Orgasmo masculino: tipos, disfunções e mitos

A sexualidade é uma dimensão fundamental da vida de cada indivíduo e que em muito influi na qualidade de vida. O orgasmo, sendo o pico de prazer obtido na atividade sexual, pode ser um dos aspetos importantes para uma vida sexual satisfatória. No entanto, nem sempre aquilo que sabemos sobre o orgasmo é correto e muitos mitos e estereótipos podem minar a possibilidade de uma vivência sexual plena.

Neste artigo pretendemos focar-nos especificamente no orgasmo masculino, explorando as suas especificidades, compreendendo os problemas associados e como prevenir e intervir.

Orgasmo masculino, ereção e ejaculação

Por vezes pode existir confusão e sobreposição dos conceitos de orgasmo masculino, ereção e ejaculação, pelo que é importante distingui-los. A primeira diferença reside na forma como estes fenómenos são gerados. O orgasmo ocorre a nível do cérebro, uma vez que é uma sensação. A ejaculação, por sua vez, ocorre na uretra posterior, próstata e vesículas seminais, e é um reflexo medular. Isto é facilmente compreendido se pensarmos por exemplo que o homem paraplégico consegue ter orgasmo, mas não ejaculação, tal como ocorre em alguns homens operados à próstata.

O processo de ereção corresponde ao relaxamento das fibras musculares lisas dos corpos cavernosos, permitindo assim um maior fluxo sanguíneo que ocorre em simultâneo com a vasodilatação das artérias cavernosas. A pressão intracavernosa aumenta, o que promove a rigidez do pénis. As áreas cerebrais ligadas à ereção são o núcleo paraventricular, o hipocampo e os núcleos paragiganto celular. A nível dos neurotransmissores, têm um papel na ereção a dopamina e a acetilcolina. A ereção também depende significativamente de fatores psicológicos, uma vez que ela é iniciada por desejos e fantasias sexuais.

Desde modo, geralmente o processo começa com a ereção, ocorrendo depois o orgasmo masculino e a ejaculação de forma praticamente simultânea, embora sejam duas coisas distintas. É possível um homem ter ereção e não ejacular, bem com ejacular sem ereção e também ter um orgasmo sem ejaculação. Simplificando, o orgasmo masculino é uma sensação, enquanto que a ejaculação é um fenómeno físico e orgânico que consiste na libertação de esperma.

Assim, a ejaculação é um fenómeno localizado, no qual o esperma migra de um local para o outro. Por outro lado, o orgasmo engloba alguns fenómenos neurofisiológicos e corporais. A ejaculação depende dos músculos pubococcígeos, fazendo o esperma chegar até ao exterior da uretra. Há quem indique que estes músculos, se treinados, podem permitir um maior controlo ejaculatório, aumentando o tempo de ereção e por sua vez o tempo da sensação do orgasmo masculino.

Tipos de orgasmo masculino

Considerando a distinção que fizemos anteriormente entre ereção, ejaculação e orgasmo masculino, podemos identificar diferentes tipos de orgasmo masculino. Podemos ter um orgasmo ejaculatório, se ocorrer ejaculação, ou um orgasmo masculino não ejaculatório, se a ejaculação não acontece. De facto, o orgasmo ejaculatório é o mais comum ou pelo menos o mais conhecido, já que a ejaculação tem tendência a acontecer no ápice do prazer sexual, que coincide com o orgasmo masculino.

No entanto, também é possível ter um orgasmo não ejaculatório, isto é, o orgasmo masculino é possível sem ejacular, chamando-se a isto anejaclação ou orgasmo seco, que são duas situações distintas.

No caso da anejaculação, falamos em ejaculação controlada, ou seja, o homem não ejacula porque não quer, fazendo uso de determinadas técnicas, como por exemplo técnicas do sexo tântrico e de controlo dos músculos ejaculatórios, para conseguir atingir o orgasmo sem ejacular. Por exemplo, é possível bloquear a ejaculação através da pressão de um ponto entre o escroto e o ânus, o que provoca a contração dos músculos ejaculatórios sem que, no entanto, haja perda de ereção. Segundo alguns estudos estas técnicas, quando dominadas, permitem que também o homem atinja orgasmos múltiplos.

Por outro lado, o orgasmo masculino sem ejaculação pode ocorrer de forma indesejada, por duas razões distintas: a aspermia, ou não emissão de esperma, o a ejaculação retrógrada, em que o esperma está a ser mal direcionado no sistema ejaculatório.

A aspermia é um problema clínico, uma vez que diz respeito ao facto de não ser produzido esperma pelo que, como tal, este não é expelido e não há ejaculação. A aspermia pode ter causas congénitas ou ser consequência de alguma cirurgia ou mesmo da toma de determinados medicamentos. 

No caso da ejaculação retrógrada, o esperma é produzido, mas não é expelido, devido a alguma disfunção no sistema. Esta disfunção pode residir nos esfíncteres, ou seja, na bexiga. Geralmente as causas são cirurgias realizadas, neuropatias ou a toma de alguns medicamentos (psiquiátricos, para a próstata ou para a hipertensão).

Para além das diferenças que residem na existência ou não de ejaculação e que definem diferentes tipos de orgasmo, podemos ainda ter um outro tipo de orgasmo masculino, o do ponto G, que, nos homens, fica na próstata. Assim, é possível obter orgasmo masculino por estimulação da próstata, sendo que alguns homens descrevem este orgasmo como mais intenso. No entanto, nem todos os homens respondem da mesma forma aos estímulos ao nível da próstata.

Disfunções do orgasmo masculino

Existem algumas disfunções sexuais associadas ao orgasmo masculino. Estas disfunções podem ocorrer na fase da ereção ou da ejaculação.

1. Disfunção erétil masculina

Uma das disfunções mais conhecidas é a disfunção erétil masculina, também chamada de impotência, que consiste na incapacidade para iniciar ou manter uma ereção. Se não há ereção, geralmente não há orgasmo masculino. Claro que esta dificuldade ou incapacidade pode ocorrer de forma ocasional nos homens, pelo que para ser considerada uma disfunção deve acontecer pelo menos em 50% das tentativas durante a relação sexual.

As causas da disfunção erétil podem ser variadas, passando por questões orgânicas (por exemplo distúrbios hormonais, obstrução arterial ou doenças que afetem o cérebro, a medula ou a inervação periférica do pénis), questões relacionadas com a toma de determinados medicamentos e também fatores psicológicos, como o stress e a ansiedade. De facto, os problemas emocionais, como a ansiedade ou depressão, constituem um fator de risco para a disfunção erétil.

2. Transtorno do desejo sexual hipoativo

Para além da disfunção erétil, outras disfunções estão associadas a problemas no orgasmo masculino. Já referimos a ejaculação retrógrada, mas existem ainda outras. O transtorno do desejo sexual hipoativo consiste num baixo desejo sexual, numa líbido diminuída. Por sua vez, se o homem não apresenta desejo sexual, dificilmente será possível o orgasmo masculino. Existe também o transtorno de aversão sexual, na qual os indivíduos temem e evitam praticamente todo o contacto sexual.

3. Transtorno do orgasmo masculino / anorgasmia

O transtorno do orgasmo masculino diz respeito à demora ou ausência de orgasmo masculino durante a estimulação sexual. Este transtorno também pode ser denominado de anorgasmia e diz respeito ao orgasmo masculino ausente ou insuficiente.

A anorgasmia pode ser primária, se o homem nunca conseguiu ter um orgasmo durante o sexo, ou pode ser secundária, se o homem conseguiu atingir normalmente o orgasmo e de repente deixa de o conseguir. A anorgasmia é a disfunção sexual masculina menos frequente.

As causas tendem a ser sobretudo psicológicas, mas também existem outras causas, associadas por exemplo ao alcoolismo ou à toma de determinados medicamentos. Além disso, tem-se verificado uma associação entre a dificuldade em atingir o orgasmo masculino e o vício em pornografia. O consumo excessivo e dependente de pornografia pode levar a uma perda de excitação e consequentes dificuldades para o orgasmo masculino.

4. Ejaculação precoce

Um outro transtorno é a ejaculação precoce, que se refere ao facto de o homem ejacular à mínima estimulação sexual, antes do desejado por ele. Pode ser antes ou no próprio momento da penetração.

Quando estas disfunções sexuais ocorrem, existem diversas consequências para o homem, não só pela ausência do orgasmo masculino, mas também pela perda de autoestima e eventuais problemas no relacionamento conjugal. Gera-se insegurança face ao próprio desempenho sexual, o que por sua vez perpetuará a dificuldade no orgasmo masculino.

Como tal, é fundamental procurar ajuda de um sexólogo ou terapeuta sexual, sendo que a intervenção pode ser individual ou em casal, dependendo também do caso em particular e das causas da disfunção sexual, e pode passar pelo uso de medicação, tratamentos cirúrgicos e terapia.

Orgasmo masculino vs orgasmo feminino

Existem várias diferenças entre o orgasmo feminino e o orgasmo masculino. Uma delas tem a ver com o tempo no qual se consegue atingir o orgasmo. O orgasmo masculino tende a ser atingido com maior rapidez, por questões fisiológicas. O homem atinge mais facilmente o orgasmo por estimulação sensorial, enquanto a mulher depende mais de estímulos psicogénicos.

O orgasmo masculino tem uma duração menor que o feminino, ou seja, quando a mulher atinge o orgasmo este é normalmente mais prolongado do que no homem. Já após o orgasmo, também há diferenças no tempo necessário de recuperação.

A diferença reside essencialmente no facto de o homem ter um período refratário maior. Ou seja, precisa de mais tempo após o orgasmo para iniciar nova atividade sexual. Isto ocorre porque após o pico da ereção o sangue deixa de circular no interior do pénis, pelo que é necessário que este relaxe (ficando flácido) após a ejaculação para os tecidos recuperarem.

Claro que nem sempre o período refratário acontece da mesma forma, e também é possível o homem continuar a atividade sexual após o orgasmo. Isto dependerá de vários fatores. Homens com melhor preparação física conseguirão mais facilmente retomar o sexo após o orgasmo, pois reagem melhor à movimentação muscular, e homens com menor idade também terão um período refratário menor.

Assim, não só as mulheres podem ter vários orgasmos durante o sexo, isto também pode acontecer para o orgasmo masculino. A capacidade de ter vários orgasmos numa mesma relação sexual depende de vários fatores, tais como a idade, fatores fisiológicos, o grau de excitação e a intensidade do orgasmo, assim como o grau de controlo sobre a ejaculação e os músculos da zona pubiana.

Uma vez que o homem tende a atingir o orgasmo mais rapidamente e este é mais dependente da estimulação sensorial, muitas vezes há necessidade de adquirir algum grau de controlo para retardar ligeiramente o orgasmo masculino. Para isso, o mais importante é diminuir a ansiedade muitas vezes associada ao ato sexual e ao dar prazer, bem como diminuir fontes de stress.

O processo de prazer e o orgasmo masculino dependem de fatores cerebrais, nomeadamente a ativação de determinadas áreas cerebrais e neurónios. Assim, o controlo dos estímulos físicos e visuais pode auxiliar no controlo do orgasmo masculino. Para o controlo do estímulo físico o homem pode por exemplo alternar as posições sexuais, suspender ou abrandar o movimento.

Mitos associados ao orgasmo masculino

Existem por vezes alguns mitos acerca do orgasmo masculino, e é importante desconstruí-los, pois, maior conhecimento permite também maior capacidade de atingir o prazer sexual.

Um dos mitos é o de que o homem não pode fingir o orgasmo. Este mito está claramente associado ao facto de acharmos que orgasmo e ejaculação são sinónimos, algo que já vimos não ser verdade. Assim, por um lado o homem pode ejacular sem ter orgasmo, e por outro pode ter orgasmo sem ejacular.

Por outro lado, mesmo com ejaculação, esta pode não ser visível à/ao parceira/o, pelo que na realidade fingir o orgasmo masculino é como no feminino: fingir sensações de prazer intensas. Isto pode ser feito quer porque a/o parceira/o não vão necessariamente conferir se a ejaculação existiu, ou porque o homem finge que consegue sair do período refratário mais rapidamente, por exemplo, iniciando de imediato outra atividade sexual.

Como vimos anteriormente também, um outro mito é o de que os homens não conseguem atingir orgasmos múltiplos. De facto, tal é possível, embora possa requerer um maior esforço e treino para ser conseguido. Assim, embora no orgasmo masculino isto seja mais raro do que no feminino, não é impossível.

Há também frequentemente o mito de que os homens, ao contrário das mulheres, não precisam de preliminares. No entanto, como vimos, também no orgasmo masculino os fatores psicológicos têm um papel importante, embora a estimulação sensorial seja mais relevante que nas mulheres. Deste modo, os preliminares também são fundamentais no orgasmo masculino, podendo potenciar o prazer.

Como potenciar o orgasmo masculino?

Sumarizando o que falamos até ao momento, conseguimos compreender que o orgasmo masculino não é tão simples como por vezes queremos fazer parecer, e que vários fatores intervêm no mesmo. O orgasmo masculino é importante e proporciona diferentes benefícios, quer mais diretos, desde logo o prazer em si e a libertação da tensão, como indiretos, como a melhoria da autoestima e do bem-estar.

Além disso, durante o orgasmo masculino são libertadas endorfinas, que funcionam como analgésicos naturais, bem como oxitocina, que promove uma sensação de maior proximidade e intimidade com a/o companheira/o. De facto, embora por vezes os mitos indiquem o contrário, alguns estudos revelam que os homens que têm relações sexuais num relacionamento amoroso têm mais prazer do que os que têm sexo casual ou sem compromisso.  

Algumas estratégias podem ser importantes para potenciar o orgasmo masculino e permitir que o homem tenha uma vida sexual mais satisfatória e prazerosa:

  • Fazer sexo com alguma regularidade, nomeadamente três a cinco vezes por semana, pode ajudar a prevenir a disfunção erétil;
  • Sexo matinal, no homem, pode ajudar a potenciar o prazer e o orgasmo masculino, uma vez que após o sono a testosterona tende a atingir um pico;
  • Garantir uma boa temperatura corporal, nomeadamente das extremidades (pés e mãos) pode estimular a excitação e consequentemente facilitar o orgasmo, pelo que o frio pode ser inimigo do orgasmo masculino;
  • Determinadas posições podem ajudar a manter a ereção bem como a controlar o orgasmo masculino, pelo que deve experimentar diferentes posições para descobrir as diferentes sensações em cada uma;
  • Para potenciar o orgasmo masculino podem ser estimulados três pontos principais do prazer masculino: o frénulo (pele que fica na porção inferior da glande), o períneo (região entre o escroto e o ânus) e a próstata;
  • Exercícios de fortalecimento dos músculos puboccocígeos podem ajudar o homem a conseguir ter orgasmos múltiplos. Para encontrar estes músculos, coloque um ou dois dedos atrás dos testículos e faça de conta que está a urinar; interrompa e segure o fluxo, ao mesmo tempo que mantém relaxados os músculos do estômago e das coxas. Estes exercícios passam pelo controlo da respiração e fortalecimento dos músculos da região pubiana. Estes exercícios ajudam a ter ereções mais firmes, a intensificar o orgasmo masculino e a conseguir separar o orgasmo da ejaculação, o que por sua vez diminui o período refratário e permite que o homem inicie nova atividade sexual após o orgasmo. Algumas dicas para a realização destes exercícios e fortalecimento da musculatura:
    • Ao urinar treinar o interromper o fluxo de urina;
    • Fazer movimentos de subir e descer com o pénis ereto;
    • Contrair os músculos pélvicos, incluindo os do ânus – contrair durante cerca de 20 segundos e depois relaxar durante 1 minuto, fazendo várias séries;
  • Treinar o controlo da ejaculação primeiro na masturbação e depois na relação sexual, interrompendo e parando quando estiver perto do orgasmo e depois continuando;
  • Ter uma alimentação saudável também é importante para o orgasmo masculino. Os legumes, por exemplo, ajudam a potenciar a pressão sanguínea para os órgãos sexuais; os ovos ajudam a aumentar a líbido (desejo sexual) e a aveia ou grãos integrais ajudam a aumentar a testosterona;
  • O exercício físico permite aumentar os níveis de testosterona, o que potencia o desejo sexual e consequentemente o orgasmo masculino, potenciando também orgasmos mais intensos;
  • Pressionar os testículos levemente antes de ejacular pode tornar o orgasmo mais excitante;
  • Controlar a respiração perto da ejaculação e do orgasmo masculino pode ajudar também a gerar um orgasmo mais prazeroso.

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.