A transição para a reforma: preparar uma nova fase da vida

A reforma constitui a transição entre a atividade e a inatividade laboral. Como tal, trata-se de um acontecimento de vida marcante, que nos obriga a utilizar as capacidades de adaptação, exigindo um esforço de reorganização pessoal e social. Esta transição está, frequentemente, associada ao envelhecimento, embora essa realidade se vá desvanecendo com o aumento da esperança média de vida e tantas pessoas reformadas e que ainda preservam a mesma funcionalidade e vitalidade.

Por isso, pensar a reforma é mais do que olhar para a dimensão económica ou para os direitos sociais: é preciso olhar para a dimensão psicológica e entender de que forma, enquanto indivíduos, podemos transitar para a reforma de uma forma saudável e adaptativa. Para ajudar neste processo, segue-se um guia passo a passo para auxiliar nesta transição.

Questões frequentes sobre a reforma

Como em tudo, informação é poder, e constitui o primeiro passo para uma adaptação saudável. Para nos prepararmos para a reforma precisamos, primeiro, de possuir um conjunto de informações importantes:

Qual a idade da reforma em Portugal?

Uma vez que a esperança média de vida tem aumentado, e se tem verificado o envelhecimento populacional, ou seja, há cada vez mais idosos, Portugal tem aumentado a idade da reforma. Isto para possibilitar o acesso à reforma a todos os portugueses, garantindo o fator “sustentabilidade”. Por isso, a idade da reforma acaba por aumentar de ano para ano: se em 2014 estava fixada nos 65 anos, atualmente está fixada em 66 anos e 5 meses. É possível ainda calcular a idade da reforma tendo em conta a sua idade e situação de trabalho, em alguns sites na internet;

A que entidade me devo dirigir para pedir a reforma?

Quando se quiser reformar, terá de manifestar essa vontade, uma vez que não existe nenhum mecanismo automático que o obrigue a reformar-se assim que atinge a idade legal da reforma.

Para solicitar a reforma, tem de se dirigir ao centro distrital da segurança social da sua área de residência, ou se preferir, poderá fazê-lo na comodidade da sua casa, através da Segurança Social Direta. O pedido pode ser feito 3 meses antes ou menos. Depois de apreciado e analisado o seu processo, irá ser informado de qual é o valor da pensão e quando é que começa a receber a mesma (isto se quiser efetivamente reformar-se);

Qual número mínimo de anos de descontos?

De acordo com a legislação são necessários, pelo menos, 15 anos de descontos para a Segurança Social. Se não tiver os descontos mínimos e atingir a idade da reforma, pode pedir a pensão social de velhice.

O que é a reforma antecipada e o que é necessário para a solicitar?

A reforma antecipada, tal como o nome indica, consiste em reformar-se antes da idade legal fixada para a reforma. Para isso, tem de cumprir dois critérios:

  • Ter pelo menos 40 anos de descontos;
  • Ter pelo menos 60 anos de idade. Contudo, irá obter uma penalização de 0,5% por cada mês de antecipação da idade oficial de acesso à reforma. No entanto, há exceções: profissões consideradas de natureza penosa ou desgastante, como por exemplo mineiros, trabalhadores marítimos, profissionais de pesca, controladores de tráfego aéreo, bailarinos, trabalhadores portuários e bordadeiras da Madeira. Estes podem pedir a reforma antecipada desde que tenham desconto 15 anos.

Qual o valor da reforma e como é definido? – o valor da reforma é definido com base na remuneração de referência, ou seja, o total de remunerações/salários e os anos de descontos. Pode fazer a simulação do valor que irá auferir através do site da Segurança Social.

Desconstruir mitos

Frequentemente assumimos como verdade informações pouco credíveis a que nos habituamos a acreditar. É importante, para uma boa preparação, estar efetivamente bem informado e desconstruir alguns mitos frequentes.

Não preciso de poupar para a reforma

Nem sempre o valor da pensão é suficiente, dependendo também dos objetivos, ambições e estilo de vida de cada um, bem como da forma como pretende viver os seus anos de reforma. Como dita a sabedoria popular, é sempre preferível prevenir do que remediar, pensando que atualmente podemos viver na reforma cerca de 20 a 40 anos, ou seja, tantos como aqueles em que trabalhos! Por isso, realizar uma poupança antecipada a pensar nos anos de reforma pode ser fundamental.

A reforma é para quem já não pode trabalhar

Cada vez vivemos mais anos e, felizmente, vivemos esses anos de forma saudável e funcional. Por isso, é provável que uma grande parte da população que pede a reforma aos 66 anos de idade se encontre de perfeita saúde. Reformar-se apenas significa deixar de exercer uma atividade laboral, o que pode ser uma escolha e não uma inevitabilidade por questões de saúde.

A reforma é um período solitário e para descanso

A vivência da reforma é tão pessoal e subjetiva como a vivência do trabalho e da carreira. Se algumas pessoas podem preferir repousar, para outras a reforma pode constituir um período de viragem, no qual finalmente podem investir em algo que gostam, e até ser mais ativas do que durante os anos de atividade laboral. Grandma Moses começou a pintar aos 78 anos e continuou a pintar até aos 101 anos de idade.

Estar reformado significa já não ser produtivo, embora a reforma signifique o abandono do mercado de trabalho remunerado, não significa deixar de ser produtivo. As inúmeras horas em atividades informais como ajudar os filhos ou os netos, bem como outras atividades, traz benefícios para a sociedade.

Compreender as mudanças que ocorrem na idade da reforma

Transitar para a reforma constitui uma mudança significativa na identidade, uma vez que aquilo que fazemos em termos profissionais tem grande impacto em quem somos. Frequentemente reconhecemo-nos ou apresentamo-nos dizendo “eu sou professor”, “eu sou carpinteiro”, etc. Definimo-nos, com frequência, com base naquilo que fazemos e a nossa profissão é uma parte importante da nossa identidade.

Consequentemente, transitar para a reforma implicará passarmos a questionar quem somos para além daquilo que fazemos. Além disso, deixar de trabalhar não significa abandonar abruptamente a nossa identidade profissional. Ela pode continuar a estar presente de uma outra forma. Por exemplo, se eu era advogado, posso continuar a fazer algum tipo de consultoria ou a proporcionar aconselhamento legal quando for pertinente. Sobretudo, é fundamental conhecer a sua história e pensar no modo como lhe quer dar continuidade. Aproveitar esta fase da vida como uma fase de questionamento e redefinição da sua identidade: quem sou, para além daquilo que faço? O que é que me preenche e me faz feliz? Invista nesses aspetos e reinvente-se!

Cuidar da saúde e promover o bem-estar

Frequentemente associamos alterações negativas na saúde à reforma, porque estamos a envelhecer. No entanto, podem também existir vários aspetos positivos. Principalmente para quem tem uma atividade profissional desgastante, abandonar essa atividade irá traduzir-se uma redução nos níveis de stress, e o stress é atualmente uma das principais causas de problemas de saúde. Além disso, estar reformado significa mais tempo para dedicar ao cuidado da nossa saúde:

  • Alimentarmo-nos melhor, uma vez que com a azáfama do quotidiano profissional muitas vezes não nos alimentamos da melhor forma (comer rápido, comida pré-confecionada, comer poucas vezes e muita quantidade de cada vez);
  • Praticar exercício físico: quer seja ginásio, piscina, algum desporto de grupo ou mesmo simples caminhadas. Além disso, mesmo para quem tem alguma limitação em termos de saúde, é possível, através de um profissional da área, praticar uma atividade física adaptada;
  • Consultarmos profissionais de saúde: muitas vezes quando trabalhamos e sentimos que o tempo não chega, adiamos a ida ao dentista, ao fisioterapeuta… Só vamos ao médico, basicamente, quando a situação é mais incapacitante. No período da reforma podemos despender mais tempo nestes cuidados.

Investir nas relações com os outros

Principalmente para quem a prática laboral era central em toda a sua vida, o deixar de trabalhar pode também muitas vezes significar um afastamento nalgumas relações significativas, como por exemplo com os colegas de trabalho. No entanto, não tem de existir um corte abrupto com estas relações, mas poderá, sim, haver uma transformação:

  • Investir nas relações com colegas que são ou têm potencial para serem relações pessoais e não meramente profissionais;
  • Investir nas restantes relações fora do contexto profissional;
  • Criar novas relações.

Reestruturar e reinvestir o tempo

A reforma pode trazer consigo o medo de que o tempo não passe ou se torne vazio, mas não tem de ser assim. O tempo passa, mas nós somos o piloto, podemos conduzir o tempo e reestruturar as nossas rotinas de forma significativa.

É fundamental, nesta fase, encontrar atividades que concedam estrutura e propósito ao seu quotidiano e, em última instância, à sua vida. Deve evitar sentir que está a fazer algo apenas para passar o tempo, e em vez disso envolver-se em atividades, tarefas e objetivos que, de alguma forma, o preencham.

Para conseguir encontrar esta estrutura é importante implementar uma rotina que funcione bem para si. Não trabalhar não significa dormir a manhã toda ou toda a tarde, sem qualquer tipo de horários ou estrutura. Deve guardar esta pequena ‘libertinagem’, por exemplo, para os períodos de férias.

Por isso, em síntese, defina uma rotina que faça sentido para si e encontre atividades e tarefas que o preencham e lhe concedam um sentido de propósito, seja cuidar dos netos, investir mais tempo num hobbie ou aproveitar para desenvolver os seus conhecimentos e aprender coisas que sempre quis aprender.

Nunca é tarde para aprender

O período da reforma pode ser um excelente período para aprender, já que a nossa capacidade de aprendizagem se estende ao longo de toda a vida. É possível, então:

  • Aprender algo que sempre quis aprender mas nunca teve oportunidade, por exemplo, um novo idioma;
  • Aprofundar conhecimentos relativos a atividades ou temas de que gosta, por exemplo, fazer um curso de cozinha ou um workshop de jardinagem;
  • Frequentar oficinas criativas: escrita criativa, arte-terapia, artes plásticas, etc.
  • Terminar um curso superior, concretizando objetivos que havia traçado no passado.

Estabelecer um plano de ação para a transição

O mais importante é definir um plano de ação, passo a passo, que o ajude a transitar da melhor forma para uma nova fase da sua vida, a reforma.

Preparar a reforma

Em primeiro lugar deve “mobilar” a sua reforma. Ou seja, tal como mobilamos e preparamos uma casa para ir para lá viver, também o facto de prepararmos a nossa reforma torna depois a transição muito mais fácil e saudável. Vários estudos demonstraram que o principal fator que levava a dificuldades de adaptação à reforma era a falta de preparação. Esta preparação pode passar por:

  • Poupar: pode fazer um Plano Poupança Reforma (PPR) ou Certificados de Reforma, em que é feito um desconto adicional no salário que se junta depois ao valor da pensão da reforma. Pode também investir num seguro de saúde. Deve assegurar-se que não deixa pagamentos pendentes, como dívidas, hipoteca, educação dos filhos, etc. É importante rever o seu estilo de vida e reformular o orçamento familiar.
  • Pode falar com amigos, colegas, familiares, instituições ou entidades e até com a própria entidade empregadora. Se necessário, recorrer a apoios e obter ajuda para o processo de transição para a reforma.
  • A reforma prepara-se ao longo da vida, por isso é importante que: vá descobrindo e delineando os seus gostos, objetivos e projetos; resolva de forma saudável as transições de vida importantes (independência financeira, casamento, paternidade, lutos e perdas) não deixando nada “desarrumado”; estabelecer metas e planos ao longo da vida, o que lhe vai proporcionar uma melhor noção de aquilo que ainda tem para cumprir quando transitar para a reforma.

Investir no autoconhecimento

Estar reformado não significa que tem de cumprir os clichés ou estereótipos associados a este período de vida: não tem de fazer hidroginástica ou mudar-se para uma casa ao pé do mar. Tal como a escolha de uma carreira, a transição para a reforma faz parte do nosso projeto vocacional e deve refletir também quem somos e o que queremos. Por isso, à semelhança do que fazemos quando escolhemos uma carreira, também nesta fase é importante fazer exercícios de introspeção e reflexão pessoal: quais são as minhas competências? O que me faz realmente feliz? O que gosto de fazer? Como gostava de contribuir para a sociedade nesta nova fase da vida? Que objetivos tenho ainda por concretizar? Que aspetos gostava ainda de desenvolver e aprimorar?

Experimentar

Depois de realizar um processo investido de autoconhecimento, é muito importante, a partir daí, experimentar, envolver-se em diferentes atividades ou tarefas, pois só a experiência lhe poderá dizer o que de facto o preenche e faz sentido para si. Tem a oportunidade, nesta fase, de ser criativo e empreendedor.

Manter-se ativo e informado

As políticas sociais e as leis estão em constante mudança. Por isso, é muito importante quer na fase de preparação para a reforma quer já na reforma, nos mantermos informados sobre apoios, valor das pensões e alterações que possam haver a esse nível, pois quanto mais informados estivermos melhor nos podemos preparar.

Além disso, manter-se ativo é o principal fator que contribui, no envelhecimento, para um melhor estado de saúde e uma melhor qualidade de vida. Mantenha o corpo mas também a mente o mais ativas possível.

Definir metas, objetivos e estratégias

Após refletir sobre si próprio e de experimentar, pode definir um plano e traçar objetivos a curto e médio prazo. Não é por estar reformado que não deve planear o futuro. Pode estruturar objetivos de natureza diversa, quer sejam vocacionais, familiares, etc. Entre estes objetivos pode estar a melhoria da forma física (por exemplo, conseguir correr 10km), o investimento na família (organizar um jantar de família uma vez por semana), e até mesmo a rentabilidade económica (investir em ações, iniciar um negócio a partir de casa, etc).

E o que está a ser feito e deve ser feito pelo Governo, pela sociedade e pelas empresas?

Uma adequada transição para a reforma, obviamente, não é tarefa incumbida apenas a cada indivíduo, mas também ao Governo e às empresas. É necessária a existência de estratégias concertadas que contribuam para uma adequada transição para a reforma e para a vivência deste período de vida com qualidade de vida.

Portugal definiu uma Estratégia Nacional para o Envelhecimento Ativo e Saudável 2017-2025 onde se incluem medidas importantes no que diz respeito à reforma:

  • Apostar no Desenvolvimento de Universidades Sénior e criar o programa Erasmus Sénior;
  • Implementar, nas empresas, uma transição gradual para a reforma. Isto implica que o trabalhador não passa de trabalhar 8 horas por dia para não trabalhar nenhuma. Vai transitando gradualmente, delegando as suas responsabilidades e tarefas, diminuindo as responsabilidades e horário de forma progressiva;
  • Divulgar e incentivar a prática de mecenato no âmbito da responsabilidade social empresarial dirigidas à preparação para a reforma e à promoção de relações intergeracionais;
  • Promover atividades sociais, culturais, desportivas, de turismo e termalismo dirigidas às pessoas idosas, bem como promover espaços de convívio e de atividades que mobilizem a participação;
  • Promover o desenvolvimento de programas e espaços intergeracionais. Por exemplo, o programa Aconchego no Porto, o Projeto SIforAGE em Lisboa, ou o Projeto Realidades em Coimbra;
  • Promover ações intergeracionais que visem o apoio à atividade escolar no âmbito de partilha de experiências de vida, potenciando o capital de conhecimento e de experiência das pessoas idosas na formação das gerações mais jovens;
  • Promover o voluntariado e associativismo sénior
  • Incentivar a aprendizagem e utilização de tecnologias de informação e comunicação por parte das pessoas idosas (e-inclusão).

Aproveite a sua reforma da melhor forma, e lembre-se: as pessoas não param porque envelhecem, elas envelhecem porque param!

Diana Pereira

Amante de histórias, gosta de as ouvir e de as contar. Tornou-se Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Universidade do Porto, mas trouxe sempre consigo a escrita no percurso. Preocupada com histórias com finais menos felizes, tirou pós-graduação em Intervenção em Crise, Emergência e Catástrofe. Tornou-se também Formadora certificada, e trabalha como Psicóloga Clínica, com o objetivo de ajudar a construir histórias felizes, promovendo a saúde mental. Alimenta-se de projetos, objetivos e metas. No fundo, sonhos com um plano.

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