o orgasmo feminino, contribuindo assim para um conhecimento mais correto e menos enviesado. Com todo este conhecimento é possível desconstruirmos alguns mitos e abrirmos a discussão sobre o orgasmo feminino, reconhecendo que um conhecimento adequado é o primeiro passo para uma vida sexual satisfatória.

Assim, em primeiro lugar é importante compreender que a mulher valoriza e necessita tanto do prazer sexual como o homem. Há muitas vezes a ideia errada de que os homens precisam ou gostam mais de sexo do que as mulheres. Quase como se o sexo fosse algo dispensável para o sexo feminino. Esta ideia surge porque, tendo o prazer feminino sido desvalorizado durante tanto tempo, as próprias mulheres podem ter criado como mecanismo de defesa a desvalorização da atividade sexual.

A dificuldade que a falta de conhecimento trouxe ao atingimento do prazer e orgasmo feminino pode ter feito com que muitas mulheres o delegassem para segundo plano. No entanto, o gosto pelo sexo e a vontade de ter atividade sexual não tem diferenças inatas entre homens ou mulheres, e as mulheres podem gostar, e gostam, tanto de sexo como homens. As diferenças residem mais entre pessoas, sejam elas de que sexo for, do que entre géneros. Cada pessoa vive a sexualidade à sua maneira e encontra satisfação sexual de forma distinta. Mas não é por ser mulher que a vida sexual é menos importante.

A desconstrução deste mito faz-nos compreender a importância que os scripts sexuais assumem na satisfação sexual. Ou seja, ideias e discursos rígidos e fechados face ao sexo conduzem a dificuldades no âmbito sexual. É mais difícil ter pensamentos eróticos, fantasias, desejo e excitação quando existem ideias pré-concebidas, como por exemplo que a mulher tem de ser passiva no sexo ou será mal-vista se tiver demasiada iniciativa ou gostar de atividades sexuais diversificadas. Desconstruindo estes estereótipos é possível adotar comportamentos de abertura a novas experiências, iniciativa de ambas as partes e uma maior liberdade sexual que contribuirá para o orgasmo feminino e o gozo pleno do prazer sexual feminino.

Por outro lado, é importante desconstruir a ideia de que as mulheres devem conseguir atingir o orgasmo só com a penetração, senão há algo de errado. Os estudos são conclusivos ao demonstrar que a estimulação do clitóris é fundamental para o atingimento do orgasmo. Por isso, a mera penetração ou coito que são suficientes para o homem, não o serão para as mulheres. Estimulação clitoriana e novas formas de ver o sexo, como muito mais do que mera penetração, são importantes para o prazer feminino.

A ideia de que a mulher precisa de uma ligação emocional para ter prazer no sexo também é um mito que tem uma razão simples. Uma vez que a mulher depende mais do que o homem de fatores cognitivos e afetivos para atingir o prazer, há esta associação entre ligação emocional e orgasmo feminino. No entanto, a ligação emocional ou o sentir amor pelo parceiro não deve ser confundida com afetividade positiva. O que acontece é que a mulher precisa de um certo estado mental para sentir prazer, mas isto não significa que precise necessariamente de estar apaixonada ou que não possa obter prazer em envolvimentos sexuais casuais. O estado mental positivo pode vir da atração sentida pela pessoa, pelo à-vontade em expressar os seus desejos, pela responsividade do outro às suas necessidades e preferências, pelo estado de humor…

É importante, assim, que homens e mulheres descontruam ideias erradas sobre o sexo, a sexualidade e o orgasmo feminino. É importante que as mulheres assumam em plenitude a sua autonomia sexual, o que significa a capacidade de gerirem a sua sexualidade da forma que lhes for mais satisfatória, compreendendo que têm direito ao usufruto do sexo e do prazer. Urge que o sexo passe a ser visto como uma dimensão fundamental, natural e saudável da vivência humana, e que deve ser vivido de forma individual e subjetiva. Tal como assumimos que as nossas escolhas profissionais ou corporais são nossas, também a sexualidade o deve ser.

Não há guiões ou padrões a seguir a não ser os próprios. Para isto também muito podem contribuir os parceiros/as, dando liberdade ou prazer sexual feminino e não impondo ideias pré-estabelecidas sobre o que a mulher deve ou não ser “na cama”. Em consequência, a satisfação sexual de um casal ou dos parceiros sexuais dependerá sempre em grande medida da capacidade de aceitação do outro, da abertura a novas experiências e da comunicação e à-vontade em relação ao sexo.

O bom sexo e, consequentemente, o prazer e orgasmo feminino originam-se primeiramente num adequado estado mental e emocional. Na confiança, abertura e liberdade. O orgasmo feminino não é uma meta a ser alcançada, uma corrida ou uma competição. É uma consequência positiva de uma atividade sexual vivida em liberdade e plenitude.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.