Masturbação feminina: importância, benefícios e técnicas

A masturbação é uma parte importante da sexualidade, embora seja muitas vezes pouco reconhecida ou tema tabu, pelo menos no que diz respeito à masturbação feminina. A obtenção de prazer e a satisfação sexual requerem o conhecimento do próprio corpo e o autoconhecimento sexual, aspetos que podem ser potenciados através da masturbação.

Assim, neste artigo pretendemos explorar a questão da masturbação feminina, a sua importância, benefícios e formas de a mulher proporcionar prazer a si mesma.

Porque é a masturbação ainda um tabu?

A palavras masturbação deriva do termo latim masturbare, cuja origem deriva da expressão manu strupare, que significa violar a si mesmo com a própria mão. Assim, pela própria origem da palavra conseguimos encontrar uma conotação extremamente negativa no conceito de masturbação. De facto, historicamente a masturbação constituía um forte e violento tabu sexual. Essa herança histórica fez com que o percurso da desconstrução e reconhecimento da masturbação fosse longo e atribulado.

A masturbação foi, inclusivamente, vista como uma prática que podia provocar insanidade, cegueira ou outros distúrbios graves. Outros mitos e crenças passavam por acreditar que a masturbação feminina poderia causar acne ou mesmo fazer crescer pelos nas mãos.

Se, por um lado, é comumente aceite que as pessoas se masturbam e que fazê-lo é algo natural e saudável, a masturbação, sobretudo a masturbação feminina, ainda não é falada e abordada com a mesma naturalidade como falamos de outras questões relativas ao sexo. Basta pensarmos que, embora hoje em dia muitas mulheres já falem sobre a sua vida sexual por exemplo com as amigas, serão menos as que falam abertamente sobre a masturbação.

O tabu pode advir também dos estigmas e preconceitos inerentes à sexualidade feminina ao longo da história, considerando-se durante muito tempo que a mulher teria um papel passivo durante o ato sexual, não sendo reconhecido o seu prazer. Consequentemente, é natural que a masturbação feminina tenha permanecido oculta e até mesmo como tema proibido. Em consequência, ainda se verifica hoje em dia falta de abertura para reconhecer e falar sobre masturbação feminina, o que potencialmente prejudica o prazer feminino.

Porque é que a masturbação é importante?

A masturbação é uma prática muito importante para a evolução sexual das pessoas, homens e mulheres. Ao longo do desenvolvimento de um ser-humano é natural que a masturbação preceda a prática sexual com outra pessoa. A descoberta do próprio corpo e do próprio prazer é um passo importante e fundamental para o autoconhecimento sexual, para que a pessoa conheça o seu próprio corpo, o que lhe concede prazer e o que não a satisfaz, as suas preferências. Este conhecimento e exploração permitirão uma relação sexual com o outro mais saudável e prazerosa.

No caso da mulher a masturbação pode ganhar um papel ainda mais importante. Na mulher a estimulação do clitóris maximiza a possibilidade de ocorrência do orgasmo. O clitóris é o input base do prazer e do orgasmo feminino, como estrutura anatómica responsável pelo prazer sexual nas mulheres.

Como tal, a estimulação clitoriana feita durante a masturbação feminina será importante para a mulher reconhecer o centro do seu prazer e perceber de que forma o pode potenciar. Será mais difícil a mulher obter prazer apenas com a penetração e sem qualquer estimulação adicional, pelo que a exploração do seu próprio prazer através da masturbação feminina maximizará a possibilidade de saber como pode atingir o orgasmo e obter mais prazer.

Adicionalmente, a masturbação feminina poderá ser essencial para permitir uma vivência sexual mais livre e segura. Considerando a repressão existente durante tanto tempo face à vida sexual da mulher, é natural que possa existir dificuldade em a mulher se sentir de forma plena e positiva como um ser sexual. Se este sentimento persistir aquando do início da prática sexual com outra pessoa, é natural que esta possa ser caracterizada por dificuldades e insatisfação.

Por outro lado, quando a mulher é capaz de explorar o próprio corpo adquire domínio e controlo da sua sexualidade e é capaz de se reconhecer como um ser sexual, o que irá prevenir receios, medos e disfunções associadas à sua sexualidade. Quando a mulher não conhece o seu corpo e não é capaz de o explorar, isso também se irá provavelmente refletir na relação sexual com o outro ou até no relacionamento do casal como um todo. De facto, a descoberta do próprio prazer deve ser primeiro uma tarefa pessoal e não uma responsabilidade única do outro.

Os mitos que durante muito tempo existiram sobre a mulher ter um papel passivo no ato sexual levaram a que existisse uma ideia de que deve ser o homem a guiar a atividade sexual, mas a verdade é que para um prazer mútuo é importante que a mulher seja também capaz de orientar o parceiro, comunicar o que gosta e o que lhe dá mais prazer, uma vez que cada pessoa é única e individual e tem formas distintas de obtenção de prazer.

A mulher que explora o próprio corpo e é capaz de encontrar o prazer por si mesma adquire uma maior autoconfiança. Assim, a masturbação feminina é essencial para uma sexualidade saudável e satisfatória na mulher.

Quais os benefícios da masturbação feminina?

Considerando a importância da masturbação feminina que acabamos de referir, é fácil compreender que esta tem diversos benefícios, não só para a mulher de forma individual, mas também nos seus relacionamentos.

Apresentamos alguns dos principais benefícios da masturbação feminina:

  • Melhoria da autoestima e da relação com o corpo, uma vez que perceber que podemos dar prazer a nós próprias pode ajudar no processo de aceitação e apreciação do próprio corpo;
  • Relações sexuais mais satisfatórias com os/as parceiros/as;
  • Aumento dos níveis de dopamina, serotonina e ocitocina, neurotransmissores que estão associados ao prazer e bem-estar;
  • Exercitar os músculos pélvicos;
  • Diminuição do stress e da ansiedade;
  • Melhorias no padrão do sono, sendo que a masturbação feminina também pode ajudar a adormecer;
  • Melhoria do apetite sexual e da vida sexual de uma forma geral, considerando que as mulheres que se masturbam têm maior facilidade em atingir o orgasmo na relação com o/a parceiro/a. Além disso, quanto mais experimentamos prazer mais pensamos nele e, consequentemente, mais o desejamos. Logo, a masturbação feminina potencia também o desejo sexual;
  • Prevenção da incontinência urinária, devido à masturbação feminina exercitar o pavimento pélvico;
  • Ajuda o sangue a fluir, sendo assim benéfica para o coração;
  • Permite o aumento do fluxo sanguíneo para várias regiões do cérebro;
  • Melhorias ao nível da memória e concentração, sendo que a masturbação estimula a produção de endocanabinoides, que pode reduzir a “névoa cerebral” associada ao esquecimento;
  • Prevenção do surgimento de infeções vaginais;
  • Melhoria dos sintomas menstruais ou pré-menstruais;
  • Melhorias significativas no humor;
  • Redução dos sintomas associados à atrofia vaginal que é própria da menopausa;
  • Ajuda no tratamento de disfunções sexuais como o vaginismo;
  • Fortalecimento do sistema imunitário e prevenção de doenças como a endometriose.

Masturbação feminina e fontes de prazer

Quando falamos em prazer a masturbação temos necessariamente de olhar para o corpo da mulher e para os órgãos sexuais e zonas erógenas. Conhecer o corpo é essencial para a obtenção de prazer. Como tal, muitos pontos são muitas vezes indicados no que diz respeito ao prazer feminino, e vamos referir os principais.

O clitóris

Como indicado anteriormente, o clitóris é o principal órgão responsável pelo prazer feminino. A maioria das mulheres estimula o clitóris durante a masturbação, sendo esta a principal zona erógena na anatomia feminina, já que a sua função é exclusivamente a de proporcionar prazer.

A estimulação do clitóris é simples, uma vez que apenas requer massajar e tocar na zona, sendo que os movimentos dependerão das preferências de cada mulher. Algumas mulheres preferem toques consecutivos, outras com pausas, e por isso cada mulher deve identificar as suas preferências. Diminuir o ritmo na fase de excitação pode prolongar e aumentar o orgasmo.

Ao nível da pressão, toques leves geralmente são mais excitantes, mas na fase final ou perto do pico de prazer, um aumento da pressão pode ajudar a atingir o orgasmo. Sendo o clitóris uma zona extremamente sensível, geralmente é preferível o toque em pontos sensíveis ao redor do mesmo, sem tocar diretamente no clitóris por baixo da pele. Os movimentos circulares também parecem ser prazerosos, mas dependerão de mulher para mulher.

O ponto G

O ponto G é sem dúvida extremamente falado e famoso, tendo sido mencionado pela primeira vez em 1950. No entanto, não há ainda consenso sobre a existência e o papel do ponto G. Ainda assim, o que podemos assumir é que vale a pena também tentar descobrir o prazer através da penetração. Assim, o ponto G é geralmente considerado como uma saliência pequena e enrugada que se situa a cerca de cinco centímetros no interior da vagina, na parte frontal. Para o estimular a mulher pode, deitada de barriga para cima, introduzir o dedo médio com a palma da mão virada para o clitóris.

O cérebro

Muito para além de zonas físicas ou do corpo, o cérebro pode também ser considerado o principal órgão do prazer sexual, nomeadamente na masturbação feminina. Significa isto que independentemente de qualquer mapa que se possa traçar dos pontos erógenos femininos, será sempre uma suposição que dificilmente corresponderá à realidade de todas as mulheres.

O principal órgão sexual é aquele que gera os impulsos, os desejos e as fantasias sexuais: o cérebro. Assim, mais do que tocar em pontos específicos de uma determinada forma, na masturbação feminina é importante que a mulher conheça aquilo que a estimula, o que lhe provoca desejo e excitação, quais os pensamentos eróticos que lhe despoletam desejo e prazer.

Como potenciar o prazer da masturbação feminina?

Não existe um guia ou uma receita para a forma como a masturbação deve ser feita. Cada mulher é única e diferente, obtendo prazer de formas distintas. A masturbação passa pela exploração do próprio corpo e, como tal, é um ato individual e subjetivo. No entanto, algumas dicas ou estratégias podem ser essenciais para potenciar o prazer feminino e para permitirem uma masturbação feminina mais saudável e prazerosa.

1. Estar confortável

Vimos anteriormente que o principal órgão do prazer feminino é o cérebro. Assim, dificilmente a estimulação física de alguma zona do corpo potenciará o prazer se o nosso estado mental e emocional não estiver em sintonia. Por isso, o conforto é fundamental: estar num local onde tenha privacidade e onde se sinta confortável para se masturbar, assim como numa posição simples e cómoda, por exemplo deitada com as pernas ligeiramente afastadas e os pés apoiados nalguma superfície.

2. Perder o “medo” da vagina

Enquanto o pénis é um órgão externo e muito mais visível ao próprio, no caso das mulheres a vagina não é tão visível e a não ser que a olhemos no espelho dificilmente conseguimos observá-la com clareza. Há muitas vezes algum medo ou receio de olhar a própria vagina, algum pudor. Perder esse pudor ajuda a aceitar de forma mais livre o próprio corpo, o que pode também potenciar o prazer. Assim, olhar a vagina pode ajudar a derrubar tabus, a aceitar o corpo e procurar nele o prazer através da masturbação feminina.

3. Lubrificar

Embora a vagina produza naturalmente lubrificação, o nível de lubrificação pode variar de mulher para mulher. Para potenciar o prazer é importante que a mulher esteja bem lubrificada. Assim, na masturbação feminina pode ser importante lubrificar as mãos ou os dedos, com saliva ou com um lubrificante da sua preferência.

4. Explorar diferentes zonas erógenas

Na masturbação feminina é importante que a mulher explore o seu próprio corpo e conheça as zonas que lhe dão mais prazer. Muitas vezes acreditamos que a estimulação se deve limitar à zona genital, no entanto para muitas mulheres outras zonas do corpo podem ser altamente erógenas. Procure estimular e tocar no corpo como um todo, descobrindo em que pontos sente mais prazer. Na descoberta do próprio prazer é importante deixar o pudor de lado e entender que o corpo é seu, pode fazer dele o que quiser, e na obtenção de prazer durante a masturbação feminina não há mais ninguém a comandar.

Para potenciar o prazer tente não ir “direta ao assunto”, ou seja, explore zonas do corpo diversas e depois toque em redor da vagina, nos locais próximos, sem tocar nela diretamente. Após repetir algumas vezes o toque e sentir um aumento da excitação, comece então por tocar na vagina ao de leve e de forma progressiva.

5. Alternar e variar

Geralmente a alternância e variação de toque, zonas do corpo, movimentos e ritmo ajudam a potenciar o prazer. Assim, procure alternar os estímulos e a forma de dar prazer a si mesma. Se mantivermos sempre o mesmo movimento pode haver uma perda de sensibilidade no momento o que dificulta o orgasmo. Deste modo, procure diversificar e alterar o estímulo e a forma como se toca, mudando o toque, a zona que está a tocar, ou os movimentos, o ritmo ou a pressão.

6. Estímulos e fantasias

O desejo e o prazer são primeiramente desencadeados no cérebro. Ainda mais nas mulheres, cujo estímulo mental é mais importante do que no homem para a obtenção do prazer. Por isso, é importante que a mulher, na masturbação feminina, se sinta livre para fantasiar e conheça as suas principais fantasias e pensamentos eróticos. Pensar sobre uma experiência sexual particularmente excitante, sobre práticas sexuais que dão prazer… Também a pornografia pode ser um recurso, e não é apenas para os homens! As mulheres podem igualmente obter prazer através da visualização de estímulos sexuais (que podem ser vídeos, fotografias, contos eróticos…) e podem e devem explorá-los.

7. Ao chegar ao orgasmo

Quando perceber que está prestes a atingir o orgasmo – e só poderá obter esta perceção se apostar na exploração do seu próprio corpo – deve manter o movimento sem fazer grandes alterações, mas pode também tocar em zonas do corpo que percebeu que lhe geram mais prazer. Por exemplo, enquanto toca no clitóris pode tocar ao mesmo tempo, com a outra mão, no ponto G ou nos seios, conforme aquilo que percebeu que lhe proporciona mais prazer.

8. Considerar o uso de acessórios e brinquedos sexuais

Os vibradores são um recurso ótimo na masturbação feminina e podem ajudar, de diversas formas, a potenciar o prazer feminino. Além disso, atualmente há dos mais diversos tipos, para todos os gostos. Muitos permitem estimular simultaneamente o clitóris e o ponto G, e é possível encontrar com tamanhos, materiais e cores diferentes. Inclusivamente existem vibradores inteligentes cujos sensores detetam padrões dos movimentos vaginais, o que permite aprender muito sobre o próprio prazer e potenciá-lo.

O mundo dos brinquedos sexuais inclui outras possibilidades para além dos vibradores, tais como as bolas vaginais que permitem fortalecer o pavimento pélvico e ajudar a conseguir orgasmos melhores e mais prolongados.

Tal como em todos os outros aspetos, o importante é despir-se do pudor, abraçar a possibilidade e descobrir o que mais se adequa a si e às suas preferências. Investir e procurar diferentes estímulos e formas de obtenção de prazer é investir em si mesma, no seu prazer e no seu bem-estar. Conhecer o corpo e estar em sintonia com ele é fundamental para uma sexualidade saudável, mas também para uma boa autoestima e autoconfiança. Ao conhecer o seu corpo perceberá também as mudanças que nele ocorrem, poderá alterar as suas preferências e formas de obtenção de prazer, e tudo isto pode ser atendido através da exploração pessoal que a masturbação feminina permite.

9. Levar o que aprendeu para a relação sexual

Como vimos, a masturbação feminina é altamente benéfica para uma relação sexual com o/a parceiro/a mais saudável e prazerosa. Assim, após explorar e descobrir o seu corpo, não tenha medo de o utilizar, e de procurar obter também prazer na relação sexual com o outro. Guia o/a seu/sua parceiro/a, mostre o que gosta, de que forma gosta e fale também sobre isso. Masturbar-se em frente ao/à seu/sua parceiro/a pode ser algo muito benéfico, quer como estímulo de excitação em si mesmo, quer como forma de mostrar de que forma obtém prazer.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.